Como
a Argentina baniu a oposição
Imagine
a pessoa em quem você já havia decidido votar na próxima eleição — o líder em
quem seu grupo mais confia, aquele cujo nome você colocaria na cédula sem
pensar duas vezes. Não uma figura marginal. Não alguém flagrado enriquecendo
ilicitamente ou acusado de forma crível de ordenar um assassinato em uma
esquina. Imagine acordar com a notícia de que essa pessoa não estará na cédula,
porque um tribunal decidiu que as atividades comuns de governar — um contrato
assinado, um subsídio aprovado, um programa lançado, um orçamento promulgado —
constituíam, na verdade, um crime e a condenou à prisão, banindo-a da vida
pública para sempre.
Mantenha
essa pessoa em mente, seja quem for. Para metade do país, é de esquerda; para a
outra metade, de direita. Esse é exatamente o ponto. Todo líder que de fato
governou deixa um legado de decisões contestáveis — a essência de
governar nada mais é do que decisões contestáveis — e qualquer uma
delas pode ser relida posteriormente por um promotor motivado e um tribunal
complacente, não como política, mas como crime. A máquina política não se
importa com quem você votou. Ela só precisa de um alvo e um tribunal.
A
maioria dos cidadãos, independentemente de suas convicções políticas,
reconheceria imediatamente o que estava diante de seus olhos. Não se tratava do
Estado de Direito, mas de sua inversão: os tribunais transformados em
instrumento para eliminar o oponente que as urnas não conseguiriam.
Compreenderiam que uma república na qual o Estado pode prender e desqualificar
o favorito das pesquisas, criminalizando os atos do governo, deixou de ser uma
democracia em qualquer sentido relevante — e que as eleições realizadas
posteriormente, por mais transparente que seja a contagem dos votos, são, em
sua essência, vazias.
Para os
argentinos, nada disso exige imaginação. São simplesmente as notícias.
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Banida da vida política para sempre
Essa
política é Cristina Fernández de Kirchner. Eleita presidente duas vezes e
posteriormente vice-presidente, ela nunca perdeu uma eleição nacional. Hoje,
lidera o Partido Justicialista e continua sendo a figura mais formidável que a
política argentina produziu neste século. Sua estatura política tem sido
comparada à de Eva Perón.
Desde
junho de 2025, no entanto, Kirchner está presa. Por ter mais de setenta anos,
ela cumpre sua pena em prisão domiciliar em um apartamento na rua San José,
1111, em Buenos Aires. Uma tornozeleira eletrônica monitora seus movimentos.
Suas visitas são restritas por ordem judicial. Até mesmo seu acesso ao terraço
de sua casa tornou-se objeto de litígio federal. Este mês, um tribunal de
apelações recusou-se novamente a flexibilizar essas condições. Sua sentença —
seis anos de prisão e inabilitação permanente para cargos públicos — é
definitiva. Ela não aparecerá nas urnas em 2027. Ela não aparecerá em nenhuma
outra cédula eleitoral.
O caso
que originou essa condenação, conhecido como Vialidad, dizia
respeito à administração de contratos de obras rodoviárias públicas na
província de Santa Cruz, no sul do país. É importante especificar em que se
baseia a condenação, pois os detalhes constituem a essência da argumentação. O
laudo pericial que sustentou a alegação de fraude analisou apenas cinco dos
cinquenta e um projetos rodoviários. O próprio tribunal admitiu não ter provas
diretas de conduta criminosa e ter fundamentado sua argumentação com base em
inferências.
O
Supremo Tribunal que proferiu a condenação foi reduzido a três juízes. Até
mesmo Raúl Zaffaroni, ex-ministro do Supremo Tribunal e figura de destaque,
observou que nenhum país sério confia sua mais alta corte a um painel de apenas
três pessoas. Vários dos juízes que atuaram no caso em diferentes fases mantêm
laços sociais bem documentados com Mauricio Macri, o presidente conservador sob
o qual o processo ganhou forma. Kirchner era a inimiga perfeita para Macri e a
direita argentina: mulher, peronista e defensora da redistribuição de renda.
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Dos tanques aos tribunais
Vale
lembrar também que a primeira tentativa não foi por meio do tribunal. Em
setembro de 2022, quando a acusação chegava ao seu clímax, um homem abriu
caminho pela multidão em frente à casa de Kirchner, apontou uma pistola para o
rosto dela e apertou o gatilho duas vezes. A arma não disparou.
Anos
depois, a questão de quem, se é que alguém, o instruiu permanece sem resposta.
Um dos maiores jornais do país registrou a sequência em uma manchete muito
comentada na época: a bala que não disparou e a sentença que dispararia.
A bala falhou. A sentença, não.
Os
argentinos têm uma palavra para o que está sendo feito com Kirchner, e eles não
a criaram para a ocasião: “proscripción” — proscrição. Após o golpe de
1955 que derrubou Juan Domingo Perón, o peronismo — o movimento da classe
trabalhadora organizada do país e, durante a maior parte desse período, sua
maioria eleitoral — foi banido completamente das eleições nacionais por dezoito
anos. Seu líder viveu no exílio; seus candidatos foram excluídos das cédulas;
seu próprio nome foi declarado, por um tempo, ilegal de ser impresso.
Os
generais e seus aliados civis entenderam algo que seus descendentes ainda
entendem: quando um movimento enraizado entre os trabalhadores e os pobres
continua vencendo, a maneira mais simples de governar contra a maioria é
impedir que ela escolha. O que mudou desde 1955 foi apenas o instrumento. Onde
antes se apoiavam em tanques e decretos, agora usam acusações e tribunais de
três juízes.
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Lawfare argentino
Éisso
que a palavra “lawfare” denomina — não uma teoria da conspiração, mas um
padrão reconhecível e recorrente com sua própria gramática, que se espalhou
pela região neste século. Fernando Lugo destituído do cargo no Paraguai por um
processo de impeachment de dois dias. Dilma Rousseff destituída no Brasil por
irregularidades na contabilidade orçamentária. Luiz Inácio Lula da Silva preso
e impedido de exercer cargos públicos antes de ser finalmente inocentado.
Rafael Correa condenado no Equador e forçado ao exílio. Evo Morales destituído
do cargo na Bolívia. Os detalhes diferem; a coreografia, não: um judiciário
complacente, uma mídia concentrada que chega a um veredicto antes dos
tribunais, uma diplomacia que aprova o resultado e sempre — sempre — um alvo
que governou para as pessoas erradas.
Os
argentinos irão às urnas em 2027 em um país onde a líder do maior partido de
oposição permanece sob vigilância em seu apartamento, impedida de concorrer. Os
votos serão quase certamente contados honestamente. É exatamente isso que torna
a situação tão instrutiva e sombria: é possível corroer uma democracia sem
sequer tocar na contagem dos votos, simplesmente decidindo antecipadamente quem
tem permissão para se candidatar.
Então,
voltemos ao experimento mental, porque na verdade não é uma hipótese — é uma
tradução do que já está acontecendo. Se você reconhecesse a prisão e a
desqualificação do candidato em quem pretendia votar como uma crise
democrática, então já entenderia o que está acontecendo em Buenos Aires.
¨
Colômbia e Israel: a cínica diplomacia do desastre. Por
Gabe Levine-Drizin
Na
manhã de 10 de agosto, um poderoso terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste
da Colômbia, deixando quase 300 mortos, 4.000 feridos e, segundo as últimas
estimativas, potencialmente milhares de desaparecidos. A crise representou um
teste inicial para o novo presidente de extrema direita, Abelardo de la
Espriella, que havia assumido o cargo poucos dias antes. Poucas horas após o
terremoto, enquanto colombianos ainda jaziam sob os escombros de prédios
destruídos, o governo emitiu uma longa declaração reconhecendo a soberania
israelense sobre as Colinas de Golã, território sírio ocupado ilegalmente por
Israel desde 1967. A declaração, que desencadeou uma crise diplomática com os
países árabes, colocou a Colômbia ao lado dos Estados Unidos como o único outro
país do mundo a reconhecer a reivindicação de Israel sobre o território.
Embora
o governo colombiano tenha sido justamente criticado, tanto nacional quanto
internacionalmente, pelo momento escolhido para o anúncio, isso não foi por
acaso. Apesar de o desejo de De la Espriella de estreitar laços com Israel ser
anterior ao terremoto, as ações do novo governo desde o desastre demonstram que
ele pretende usar a crise para justificar relações mais próximas com o país do
Oriente Médio. Essa dinâmica já se evidenciou na Venezuela, onde o envio de
ajuda humanitária por Israel após os terremotos devastadores abriu caminho para
a restauração das relações consulares entre os antigos inimigos.
A
reaproximação entre a Colômbia e Israel é particularmente difícil de aceitar,
dado o papel recente da Colômbia como líder do movimento global de
solidariedade com a Palestina sob a presidência de Gustavo Petro, antecessor de
De la Espriella. No entanto, faz parte de uma tendência regional mais ampla em
que governos de extrema direita demonstram sua lealdade a Israel ou fazem
gestos imediatos aos seus líderes assim que assumem o poder.
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A diplomacia do desastre
O terremoto
de 10 de agosto causou extensos danos nos departamentos de Chocó (seu
epicentro), Valle del Cauca, Risaralda, Quindío e Caldas. Houve cortes de
energia, desabamentos de prédios e o número de mortos continua subindo. Lutando
para lidar com o caos, o governo mobilizou recursos estaduais e contou com as
comunidades locais para grande parte do socorro imediato. As primeiras 72 horas
são consideradas críticas em uma resposta a terremotos para preservar a vida de
sobreviventes presos nos escombros, mas o governo levou três dias inteiros para
aceitar formalmente o auxílio das equipes internacionais de resgate e, quando
finalmente o fez, estabeleceu cooperação apenas com aliados de direita: Estados
Unidos, Equador, El Salvador e Israel.
Embora
este último caso possa ser uma surpresa, trata-se de um papel já conhecido dos
israelenses na região. Há décadas, o país fornece ajuda humanitária e equipes
de resgate após desastres naturais. Nos últimos anos, as Forças de Defesa de
Israel (IDF) e o Fórum Israelense para Ajuda Internacional (IsraAID) foram
mobilizados para o Peru, México e Haiti após terremotos, bem como para o Brasil
após o rompimento de uma barragem em 2019.
Essa
ajuda funciona como uma forma de diplomacia do desastre, buscando melhorar a
imagem de Israel no cenário internacional, mesmo enquanto utiliza a ajuda
humanitária em Gaza como arma de guerra contra os palestinos. Por meio desses
mecanismos, o Estado israelense busca melhorar as relações diplomáticas com
países cujos governos podem ter sido, em algum momento, mais críticos.
Na
vizinha Venezuela, o envio de ajuda israelense após os devastadores terremotos
seguidos lançou as bases para o restabelecimento das relações consulares. Como
Simón Rodríguez relatou recentemente para o North American Congress on
Latin America (NACLA), a missão de resgate de Israel foi
explicitamente apresentada por ambos os lados como uma forma de reiniciar as
relações diplomáticas que haviam sido rompidas sob o governo do ex-líder
venezuelano Hugo Chávez. Desde o início, a presidente interina Delcy Rodríguez
expressou sua esperança de que a ajuda “abrisse novos caminhos e portas” com
“países com os quais não temos relações diplomáticas”; o primeiro-ministro
israelense Benjamin Netanyahu, por sua vez, agradeceu à equipe de resgate
israelense por “reconstruir ruínas e relações”.
Na
Venezuela, os mesmos agentes humanitários que participaram da missão
desempenharam um papel ativo na justificativa e perpetuação do genocídio
israelense em curso em Gaza. Como Rodríguez destaca, a ZAKA, uma ONG fundada na
década de 1990 por um ex-membro de uma organização terrorista ultraortodoxa,
estava presente no local logo após os terremotos. A organização, especializada
em resposta a emergências e operações de resgate em Israel e no exterior, foi
uma das principais fontes de muitos dos mitos que a mídia estadunidense usou
para justificar o genocídio em resposta aos ataques de 7 de outubro, incluindo
a história dos bebês decapitados. Yosef Garmon, seu diretor para a América
Latina, chegou a postar um vídeo falando em espanhol das ruínas de Gaza, apelando
ao apoio de sionistas cristãos; em Caracas, ele se encontrou com estudantes
universitários, que foram filmados cantando, de forma desajeitada, o cântico
“Am Yisrael Chai” (O povo de Israel vive).
ZAKA
elogiou o anúncio de que Israel e Venezuela estavam restabelecendo formalmente
as relações consulares. Ele também se atribuiu o mérito de sua participação,
destacando que a missão foi um elemento essencial no processo.
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O manual venezuelano na Colômbia
De
volta ao país, tendo chegado a Bogotá horas antes, Garmon concedeu entrevistas
à televisão israelense da Colômbia logo após o terremoto que atingiu a região
na manhã de segunda-feira. Dias antes, ele esteve na cidade de Cali, onde já
havia atuado como rabino, para a posse presidencial de Abelardo de la
Espriella.
De la
Espriella definiu o estreitamento dos laços com Israel como uma prioridade.
Antes de assumir o cargo, ele havia anunciado sua intenção de transferir a
embaixada da Colômbia para Jerusalém e adiar a inauguração da embaixada em
Ramallah, além de se reunir com o ministro das Relações Exteriores israelense,
Gideon As’ar. Ele também anunciou a criação de uma comissão econômica bilateral
e a visita formal de uma delegação colombiana ao país em outubro.
Sob o
pretexto de responder à crise gerada pelo terremoto, a Colômbia elevou seu
apoio a Israel a novos patamares, incluindo uma declaração reconhecendo a
soberania israelense sobre as Colinas de Golã. De forma mais substancial, o
governo aproveitou o desastre natural para revogar dois decretos que proibiam a
exportação de carvão colombiano para Israel. O prazo obrigatório de cinco dias
para comentários sobre a legislação proposta começou no dia seguinte ao
terremoto, quando a atenção estava voltada para outros assuntos.
Essas
ações foram recebidas com entusiasmo pelo governo israelense. Na terça-feira,
um dia após o terremoto, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu divulgou um
vídeo agradecendo à Colômbia pelo reconhecimento da reivindicação de Israel
sobre as Colinas de Golã, afirmando que, assim como o “povo apoia as Colinas de
Golã”, hoje o “povo apoia a Colômbia”. No dia seguinte, após um pedido de De la
Espriella, Netanyahu ordenou o envio de uma missão humanitária formal.
Israel
foi um dos poucos países autorizados a enviar uma equipe de resgate, juntamente
com os Estados Unidos, Equador e El Salvador. Embora o governo tenha negado
qualquer motivação ideológica — alegando, em vez disso, que essas missões eram
as únicas que “cumpriam os protocolos internacionais” —, fica claro que só
estavam dispostos a aceitar a ajuda desesperadamente necessária de seus aliados
de direita. A rejeição, por parte do governo, de uma equipe de elite de busca e
resgate do México — cuja entrada no país, como revelou a presidente Claudia
Sheinbaum na manhã do dia 13 de agosto, foi negada — deixou evidente a
politização da ajuda.
A
missão formal de ajuda de Israel complementará o trabalho da ZAKA, que já atua
em cidades afetadas como Cali e Pereira. Assim como fizeram na Venezuela, os
israelenses já estão compartilhando com a imprensa relatos sobre a recepção
positiva que têm recebido dos cidadãos colombianos. Um empresário israelense
que também compareceu à posse de De la Espriella contou como colombianos o
abordaram para pedir sua bênção após os terremotos. Foi “o oposto do ódio”,
disse ele. Políticos colombianos de direita também estão elogiando publicamente
organizações israelenses como a ZAKA, destacando sua capacidade tecnológica e a
contribuição essencial que darão aos esforços de recuperação.
A ajuda
israelense pode ser um componente essencial para salvar vidas em uma situação
que permanece perigosa; pessoas ainda estão presas sob prédios e a janela de
oportunidade para encontrar sobreviventes nos escombros praticamente se fechou.
Da mesma forma, para muitos colombianos, a crença na capacidade tecnológica de
Israel provavelmente é apolítica, uma resposta a uma situação cada vez mais
desesperadora. No entanto, a rejeição, por parte do governo, de missões de
resgate estrangeiras como a da brigada mexicana — uma força com muito mais
experiência em operações pós-terremoto — sem dúvida levará a mortes
desnecessárias.
O foco
do governo colombiano em questões israelenses contrastou fortemente com a
coordenação de seus próprios esforços de resgate.
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Uma tendência regional
Sob a
liderança de Gustavo Petro, a Colômbia foi um líder global na luta para
responsabilizar Israel por seus crimes genocidas. Petro rompeu relações
diplomáticas e proibiu as exportações de carvão para Israel. Seu apoio
declarado à causa palestina também o colocou na mira do governo Trump, que em
determinado momento revogou seu visto estadunidense devido às suas críticas.
Embora
tenha ido mais longe do que qualquer outro líder da região, Petro não estava
sozinho em suas críticas ao genocídio israelense. Na época, os líderes da
Bolívia, do Chile e de Honduras faziam o mesmo, muitas vezes unindo forças em
organizações como o Grupo de Haia, dedicado a encontrar maneiras de
responsabilizar Israel. A América Latina estava na vanguarda do movimento de
solidariedade com a Palestina: além de seus líderes influentes, estudantes
lideraram acampamentos de solidariedade, sindicatos lançaram campanhas
inovadoras para boicotar produtos israelenses e grupos indígenas viram suas
próprias lutas refletidas na situação dos palestinos.
No
entanto, no último ano, uma série de vitórias eleitorais da direita mudou
drasticamente o cenário, já que esses novos líderes reverteram rapidamente
quaisquer políticas pró-Palestina. No último ano, presidentes recém-eleitos
como Rodrigo Paz na Bolívia, o de extrema direita José Antonio Kast no Chile e
Nasry Asfura em Honduras (que, aliás, é de ascendência palestina) reabriram ou
fortaleceram ativamente seus laços com Israel desde que assumiram o cargo.
Um ano
antes, com o governo cada vez mais isolado no cenário global, Israel voltou sua
atenção para a América Latina, e seus esforços parecem estar dando frutos. No
final do ano passado, o Ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon
As’ar, declarou que 2026 seria o “Ano da América Latina” para Israel. Desde
então, ele tem trabalhado para tornar esse sonho realidade, reunindo-se com
ministros de relações exteriores de países aliados e visitando a região
pessoalmente.
Nos
casos da Venezuela e da Colômbia, o auxílio humanitário proporcionou ao Estado
israelense um meio de se conectar diretamente com as populações locais. Também
permitiu que esses governos legitimassem sua aproximação com um Estado
amplamente condenado pela maioria de sua população.
As
missões de ajuda externa são há muito entendidas como uma extensão da
diplomacia. No entanto, a ajuda motivada principalmente por objetivos políticos
em vez de humanitários — exemplificada pela rejeição, por parte do governo
colombiano, de missões de resgate de países não alinhados e pela forma como
Israel enquadra a ajuda humanitária como um veículo para alcançar objetivos
geopolíticos e garantir o acesso a recursos — reflete apenas a aversão dos
líderes de direita à cooperação diplomática em favor do transacionalismo.
Fonte:
Por Delfina Rossi e Franco Metaza - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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