Capitalismo
digital e uberização social
Há dois
conceitos, que são fatos e fenômenos hegemônicos na atualidade: o capitalismo
digital e a uberização social. Qualquer decisão institucional ou ação política
tem que passar por essa análise. Depois, enquanto esforço docente, por exemplo,
nossa obrigação, além de entender melhor a nossa realidade, é pensar na
proposição de uma Educação crítica a esses processos, especialmente a
uberização social – uma vez que está presente na vida de todos nós, sem que
tenhamos consciência disso. A uberização social, assim como o “servilismo
voluntário”, é fato notório para quem pede uma pizza em casa – ou quando acessa
alguma rede social.
Esses
“dados” estão interligados. Uma observação essencial diz respeito à perda total
de autonomia e liberdade, por quem trabalha sob alguma plataforma de
uberização. Confunde-se, pelo sentido pejorativo da ideologia, uberização e
empreendedorismo, e isso é um erro absurdo, uma falha total na epistemologia
diante desses processos, uma vez que a pessoa uberizada perde totalmente a
autonomia frente à plataforma que também atua como meio de controle social e
punição.
Por
uberização nas relações de trabalho, basicamente, entende-se a máxima
exploração das classes trabalhadoras (agora, em parte, uberizadas) e da total
insegurança jurídica: as plataformas contratantes da mão de obra uberizada não
tem nenhum vínculo trabalhista, não se comprometem com nenhum direito
assegurado, inclusive, constitucionalmente. Não é difícil encontrar
instituições, institutos, universidades que compram um “curso” de docentes –
pagando somente as horas gravadas – e o revendem infinitamente.
Essa
forma de uberização, ligada ao formato EAD – educação à distância, bem distante
da dignidade humana – é uma das formas mais graves de expropriação do esforço
docente: é sinônimo de vassalagem no Mundo do Trabalho.
É
interessante lermos o artigo 7º da Constituição de 1988, na esteira dos
direitos sociais fundamentais, e assim compararmos com a realidade laboral,
existencial, de qualquer motorista uberizado/a ou entregador/a como mototáxi
(ou docente de EAD). Do ponto de vista jurídico e de quem é explorado/a
(controlado/a em todos os passos), nossa observação verifica um quadro que
poderíamos chamar de “escravidão moderna”. Aliás, não será coincidência a
implicância regular, diária, da “exploração do trabalho em condições análogas à
escravidão” – como nos diz a mesma Lei Constitucional.
As
plataformas digitais contribuem magistralmente com esse cenário porque foram
elas que redigiram ou implementaram os algoritmos que tanto servem ao controle
social – no caso específico de quem está sob júdice da uberização –, quanto
lucram absurdamente com a total desregulamentação como temos hoje.
A
margem de lucro (ou extração de mais-valia) das plataformas pode facilmente
vencer a barreira de 60% (sessenta por cento) dos valores pagos em cada corrida
ou entrega. Num exemplo simples, uma corrida de Uber que nos custe 10 reais
destina seis reais (ou mais) para a plataforma. No caso de cancelamento de uma
corrida acionada, o/a motorista de Uber – mas, somente se o/a passageiro/a
assim o desejar – recebe pouco mais de três reais.
Isso a
depender da gentileza ou consciência de quem tomou aquela prestação de serviço
uberizado, e se for mototáxi a taxa de “compensação” pelo cancelamento talvez
nem chegue a um real. Essa lógica imposta pelas plataformas, todas elas, só
vigora porque está listada nas prioridades hegemonizadas do “novo BBB”: Big
Techs, Big Datas/Data Centers e Bets.
A maior
pesquisa empírica se verifica – e ainda permanecerá por muito tempo, para quem
não dirige – nas viagens de Uber, nas conversas insistentes que se tenha com
essas pessoas escravizadas pela modernidade (ou pós-modernidade fragmentada).
Sempre quando se pergunta sobre as condições de trabalho, destacando-se o
quanto as plataformas se apropriam do trabalho delas, e sem nenhuma
contrapartida, as respostas são constrangedoras.
Neste
sentido, um dos apêndices de um livro recém-publicado traz precisamente algumas
narrações de viagens pessoais e conversas: Histórias de Uber, na forma de
crônica articulada a um evento real. Pode-se dizer que há uma pequena
etnografia nessa conversação com os/as motoristas de Uber. Algumas dessas
histórias narradas no livro são verdadeiras “lições de vida”.
Foi com
esse espírito que, no primeiro livro de 2026, esse pequeno livro foi abordado
em sala de aula, especialmente esses dois aspectos da realidade, esses dois
enormes problemas sociais e econômicos que se comunicam em perfeição: o
capitalismo digital e a uberização social. Esse livro foi, literalmente,
construído em sala de aula. Com a proposição do tema, de algumas
intercorrências que vínhamos pensando desde 2025, e com a participação dos
alunos e alunas, promovendo-se provocações na forma de pensar, pudemos
encontrar pontos que ainda estavam obscuros.
Nas
aulas de licenciatura, por necessidade de explorar algumas diferenças entre o
capitalismo clássico do pós revoluções industriais, do advento da chamada
maquinaria e até mesmo com referência à automação e ao toyotismo – as células
de produção, ao invés da linha de produção: o notável fordismo dos Tempos
Modernos, de Charles Chaplin – e os nossos “novos” tempos modernos, sempre
esteve no repertório conceitual a incidência do capitalismo de dados: a
monetização a partir das redes sociais, a compra e venda de dados pessoais
digitalizados.
Porém,
em seguida, nos deparamos com a insuficiência dessa base analítica. A massa
crítica já sinalizava que o passado sempre acompanha o presente, no Brasil, e
isso fomentou o ingresso do Pensamento escravista no escopo do capitalismo
brasileiro – e que sempre combinou capitalismo com escravismo.
Além
disso, a atuação do “novo” BBB já bateu em nossa porta. Em conjunto com o setor
financeiro (Bancos e fintechs), em parceria com o antigo BBB (bancadas da
bíblia, do boi e da bala), a hegemonia do capital mudou de cara, hoje está
assentada nas Big Techs, nas Big Datas/Data Centers e nas Bets (“o novo BBB”).
Da
forma como pensamos e tentamos descrever, o livro não se dirige a um público
específico, pois pode ser lido – como dizia João Ubaldo Ribeiro – por
estudantes, docentes, mas também pelo motorista uberizado, pela diarista. Essa
diarista que, na imensa maioria das vezes, é outra notável encarnação,
reaparição do passado brasileiro e que sempre atua como fantasma do presente: a
mulher negra, pobre, uberizada (oprimida), que, “com sorte”, encontrará algum
abrigo no famoso “quartinho de empregada” – numa verdadeira provisão
(prescrição, diria Paulo Freire) advinda diretamente da Casa Grande e tão ao
gosto da nossa classe média ou do “novo rico”.
A
contribuição do livro para a ciência, além de todo o exposto, está na
necessidade de aproximarmos os dois conceitos básicos, se queremos uma leitura
científica, não sectária ou reacionária, acerca do atual “estado de coisas”.
Muitos outros aspectos poderiam, deveriam ser somados a esse conceito
(refundado) de capitalismo digital. Porém, sem que esses mencionados
componentes façam parte do corpus teórico, aí sim, não há como falarmos em
termos de ciência social dirigida ao século XXI.
Comparativamente,
não há como tratar o mundo do trabalho, na China, sem destacar em primeiro
plano a fadiga imposta pela conhecida jornada 9-9-6 (trabalho das nove da manhã
às nove da noite, seis dias por semana). Ironicamente, ao menos partes desse
inventário é copiado pelo “anarcocapitalismo” de Javier Milei, na Argentina. E
o segundo conceito, que é a uberização social.
Neste
caso, no entanto, abre-se parênteses, pois a adjetivação de “social” tem o
intuito de transcender a exploração brutalizada do mundo do trabalho
(neoliberalismo extremado), se observarmos que o “servilismo voluntário” atinge
a todos que vivem sob as bolhas digitais. Essa é a ciência social que se propôs
a esboçar nesse pequeno livro. E que custa um dólar apenas, menos do que um
café expresso.
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Da fábrica ao algoritmo
Atualmente,
a tecnologia encontra-se literalmente na palma das mãos, integrando-se quase de
forma simbiótica. Se, no século XX, a mecanização estava no chamado chão de
fábrica, hoje ela assume novas configurações mediadas por algoritmos e sistemas
automatizados, que extrapolam o ambiente produtivo. No uso de cada aplicativo
gratuito, “o produto é você”.
Os
algoritmos passam a influenciar decisões relacionadas ao consumo e até mesmo às
oportunidades de trabalho. Em muitos processos seletivos, por exemplo, a
presença e o comportamento dos candidatos nas redes sociais tornaram-se
elementos relevantes na avaliação profissional, evidenciando-se como a lógica
algorítmica interfere em diferentes dimensões do cotidiano.
Como
mencionado, uma obra clássica que demonstra esse movimento histórico é o filme
Tempos Modernos (1936), de Charles Chaplin, cuja narrativa denuncia os efeitos
da mecanização industrial, ao evidenciar como a organização mecanizada do
trabalho o transforma em uma extensão da máquina, submetendo-o à repetição
constante de movimentos e ao controle do ritmo produtivo.
Curiosamente,
outra obra de mesmo nome percebe essa relação de uma forma diferente. Enquanto
Charles Chaplin evidencia os efeitos da mecanização sobre a condição humana, a
canção Tempos modernos (1982), de Lulu Santos, expressa o otimismo e a
expectativa a fim de que o avanço científico e tecnológico conduziria ao
progresso social, à liberdade e à melhoria das condições de vida.
Essa
dualidade entre o avanço científico e seus impactos sociais permite compreender
como isso não ocorre, necessariamente, de forma linear. Uma ideia de que o
avanço científico conduziria ao desenvolvimento tecnológico, este produziria
crescimento econômico e, consequentemente, maior bem-estar social (PALACIOS et
al., 2001), mostra-se insuficiente quando confrontada com a realidade,
especialmente ao se comparar as expectativas construídas em torno do progresso
tecnológico com o atual contexto.
Os
meios digitais, por mais inovadores que sejam, se tornaram uma forma de
exploração ampliada. Se, no âmbito laboral, a exploração se manifesta pela
intensificação da produtividade e pela flexibilização das relações de emprego,
no ambiente digital ela alcança o tempo, os dados e as formas de interação
social. A exploração deixa de restringir-se à extração da mais-valia e passa a
incorporar aspectos da própria experiência humana, transformando elementos da
vida privada em recursos economicamente exploráveis.
É nesse
contexto cada vez mais predatório que se torna essencial uma educação capaz não
apenas de apresentar aos indivíduos o contexto tecnológico, algo que, diga-se
de passagem, pouco se faz necessário para uma geração que já nasce imersa nas
tecnologias, mas que, sobretudo, seja capaz de problematizar o fato de que as
tecnologias não são neutras, nem, por si só, emancipadoras.
Para
além da formação de sujeitos aptos a utilizar os meios digitais, faz-se
necessária uma educação crítica que possibilite compreender e questionar as
formas contemporâneas de exploração, controle e desigualdade que permeiam o
desenvolvimento tecnológico. Edgar Morin, célebre filósofo da ciência e da
tecnologia, falecido recentemente, merece destaque quanto ao escopo dessa
análise.
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A ilusão do empreendedorismo
Desta
forma, a uberização do trabalho nasce durante o século XXI, configurando as
relações de trabalho. De forma mais flexível, o indivíduo trabalha conforme a
demanda. Entretanto, o sistema vende a ideia de que o trabalhador terá sua
emancipação, em que pese se torna uma moeda na relação de trabalho deteriorada.
Dialogam com a lógica de estar empreendendo, no entanto, camufla-se a
precarização do trabalho.
Desse
modo, o indivíduo imerso neste cenário não é amparado pela legislação
trabalhista (CLT), por não fazer parte do regime formal de trabalho. Sob a
uberização, presta-se serviço às empresas sem atribuir-se valor à mão de obra,
que por sua vez é barata: a classe trabalhadora arca com o ônus do trabalho e a
transferência de riscos.
Um
exemplo recente dessa realidade ocorreu durante a pandemia da Covid-19, quando
milhares de motoristas de aplicativos continuaram exercendo suas atividades
para assegurar sua renda, apesar da elevada exposição ao vírus e da ausência de
garantias trabalhistas que lhes permitissem interromper o trabalho com
segurança.
Na obra
Filosofia, um modo de vida (2025), Marilena Chauí apresenta-nos como os valores
éticos eram enxergados no pré-capitalismo, o que antes era considerado virtuoso
– o indivíduo de coragem e glória –, e, inversamente, na sociedade capitalista
é a produção: trabalho e expropriação. A classe trabalhadora é integrada à
perspectiva de que o trabalho o engrandece, e com o avanço do capitalismo
digital semeia-se a ilusão do empreendedorismo. O que não se revela é a
ausência total das garantias políticas, a contínua e acelerada venda da força
de trabalho e a dependência economicamente, crônica, da plataforma extratora de
mais-valia.
É
possível visualizar esse controle social e o rompimento da consciência crítica
dos indivíduos diante dos fatos, especialmente quando observamos o
enfraquecimento da educação básica pública, subsumida numa condição em que a
carga horária de disciplinas da área de ciências humanas foi reduzida,
enfraquecendo-se a formação do pensamento crítico, e, de modo contrário, ao
passo em que matérias inconsistentes (por exemplo, educação financeira para
jovens pobres) e cursos técnicos são implementados e priorizados. A escola
passa a priorizar a formação de mão de obra adaptada às exigências do mercado,
em vez de promover a reflexão crítica e a capacidade dos indivíduos de
compreender e questionar as estruturas sociais que os cercam.
Fonte:
Por Vinício Carrilho Martinez, Ester Dias da Silva Batista e Izabela Victória
Pereira, em A Terra é Redonda

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