A
reprimarização do Brasil e a possível virada
A
história econômica do Brasil no século XX pode ser lida como a tentativa de
transformar o agrarismo primário-exportador em sociedade urbana, industrial e
tecnologicamente autônoma. Entre os anos de 1930 e 1980, o país construiu uma
das estruturas produtivas mais complexas do mundo periférico, apesar de
desigualdades persistentes.
A
indústria de transformação, a expansão das cidades, o emprego formal, a
engenharia nacional, as empresas estatais estratégicas e a organização sindical
formaram a base material de uma sociedade salarial em consolidação. O Brasil
não era apenas exportador de café, minério ou produtos agrícolas, participando
da divisão internacional do trabalho também como exportador de manufaturas ao
mundo.
A
inflexão histórica começou no final dos anos 1970. A elevação abrupta das taxas
de juros nos Estados Unidos, sob a política de Paul Volcker, presidente do
Banco Central, transformou a dívida externa brasileira em uma armadilha
financeira. O país passou da lógica da transformação estrutural para a lógica
da gestão de emergências para a sobrevivência macroeconômica. A prioridade
deixou de ser o investimento na ampliação da complexidade produtiva, para
assumir cada vez mais a geração de superávits comerciais externos para pagar
juros e amortizações do endividamento. Os anos de 1980 não foram apenas uma
década perdida em termos de crescimento econômico, mas o período histórico em
que o Brasil perdeu a continuidade de seu projeto de complexificação produtiva.
Naquele
contexto, a política nacional de informática havia adquirido significado
estratégico, pois expressava a tentativa de construir capacidade tecnológica
própria em um setor que se tornaria central na economia do conhecimento. As
pressões internacionais contra essa estratégia nacional revelaram que a disputa
tecnológica não seria neutra. Países centrais defenderam a abertura quando já
haviam consolidados suas vantagens competitivas ao passo que países periféricos
como o Brasil enfrentavam enormes dificuldades quando tentam construir as suas,
ademais dos obstáculos como os colocados pelos EUA nos anos de 1980.
A
partir dos anos de 1990, a abertura comercial e financeira ocorreu sem uma
política industrial de mesma intensidade. A valorização cambial recorrente, os
juros elevados, a financeirização e a redução do investimento público
enfraqueceram segmentos industriais intensivos em tecnologia e engenharia. O
resultado terminou sendo uma desarticulação progressiva das cadeias produtivas
nacionais com o aumento do conteúdo importado da produção e a perda de
densidade da indústria de transformação.
O
Brasil deixou de ampliar a sua presença como exportador de manufaturas e passou
a depender crescentemente de produtos da natureza como a soja, milho, carne,
minério de ferro, petróleo, celulose e outras commodities. O
dinamismo externo passou a ser puxado por atividades baseadas em recursos
naturais, muitas delas altamente eficientes, mas com menor capacidade de
irradiar inovação tecnológica para o conjunto da economia. Consolidou-se,
assim, uma estrutura produtiva mais especializada e menos complexa, com baixa
produtividade agregada e empregos de menor remuneração.
Essa
transformação alterou profundamente a posição do país na divisão internacional
do trabalho. Enquanto economias asiáticas combinaram integração internacional
com elevação do conteúdo tecnológico, o Brasil experimentou uma inserção
externa mais subordinada, marcada pela exportação de bens primários e pela
importação crescente de máquinas, equipamentos, componentes eletrônicos,
semicondutores, softwares e tecnologias estratégicas. A
dependência deixou de ser apenas comercial, tornando-se tecnológica, financeira
e informacional.
A
regressão não significa retorno ao passado agrário. O Brasil continua sendo uma
economia urbana, com importante setor de serviços e ilhas de excelência
industrial e científica. O ponto central é outro, pois relacionado à parte da
capacidade de coordenar uma estrutura produtiva complexa, integrada e
articulada. A indústria deixou de exercer o papel de eixo organizador do
desenvolvimento nacional.
As
consequências sociais foram profundas. A sociedade salarial, no sentido
referido por Robert Castel em As metamorfoses da questão social: uma
crônica do salário, depende de empregos relativamente estáveis, proteção
social e negociação coletiva. A grande fábrica urbana, que organizava
identidades coletivas, carreiras e formas de representação política, perdeu
centralidade. A substituição de empregos industriais por ocupações mais
precárias, terceirizadas, informais ou de baixa produtividade enfraqueceu a base
material da organização sindical e da representação laboral.
O
trabalhador da era industrial concentrava-se em espaços comuns e compartilhava
ritmos de produção. O trabalhador da era digital e da fragmentação produtiva
frequentemente atua de forma dispersa, intermitente ou plataformizada. A
passagem da máquina ao algoritmo não significou automaticamente emancipação
tecnológica, em muitos casos, significou individualização do risco e
dificuldade de organização coletiva.
A
verdadeira questão do século XXI supera a escolha entre a indústria e a
natureza para se situar em torno da reconstrução da economia capaz de combinar
recursos naturais abundantes com conhecimento, tecnologia e serviços avançados.
Países líderes da transição energética, da bioeconomia e da economia digital
não abandonaram suas vantagens naturais, pois as transformaram em plataformas
de inovação.
O
Brasil possui condições excepcionais para isso. Poucos países reúnem
simultaneamente grande mercado interno, base científica diversificada, matriz
energética relativamente limpa, biodiversidade, capacidade agroindustrial,
sistema financeiro sofisticado e experiência industrial acumulada. A emergência
climática, longe de representar apenas um risco, abre oportunidades em energias
renováveis, hidrogênio verde, biocombustíveis avançados, química de base
biológica, economia circular, monitoramento ambiental e infraestrutura
resiliente.
Nesse
contexto, a antiga ideia de complexidade produtiva precisa ser atualizada. No
século XX, ela estava associada principalmente à grande indústria integrada,
enquanto no século XXI, a complexidade avançou para a capacidade de articular
manufatura avançada, serviços intensivos em conhecimento, inteligência
artificial, dados, biotecnologia e sustentabilidade. A nova fronteira
tecnológica tem sido menos vertical e mais conectada em redes.
Essa
transformação também exige repensar a sociedade do trabalho. O enfraquecimento
relativo do emprego industrial tradicional não significa necessariamente o fim
da proteção social ou da representação coletiva. Significa que novas formas de
trabalho como as digitais, criativas, científicas, tecnológicas, de cuidado e
ambientais precisam ser incorporadas a um novo pacto de cidadania econômica. O
desafio está em ampliar a qualificação, a proteção e a capacidade de
organização em um mercado de trabalho mais heterogêneo.
O
Brasil já demonstra sinais do curso dessa transição. O crescimento de setores
ligados à tecnologia da informação, serviços empresariais, pesquisa aplicada,
economia criativa, fintechs, saúde, educação e soluções ambientais
revela que a economia brasileira não está apenas se simplificando, pois está se
reorganizando. O risco existe sempre quando esses setores permanecem
desconectados de uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Por
isso, o debate sobre desindustrialização deve avançar mais para o salto
inteligente da industrialização. Não se trata de reproduzir o modelo dos anos
1970, mas o de ampliar a construção de capacidades em semicondutores,
equipamentos para energia renovável, fármacos, defesa, agricultura de precisão,
infraestrutura digital, computação em nuvem, inteligência artificial e
bioindústria. O objetivo não está em fechar a economia, e sim aumentar sua
capacidade de gerar tecnologia, produtividade e empregos qualificados.
A
experiência histórica brasileira mostra que períodos de maior dinamismo
ocorreram quando o país conseguiu articular Estado, empresas, ciência e
sociedade em torno de um projeto de transformação produtiva. Essa lição
continua atual. Em um mundo marcado pela disputa tecnológica, pela
reorganização das cadeias globais e pela transição ecológica, o Brasil pode
ocupar posição mais relevante do que ocupou nas últimas décadas.
O
futuro brasileiro não precisa ser o de uma economia baseada apenas em produtos
da natureza e mão de obra barata. A abundância de recursos naturais pode se
tornar a base de uma nova economia do conhecimento tropical, capaz de combinar
sustentabilidade, inovação e inclusão social. O país já demonstrou, em
diferentes momentos de sua história, capacidade de construir instituições,
ampliar mercados, formar competências e realizar transformações estruturais.
A
grande oportunidade do nosso tempo é transformar a herança da industrialização
do século XX e as vantagens naturais do século XXI em uma nova etapa de
desenvolvimento. Não se trata de retornar ao passado e sim avançar para uma
economia mais complexa, mais verde, mais digital e mais integrada ao
conhecimento. O Brasil está diante da oportunidade inédita de reinventar o seu
projeto nacional.
Fonte: Por
Marcio Pochmann, em Outras Palavras

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