Febre
do Nilo Ocidental: 8 perguntas e respostas sobre a doença que teve casos
confirmados no Brasil
A
confirmação de casos da Febre do Nilo Ocidental em humanos neste mês no Brasil
acendeu alerta para uma doença ainda pouco conhecida pela população do país.
Até
agora, foram confirmados quatro casos no Brasil: dois em Santa
Catarina e dois em São Paulo. Há ainda um caso em investigação no Piauí.
Em
Santa Catarina, uma paciente morreu, e a investigação ainda busca determinar se
a infecção pelo vírus foi a causa do óbito.
O vírus é transmitido
principalmente pela picada de mosquitos infectados. Na maioria dos casos, a
infecção não provoca sintomas ou causa apenas um quadro leve. Mas, em uma
pequena parcela dos infectados, a doença pode evoluir para formas neurológicas
graves.
A BBC
News Brasil conversou com infectologistas para explicar o que é a doença, como
ela é transmitida, quais são os sintomas, como é feito o diagnóstico e o que se
sabe sobre a circulação do vírus no Brasil.
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O que é a doença?
A Febre
do Nilo Ocidental é uma infecção viral aguda causada pelo Vírus do Nilo
Ocidental (VNO), que pertence à família dos flavivírus — grupo que também
inclui os vírus responsáveis por doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela.
O vírus
foi identificado pela primeira vez em 1937 em um distrito chamado West Nile, em
Uganda, e por isso recebeu esse nome.
Hoje,
porém, ele circula em várias regiões de praticamente todos os continentes,
explica o infectologista Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de
Infectologia da Unesp (Universidade Estadual Paulista).
"O
que faz dele um vírus com tanta dispersão é que se trata de uma zoonose
transmitida principalmente por aves migratórias. Os mosquitos que picam
eventualmente essas aves também picam outros animais, como mamíferos, entre
eles os seres humanos", explica.
A
infecção viral é transmitida pela picada de mosquitos infectados, em especial
os da espécie Culex, conhecidos como pernilongos ou muriçocas, que
adquirem o vírus ao se alimentar do sangue de aves infectadas.
"O Culex é
aquele pernilongo que a gente conhece, não é o Aedes; é aquele que
faz barulho, que faz o zumbido forte", explica o médico.
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Como ela é transmitida?
Na
natureza, o vírus circula de forma contínua entre esses insetos e as aves
silvestres, enquanto seres humanos e equídeos são considerados hospedeiros
acidentais.
"A
via usual mais comum é a picada de um mosquito, principalmente do gênero Culex,
que acabou de picar uma ave infectada, essas aves migratórias", explica o
infectologista.
"Então,
o ciclo básico é ave, mosquito e pessoa, como acontece em outras
arboviroses", afirma. "Na verdade, o ser humano acaba entrando como
um hospedeiro acidental porque o vírus no ser humano não tem alta circulação.
Então é bem diferente, por exemplo, da dengue ou da Zika."
O vírus
não é transmitido de pessoa para pessoa por abraço, beijo, tosse ou espirro.
"Existem
algumas formas de transmissão entre humanos, mas são muito incomuns, por
exemplo, por transfusão de sangue, transplante de órgão ou transmissão
materno-infantil durante a gestação", diz Barbosa.
"Mas
são muito raras e não têm um mecanismo que leve a uma circulação comunitária
entre humanos desse vírus."
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Quais os sintomas?
Os
quadros podem variar desde uma febre passageira até formas mais graves. Mas a
grande maioria das infecções ocorre de forma assintomática.
Estima-se
que cerca de 20% das pessoas infectadas desenvolvam manifestações clínicas.
"Para
a grande maioria das pessoas que é contaminada, em 80% dos casos, a infecção
geralmente é assintomática ou leva a sintomas muito leves,", diz o
professor da Unesp.
"O
restante, 20%, terá uma febre de início agudo, dor de cabeça, dor muscular,
náusea, vômito, diarreia, mas nada muito grave. A maioria das pessoas melhora
espontaneamente", diz o médico.
O
problema é que um percentual pequeno, mas significativo, pode ter manifestações
neurológicas graves, como encefalite.
"A
doença neuroinvasiva acontece em menos de 1% dos casos. Mas, devido justamente
à raridade desse evento, é pouco diagnosticada e acaba sendo pesquisada somente
em quadros muito graves, em que você não tem uma síndrome neurológica com causa
definida. Por isso, é uma doença também muito pouco conhecida."
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Como é feito o diagnóstico?
O
diagnóstico é feito por avaliação clínica e exames laboratoriais, especialmente
nos casos em que há suspeita da doença.
Por
isso, pessoas que apresentem sintomas compatíveis e tenham histórico de
exposição a áreas com presença do mosquito devem procurar um serviço de saúde.
Segundo
o infectologista José Antônio Pozza, membro do Comitê de Arboviroses da
Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o diagnóstico da febre do Nilo
Ocidental pode ser difícil porque os sintomas iniciais são muito semelhantes
aos de outras arboviroses, como dengue e zika.
"São
sintomas muito gerais, como febre, mal-estar, dor articular, dor muscular e
náusea. Muitas vezes, isso se confunde com outras arboviroses."
Além
disso, alguns testes podem apresentar reação cruzada, dificultando a
identificação do vírus. "Muitas vezes, a pessoa que tem febre do Nilo
também apresenta resultado positivo para dengue ou zika", explica.
O vírus
é identificado por meio de testes de anticorpos, e existe a possibilidade de
detectar diretamente o vírus por meio do RT-PCR.
Quando
há comprometimento neurológico, a investigação se torna ainda mais complexa, já
que é preciso considerar outras doenças que também podem provocar encefalite.
Não
existe vacina nem tratamento antiviral específico disponível contra a doença.
"Não
existe nenhum antiviral específico. O que a gente tem de tratamento são medidas
de suporte, como hidratação e controle de sintomas", afirma o
infectologista.
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Como a febre do Nilo Ocidental chegou ao Brasil?
A
primeira vez que o Vírus do Nilo Ocidental (VNO) foi documentado nas Américas
foi em Nova York, em 1999. Já a evidência em humanos no continente data do
início dos anos 2000.
Os
primeiros sinais de que o vírus havia chegado ao Brasil surgiram em 2009,
quando foram detectados anticorpos em cavalos e galinhas no Pantanal.
O
Ministério da Saúde registrou o primeiro caso de Febre do Nilo Ocidental no
país em 2014, em um homem piauiense de 52 anos, morador de Aroeiras do Itaim (a
332 km de Teresina).
Pesquisadores
isolaram o vírus da febre do Nilo Ocidental pela primeira vez no Brasil em
2018, extraído de um cavalo que morreu no Espírito Santo.
"E
tinha uma proximidade evolutiva muito parecida com os vírus que a gente
encontra na América do Norte, então pode ser que tenha vindo dali", diz
Alexandre Naime Barbosa.
"Mas
talvez uma questão mais importante não seja saber de onde o vírus veio, mas
saber que isso pode acontecer de forma frequente, porque aves migratórias são
responsáveis pela dispersão de diversas doenças."
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O que sabemos sobre os casos no Brasil?
Em
Santa Catarina, uma mulher de 77 anos morreu no município de Imbituba, no
litoral sul do estado, a 90 km de Florianópolis.
O
governo estadual também confirmou outro caso no município de Caçador, no Vale
do Contestado, a cerca de 400 km da capital catarinense. O homem de 56 anos
recebeu alta após internação.
A
Secretaria de Estado da Saúde informou que há uma investigação epidemiológica
em andamento para mapear com precisão os prováveis locais de infecção e
detalhar a relação entre a circulação do vírus e os pacientes infectados.
"Diante
da confirmação dos casos, a Secretaria está intensificando as ações de
vigilância epidemiológica, laboratorial, animal e entomológica em Santa
Catarina", afirmou a pasta.
Em São
Paulo, o primeiro caso é o de uma moradora de Ribeirão Preto, de 34 anos, com
histórico recente de viagem à região amazônica. Ela já está curada.
O outro
é de uma adolescente de 18 anos, na cidade de São José do Rio Preto, que está
internada sob cuidados médicos. Ambos os casos seguem com o local provável de
infecção sob investigação epidemiológica.
O
Centro de Vigilância Epidemiológica de São Paulo informou que é a primeira vez
que o estado registra casos humanos da doença e que eles estão sendo
investigados pelas equipes de vigilância epidemiológica municipais e estadual
para identificar o local provável de infecção.
O
Ministério da Saúde, em conjunto com estados e municípios, mantém a vigilância
epidemiológica e laboratorial para identificar casos e possíveis áreas de
transmissão da Febre do Nilo Ocidental.
"A
pasta acompanha as investigações, presta apoio técnico aos estados e prepara
nota técnica com orientações atualizadas para reforçar a vigilância da doença
no país", diz a nota.
Para
Antônio Pozza, uma das principais questões neste momento é entender a origem
dos casos humanos registrados no país e verificar se há evidências de
circulação do vírus entre animais, especialmente aves.
Isso é
importante, diz ele, porque a identificação do vírus em aves e mosquitos
poderia indicar a existência de um ciclo de transmissão sustentado no país — ou
seja, quando um vírus ou doença se espalha entre pessoas de uma mesma
comunidade.
Por
enquanto, segundo o infectologista, os casos registrados não são suficientes
para afirmar que o vírus esteja circulando de forma sustentada no Brasil.
"Ainda
são casos isolados. Só com esses dados, a gente não pode falar ainda de uma
transmissão sustentada."
A
investigação também precisa considerar a possibilidade de que algumas infecções
tenham ocorrido fora dos locais onde os pacientes foram diagnosticados.
"Hoje
em dia muitas pessoas viajam para outros estados. Então é importante entender a
origem dessas infecções."
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Qual a taxa de mortalidade?
Alexandre
Naime Barbosa afirma que, se forem consideradas todas as pessoas infectadas, a
letalidade é muito baixa. O risco muda quando acontece a forma neuroinvasiva da
doença, ou seja, quando surgem sintomas neurológicos.
"Dentro
desse grupo, o risco de óbito chega a 10%. Mas isso é do total de pessoas que
têm doença neurológica, não de todas as pessoas infectadas", pondera o
professor da Unesp.
"Cerca
de 20% desenvolvem uma doença febril pouco sintomática e apenas 1% vão ter
realmente sintomas neurológicos."
Alguns
fatores são bastante importantes para a evolução da doença, principalmente
pessoas imunossuprimidas, pacientes que receberam transplante de órgãos,
pessoas que estão fazendo quimioterapia ou que estão usando medicamentos
imunossupressores, além de idade avançada.
"Inclusive,
o óbito registrado neste ano em Santa Catarina foi de uma mulher de 77 anos,
que já é uma faixa etária que a gente coloca com maior risco. Então esses são
os principais fatores relacionados à gravidade da doença", diz o professor
da Unesp.
"Esses
casos vieram à tona por conta da gravidade. Foram casos de doença
neuroinvasiva. Mas provavelmente muitas outras pessoas tiveram uma infecção
leve e não foram diagnosticadas."
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Como posso me prevenir?
A
prevenção, diz Antônio Pozza, depende principalmente do controle dos mosquitos
e de medidas para evitar picadas.
"Como
todas as outras arboviroses, a melhor forma de prevenção é controlar os
criadouros de mosquito."
Entre
as recomendações estão:
- Utilizar
repelente;
- Usar roupas que
reduzam a exposição da pele, especialmente em áreas de maior risco;
- Utilizar telas
em portas e janelas;
- Evitar
permanecer exposto aos mosquitos, principalmente do entardecer ao
amanhecer;
- Eliminar
recipientes e locais que possam acumular água;
- Evitar o
descarte de lixo em valas, valetas, margens de córregos, rios e riachos;
- Evitar o contato
ou manuseio de animais encontrados mortos.
O
controle do mosquito também depende de ações do poder público, afirma o
infectologista, como melhorias nas condições sanitárias e na coleta de lixo.
"Esses
conjuntos de medidas, tanto individuais quanto governamentais e coletivas,
evitam a proliferação do mosquito", afirma.
Segundo
ele, as medidas de controle têm um efeito amplo porque também ajudam a combater
o Aedes aegypti, transmissor de outras arboviroses.
Fonte:
BBC News Brasil

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