quarta-feira, 26 de agosto de 2026

ENDIVIDAMENTO RECORDE LEVA ARGENTINO ÀS RUAS CONTRA A POLÍTICA ECONÔMICA DE MILEI

Nos últimos 20 meses, a inadimplência no sistema financeiro tem crescido de forma acelerada e assustadora, a ponto de, nesta semana, ganhar forma de protestos populares. O problema afeta quase 21 milhões de argentinos, o equivalente a 95% da população economicamente ativa. Destes, 6 milhões estão inadimplentes, o equivalente a 30%, e metade deles é considerada "irrecuperável".

Dentro do sistema financeiro, são 26,1% de inadimplentes, representando 17,5% de todos os empréstimos, um número sete vezes maior que o de dois anos atrás. Para se ter uma ideia da magnitude do problema, em outubro de 2024, a inadimplência era de 2,5% de todos os empréstimos.

Um quarto da massa salarial do país está comprometida com a inadimplência. Os argentinos devem aos bancos, às carteiras virtuais, aos cartões de crédito, aos sistemas de crédito dos supermercados e aos agiotas do bairro.

Os empréstimos foram para gastos básicos como comprar comida, pagar luz, gás, água. São montantes relativamente baixos, mas que se tornaram impagáveis devido a uma combinação explosiva de redução do salário, perda do emprego, aumento do custo de vida e taxas de juros estratosféricas.

No setor bancário, os juros vão de 55% a 172%, enquanto nas carteiras virtuais sobem para 260%, mas custos financeiros ocultos elevam as taxas para 400%, 700% e até 1.375%. A principal vilã para os juros exorbitantes é a fintech argentina Mercado Pago, que também atua no Brasil.

Nessas carteiras virtuais, com taxas consideradas excessivas, a inadimplência é de 31,5%. Nos sistemas de crédito dos supermercados, chega a 50%. Todos esses números são de créditos a pessoas físicas.

Quando se englobam os créditos às empresas, a inadimplência de todo o setor privado é de 7,6% do total, fazendo da Argentina o país com mais inadimplentes na América Latina. Em comparação, o Brasil tem 3,9%, um número alto, mas menos da metade da Argentina, segundo o Banco Mundial.

<><> Protestos crescem

Esses números revelam o desespero das pessoas, a preocupação do sistema bancário, a impossibilidade de reativar o consumo na Argentina e as taxas abusivas de bancos e de carteiras virtuais.

Por isso, na sexta-feira (21), às 15h, hOUVE um protesto no depósito de mercadorias da empresa Mercado Livre na cidade de La Matanza, na periferia de Buenos Aires. A empresa também financia as suas vendas com taxas como as do Mercado Pago.

A manifestação FOI convocada por organizações políticas e movimentos sociais que identificam na empresa a prática de usura. As empresas já foram denunciadas na Justiça pelo Partido Obreiro. "Apresentamos uma denúncia penal por possível crime de usura. A própria empresa informa taxas com um custo financeiro total de até 1.375,94% anual. Estamos falando de um mecanismo de endividamento que pode confiscar as receitas de trabalhadores e de famílias que recorrem ao crédito porque o salário não é suficiente", explicou o dirigente Gabriel Solano, autor da denúncia.

A Mercado Livre e a Mercado Pago são empresas argentinas que atuam em toda a América Latina, inclusive no Brasil. O dono é Marcos Galperín, que se tornou a cara do problema ao cobrar taxas anuais mais de 40 vezes superiores à inflação do país que, embora seja alta, acumula 33,8% nos últimos 12 meses.

Na quinta-feira (20), centrais sindicais e movimentos sociais foram até a Praça de Maio para pressionar o governo por uma solução. O protesto foi também contra o plano econômico do presidente Javier Milei, apontado como a origem do problema. O alvo inicial da manifestação era o Ministério da Economia, ao lado da Casa Rosada, mas o governo colocou barreiras para impedir o protesto. Na quarta-feira (19), o coletivo político Libres del Sur foi até a Mercado Pago para expor a empresa líder das carteiras virtuais e o seu dono.

No protesto na Praça de Maio, Silvia Amarilla, de 46 anos, empregada doméstica desempregada, convocada pela Libres del Sur, explica à RFI que a família depende do baixo salário do marido, um trabalhador informal. "Antes de o presidente Milei assumir o cargo, podíamos reformar a casa, podíamos comer, podíamos comprar roupa e sobrava para comprar um cachorro-quente para os meus filhos. Não sobrava muito, mas chegávamos ao final do mês. Agora, a renda só dura até o dia 12 de cada mês. Nossos três filhos menores de idade não entendem de dívida. Perguntam o que há para comer e, por mais que expliquemos a situação, continuam com fome", descreve Silvia.

Há um ano, Silvia pediu 200 mil pesos argentinos ao Mercado Pago, o equivalente a 650 reais. Já pagou o equivalente ao capital inicial, mas ainda deve 400 mil pesos e acaba de se tornar inadimplente ao entrar no terceiro mês sem pagamento do crédito. Os 200 mil pesos originais se triplicaram e a dívida continua a subir. "Provoca tristeza, raiva e muita frustração porque você vive o dia-a-dia sem saber se terá o suficiente para comer no dia seguinte", lamenta. A família cortou o jantar como refeição diária, cortou itens de higiene pessoal e de limpeza da casa. "Suprimimos o jantar, a higiene pessoal e a da casa. É desesperador perder coisas necessárias", desabafa Silvia à RFI.

Carolina Daniel, de 33 anos, perdeu o emprego numa cooperativa há nove meses, quando passou a trabalhar como doméstica. O marido mantém o emprego, mas a renda é insuficiente para cobrir os gastos até final do mês. "Para sobreviver, abrimos uma venda de comida na porta de casa e compramos um carrinho de cachorro-quente para vender na praça. Temos dois filhos. Tivemos de nos endividar para comprar alimentos e para pagar o colégio das crianças", conta Carolina à RFI.

Há um ano, Carolina pediu 1,5 milhão de pesos, equivalentes a 500 reais. Hoje deve 3,5 milhões de pesos e caiu na inadimplência. A dívida é com o Banco Patagonia, controlado pelo Banco do Brasil na Argentina. "Queremos pagar as dívidas, que o salário aumente, que as tarifas de luz, gás e água diminuam e que o presidente preste atenção no bolso dos trabalhadores e não no negócio dos empresarios", pede. Silvia e Carolina esperam que o governo ajude a refinanciar as dívidas, aumentando prazos e contendo as taxas de juros.

<><> Governo, mero analista do mercado

O governo mostra-se insensível ao problema que o próprio presidente Javier Milei gerou ao liberar as taxas de juros, que passaram a não ter teto. Salários dos servidores públicos e aposentadorias foram diluídos.

Os salários do setor privado, em geral, também perderam para a inflação. No ano passado, para conter uma corrida ao dólar, Milei subiu as taxas de juros de referência para 95%, mas, antes, para incentivar o crédito, disse que "o pior do ajuste fiscal já tinha passado" e que "o futuro seria melhor".

Confrontado com o problema, Milei disse que a inadimplência é um "problema entre privados" e que "ninguém colocou uma pistola na cabeça (dos devedores) para tomarem um crédito".

Já o ministro da Economia, Luis Caputo, disse que "empatia não pode ser confundida com política pública" e "que taxas de juros de 400% ou de 700% são abusivas", mas "nada impede que sejam cobradas". Ou seja: o governo comenta a realidade como um mero espectador. "Se o estado sabe que milhões de trabalhadores estão endividados e que as carteiras virtuais concentram níveis de inadimplência superiores aos dos bancos, não pode lavar as mãos, permitindo que empresas como Mercado Pago façam um negócio extraordinário com a necessidade das famílias", criticou Gabriel Solano.

<><> A origem do endividamento pessoal

Desde que Milei assumiu em dezembro de 2023, os salários registrados perderam para a inflação. No caso do setor privado, a média é de 6,5%, mas com perdas de até 12,6% em determinados setores. Para os funcionários públicos e aposentados, as perdas foram de 36,5%.

Mais de 20% dos funcionários públicos foram demitidos por Milei. São pessoas que ficaram sem renda formal. O "salário disponível", ou seja, o montante que sobra depois de pagar as tarifas públicas, perdeu 20% do poder aquisitivo. As tarifas de serviços públicos representavam 6% dos salários médios; hoje, representam 15%.

Uma pesquisa da consultora Zentrix indica que, para seis de cada dez argentinos, o salário termina antes do dia 20 de cada mês. São 61% que não passam do dia 20. Outros 24,3% não chegam até o dia 30, totalizando mais de 85% da população, um número em linha com a quantidade de devedores totais do sistema.

¨      Milei perde 314 mil empregos formais e enfrenta crise antes da reeleição

O governo de Javier Milei enfrenta uma crise no mercado de trabalho argentino que se tornou a principal ameaça à sua tentativa de reeleição no próximo ano. O emprego formal, aquele com carteira assinada, salário fixo, benefícios e assistência médica, vem encolhendo de forma consistente desde que o presidente assumiu o cargo.

Desde o início do governo, cerca de 314 mil argentinos perderam o emprego, sendo 241 mil em postos de trabalho com carteira assinada no setor privado, e 73 mil em cargos no funcionalismo público. O número de empresas formalmente registradas no país caiu para 482 mil, o menor patamar desde 2007. Apenas uma província do país registrou abertura líquida de empresas durante a gestão Milei, sinal de que trabalhadores não conseguem migrar de setores em crise para outros em expansão.

<>< Indústria e construção civil

Indústria e construção lideraram as demissões no mercado formal, atingidas diretamente pelos cortes de gastos públicos do governo, que reduziram investimentos em obras e elevaram tarifas de serviços básicos.

Ao mesmo tempo, cresceu o número de argentinos recorrendo a aplicativos de entrega, transporte e trabalhos informais em restaurantes para tentar fechar as contas. Até setores considerados mais competitivos da economia, como petróleo, mineração e tecnologia, tiveram contratações em queda ou estagnadas no período.

<><> Informalidade como último recurso

A taxa de desemprego na economia formal argentina subiu para 7,8%, mas o dado real de precarização é ainda maior: a informalidade já representa 44% da força de trabalho do país. Trabalhadores de diferentes níveis de renda e escolaridade têm sido empurrados para essa condição, vista por especialistas como último recurso diante da falta de vagas formais, e não como escolha.

Programas de capacitação profissional para ofícios como carpintaria e eletricidade registraram alta de cerca de 40% nas inscrições em relação ao ano anterior, reflexo direto da dificuldade crescente de trabalhadores argentinos em encontrar emprego suficiente para sobreviver.

<><> Popularidade cai

Pesquisas de opinião mostram que o desemprego já superou a preocupação com a inflação entre os eleitores argentinos, no momento em que a aprovação de Milei, de 37%, está próxima do menor nível de todo o seu mandato.

Parte da destruição de empregos é resultado direto das políticas do governo: a valorização artificial da moeda argentina, somada a controles cambiais ainda em vigor, encareceu serviços internos e pressionou indústrias locais frente à concorrência estrangeira.

Os salários do setor privado, embora tenham dobrado em valor de dólar, também levaram empresas a considerar transferir contratações para outros países com custos trabalhistas menores, reduzindo ainda mais as oportunidades para trabalhadores argentinos, especialmente os que buscam o primeiro emprego.

¨      Crise Multifacetada

Em agosto de 2026, o governo de Javier Milei enfrenta uma crise multifacetada marcada por protestos populares contra o endividamento recorde das famílias, a queda no emprego formal e um severo rebaixamento nas relações diplomáticas com o Brasil.

<><> Crise Econômica e Social

  • Endividamento e Inadimplência:

- Milhares de argentinos foram às ruas em meados de agosto de 2026 para protestar em Buenos Aires. O índice de inadimplência das famílias disparou para patamares não vistos desde a crise de 2001, impulsionado pelo peso das tarifas públicas e juros elevados.

  • Mercado de Trabalho:

- Apesar da queda da inflação anual (para cerca de 33%) e do controle do déficit fiscal, o setor formal perdeu vagas e a renda de funcionários públicos e aposentados sofreu fortes quedas.

  • Resistência no Plano Econômico:

- Mesmo sob pressão popular e sinais de desaceleração econômica, Milei resiste em mudar os pilares de seu programa de austeridade.

<><> Crise Diplomática com o Brasil

  • Ataques a Lula:

- No início de agosto de 2026, Milei reiterou ofensas públicas contra o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva em entrevistas na televisão.

  • Retaliação Diplomática:

- Em 4 de agosto de 2026, o governo brasileiro decidiu rebaixar o nível das relações diplomáticas com a Argentina para o posto de encarregado de negócios, mantendo o embaixador afastado até que os ataques cessem.

<><> Outras Polêmicas

  • Vigilância e Direitos:

Um relatório divulgado pela Amnesty International em agosto apontou que o - governo expandiu tecnologias de controle digital e inteligência artificial para monitorar cidadãos e conter protestos.

  • Investigações:

- O entorno político de Milei também enfrenta desgaste devido a denúncias de irregularidades e esquemas de corrupção envolvendo órgãos do Estado.

¨      MILEI confirma: disputará reeleição na Argentina e diz que seu governo 'é o melhor da história'

O presidente da Argentina, Javier Milei, confirmou neste domingo (23) que buscará a reeleição em 2027 e afirmou que pretende aprofundar as reformas implementadas desde sua chegada ao poder. A decisão foi anunciada pelo próprio líder argentino durante entrevista a uma rádio local.

"Vou disputar a reeleição. Se estou fazendo o melhor governo da história, como não vou tentar a reeleição?", declarou Milei.

O presidente reconheceu que a Argentina ainda "não está bem", mas avaliou que o país está "muito melhor" do que quando assumiu o cargo, em 2023. Milei também afirmou ter cumprido uma "montanha de promessas" apresentadas durante a campanha eleitoral.

Segundo os números citados pelo mandatário, a taxa de pobreza caiu de 57% para 30%. Ele também apontou o desempenho do consumo e do PIB entre os indicadores que, em sua avaliação, demonstram os avanços de sua gestão.

"Se os argentinos quiserem continuar avançando no caminho do progresso, do crescimento, da liberdade e do bem-estar, vão me escolher", declarou.

A próxima eleição presidencial argentina está prevista para outubro de 2027, enquanto o atual mandato de Milei termina em 10 de dezembro do mesmo ano.

<><> Crise diplomática com o Brasil

O governo argentino vive atualmente uma crise diplomática inédita com o Brasil, após ataques em sequência de Milei contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas últimas semanas. No início do mês, o Itamaraty comunicou ao embaixador argentino em Brasília, Guillermo Daniel Raimondi, que as tratativas diplomáticas passarão a ser conduzidas apenas pelo encarregado de negócios da representação.

A resposta inclui também a retirada de Julio Bitelli da Embaixada do Brasil em Buenos Aires. Com isso, o posto permanecerá vago enquanto Milei mantiver os ataques ao presidente brasileiro e a integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF).

A decisão foi tomada após Milei participar, em São Paulo, do lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). No evento, o presidente argentino chamou Lula de "ladrão" e "presidiário" e classificou o ministro Alexandre de Moraes como "lixo careca", após o magistrado impedir sua visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontaram que os insultos são parte da estratégia de Milei para fortalecer sua base em meio à queda de popularidade. "Hoje, a gente não consegue dividir tanto política externa e política interna. As duas coisas estão muito entrelaçadas", avalia a pesquisadora Beatriz Bandeira de Mello.

Segundo a especialista, Milei tem o costume de, diante sua impopularidade, reforçar sua agenda ao lado dos EUA e criar embates com parceiros tradicionais e regionais. "Ele já fez isso com a Espanha e com a Colômbia."

 

Fonte: ICL Notícias/UOL/Sputnik Brasil

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário