Ele
é o candidato da extrema-direita? Programa de Flávio Bolsonaro promete
respeitar “todos os arranjos familiares”
O
programa radicaliza os eixos: promete extermínio, exceção salvadorenha, entrega
de minerais críticos e Estado mínimo. É a marca da direita radical: não rompe
com a democracia constitucional; tensiona-a por dentro...
O
programa de Flávio Bolsonaro apresentado ao TSE, Para o Brasil vencer o atraso,
registra formalmente um conjunto de moderações que o candidato já anunciava.
Traz uma frase impensável no bolsonarismo de 2018 – “Este Plano respeita todos
os arranjos familiares” – e uma série de acenos: manter os programas sociais
(“nenhum brasileiro fica para trás”); tratar o meio ambiente como “ativo”;
zerar o desmatamento ilegal; dar “autonomia” a povos indígenas e quilombolas
(que já não são medidos em arrobas, como fez seu pai); proteger as mulheres com
o que anuncia como o maior programa da história. E não fala em armamento: o
marcador identitário central de anos atrás sai da vitrine.
Aliás,
nos quatro planos de governo da direita registrados no TSE, os termos que
definiram o ciclo anterior – “globalismo”, “marxismo cultural”, “ideologia de
gênero”, “kit gay” – praticamente desapareceram. Em seu lugar, uma gramática
punitivista-gerencial: “narcoterrorismo”, “terrorismo doméstico”, “Direito
Penal do Inimigo”, “implacável”, “tesouraço”.
O
desaparecimento desse léxico não significa que a guerra cultural acabou –
significa que seus fronts se decidiram de forma desigual: na agenda de
diversidade e ambiental, a direita e suas variantes extremas recuaram no
vocabulário para não perder o centro; na punição, a extrema direita tem
conseguido impor seu repertório.
Então
uma pergunta se impõe: ainda estamos diante de um candidato de extrema direita?
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Desdiabolização
A
literatura internacional chama de normalização um traço definidor da onda
contemporânea da extrema direita, e que significa duas coisas. Na Europa, o
fato de os partidos criados à margem serem aos poucos incorporados na arena
eleitoral ordinária. No campo das ideias, mais difusamente, o processo pelo
qual suas bandeiras migram das margens para o centro do debate.
Há
também um outro tipo de normalização dessa extrema direita, que é a
incorporação de uma face moderna a líderes que defendem expressamente ou que já
defenderam pautas contra legados básicos do iluminismo.
O caso
clássico é a dédiabolisation, de Marine Le Pen: expulsar o pai, abandonar o
antissemitismo explícito, profissionalizar o discurso, tudo sem alterar o
núcleo do programa. Meloni governa dentro das metas fiscais da União Europeia;
Bardella é o rosto palatável do lepenismo; Kast suavizou o tom no Chile. O
programa de Flávio Bolsonaro é a tradução brasileira dessa gramática.
Se a
desdiabolização é justamente a arte de mudar o que se diz e como se diz, o
critério para classificar a extrema direita não pode estar apenas no
vocabulário.
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O que vale é o que se faz
A
posição dos atores no sistema político não se define apenas por ideias
professadas – menos ainda pelas adotadas por conveniência. O lugar de extrema
direita no espectro político é ocupado pela relação efetiva dos atores com a
democracia constitucional: sua disposição de aceitar, justificar ou promover a
sua interrupção. É o que eu, Isabela Kalil e Letícia Cesarino defendemos em
livro sobre o conceito de extrema direita, que está prestes a ser lançado pela
Editora Contracorrente.
Flávio
silencia sobre o 8 de janeiro e sobre a anistia – e não precisa defendê-la
expressamente, como faz Ronaldo Caiado. Ele é filho de Jair Bolsonaro: o preso,
o pivô, o inelegível cuja absolvição é a razão de ser da própria candidatura. O
sobrenome carrega o compromisso que o texto cala.
A
relação com a democracia define a fronteira do campo. Mas o campo tem também um
conteúdo.
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Definição
O campo
da direita brasileira se organiza em torno de três eixos de longa duração – o
privatismo patrimonial e religioso, o patriotismo subalterno e o punitivismo
seletivo –, atravessados por um quarto elemento, o antipluralismo, todos contra
o programa da Constituição de 1988. A gradação política que vai da direita,
passa pela extrema direita e chega à direita ultrarradical é a gradação da
menor ou maior radicalização desses elementos. Este também é arranjo conceitual
que propomos no livro que mencionei.
Estão
todos esses elementos no programa de Flávio Bolsonaro.
O
punitivismo, ao contrário de tudo o mais, está ali sem moderação alguma
Não é à
toa: a demanda por segurança é imensa e totalmente legítima – provavelmente a
mais legítima e popular das demandas brasileiras hoje. A extrema direita
captura esse problema com o espetáculo punitivo, que não é uma política de
segurança, antes é a sua canibalização.
Redução
da maioridade penal, bandido que “vai virar pó”, cinco novos presídios de
segurança máxima, batizados de TREVA, que seguirão, nas palavras do próprio
texto, “o modelo adotado por El Salvador” – um país de cerca de 6 milhões de
habitantes. Transpor esse arranjo para 213 milhões de brasileiros, em dimensão
continental e com facções nacionalizadas há décadas, não é política pública: é
fantasia de escala com custo constitucional – e de classe e raça –
embutido.
<><> Neoliberalismo
O
neoliberalismo distingue a extrema direita da América Latina de seus pares do
norte global. O programa de Flávio é coerente com isso. Fala em retomada das
desestatizações, corte de dez ministérios, vouchers para creche e escola,
negociado sobre o legislado, cruzada contra a “República Sindical” e o
“Tesouraço” como bandeira-síntese. O vocabulário da “prosperidade” – a CAIXA
rebatizada de “Banco da Prosperidade” – dá nome à subjetividade que esse
projeto fabrica: o indivíduo como empresa de si, responsável exclusivo pelo
próprio êxito e pelo próprio fracasso. O capítulo “Brasil que Prospera” formula
com clareza rara a individualização do risco social: a jornada é a que o
cidadão “percorre pelas próprias pernas”. Até o que soa como aceno tem tradução
privatista: o meio ambiente vira “ativo”, e a “autonomia” prometida a indígenas
e quilombolas é a de “decidir sobre atividades produtivas em suas terras” – a
abertura econômica dos territórios com vocabulário de autodeterminação.
Mas o
programa faz com um giro notável também alinhado ao movimento transnacional. O
trumpismo é inspirado pela corrente paleoconservadora da direita
norte-americana, especialmente por Pat Buchanan, que propunha tarifas,
protecionismo e nacionalismo econômico para proteger os “americanos
esquecidos”. No programa de Flávio, não há protecionismo – há, sim, a linhagem
do “privatizar tudo que for possível”. Mas existe uma inspiração retórica.
O texto
promete que “nenhum brasileiro fica para trás”, fala ao povo “humilhado ao
frequentar os supermercados” e invoca a gramática dos esquecidos que o MAGA de
2016 consagrou. A coesão que, lá, cabe ao nacionalismo econômico ou ao
chauvinismo de bem-estar – o que aproxima o trumpismo da extrema direita
europeia – coube, aqui, como sempre, à moral e à segurança.
Os
mimetismos com a esquerda são uma tônica da extrema direita contemporânea, que
copia dos adversários métodos e linguagens para pô-los a serviço de fins
opostos. Este é mais um: falar aos “deixados para trás” é uma linguagem de
proteção da classe trabalhadora que não existiria sem a esquerda que a criou. O
programa a mimetiza sem os instrumentos – sem protecionismo, sem política
social como direito e com o entreguismo como política externa.
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Soberania de porta de casa
O
programa dedica seções inteiras à soberania, mas a define assim: “a soberania
começa na porta da sua casa”. Esvaziada de conteúdo econômico e geopolítico – a
família Bolsonaro insiste em subordinar o Brasil aos EUA –, a soberania vira
sinônimo de segurança pública – e o que sobra da política externa é o
alinhamento. O texto lamenta que as relações com Estados Unidos e Israel tenham
sido “levadas ao limite do rompimento”, promete entregar minerais críticos e
terras raras ao “capital estrangeiro e a tecnologia que já existem no mundo” e,
diante das sanções norte-americanas a produtos brasileiros, oferece apenas
“soluções diplomáticas eficazes”.
Ali se
promete declarar PCC, CV e milícias “organizações narcoterroristas”. A
categoria não é neutra. O “narcoterrorismo” é uma fórmula que circula pelo
repertório transnacional da extrema direita das Américas – de Donald Trump a
Nayib Bukele e Javier Milei – e cumpre dupla função: funde o crime organizado à
esquerda política e, ao enquadrar facções brasileiras na moldura do terrorismo
internacional, abre caminho para atuação norte-americana em território
nacional, de sanções a pressões militares, e vem constituindo uma verdadeira
estratégia de lawfare. Um programa que dedica um capítulo inteiro à palavra
“soberania” adota, na sua primeira página programática, a categoria que mais a
fragiliza.
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O antipluralismo em doses calculadas
O
quarto elemento atravessa o documento em doses medidas. A escola será “livre de
doutrinação político-partidária”, os professores formados “para ensinar bem, e
não para militar em sala de aula”, as escolas cívico-militares ampliadas. A
contradição merece ser dita: condena-se a suposta doutrinação ideológica e
propõe-se a doutrinação literal – fardada, hierárquica,
institucionalizada.
E o
“Tesouraço na Censura”, contra o suposto “Ministério da Verdade” do governo
atual – referência à Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD) –,
mostra o mimetismo que marca o campo: a captura do vocabulário da liberdade de
expressão, historicamente caro à esquerda e ao liberalismo político, como arma
de guerra cultural.
O
privatismo religioso e societal, por sua vez, comparece sem disfarce: o
documento põe a “vida desde a concepção” entre os valores inegociáveis e define
que “quem decide sobre os valores que o filho recebe são os pais”. E nenhuma
palavra sobre direitos reprodutivos, em um programa que se anuncia feito para
as mulheres. A autoridade do pai sobre a família como espelho da autoridade do
mercado sobre a sociedade.
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Falar a língua da democracia
A
extrema direita é, por definição, a força que avança sobre os princípios
básicos do liberalismo político – direitos universais, contrapesos, pluralismo
– mesmo quando adota a sua língua. O vocabulário está lá; o conteúdo
igualitário, não.
Deixaria
de ser extrema direita o programa que abandonasse a fabricação do inimigo
interno; que desradicalizasse os eixos que estruturam o campo; e que parasse de
tensionar a democracia constitucional. Este documento não passa em nenhum dos
três testes.
Mantém
todos os inimigos: a “República Sindical”, as ONGs de “dinheiro estrangeiro”,
os professores “militantes”, as facções fundidas à esquerda pelo
“narcoterrorismo”. Definir-se pelo combate a adversários não é um monopólio da
extrema direita: o campo progressista também se organiza contra algo – a
concentração de renda, a exploração do trabalho, a dominação de gênero. A
diferença está no estatuto do antagonista. Os alvos da esquerda são estruturas;
os inimigos da extrema direita são particularizados. E é justamente essa
inexistência que o torna indestrutível: cada desmentido é lido como prova de
que o complô funciona.
O
programa radicaliza os eixos: promete extermínio, exceção salvadorenha, entrega
de minerais críticos e Estado mínimo. É a marca da direita radical: não rompe
com a democracia constitucional; tensiona-a por dentro. E não é textual sobre a
vertente ultrarradical – a que promove a abolição do Estado de direito – porque
o filho de Bolsonaro não precisa dizê-lo.
A
moderação é sinal de que o eleitorado radical é insuficiente e já está
integralmente capturado e que é preciso novamente acenar a algum centro. É
sinal, também, de que as pautas dos movimentos feminista, LGBTQIA+ e ambiental
se tornaram majoritárias demais para serem confrontadas de frente.
A
moderação, portanto, não revela uma extrema direita que mudou. A ambiguidade é
calculada: incorporar o vocabulário liberal para esvaziar a esquerda, não para
adotar sua agenda.
Fonte:
Por Marina Basso Lacerda, no Le Monde

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