sábado, 22 de agosto de 2026

Exame de curva glicêmica na gravidez: toda gestante precisa fazer? Especialista explica

Durante a gravidez, o acompanhamento da glicemia faz parte do pré-natal e tem um objetivo importante: identificar alterações que podem afetar a saúde da mãe e do bebê. Entre os exames utilizados nesse processo está a chamada curva glicêmica, conhecida tecnicamente como teste oral de tolerância à glicose (TOTG).

Mas será que toda gestante precisa fazer o exame?

A recomendação da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) é que o rastreamento do diabetes gestacional seja feito de forma universal em gestantes que não tenham diagnóstico prévio de diabetes, independentemente da presença de fatores de risco.

Isso acontece porque o diabetes gestacional pode surgir mesmo em mulheres que não apresentam características consideradas de maior risco e, muitas vezes, não provoca sintomas.

“A alteração da glicemia é a alteração metabólica mais comum na gestação”, explica a endocrinologista Denise Franco.

<><> O exame de curva glicêmica é obrigatório para todas as gestantes?

A resposta depende do resultado da avaliação feita no início do pré-natal.

A investigação começa na primeira consulta, geralmente com a solicitação da glicemia de jejum. Esse resultado pode indicar se a gestante apresenta uma alteração que já permite estabelecer o diagnóstico ou se será necessário continuar o rastreamento ao longo da gravidez.

Quando a glicemia de jejum no início da gestação está abaixo de 92 mg/dL, o resultado é considerado normal para esse momento. Nessa situação, a gestante deve seguir para o rastreamento do diabetes gestacional entre a 24ª e a 28ª semana, quando é realizado o TOTG de 75 g.

Já uma glicemia de jejum entre 92 e 125 mg/dL no início da gestação é compatível com diabetes gestacional. Valores iguais ou superiores a 126 mg/dL indicam diabetes diagnosticado na gestação.

Por isso, nem toda gestante necessariamente chegará à etapa do exame da curva glicêmica. Algumas já terão uma alteração identificada nas primeiras consultas e precisarão iniciar o acompanhamento específico.

<><> Por que a curva glicêmica é importante?

Uma das principais razões para realizar o TOTG é que a glicemia de jejum isolada não consegue identificar todas as alterações do metabolismo da glicose.

Durante o exame, a gestante ingere uma quantidade padronizada de glicose e tem a glicemia medida em diferentes momentos. Dessa forma, é possível observar como o organismo responde à sobrecarga de glicose.

“A curva glicêmica identifica intolerância à glicose que só se manifesta sob sobrecarga, algo que a glicemia de jejum isolada frequentemente não capta”, afirma Denise.

Segundo a endocrinologista, o exame também permite identificar elevações da glicemia após a ingestão da glicose, alterações que podem estar relacionadas a complicações da gestação, como o crescimento excessivo do bebê.

A identificação do diabetes gestacional permite iniciar o acompanhamento e as medidas necessárias para manter a glicemia dentro das metas estabelecidas.

<><> Quando a curva glicêmica é realizada?

Para as gestantes sem diagnóstico prévio de diabetes e que apresentaram glicemia normal no início do pré-natal, a recomendação é realizar o TOTG entre a 24ª e a 28ª semana de gestação.

O exame é feito com 75 gramas de glicose. Após um período de jejum, é realizada uma primeira coleta de sangue. Em seguida, a gestante ingere a solução de glicose e são feitas novas coletas uma e duas horas depois.

A preparação adequada também é importante para o resultado. A SBD recomenda que, nos três dias anteriores ao exame, a gestante mantenha uma alimentação sem restrição de carboidratos ou com pelo menos 150 gramas de carboidratos por dia. O exame deve ser realizado após oito horas de jejum.

<><> Quais valores podem indicar diabetes gestacional?

No TOTG de 75 g, um único resultado do exame acima do ponto de corte já pode confirmar o diagnóstico de diabetes gestacional.

Os valores utilizados são:

  • Jejum: igual ou superior a 92 mg/dL;
  • 1 hora após a ingestão: igual ou superior a 180 mg/dL;
  • 2 horas após a ingestão: igual ou superior a 153 mg/dL.

É importante destacar que esses valores fazem parte de uma avaliação médica e devem ser interpretados considerando o momento da gestação e o histórico da paciente. Resultados muito elevados podem indicar diabetes diagnosticado na gestação, e não apenas diabetes gestacional.

<><> Por que o rastreamento é feito mesmo sem fatores de risco?

O rastreamento universal é recomendado porque o diabetes gestacional não aparece somente em mulheres que já apresentam fatores de risco.

Entre as características associadas a um risco maior estão idade materna avançada, sobrepeso ou obesidade, histórico familiar de diabetes em parentes de primeiro grau, diabetes gestacional em uma gravidez anterior e condições relacionadas à resistência à insulina, como síndrome dos ovários policísticos.

Também entram nessa avaliação situações como hipertensão arterial, ganho excessivo de peso durante a gravidez, crescimento fetal excessivo, polidrâmnio, pré-eclâmpsia e histórico obstétrico de macrossomia, entre outros fatores.

Ainda assim, uma mulher sem nenhuma dessas características também pode desenvolver diabetes gestacional. É justamente por isso que a investigação através do exame não deve ficar restrita aos chamados grupos de risco.

<><> Quais são os riscos do diabetes gestacional não identificado?

Quando não identificado e acompanhado adequadamente, o diabetes gestacional pode aumentar o risco de complicações para a mãe e o bebê.

Entre os possíveis desfechos estão a macrossomia, que é o crescimento excessivo do bebê, distocia de ombro, hipoglicemia neonatal e maior possibilidade de parto cesáreo.

Para a gestante, a alteração da glicemia está associada a maior risco de hipertensão e pré-eclâmpsia, além de representar um sinal de maior risco metabólico no futuro.

“A elevação da glicemia durante a gestação permite uma intervenção terapêutica que reduz significativamente essas complicações”, explica Denise.

Por isso, identificar o problema não significa apenas dar um nome à alteração. O diagnóstico permite que a gestante receba orientação e acompanhamento para controlar a glicemia durante a gravidez.

<><> Toda gestante com diabetes gestacional precisa usar insulina?

Não.

O diagnóstico de diabetes gestacional não significa automaticamente que a gestante precisará utilizar insulina.

De acordo com Denise, o tratamento inicial envolve terapia nutricional médica e atividade física. A insulina é indicada quando as metas de glicemia não são alcançadas apenas com as mudanças no estilo de vida.

A necessidade ou não de medicamento depende da resposta individual de cada gestante e deve ser definida pela equipe responsável pelo acompanhamento.

<><> O que acontece depois do parto?

Em muitos casos, a alteração da glicemia melhora após o nascimento do bebê. Mesmo assim, o acompanhamento não deve terminar com o fim da gestação.

Ter diabetes gestacional aumenta de forma importante o risco de desenvolver diabetes tipo 2 posteriormente. Por isso, a SBD recomenda que a mulher faça um novo teste oral de tolerância à glicose com 75 g entre quatro e 12 semanas após o parto.

Depois dessa avaliação, o acompanhamento deve continuar de forma periódica, conforme os resultados e a orientação médica.

Esse cuidado é importante porque o diabetes gestacional pode funcionar como um alerta para a saúde metabólica da mulher nos anos seguintes.

<><> Em resumo: toda gestante precisa fazer a curva glicêmica?

O que é recomendado para todas as gestantes sem diagnóstico prévio de diabetes é o rastreamento do diabetes durante a gravidez.

O exame e investigação começa no início do pré-natal. Se a glicemia estiver normal nessa primeira avaliação, o TOTG de 75 g é indicado entre a 24ª e a 28ª semana.

Por outro lado, se a glicemia inicial já estiver alterada em níveis que permitam estabelecer o diagnóstico, a gestante não precisa esperar pela curva glicêmica para começar o acompanhamento.

O ponto principal é que a ausência de sintomas ou de fatores de risco não elimina a necessidade de investigação. O diabetes gestacional pode passar despercebido e, por isso, o rastreamento faz parte do acompanhamento pré-natal.

A decisão sobre quando realizar o exame e a interpretação dos resultados devem ser feitas pelo profissional ou pela equipe de saúde que acompanha a gestação.

 

Fonte: Um Diabético

 

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