Flávio
Bolsonaro não presta contas dos milhões de Vorcaro e usa laudo sem notas
fiscais para fugir do caso Dark Horse
Flávio
Bolsonaro tenta transformar uma cobrança objetiva em cortina de fumaça
política. Questionado sobre o contrato entre a produtora do filme Dark Horse e
o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, o candidato do PL à Presidência
reagiu com irritação, atacou a imprensa, desviou o foco para Lula e afirmou que
a prestação de contas já teria sido feita. O problema é que a própria
explicação do senador expõe suas contradições. Em maio, quando vieram a público
áudios em que Flávio pedia R$ 61 milhões a Vorcaro para financiar o filme sobre
Jair Bolsonaro, o senador prometeu prestar contas em 30 dias. Mais de três
meses depois, não apresentou o contrato, não mostrou a origem detalhada dos
recursos e passou a dizer que a obrigação não é dele, mas da produtora Go Up
Entertainment, de Karina da Gama. Ora, quem prometeu prestar contas foi Flávio
Bolsonaro. Agora, diante da cobrança, ele afirma: “Não houve recuo nenhum. Eu
vi a prestação de contas no g1. Dá um Google vocês no g1. A prestação de contas
tá lá na matéria do g1 dizendo que a produtora gastou mais até que recebeu de
investimento [de Daniel Vorcaro]. A prestação de contas foi feita dentro da
investigação que está acontecendo em São Paulo e a própria imprensa vazou. Da
minha parte eu digo, não sou eu que tenho que prestar conta, é o Lula, porque
fez reuniãozinha escondida com Augusto Lima e o Vorcaro”, disse Flávio
Bolsonaro. A resposta não responde à pergunta central: qual foi exatamente a
participação do senador na negociação com Vorcaro e quais documentos comprovam
a regularidade dos repasses?
Ao
dizer que viu a prestação de contas no g1, Flávio tenta usar uma reportagem
jornalística como se ela substituísse a transparência que ele próprio prometeu.
Mas a matéria citada informa justamente que a perícia anexada ao inquérito foi
contratada pela defesa de Karina da Gama e não apresentou recibos nem notas
fiscais dos gastos declarados. Ou seja: o documento usado pelo senador como
escudo não encerra as dúvidas; ao contrário, reforça a necessidade de
esclarecimento. A produtora declarou gasto de R$ 75 milhões com o filme, dos
quais R$ 54 milhões teriam sido desembolsados no exterior, apesar de Dark Horse
ter sido filmado no Brasil. Também não foi esclarecida a origem dos R$ 20,9
milhões gastos no país. Esses pontos são relevantes porque a Go Up Entertainment
pertence à mesma empresária ligada à ONG Instituto Conhecer Brasil, alvo de
investigação em São Paulo por um contrato de R$ 108 milhões para instalação de
wi-fi na periferia da capital paulista. É por isso que a tentativa de Flávio de
reduzir o caso a uma “relação privada” não se sustenta. A investigação apura
justamente se houve uso de recursos públicos no filme. Quando uma ONG
contratada pela Prefeitura de São Paulo por R$ 108 milhões pertence à mesma
empresária da produtora do longa, funciona no mesmo endereço e aparece no
centro de uma apuração policial e do Ministério Público, o assunto deixa de ser
apenas privado.
A
segunda contradição está na tentativa de se afastar de Daniel Vorcaro. Flávio
disse: “Vocês não vão me colocar na mesma página pública desse cara”. Mas os
áudios revelados em maio mostraram o próprio senador pedindo dinheiro ao
banqueiro para a produção do filme. Segundo as informações já divulgadas,
Vorcaro teria repassado R$ 61 milhões aos produtores por meio de um fundo nos
Estados Unidos, enquanto Flávio teria negociado um repasse de US$ 24 milhões,
cerca de R$ 134 milhões à época. A terceira contradição está no uso de Lula
como rota de fuga. Ao citar uma suposta “reuniãozinha escondida” envolvendo
Lula, Augusto Lima e Vorcaro, Flávio tenta deslocar o debate para outro
personagem. Mas a cobrança feita a ele não depende de Lula. O que está em
discussão é o financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro, a atuação de
Flávio nas tratativas com Vorcaro e a ausência de prestação de contas completa
após promessa pública. O argumento de que “o Brasil está lambendo em chamas”
também não responde nada. A gravidade dos problemas nacionais não torna
irrelevante uma suspeita envolvendo dezenas de milhões de reais, um banqueiro
preso, uma produtora sem histórico anterior de filmes no Brasil e uma ONG
investigada por contrato público milionário.
Flávio
Bolsonaro quer os benefícios políticos de um filme sobre o pai, mas não quer
responder pelas negociações que ajudaram a financiá-lo. Quer tratar o caso como
privado quando convém, mas recorre à candidatura presidencial para se blindar
de perguntas incômodas. Quer invocar uma prestação de contas que não apresentou
notas fiscais, recibos nem origem completa dos recursos. No caso Dark Horse, a
contradição é o roteiro principal. Flávio prometeu transparência, não entregou.
Disse que prestaria contas, depois afirmou que a obrigação era de outros. Usou
uma reportagem que aponta lacunas como se fosse prova de esclarecimento. E,
quando pressionado, tentou transformar uma pergunta legítima sobre dinheiro em
ataque político. Para quem quer governar o país, é pouco. Para quem prometeu
explicar tudo, é ainda menos.
• Contrato para Dark Horse foi assinado
depois de repasse de Vorcaro a fundo
O
contrato para que o Havengate, fundo ligado ao ex-deputado federal Eduardo
Bolsonaro, financiasse a produção do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair
Bolsonaro, foi assinado depois do primeiro repasse feito pelo banqueiro Daniel
Vorcaro a pedido de Flávio Bolsonaro. As informações constam em um laudo
pericial elaborado pela defesa da produtora Go Up Entertainment, responsável
pela execução do longa metragem. Conversas reveladas pelo site The Intercept
Brasil mostraram o senador e agora candidato do PL à Presidência negociando,
reiteradamente, repasses milionários com o dono do Banco Master com a
justificativa de arcar com as despesas da produção cinematográfica. A perícia
apresentada ao Tribunal de Justiça de São Paulo indica que todo o dinheiro
utilizado para financiar a produção do filme –US$ 13,39 milhões, cerca de R$ 69
milhões na cotação desta quarta-feira (26)– veio do fundo Havengate. O valor
custeou tanto despesas de produção no Brasil, registradas em US$ 3,7 milhões
(pouco mais de R$ 19,1 mihões), quanto nos Estados Unidos –US$ 9,66 milhões, ou
R$ 49,8 milhões.
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Repasses de Daniel Vorcaro ao fundo Havengate
A
assinatura do contrato entre o fundo sediado nos Estados Unidos e a Go Up
Entertainment ocorreu no dia 24 de fevereiro de 2025, segundo laudo pericial a
cujo conteúdo o ICL Notícias teve acesso. Documentos publicados originalmente
pelo site The Intercept Brasil comprovam que a primeira transferência feita a
mando de Vorcaro ocorreu 11 dias antes. Um comprovante bancário SWIFT revelado
pelo Intercept mostra que, em 13 de fevereiro de 2025, US$ 2 milhões foram
transferidos pela Entre Investimentos e Participações para o Havengate. No dia
seguinte, Fabiano Zettel encaminhou o comprovante ao banqueiro Daniel Vorcaro
acompanhado da mensagem “Filme!”. As conversas obtidas pelo veículo mostram que
Vorcaro e Zettel discutiam a operação financeira e dificuldades para realizar
as remessas internacionais.
O
pagamento de US$ 2 milhões integra um cronograma de financiamento que previa
quase US$ 24 milhões e que, segundo os documentos publicados, registrou ao
menos US$ 10,6 milhões em pagamentos ao fundo americano. O laudo apresentado
pela Go Up, não informa, ao descrever a relação contratual com o Havengate, a
existência de documento anterior que explique a vinculação da primeira remessa
ao projeto.
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Cobranças de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro
Os
documentos e diálogos revelados pelos The Intercept Brasil mostram que Vorcaro
havia se comprometido a fazer dois repasses de US$ 2 milhões em janeiro de
2025, seguidos de pagamentos mensais de US$ 1,66 milhão entre março de 2025 e
janeiro de 2026. A previsão foi cumprida, com algum atraso, em relação às seis
primeiras parcelas, iniciadas em fevereiro de 2025. Depois que a crise
envolvendo o Banco Master se intensificou, o senador Flávio Bolsonaro
intensificou as cobranças a Vorcaro em busca da retomada dos pagamentos. No dia
15 de novembro de 2025 –um dia antes da prisão de Vorcaro pela Polícia Federal–
Flávio enviou mensagens ao banqueiro pedindo uma posição sobre os pagamentos.
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só
preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu o senador. As conversas revelam que
o banqueiro vinha sendo abordado para bancar o filme desde ao menos dezembro de
2024. Na ocasião, ele conversa com o empresário Thiago Miranda, então sócio do
Portal Léo Dias, sobre o assunto. Vorcaro afirma que havia agendado uma
conversa com Flávio Bolsonaro em Brasília para o dia 11 de dezembro.
• Registro estrangeiro livrou Dark Horse
de exigências aplicadas a obras brasileiras
O
enquadramento de Dark Horse como obra estrangeira permitiu que o filme passasse
pela primeira etapa de registro na Agência Nacional do Cinema (Ancine) sem
apresentar uma série de documentos que seriam exigidos caso buscasse o
reconhecimento como obra brasileira, inclusive na modalidade de coprodução
internacional. Entre os documentos, estão contratos destinados a comprovar a
participação das produtoras, a titularidade dos direitos e informações sobre
profissionais envolvidos na realização do longa. A diferença está no caminho
regulatório escolhido. Para uma produção ser reconhecida como brasileira,
precisa obter o Certificado de Produto Brasileiro (CPB) e comprovar que atende
aos requisitos estabelecidos pela legislação. Já para obter o Registro de Obra Estrangeira
(ROE), concedido a Dark Horse em 7 de agosto, a própria Ancine informa que o
sistema “não exige o envio de nenhum documento”.₢
Especialistas
do setor audiovisual consultados pelo ICL Notícias avaliam que a menor
exigência documental pode ser uma das explicações para a opção pelo
enquadramento estrangeiro. Não há elementos, porém, que permitam afirmar que
essa tenha sido a motivação dos responsáveis pelo filme. A questão ganha
relevância diante dos questionamentos sobre a estrutura de produção e o
financiamento de Dark Horse. Uma perícia apresentada pela Go Up Entertainment
em processo judicial envolvendo o projeto aponta cerca de R$ 75 milhões em
gastos relacionados ao longa e descreve diferentes operações ligadas à sua
realização. O registro como obra estrangeira não significa qualquer
irregularidade por si só. É o procedimento normalmente utilizado por produções
internacionais que pretendem ser exploradas comercialmente no país. O efeito
concreto do enquadramento é outro: para obter o ROE, Dark Horse não precisou
submeter à Ancine a mesma cadeia documental que seria analisada caso
pretendesse ser reconhecida como uma produção brasileira.
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O que muda se a obra for brasileira
O
reconhecimento como obra brasileira oferece vantagens que não estão disponíveis
da mesma maneira para produções estrangeiras. A exemplo da possibilidade de
acesso a determinadas linhas de financiamento público e o enquadramento nas
regras destinadas à produção nacional, como as cotas de tela. “A obra
audiovisual brasileira pode acessar linhas de financiamento público e também
serve para cumprimento de algumas obrigações legais, como as cotas de tela de
cinema. Por esse motivo, existem alguns requisitos que devem ser observados
para ganhar essa classificação”, explica Nichollas Alem, advogado especialista
em direito do entretenimento, mestre e doutor em direito econômico pela USP e
presidente do Instituto de Direito, Economia Criativa e Artes.
As
exigências também alcançam coproduções internacionais que pretendam ser
reconhecidas legalmente como brasileiras. “Esse reconhecimento legal é feito no
momento da emissão do Certificado de Produto Brasileiro, o CPB, no qual são
apresentados vários documentos. A obra estrangeira, por sua vez, não precisa
cumprir tantos requisitos nem apresentar os mesmos documentos que a
brasileira”, afirma Alem. Uma obra realizada com participação de empresas
estrangeiras, portanto, não é necessariamente considerada estrangeira. A
legislação permite que uma coprodução internacional obtenha o reconhecimento
como produção brasileira, desde que cumpra determinados requisitos.
Caso
Dark Horse buscasse esse enquadramento, o processo poderia exigir:
• comprovação da participação da produtora
brasileira e de sua parcela nos direitos patrimoniais;
• contratos de coprodução entre as
empresas brasileiras e estrangeiras envolvidas;
• documentos sobre a divisão e
titularidade dos direitos patrimoniais do filme;
• contratos relacionados a diretor,
autores, criadores e roteiristas, conforme as características da produção;
• comprovação da composição da equipe
artística e técnica, quando necessária para verificar os critérios de
nacionalidade;
• contratos de financiamento e outros
negócios envolvendo direitos sobre a obra, quando aplicáveis; cópia finalizada
do filme com seus créditos;
• cumprimento das condições previstas em
acordo internacional de coprodução, quando houver tratado aplicável.
Nos
casos em que não existe acordo internacional de coprodução, a legislação
brasileira estabelece critérios próprios. Entre eles, a produtora brasileira
deve deter pelo menos 40% dos direitos patrimoniais sobre a obra e pelo menos
dois terços dos artistas e técnicos precisam ser brasileiros ou estrangeiros
residentes no país há mais de três anos. Já para o Registro de Obra
Estrangeira, utilizado por Dark Horse, as exigências nessa etapa são menores:
• preenchimento das informações sobre a
obra no sistema da Ancine;
• não há exigência de envio de documentos
para obtenção do ROE, segundo a agência;
• não é necessário comprovar a divisão dos
direitos patrimoniais para demonstrar uma participação brasileira;
• não é necessário apresentar contratos de
coprodução;
• não é necessário comprovar a
nacionalidade ou residência da equipe artística e técnica para estabelecer a
nacionalidade da obra;
• a agência recomenda a inclusão de um
endereço eletrônico, como o IMDb, para auxiliar na identificação do título.
A
diferença não significa que, caso fosse reconhecido como brasileiro, Dark Horse
teria necessariamente de apresentar todas as notas fiscais da produção ou
realizar uma prestação financeira de contas completa perante a Ancine. Como o
projeto foi realizado com recursos privados, sem utilização conhecida de
mecanismos públicos de fomento ou incentivo, esse tipo de obrigação não decorre
simplesmente da nacionalidade da obra. O que mudaria seria o nível de
documentação necessário para comprovar sua condição de produção brasileira.
Especialistas consultados pela reportagem destacam que esse processo permitiria
à Ancine conhecer uma parcela maior da cadeia contratual existente por trás do
longa, incluindo documentos relacionados aos direitos da obra e às empresas e
profissionais envolvidos na produção.
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Perícia aponta cerca de R$ 75 milhões
Essa
diferença ganha peso diante das informações apresentadas pela própria Go Up
sobre a estrutura financeira de Dark Horse. Uma perícia juntada pela produtora
a um processo judicial aponta aproximadamente R$ 75 milhões em gastos
relacionados ao filme. O documento descreve despesas, operações e a
participação de diferentes envolvidos no projeto. A perícia, porém, não permite
concluir que Dark Horse preenchia os requisitos necessários para ser
reconhecido como uma coprodução internacional brasileira. Para isso, seria
necessário conhecer elementos como a divisão dos direitos patrimoniais entre as
empresas, os contratos de coprodução e a composição completa das equipes
artística e técnica — justamente informações que ganhariam relevância em um
pedido de reconhecimento da produção como brasileira.
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Go Up foi autuada pela Ancine
O
enquadramento de Dark Horse como obra estrangeira também criou obrigações
específicas relacionadas às atividades realizadas no Brasil. Segundo nota do
Sindicato Interestadual da Indústria do Audiovisual (SICAV), do Rio de Janeiro,
produções estrangeiras que realizam filmagens em território brasileiro precisam
comunicar previamente a atividade à Ancine. Essa comunicação é independente do
ROE. Uma trata das filmagens realizadas no país; a outra é uma etapa do
processo necessário para que uma obra estrangeira possa posteriormente ser
explorada comercialmente no Brasil. No caso de Dark Horse, a Ancine abriu
procedimento após receber uma denúncia de que teriam ocorrido filmagens no país
sem a comunicação prévia exigida.
Segundo
o SICAV, a agência realizou duas tentativas de obter esclarecimentos da Go Up
Entertainment. Diante da ausência de resposta, lavrou auto de infração contra a
produtora. O processo ainda assegura à empresa direito de defesa e recurso.
Caso a irregularidade seja confirmada ao final do procedimento administrativo,
a ausência de comunicação prévia pode resultar em multa de R$ 2 mil a R$ 100
mil. Posteriormente, a Europa Filmes, por meio da Unifilmes Distribuidora de
Filmes, também foi notificada. Após a apresentação de esclarecimentos pela
distribuidora, a Ancine realizou diligências junto à SPCine.
A
empresa municipal confirmou ter sido informada sobre a realização das
filmagens. A informação foi incorporada ao processo administrativo e será
considerada pela agência na análise do caso. A fiscalização das filmagens e o
registro da obra têm, portanto, objetos diferentes. Uma eventual irregularidade
na comunicação das atividades realizadas no Brasil não torna automaticamente
inválido o ROE concedido ao filme.
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Dark Horse ainda não pode ser lançado comercialmente
A
obtenção do ROE também não encerrou o caminho regulatório de Dark Horse.
A
Europa Filmes apresentou o pedido de registro da obra estrangeira em 22 de
junho. O ROE foi concedido em 7 de agosto. Até o momento, entretanto, segundo o
SICAV, a distribuidora ainda não solicitou o Certificado de Registro de Título
(CRT), necessário para avançar no processo de exploração comercial da obra no
país. É nessa etapa que uma produção estrangeira precisa apresentar
documentação contratual à Ancine. Para um lançamento nos cinemas, por exemplo,
o responsável deve indicar o segmento de salas de exibição e comprovar que
possui os direitos para explorar comercialmente o filme no Brasil.
Quando
existe uma cadeia de contratos — envolvendo, por exemplo, produtor estrangeiro,
agente internacional de vendas e distribuidor brasileiro —, os documentos
precisam permitir à Ancine verificar a transferência dos direitos até a empresa
responsável pela exploração comercial. A exigência tem finalidade diferente
daquela existente no CPB. No CRT, os contratos demonstram quem possui o direito
de explorar comercialmente a obra no Brasil. No reconhecimento de uma produção
brasileira, a documentação serve também para demonstrar que o próprio filme
atende às condições legais para ser considerado brasileiro. Depois da emissão
do CRT, ainda será necessário solicitar a classificação indicativa ao
Ministério da Justiça.
Assim,
as duas frentes envolvendo Dark Horse seguem abertas. De um lado, a Ancine
apura se as regras para a realização de filmagens estrangeiras no Brasil foram
cumpridas e já lavrou auto de infração contra a Go Up. De outro, o filme
conseguiu o primeiro registro como obra estrangeira, mas ainda não concluiu as
etapas necessárias para sua exploração comercial no país. O enquadramento
estrangeiro não elimina essas obrigações. Ele permitiu, porém, que Dark Horse
passasse pela etapa destinada a definir sua condição de obra estrangeira sem
apresentar a mesma cadeia de documentos que seria necessária caso buscasse o
reconhecimento como produção brasileira.
• Flávio terceiriza prestação de contas de
‘Dark Horse’, e repasse dos EUA continua sem detalhes
Apesar
de ter prometido uma prestação de contas pública a respeito do financiamento do
filme “Dark Horse”, o presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, terceirizou a
divulgação de um balanço para a produtora da obra, a Go Up Entertainment, e não
manteve o compromisso de transparência em relação ao fundo americano que
intermediou os repasses, o Havengate. Em maio, o site The Intercept revelou
mensagens trocadas entre Flávio e o dono do banco Master, Daniel Vorcaro, em
que o senador pede dinheiro para bancar o filme a respeito de seu pai, o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo a publicação, o valor total
negociado foi de R$ 134 milhões e o ex-banqueiro chegou a pagar R$ 61 milhões.
Os pagamentos teriam sido feitos por meio de transferências de uma empresa
chamada Entre Investimentos e Participações, ligada a Vorcaro, para o fundo
Havengate, sediado no Texas, nos Estados Unidos. O fundo é controlado por Paulo
Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive no país. Isso levou a
Polícia Federal a abrir uma investigação para apurar se verba do filme acabou
bancando despesas do ex-deputado. “Quero acrescentar duas coisas que foram os
meus pedidos tanto à produtora quanto ao fundo: que eles se organizassem para
fazer uma prestação de contas a todo mundo das despesas que foram feitas em
função desse investimento do filme, de forma transparente, em até 30 dias. Foi
isso que eu pedi”, disse Flávio a jornalistas em 19 de maio, em uma entrevista
na qual ele estava cercado por congressistas do PL.
Dias
antes, Flávio havia dito que poderia divulgar o contrato de financiamento do
filme desde que seus advogados o autorizassem. De acordo com o candidato, em
março ele havia negado conhecer Vorcaro por causa de uma cláusula de
confidencialidade desse documento. No fim de junho, ao ser procurada pela
reportagem, a campanha do presidenciável afirmou que a Go Up já tinha prestado
contas – o que não foi feito publicamente, mas no âmbito de um inquérito da
Polícia Civil paulista que apura se recursos para o filme foram desviados de um
contrato entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil,
presidido por Karina Ferreira da Gama, que também é dona da produtora Go Up
Entertainment. Na segunda-feira (24), o ministro Flávio Dino, do STF (Supremo
Tribunal Federal), deu aval para que a PF acesse as provas coletadas pela
Polícia Civil de São Paulo a respeito da produtora. O material vai turbinar a
investigação sobre a destinação de emendas parlamentares à Go Up — apuração que
está sob a relatoria de Dino. O balanço feito pela Go Up Entertainment foi
publicado pela Folha de S.Paulo em junho. A produtora apresentou à Polícia
Civil um laudo feito por uma perícia privada contratada pela defesa de Karina
Gama. O laudo se baseia em contratos, extratos bancários, planilhas,
demonstrativos de despesas e outros materiais disponibilizados pela produtora
aos peritos. A perícia concluiu que o filme custou, até o momento, cerca de R$
75,2 milhões e foi bancado por investimentos privados, sem indício de uso de
verbas públicas de outros contratos, de emendas parlamentares ou da Lei
Rouanet. A defesa não apresentou detalhes como financiadores do filme,
contratos, notas fiscais e valores de cada despesa, como pagamento de elenco,
técnicos, hospedagem, alimentação, logística, entre outros.
O
documento afirma ainda que o fundo Havengate celebrou um contrato em 24 de
fevereiro de 2025 para investimento no filme e realizou um aporte de US$ 13,4
milhões (R$ 75,2 milhões), também sem detalhamento. Ao ser cobrado por
adversários e pela imprensa a respeito da transparência na prestação de contas
prometida, Flávio Bolsonaro tem dito que o assunto “Dark Horse” é página
virada. Aliados do senador afirmam, da mesma forma, que a prestação já foi
apresentada pela Go Up e publicada pela Folha de S.Paulo, referindo-se ao laudo
da defesa.
Na
segunda, Flávio voltou a dizer que a prestação de contas do “Dark Horse” já foi
feita. Ele foi questionado pela reportagem se havia mudado de ideia sobre
apresentar o contrato firmado entre Vorcaro e o filme. “Olha só, vocês vão
parar no tempo? O Brasil está lambendo em chamas, todo mundo endividado, Brasil
quebrado, vocês querem insistir com relação de fundo privado, que não tem
contrapartida pública de nada?”, questionou. “Vocês não vão me colocar na mesma
página desse cara. Hoje o governo Lula [PT] que deve explicações, vão cobrar
explicações dele.” Procurada pela reportagem na terça (25), a assessoria da
campanha de Flávio reafirmou que a prestação de contas já foi feita pela
produtora, como havia pedido o senador, e que não há nenhuma irregularidade no
financiamento do filme. A assessoria diz que a responsabilidade da divulgação
do balanço era da Go Up. A respeito do fundo americano, a assessoria afirmou
que o Havengate está submetido a regras de confidencialidade estabelecidas pelo
governo dos EUA e só pode prestar contas às autoridades americanas. Essa
confidencialidade também impediria a divulgação do contrato com Vorcaro,
segundo a campanha.
Fonte:
Por Aquiles Lins, em Brasil 247/ICL Notícias

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