A
virada geopolítica da república tecnológica
Neste
segundo artigo da série sobre a teoria política do Vale do silício, a chave
para a leitura de A república tecnológica (2025), de Alexander Karp e Nicholas
Zamiska – cofundador e um dos principais CEOs da Palantir, respectivamente –
está em tomá-lo não apenas como manifesto corporativo ou livro de negócios, mas
como documento representativo da conclusão de uma virada filosófico-política
que, no caso pioneiro de Peter Thiel, já é antiga: começou após o ataque às
Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001.
A obra
reflete a transição, no Vale do Silício, de um pensamento outrora influente – a
utopia liberticida de “saída” (Exit) do Estado regular do capital em direção a
falanstérios reacionários – rumo a um nacionalismo tecnológico de caráter
abertamente imperial, que abandona a fantasia de escapar do Estado para abraçar
seu projeto de captura, sobretudo via complexo militar-industrial americano. O
“Exit” foi subordinado – embora continue vivo para os discursos das missas
dominicais. Esta virada será desenvolvida nos parágrafos seguintes.
Em
abril de 2026, a Palantir publicou manifesto de 22 pontos resumindo as teses do
livro em matéria paga em edição completa do The New York Times (Palantir
technologies, 2026).
O
livro, esclarecem os editores, “baseia-se em um ensaio que o próprio Alexander
Karp publicou em julho de 2023, no mesmo The New York Times, intitulado “Nosso
momento Oppenheimer”. Remissão histórica decisiva. Trata-se de reviver um
momento “áureo” do passado (2023 a; 2023b). No artigo e no livro, Alexander
Karp defende regresso ao modelo do Projeto Manhattan – o conhecidíssimo projeto
ultrassecreto conduzido pelo governo de Franklin D. Roosevelt (1942-1945) que
contou com colaboração descentralizada de universidades e dos principais
físicos americanos (e do Reino Unido), para produzir a bomba atômica antes dos
nazistas.
O
projeto mudou as instituições americanas através do trabalho de cooperação
sinérgica das universidades e do complexo militar-industrial e de espionagem.
No início das tratativas, teve papel decisivo a célebre carta de Albert
Einstein (arrependeu-se depois) ao presidente americano, aconselhando Franklin
D. Roosevelt a encaminhar a produção da bomba.
Há,
porém, um dado histórico em qualquer analogia de um “Momento Oppenheimer”,
inspirado no original da Segunda Guerra, que o livro de Alexander Karp omite
solenemente: o “Momento Oppenheimer foi coetâneo do grande acordo de classes do
New deal, personificando um modelo de Estado de “capitalismo monopolista”, nos
termos de um Paul Baran e Paul Sweezy (1978), que gestou a “economia de
guerra”, de gestão administrada do “excedente” capitalista.
Este
segundo “Momento Oppenheimer” advém de outra inspiração política e econômica,
influenciado é pelo “Momento Straussiano” de Peter Thiel (por sua vez,
influenciado por Leo Strauss, filósofo político e guru dos neoncons), formulado
em conferência de 2004, na qual o autor defendia uma virada estratégica do
poder global americano, guardião do “Ocidente” que necessita de “nova teoria
política” para salvá-lo, pois o “terrorismo global operava por fora de todas as
regras do Ocidente liberal” (Thiel, 2019: 273-316).
A
estrutura de uma economia de guerra pode ser associada, em teoria, a regimes
estatólatras autoritários ou contratos sociais de compromisso de classe. O New
Deal incorporava, contraditoriamente, elementos de ampliação da soberania
popular por meio dos sindicatos e políticas de renda – configuração totalmente
distinta do projeto atual de colaboração íntima entre o governo de Donald Trump
e a Palantir para desenvolver “poder duro” (hard power) em software.
Faça-se
a crítica que se quiser, mas o projeto de Roosevelt continha interpelação de
hegemonia (consenso social) totalmente ausente nas digressões de Alexander
Karp, pois seria preciso uma democracia institucional incorporadora, nos termos
das experiências corporativas do fordismo, e não um Estado restritivo e racista
ao molde do projeto trumpiano. Da vastíssima bibliografia, recomendo as páginas
do depoimento de Harry Hopkins, secretário particular de Roosevelt, a Robert E.
Sherwood, obra de consulta fundamental (Sherwood, 1998).
Há, no
livro, um horizonte lúgubre de expectativas: o mergulho dos EUA em um processo
de decadência histórica, se as decisões políticas não contrarestarem: um
desaparecimento da ambição criativa do Ocidente, particularmente no setor de
tecnologia. Os engenheiros e programadores do Vale, e a formação das
universidades, estão mais interessados em frivolidades niilistas, a economia da
atenção e do like, e a criação dos artefatos lucrativos da indústria cultural
do que em estimular a chama patriótica. Estão em dívida com a nação.
Para
compreender o processo, trago uma fonte inusitada, vinda de época passada
recente: as formulações de Albert Hirschman na clássica obra Saída, voz e
lealdade (1973). “Saída”, “voz/voto” e “lealdade”, era três posições possíveis
a trabalhadores e consumidores nas organizações, mas também a cidadãos nos
Estados, Estados. A voz e a lealdade eram os valores fundamentais dos
“compromissos de classe” do Welfare state europeu, do New deal Americano e do
Desenvolvimentismo periférico-dependente-associado brasileiro. Albert Hirschman
argumentava que, diante da decadência de uma organização ou de um Estado, os
indivíduos sociais podem optar pela “saída”, o que seria a decadência.
Quim
Slobodian (2024: 32) observa que a diferença fundamental entre os velhos
neoliberais e os anarcoliberais “está entre aqueles que acreditam em um Estado
mínimo (às vezes chamados de ‘minarquistas’) e os que não acreditam em Estado
algum (anarcocapitalistas)”. Nesse espectro, o Estado nacional seria uma
entidade reduzida, porém ainda funcional.
Friedrich
Hayek – cuja obra, examinada em sua evolução, revela matizes importantes – não
propunha aniquilação total da soberania popular, mas sua bipartição em duas
esferas (nomos e thesis), ou seja, redução a um grau que Quim Slobodian
qualificou como “minárquico”. Essa redução opera pela distinção central entre
nomos e thesis: de um lado, domínio forte do direito espontâneo (nomos),
submetido à cláusula pétrea da propriedade privada e da tradição moral que
fundamenta a comunidade política. Mesmo assim, ainda há resíduo de soberania,
que não se confunde com a soberania popular rousseauniana.
Joseph
Schumpeter (1984) esse regime político de democracia institucional, na mesma
época de Friedrich Hayek. Nela, opera o rebaixamento, em um grau acima de zero,
do conceito iluminista (francês) de soberania da democracia: a democracia já
não se referia à vontade geral rousseauniana, nem à vontade do povo do
constitucionalismo burguês na fase das revoluções liberais, tampouco à vontade
coletiva gramsciana de inspiração maquiaveliana – três abordagens em que a
democracia é definida em termos de vontade popular (como fonte) e bem comum
(como finalidade).
Ao
propor democracia despida de conteúdo substantivo, Joseph Schumpeter a concebe
como “processual” ou “procedimental”, isto é, método, “arranjo institucional
para chegar a decisões políticas em que os indivíduos adquirem o poder de
decidir através de uma luta competitiva pelos votos do povo” (Schumpeter, 1984:
250).
Norberto
Bobbio (1986), inspirado no mesmo Joseph Schumpeter, caracterizaria essa
democracia minimalista, em chave positiva, como as “regras do jogo” do “Estado
de direito”. Ao menos na Europa Ocidental do pós-guerra e nos Estados Unidos –
diferente da América Latina, onde os neoliberais compuseram os blocos no poder
das ditaduras militares – a “democracia schumpeteriana” foi respeitada, porém
desprovida de “engenharia social”: a thesis só pode produzir leis
circunstanciais que não afrontem as cláusulas pétreas do nomos.
Em
Friedrich Hayek, a democracia liberal-constitucional – ao menos nos países do
andar de cima do capitalismo do pós-guerra – não é abolida, mas mitigada e
funcionalizada ao nomos: existe para administrar o acessório, nunca para
questionar o essencial. Para Hayek, essa distinção entre nomos (direito) e
thesis (legislação) é central. Em Direito, legislação e liberdade (vol. 1), ele
define nomos como as regras universais de conduta justa que emergem
espontaneamente da interação social – processo “de baixo para cima”, que não
visa fins específicos e delimita esferas individuais protegidas.
A
thesis, por outro lado, é legislação imposta “de cima para baixo” pelo
soberano, criação deliberada que serve a propósitos particulares e que, ao se
estender para além da organização estatal, tende a transformar a ordem
espontânea da sociedade em organização planificada, ameaçando a liberdade. É
essa “lei” espontânea/abstrata que ele contrapõe à “legislação”
intervencionista; ao planejamento social em voga em seu tempo, na planificação
soviética, na social-democracia ou no New deal, experiências das quais era
inimigo.
Mesmo
assim, havia espaço para a thesis, e é nesse quadro que se insere sua proposta
de mitigação da soberania popular, mas conservando o direito. Escreve
Hans-Hermann Hoppe (2014: 29), um liberticida que foi longe na ideia de
desaparecimento do Estado: os neoliberais de primeira geração “fizeram uma
tentativa sistemática de pesquisar a causa do declínio do pensamento liberal
clássico e do laissez-faire capitalista, bem como a causa do concomitante
surgimento das ideologias políticas anticapitalistas e do estatismo durante o
século XX. Embora conscientes das deficiências éticas e econômicas da
democracia, tendiam a considerar de forma positiva a transição da monarquia
para a democracia, considerando-a um progresso”. Para ele, público, Estado e
democracia são a mesma coisa e estão na linha de tiro.
Os
teóricos aqui criticados, ao contrário, romperam com essa amarra: converteram o
neoliberalismo (que nutria uma aguada “Lealdade” ao contrato social do Estado)
em projeto de fuga absoluta – é isso que pretendem afirmar como “liberdade” –
orientado à construção de “espaços privados de soberania”, especialmente os
três high-tech (ciberespaço, criptomoedas e seasteading), edificados from zero
to one. Espaços em que o Estado deve desaparecer.
Como
define Eleutério da Silva Prado (2025), nestas “cidades da liberdade (…) o
capitalismo é extremado e se desvencilha do Estado e da política, mas não
evidentemente da polícia. Eis que a segurança em tais cidades será feita por
robôs munidos de inteligência artificial, os quais terão a função de expulsar
ou eliminar os intrusos e os indesejados”. Esse projeto, ainda em curso
enquanto propaganda, sofreu uma inflexão, não meramente tática, mas
estratégica, ditada pela prevalência da “lealdade” ao projeto imperial.
Em seu
texto “A educação de um libertário” (2009), repetido em passagem crucial de A
república tecnológica, Peter Thiel escreveu a frase que se tornaria a mais
conhecida de seu credo político: “Já não acredito que liberdade e democracia
sejam compatíveis.” A formulação é precisa e radical: a democracia – com
sufrágio universal, welfare state, regulações trabalhistas e ambientais,
prestação e deliberação pública, etc., enfim, como Estado de direito, é entrave
à “liberdade”. O problema do “mundo da vida” no “mundo sistêmico” é o “demos
irrefletido” do povaréu.
Um
texto estratégico do percurso da virada estratégica, é o prefácio que Peter
Thiel escreveu em 2020 (em outra conjuntura histórica) para o livro O indivíduo
soberano, de James Dale Davidson e Lord William Rees-Mogg (publicado
originalmente em 1997). O subtítulo da edição inglesa – How to survive and
thrive during the collapse of the Welfare State – é bem mais incisivo que o
anódino Mastering the transition to the information age adotado no Brasil
(“Como dominar a transição para a Era da Informação”). Esse subtítulo
marqueteiro compromete a intenção original do texto, mas está afinado com o
argumento da crise do compromisso de classe do welfare state.
Há uma
sentença estratégica no prefácio de O indivíduo soberano (2025): “a
inteligência artificial remete à centralização do Estado; a cibernética, à
descentralização”. Peter Thiel evoca um raciocínio parecido à célebre sentença
de Rousseau, em Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre
os homens: “o primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer:
‘Isto é meu’, e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o
verdadeiro fundador da sociedade civil” (Rousseau, 1999: 87).
O
autor, estudioso de filosofia, certamente conhece o texto. Comete um saboroso
ato falho ao redigir seu prefácio. Ao distinguir entre inteligência artificial
(centralizadora) e cibernética (descentralizadora), reproduz a mesma operação
conceitual de Rousseau: o ato de apropriação – “isto é meu” – funda a ordem,
seja estatal ou tecnológica. A diferença é que, para Peter Thiel, o
“cercamento” é digital, e o terreno a ser apropriado são os dados.
O que
ele condena na China – um hipotético “Estado de vigilância – é coerente com a
sua inveja e lógica de aplicação capitalista, em escala continental e com armas
quânticas. Peter Thiel descreve a ascensão chinesa com admiração mal disfarçada
de horror: “A ascensão da China, sob o Partido Comunista, criou a sua própria
versão da era da informação com características decididamente nacionalistas,
etnicamente homogêneas e profundamente estatistas […] Para deixar apenas uma
ilustração chave, a China esmagou a cidade-Estado de Hong Kong – que Rees-Mogg
e Davidson tinham descrito como ‘um modelo mental do tipo de jurisdição que
esperamos ver florescer na Era da Informação’.”
O ato
falho é duplo: primeiro, ao admitir, contrafeito, que a China venceu o jogo
tecnológico precisamente porque não jogou o jogo descentralizado que pregava;
segundo, ao revelar que o exit libertário – fuga para cidades-Estado – é
fantasia que a própria lógica de apropriação (agora chamada de inteligência
artificial) torna impossível.
Ao
inverso da soberania absoluta da liberdade do Ego sem mediações, nos “trinta
anos gloriosos” do capitalismo europeu do pós-guerra, vigorou o projeto da
“cidadania social” keynesiana-marshalliana, que combinava crescimento econômico
com proteção social e direitos trabalhistas (Marshall, 1967). O ego
transformou-se em ser social. A saída, para esses adeptos da tirania
tecnológica, então, não seria “reformar” a política através da ampliação do
“espaço público”, mas escapar de seu espaço público por meio de novas
tecnologias que criassem pseudoespaços de liberdade fora do alcance da
regulação institucional-democrática do Estado de direito.
Assim,
uma nova “lealdade” surgiu, não mais aquela identidade de classe do passado, em
torno da redistribuição da riqueza social, efetivada pelo acordo corporativo de
classes entre grandes sindicatos e políticas sociais de ares universalistas.
Este vínculo democrático-corporativo de classe, que mantinha o cidadão engajado
no apoio ao sistema político, foi resinificado como “lealdade imperial e defesa
civilizacional do Ocidente”. Este é o significado profundo do novo fascismo de
Donald Trump; por isso, ele é imperialista para fora e racista para dentro.
A
Palantir, fundada em 2004 (já antes de setembro de 2011) com recursos do
Departamento de Estado dos Estados Unidos e da CIA (via In-Q-Tel, braço de
investimento em tecnologia da agência), nasceu precisamente desse choque,
conforme os prospectos da empresa: da percepção de que o aparato estatal de
inteligência era incapaz de conectar os pontos dispersos do terrorismo global,
processar o dilúvio de dados do mundo pós-Guerra Fria e antecipar ataques que
combinavam técnicas primitivas com sofisticação logística.
A
empresa de Alexander Karp e Peter Thiel não era uma startup como as outras: era
projeto de Estado envernizado de empreendedorismo privado, tentativa de vender
ao Pentágono a capacidade de “ver o futuro” através de algoritmos. Não por
acaso, a Palantir tornou-se o modelo exemplar desta nova síntese: sob a capa do
“mercado livre” e da “inovação disruptiva”, construiu o mais poderoso sistema
de vigilância estatal já concebido em território democrático, fornecendo ao
complexo militar-industrial a infraestrutura algorítmica para a guerra do
século XXI.
O
trauma de 11 de setembro, para Pater Thiel e seus pares, foi a “prova cabal” de
que o Estado democrático de direito era frágil demais para proteger o império.
Fonte:
Por Jaldes Meneses, em A Terra é Redonda

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