Mineradora
White Solder vira ré na Justiça por garimpo ilegal na TI Yanomami
UMA
MINERADORA com certificação “verde” da Sony e da Panasonic virou ré na Justiça
Federal por suspeita de operar um esquema de garimpo ilegal de cassiterita na
Terra Indígena Yanomami, em Roraima. O esquema teria movimentado R$ 166
milhões, segundo o MPF (Ministério Público Federal), autor da denúncia contra a
empresa White Solder.
A
cassiterita é a matéria-prima do estanho, metal considerado estratégico para a
indústria bélica e da tecnologia por funcionar como uma espécie de “cola” na
soldagem de componentes eletrônicos.
A
mineradora e seu sócio-administrador, Alessandro Saccoman Torrente, são
acusados de financiar e operar um esquema milionário de garimpo ilegal. Segundo
denúncia do MPF, a empresa teria pago R$ 166 milhões a uma cooperativa de
fachada para “esquentar” ouro e mais de 525 toneladas de cassiterita, entre
2021 e 2022. O “esquentamento” é uma operação para mascarar a origem ilegal de
um minério para ser comercializado com aparência legal.
A
denúncia foi aceita pela juíza Mirna Brenda Magalhães Salmázio, da 4ª Vara
Federal Criminal de Boa Vista. Ao todo quatro empresas e seis pessoas se
tornaram réus por envolvimento no esquema, incluindo a White Solder e Torrente.
A
Repórter Brasil procurou a mineradora e seu sócio, e também fez contato com a
Sony e a Panasonic. Até a publicação desta matéria, no entanto, não houve
resposta.
O Grupo
White Solder se apresenta como um dos maiores produtores mundiais de estanho e
ocupa o segundo lugar em arrecadação de royalties de cassiterita na Amazônia
Legal, segundo a ANM (Agência Nacional de Mineração). Em seu site, a empresa
anuncia certificações das clientes Sony e Panasonic. A Sony exige controle de
substâncias nocivas à saúde, enquanto a Panasonic diz priorizar fornecedores
que reduzam impactos e evitem minerais ligados à destruição florestal.
Em
2023, a empresa foi alvo da operação Forja de Hefesto, realizada pela PF
(Polícia Federal), por suspeita de comprar minério extraído ilegalmente do
território Yanomami.
“A
Forja de Hefesto é a maior operação que já foi feita com relação ao combate à
mineração ilegal de cassiterita na Amazônia. Ela identificou uma cadeia
criminosa complexa”, afirma André Luiz Porreca, procurador do MPF responsável
pela denúncia.
Segundo
a denúncia, o garimpo ilegal avançou de “forma sistêmica” e “em arranjo
criminoso” sobre a terra indígena, em uma região conhecida como Pupunha, na
bacia do rio Mucajaí. A atividade teria começado em 2018 e se intensificado
entre 2020 e 2022.
“O
garimpo é uma atividade industrial muito poderosa, uma estrutura organizada e
milionária que destrói a vida, a população, os rios e a terra”, diz Dário
Kopenawa, presidente da Associação Hutukara Yanomami, que monitora a região. “O
ouro e a cassiterita saem da Terra Indígena e eles [garimpeiros] vendem como se
fosse limpo”, alerta a liderança.
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Esquema teria núcleo econômico, logístico e extrativo, diz denúncia
Para o
MPF, os elementos indicam de “maneira inequívoca e convergente, a existência de
uma organização criminosa estruturalmente consolidada”. O esquema incluiria o uso de uma aeronave e
maquinário para a extração dos minérios, que seriam beneficiados na sede da
mineradora em Rondônia.
Alessandro
Torrente, presidente da White Solder na época da operação da PF, foi denunciado
como articulador do núcleo comercial e financeiro do esquema.
Segundo
a denúncia, cabia a ele financiar a estrutura, ceder maquinário e contratar a
logística de voos clandestinos. Atualmente, o empresário figura como diretor no
quadro societário da companhia.
De
Roraima, a cassiterita era enviada para a unidade da White Solder em Ariquemes
(RO), fundida e transformada em lingotes de estanho. Dali, os produtos eram
comercializados no mercado nacional e internacional.
De
acordo com a denúncia, o dirigente da mineradora teria recebido R$ 2,6 milhões
em “spread” – termo usado pela organização para designar os lucros com o
suposto esquema.
“O que
a operação Forja de Hefesto mostrou é como a cassiterita extraída de locais não
autorizados pode ser inserida com facilidade no mercado regular, inclusive
passando pelo processo de beneficiamento, transformada em estanho”, explica
Porreca, procurador do MPF.
A
Procuradoria identificou outros dois núcleos: extrativo, com pessoas que geriam
a lavra dentro do território, e logístico, que seria operado pelo empresário
Rodrigo Martins de Mello, conhecido como Rodrigo Cataratas.
Segundo
o MPF, ele teria comandado o transporte aéreo clandestino por meio das empresas
Cataratas Poços Artesianos e Tarp Táxi Aéreo. Ainda de acordo com a denúncia,
ele teria recebido pelo menos R$ 19 milhões da conta da cooperativa que
funcionava como fachada.
Cataratas
foi candidato a deputado federal em 2022 pelo PL e chegou a abrir uma
mineradora de ouro na Guiana, após a intensificação das operações de combate ao
garimpo no Brasil.
Em
janeiro deste ano, ele foi condenado à prisão por liderar um grupo criminoso de
garimpo ilegal na TI Yanomami, segundo o portal de notícias G1.
A
unidade localizada em Boa Vista (RR) da Coopertin (Cooperativa de Produtores de
Estanho do Brasil) é acusada pelo MPF de funcionar como uma empresa de fachada
para conferir aparência legal à cassiterita extraída da TI Yanomami.
Segundo
a denúncia, a filial não tinha cooperados atuantes, mas registrava o minério
como produção própria. Depois disso, emitia notas fiscais de venda à White
Solder e vinculava as cargas a títulos minerários do município de Iracema, em
Roraima. A Polícia Federal afirma, no entanto, que as áreas usadas na
documentação não eram efetivamente exploradas.
O MPF
também acusa a Coopertin de lavagem dos valores obtidos com a comercialização
do minério. A denúncia cita a compra de um imóvel para instalar a sede da
cooperativa em Boa Vista, por R$ 2,2 milhões, em agosto de 2023. O vendedor
havia comprado o mesmo imóvel por R$ 60 mil, cinco meses antes.
A
Repórter Brasil procurou o empresário Rodrigo de Mello, as empresas Cataratas
Poços Artesiano, Tarp Táxi Aéreo e a cooperativa Coopertin por e-mail. Não
houve resposta até a publicação.
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Garimpo de cassiterita e ouro avançam sobre território
Além da
cassiterita, o grupo também explorava ouro. Em junho de 2021, fotografias
encontradas no celular do sócio administrador da White Solder, Alessandro
Saccoman Torrente, mostram duas barras de ouro de aproximadamente 1 kg,
avaliadas em R$600 mil.
As
imagens teriam sido feitas em Boa Vista, de acordo com os metadados das fotos
obtidas pela PF. Dois dias depois, as mesmas barras foram fotografadas em
Ariquemes, já etiquetadas com peso e teor de pureza, aponta a denúncia.
Registros
no celular do gerente do garimpo revelariam a “existência de produção aurífera
integrada à atividade criminosa principal”. Segundo a denúncia, em uma mensagem
de maio de 2021, interceptada pela investigação, um integrante da organização
teria informado outra pessoa da operação de uma produção semanal de 192,2
gramas de ouro.
Registros
no celular do gerente do garimpo revelariam a “existência de produção aurífera
integrada à atividade criminosa principal”. Segundo a denúncia, em uma mensagem
de maio de 2021, interceptada pela investigação, um integrante da organização
teria informado outra pessoa da operação de uma produção semanal de 192,2
gramas de ouro.
• ES: Quilombolas terão R$ 100,9 milhões
para apoio a famílias atingidas pelo crime da Samarco
A
reparação das comunidades quilombolas atingidas pelo rompimento da barragem de
Fundão, em Mariana (MG), avança com a aprovação de R$ 100,9 milhões para
projetos de apoio às famílias. A Resolução CRD nº 34, publicada nesta
terça-feira (25), aprovou recursos destinados à Verba de Apoio Familiar (VAF)
para as comunidades de Degredo, em Linhares, Sapê do Norte, território que
abrange São Mateus e Conceição da Barra, também no norte do Estado, e Santa
Efigênia, em Mariana, Minas Gerais. A medida é resultado do processo de
consulta realizado nos territórios no âmbito do Novo Acordo do Rio Doce.
Do
total de R$ 100.955.488,47, Sapê do Norte receberá R$ 92.735.715,87, enquanto
Degredo terá R$ 6.375.683,92 e Santa Efigênia, R$ 1.844.088,68. Os três
projetos foram aprovados pelo Comitê do Rio Doce e estão vinculados ao Anexo 3
do acordo, que reúne medidas de reparação destinadas aos povos indígenas,
comunidades quilombolas e povos e comunidades tradicionais atingidos pelo
crime.
Para as
lideranças quilombolas, a resolução representa a continuidade de um processo
que envolveu diretamente as comunidades. O advogado Jales Luciano, da Comissão
Remanescente Quilombola de São Mateus e Conceição da Barra, ressalta que a
medida decorre da consulta realizada no território. “Ela é exclusivamente Verba
de Apoio Familiar. É uma consequência do processo de consulta que houve no
território quilombola”, afirma.
Segundo
Jales, o processo de consulta ocorreu nos meses de abril e maio deste ano. As
comunidades do território foram visitadas e participaram de oficinas e
assembleias que discutiram os termos do Acordo de Repactuação e as formas de
execução das medidas previstas. “Todas as comunidades foram visitadas. Foi
feita oficina com todas as comunidades e finalizou em algumas assembleias. Toda
a comunidade foi informada e teve participação nessas decisões”, relata o
advogado.
O
processo de participação envolveu as 33 comunidades que integram Sapê do Norte,
nos municípios de São Mateus e Conceição da Barra. A documentação relacionada à
implementação do Anexo 3 registra a realização de reuniões e encontros no
território para apresentar os termos da repactuação, os valores envolvidos, o
modelo de governança e as possibilidades de execução da reparação.
A
consulta às comunidades é uma das bases previstas para a implementação das
medidas de reparação destinadas aos povos e comunidades tradicionais. O
processo está relacionado ao princípio da consulta livre, prévia e informada
previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
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Transição nos pagamentos
A
aprovação da resolução também é necessária para garantir a continuidade do
apoio financeiro às comunidades após as mudanças provocadas pelo Novo Acordo do
Rio Doce, explica Jales. Até março deste ano, segundo ele, os pagamentos eram
realizados pelas empresas responsáveis pelo rompimento da barragem. Com a nova
estrutura de reparação, houve uma transição na forma como os recursos passaram
a ser organizados. “Essa resolução, se não houvesse ela, os comunitários agora
não receberiam auxílio financeiro”, destaca.
Os R$
100,9 milhões aprovados agora se referem à execução da Verba de Apoio Familiar
e não correspondem a um pagamento individual dividido igualmente entre todos os
moradores. Os recursos fazem parte de uma estrutura mais ampla de reparação,
com diferentes modalidades, critérios e procedimentos para atender às
comunidades atingidas.
O Anexo
3 concentra medidas específicas para povos indígenas, quilombolas e comunidades
tradicionais. Além da VAF, a estrutura prevê ações e medidas estruturantes e
outras modalidades de apoio. No caso de Sapê do Norte, os recursos previstos
para o território estão distribuídos entre diferentes instrumentos da reparação
coletiva. É justamente em relação a outra dessas etapas que as lideranças
quilombolas mantêm uma cobrança ao governo federal.
Apesar
do avanço representado pela resolução, cerca de 3 mil famílias quilombolas de
Sapê do Norte ainda não tiveram acesso a nenhum recurso da reparação, segundo a
Comissão Remanescente Quilombola de São Mateus e Conceição da Barra. O
presidente da Comissão, Isaías Rodrigues dos Santos, afirma que essas famílias
ficaram de fora dos pagamentos realizados anteriormente e aguardam agora a
liberação de recursos para que possam receber uma parcela da reparação. “São
quase 3 mil famílias que ainda não acessaram recurso nenhum. Não tiveram
direito nenhum garantido ainda”, afirma.
Segundo
as lideranças, parte dessas famílias não estava incluída nas listas utilizadas
para os pagamentos anteriores. Para acessar determinados auxílios, era
necessário constar em uma relação estabelecida anteriormente. Algumas pessoas
não cumpriram os prazos, passaram a integrar o processo posteriormente ou
apresentaram seus nomes apenas nos últimos anos. “O fato é que nós temos
famílias desassistidas, vendo o seu vizinho, o seu irmão, receber”, relata
Jales.
A
situação foi discutida em reuniões entre a Comissão, o Ministério Público
Federal (MPF), o Ministério da Igualdade Racial (MIR), a Defensoria Pública e
lideranças quilombolas. Segundo Jales, foi construído um entendimento para
utilizar parte dos recursos destinados às medidas estruturantes para garantir
um pagamento às famílias que ficaram sem receber. “Definiram que utilizariam
esses valores das medidas estruturantes para, pelo menos, um percentual mínimo,
poder pagar essas famílias que não receberam nada”, explica. De acordo com o
advogado, uma das reuniões que tratou do tema ocorreu em 12 de dezembro de
2025, seguida por outros encontros para discutir os procedimentos necessários
para viabilizar os pagamentos.
A
primeira parcela dos recursos previstos para as medidas estruturantes já foi
depositada, segundo as lideranças. As comunidades, porém, ainda aguardam a
definição dos procedimentos e de um cronograma para que os valores destinados
às famílias possam ser efetivamente liberados. Isaías afirma que a Comissão já
cumpriu as etapas que estavam sob sua responsabilidade e cobra agora uma
resposta do governo federal. “Desde o ano passado, vai passando etapa por
etapa, todas as formalidades. Todas as etapas que deveriam ser feitas pela
Comissão já foram cumpridas. Agora nós precisamos de uma resposta do governo
federal sobre data, sobre o fluxo”, diz.
Para
Isaías, a demora tem aumentado a pressão sobre as lideranças, que são cobradas
pelas próprias famílias, embora não tenham poder para liberar os recursos. A
expectativa é que uma reunião com representantes do governo federal resulte na
apresentação de um cronograma. “A gente agora espera que nessa próxima reunião,
que teremos com eles na sexta-feira, eles nos apresentem minimamente um
cronograma”, afirma.
Caso
não haja uma definição, o território discute a realização de mobilizações para
chamar a atenção do governo federal. Uma das possibilidades é a realização de
um protesto em Brasília. “Se o governo não definiu a data, não definiu o prazo,
o território está se organizando para fazer um protesto em Brasília e para
chamar a atenção do governo federal para que as coisas de fato andem dentro do
território”, afirma Isaías.
Isaías
ressalta que as medidas ainda serão definidas pelas lideranças e dependem da
resposta que será apresentada pelo governo. “Essas medidas serão tomadas caso o
governo não nos apresente um cronograma, datas, para que a gente consiga dar
efetividade a esse acordo”, afirma. Ele também defende que o governo organize
uma força-tarefa para acelerar os procedimentos necessários à liberação dos
recursos. “A gente precisa que seja criada uma força-tarefa para resolver esse
problema”, pontua.
Correção:
Uma versão anterior desta reportagem apresentou como crítica à resolução a
avaliação de lideranças quilombolas de que os recursos destinados à Verba de
Apoio Familiar seriam utilizados em medidas estruturantes. A interpretação,
contudo, estava equivocada: os valores são destinados a finalidades distintas.
Após novas explicações da Comissão Remanescente Quilombola de São Mateus e
Conceição da Barra sobre a resolução, o texto foi atualizado para corrigir a
informação.
Fonte:
Repórter Brasil/Século Diário

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