segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Candidatos multiplicam patrimônio em até 4,3 mil vezes em quatro anos

O patrimônio declarado pelo candidato a deputado federal Felipe Cecílio (PSDB-GO) saltou de R$ 20 mil em 2022 para R$ 86,8 milhões neste ano. A alta equivale a uma multiplicação de mais de 4,3 mil vezes, ou cerca de 434 mil%.

Cecílio lidera, aos 26 anos, o levantamento do ICL Notícias que identifica os dez candidatos com maiores aumentos proporcionais nos bens declarados à Justiça Eleitoral. A comparação considera a declaração apresentada em 2026 e aquela informada na última eleição disputada por cada candidato, em 2022 ou 2024. Entre os dez casos, o crescimento varia de 37,7% a cerca de 434 mil%.

Em valores nominais, os dez candidatos somam R$ 854,8 milhões em crescimento nos bens declarados à Justiça Eleitoral. O ranking foi elaborado a partir dos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Foram desconsiderados primeiros suplentes, declarações cujo erro já foi reconhecido pelo candidato ou partido e registros com valores flagrantemente incompatíveis com os bens descritos, como veículos avaliados em dezenas ou centenas de milhões de reais.

O contraste entre os critérios é significativo. Em termos proporcionais, os maiores saltos aparecem entre candidatos que partiram de patrimônios relativamente baixos. Já os maiores aumentos em valores absolutos estão entre candidatos que já declaravam fortunas de centenas de milhões de reais.

<><> Felipe Cecílio multiplica patrimônio por mais de 4,3 mil vezes

Felipe Cecílio (PSDB-GO), candidato a deputado federal, declarou apenas R$ 20 mil quando concorreu em 2022. Quatro anos depois, informa à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 86,8 milhões. São R$ 86,81 milhões a mais, crescimento de aproximadamente 434 mil%.

A maior parte do patrimônio atual de Cecílio está concentrada em poucos registros. São R$ 55 milhões descritos como “BDB Digital Crédito”, classificados entre “outros bens e direitos”, além de R$ 18,63 milhões referentes a investimento no BTG Pactual. Também aparecem um apartamento de R$ 6,5 milhões, R$ 5 milhões vinculados ao Conglomerado FSC e R$ 1 milhão relacionado à Gestão de Campanhas FSC.

Somados, somente os dois maiores registros correspondem a quase 85% dos R$ 86,8 milhões informados ao TSE.

<><> Marcelinho, Ari e Edward têm aumentos superiores a 1.000%

O ex-jogador Marcelinho Carioca (Republicanos-DF) ocupa a segunda posição do levantamento quando o critério é o crescimento proporcional.

Ele declarou patrimônio de R$ 2,5 milhões quando concorreu em 2024. Agora informa R$ 45,37 milhões, acréscimo de R$ 42,87 milhões em dois anos. A variação é de aproximadamente 1.715%, o que significa que o patrimônio declarado ficou mais de 18 vezes maior.

Marcelinho declarou R$ 40 milhões referentes ao Atibaia Seven Resort, registrado como imóvel ligado à atividade de hotelaria. O ativo representa aproximadamente 88% de todo o patrimônio informado à Justiça Eleitoral.

Também foram declarados um apartamento de R$ 2,5 milhões, cinco flats avaliados conjuntamente em R$ 2,25 milhões, uma Mercedes-Benz CLA 250 de R$ 400 mil e um Corolla Cross de R$ 220 mil.

Ari Nascimento (PL-PA) aparece na terceira posição. Seu patrimônio passou de R$ 2,96 milhões em 2024 para R$ 45,4 milhões neste ano, diferença de R$ 42,44 milhões e crescimento de aproximadamente 1.434%.

Dos R$ 45,4 milhões atuais, R$ 40 milhões correspondem à participação societária na Brita Forte Ltda. A descrição apresentada à Justiça Eleitoral informa que o valor inclui terreno, máquinas e a estrutura da empresa.

Os outros R$ 5,4 milhões estão distribuídos entre quatro propriedades rurais. Assim como no caso de Marcelinho, um único ativo representa aproximadamente 88% do patrimônio declarado.

Em quarto lugar está Edward Júnior (Novo-GO), candidato a deputado estadual. Seu patrimônio passou de aproximadamente R$ 5 milhões em 2024 para R$ 70,2 milhões em 2026, diferença de R$ 65,2 milhões em apenas dois anos.

A declaração atual contém somente quatro registros. Um deles responde sozinho por R$ 60 milhões: quotas ou quinhões de capital. Há ainda R$ 10 milhões em terra nua, além de R$ 100 mil na EJR Empreendimentos e Participações e outros R$ 100 mil referentes a um veículo.

O crescimento equivale a aproximadamente 1.304%, ou mais de 14 vezes o patrimônio declarado em 2024.

<><> Adriano Coelho e Dr. Edson multiplicam patrimônio

Outro aumento expressivo aparece na declaração de Adriano Coelho (MDB-PA), candidato a deputado federal. Os R$ 7,3 milhões informados em 2022 se transformaram em R$ 71,2 milhões em 2026 — acréscimo de R$ 63,9 milhões e crescimento de aproximadamente 875%.

Diferentemente de outros candidatos, é possível identificar com clareza onde está concentrada a maior parte do dinheiro: aplicações financeiras.

Coelho declarou R$ 36,92 milhões em Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio (LCI e LCA) na Caixa Econômica Federal, outros R$ 30 milhões nos mesmos tipos de aplicação no Banpará e R$ 1,8 milhão em renda fixa na Caixa. Juntos, os três registros chegam a R$ 68,7 milhões e representam mais de 96% de todo o patrimônio informado.

A declaração também inclui R$ 871,6 mil em conta corrente, um relógio Patek Philippe avaliado em R$ 549 mil, uma Toyota Hilux de R$ 340 mil, imóveis e aplicações menores.

Dr. Edson da Paiol (Podemos-SP) aparece na sexta posição. Ele informou R$ 9,5 milhões em bens na eleição de 2024 e agora declara R$ 51 milhões, aumento de R$ 41,5 milhões em dois anos.

A variação é de aproximadamente 437%, o que significa que o patrimônio declarado ficou mais de cinco vezes maior.

A principal fatia são R$ 40 milhões referentes à participação em 34 clínicas veterinárias. Há ainda uma casa avaliada em R$ 5 milhões, dois pontos comerciais que somam R$ 4 milhões, terrenos e veículos.

As clínicas respondem por quase 80% do patrimônio atual.

<><> ACM Neto supera 100%; Zema tem menor alta

ACM Neto (União Brasil-BA) aparece na sétima posição do ranking proporcional. O patrimônio do ex-prefeito de Salvador praticamente dobrou: foi de R$ 41,7 milhões para R$ 84,9 milhões, acréscimo de R$ 43,2 milhões e crescimento de 103,5%.

Sua declaração é uma das mais pulverizadas entre os integrantes do ranking, com 44 registros.

Os maiores incluem R$ 11,98 milhões no Fundo de Investimento Imobiliário Praia do Castelo, R$ 9,38 milhões em ações da TV Bahia, R$ 9,08 milhões em fundos de investimento e R$ 8 milhões destinados a futuro aumento de capital da Anre Participações. Um apartamento em Salvador foi declarado por R$ 7,88 milhões.

Há ainda participações empresariais, outros imóveis, fundos, títulos financeiros, empréstimos e veículos.

Antidio Lunelli (MDB-SC), candidato ao Senado, aparece na oitava posição pelo crescimento proporcional, embora tenha registrado o maior aumento nominal entre todos os candidatos analisados. O patrimônio declarado pelo empresário passou de R$ 390 milhões em 2022 para R$ 613,2 milhões neste ano. São R$ 223,2 milhões a mais, crescimento de 57,2%.

Otaviano Pivetta (Republicanos-MT), candidato ao governo de Mato Grosso, vem logo depois. O candidato declarou R$ 378,9 milhões em 2022 e agora informa possuir R$ 575,7 milhões. A diferença é de R$ 196,8 milhões, ou 51,9%.

Os dois casos mostram a diferença entre aumento nominal e crescimento proporcional. Lunelli e Pivetta tiveram os dois maiores acréscimos em valores absolutos, mas aparecem nas últimas posições do ranking percentual porque já possuíam patrimônios próximos de R$ 400 milhões na declaração anterior.

Romeu Zema (Novo) fecha o ranking proporcional, na décima posição. O patrimônio declarado pelo ex-governador de Minas Gerais passou de R$ 129,8 milhões em 2022 para R$ 178,7 milhões neste ano. O crescimento nominal é de R$ 48,9 milhões, equivalente a 37,7%.

Ao contrário dos casos em que o candidato partiu de patrimônio relativamente pequeno, Zema já estava entre os políticos mais ricos do país na eleição anterior.

A maior parcela de sua declaração atual está em uma holding familiar, avaliada em R$ 94,5 milhões. Outros R$ 56,2 milhões estão aplicados em fundo multimercado, e R$ 16,8 milhões correspondem a participação em uma instituição financeira. Os três registros representam quase 94% dos bens declarados.

O levantamento mostra dois movimentos distintos entre os candidatos que mais ampliaram o patrimônio declarado. De um lado, estão políticos que partiram de valores relativamente baixos e multiplicaram seus bens em centenas ou milhares de vezes. De outro, aparecem candidatos que já possuíam fortunas elevadas e acrescentaram dezenas ou centenas de milhões de reais ao patrimônio, mas com variações percentuais menores.

Em pelo menos seis casos, dezenas de milhões de reais estão concentrados atualmente em um ou poucos ativos — participações societárias, aplicações financeiras, um empreendimento hoteleiro e uma rede de clínicas — que ajudam a explicar por que o patrimônio informado à Justiça Eleitoral multiplicou-se desde a última candidatura.

As declarações apresentadas ao TSE ainda podem ser retificadas pelos candidatos durante o processo eleitoral.

<><> Os dez candidatos a governador mais ricos do país somam R$ 1 bilhão em patrimônio; conheça

Um levantamento feito pelo Brasil de Fato dos bens declarados à Justiça Eleitoral revela que o seleto grupo dos dez candidatos a governador mais ricos soma um patrimônio impressionante de mais de R$ 1 bilhão (R$ 1.049.988.425,10). Do outro lado da balança, 38 postulantes entram na corrida sem possuir sequer um centavo em bens declarados.

O topo da lista dos milionários reflete a concentração de poder econômico, de gênero e de raça no topo da política nacional. Entre os dez maiores patrimônios, oito são de candidatos brancos e apenas dois são negros (declarados pardos). A disparidade de gênero é ainda mais alarmante: há apenas uma mulher entre os dez mais ricos, Maria do Carmo (PL-AM), com R$ 118,4 milhões. Quando se amplia o recorte para os 50 mais ricos da disputa estadual, a presença feminina continua residual, somando apenas cinco candidatas.

No espectro ideológico, o topo da pirâmide é monopolizado por legendas de direita e centro-direita, com os candidatos concentrados em União Brasil (2), PL (2), Novo (2), Republicanos (1), MDB (1), Mobiliza (1) e PP (1).

O primeiro candidato de um partido progressista a figurar na lista é Felipe Camarão (PT), candidato ao governo do Maranhão, com um patrimônio declarado de R$ 5.208.193,72, valor 110,5 vezes menor que o do líder do ranking.

<><> Meio bilhão

Quem encabeça a lista de riqueza é o empresário Otaviano Pivetta (Republicanos), candidato ao governo do Mato Grosso. Homem e branco, Pivetta declara sozinho R$ 575.680.870,95, o que corresponde a mais da metade de todo o patrimônio somado dos dez mais ricos.

A segunda colocação fica com a única mulher do grupo, a empresária branca Maria do Carmo (PL), candidata no Amazonas, que declarou R$ 118.473.769,48. Logo em seguida vem o ex-prefeito de Salvador e empresário branco ACM Neto (União Brasil), concorrendo na Bahia com um patrimônio de R$ 84.888.809,63.

O quarto lugar é ocupado pelo engenheiro branco Wilder Morais (PL), candidato em Goiás, com R$ 65.160.903,35. Na quinta posição surge o primeiro dos dois candidatos negros (declarados pardos) do grupo: o empresário Ataídes Oliveira (Novo), dono do Grupo Araguaia e candidato no Tocantins, com R$ 54.458.902,00.

No Distrito Federal, o advogado branco Kiko Caputo (Novo) ocupa o sexto lugar, somando R$ 47.383.036,13. Ele é seguido por Hildon Chaves (União Brasil), candidato em Rondônia, segundo nome pardo do ranking, que declarou R$ 30.330.625,02 acumulados em sua trajetória como empresário.

Fechando a lista dos dez mais abastados estão o advogado branco Alexandre Salomão (Mobiliza), no Paraná, com R$ 27.695.000,00; Ricardo Ferraço (MDB), candidato no Espírito Santo, homem branco com R$ 27.668.789,55 em bens; e Eduardo Riedel (PP), candidato no Mato Grosso do Sul, também homem e branco, com patrimônio de R$ 16.147.849,34.

<><> Patrimônio zero

Ao todo, a disputa pelos governos estaduais conta com 191 candidatos. Destes, 38 afirmaram à Justiça Eleitoral não possuir nenhum patrimônio.

A ausência de bens declarados concentra-se principalmente em partidos de esquerda anticapitalista e de quadros populares, que denunciam o caráter elitista e de alto custo das campanhas eleitorais brasileiras. Do total de 38 postulantes com “patrimônio zero”, 13 pertencem ao Partido Causa Operária (PCO).

O abismo entre meio bilhão de reais na mão de um único candidato e dezenas de concorrentes sem bens acumulados evidencia como o poder econômico continua sendo um filtro determinante na ocupação dos espaços de poder no Brasil, favorecendo elites empresariais, brancas e conservadoras em detrimento da diversidade da população.

 

Fonte: ICL Notícias/Brasil de Fato

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário