A
profissão com o maior risco de câncer por radiação
Quem
você diria que está mais exposto à radiação no trabalho? A imagem que
provavelmente vem à mente é a de alguém em uma usina nuclear ou no subsolo de
um hospital, cercado por máquinas de raio-x.
No
entanto, um novo estudo aponta para aqueles que passam uma parte significativa
de suas vidas profissionais a milhares de metros acima do solo. Pilotos e
comissários de bordo lideram a lista de profissões nos Estados Unidos com a
maior proporção de mortes por cânceres relacionados à radiação.
A
descoberta vem de uma pesquisa publicada em 17 de agosto no jornal científico
Jama Internal Medicine e liderada por Vishal Patel, cirurgião e pesquisador da
Escola de Medicina de Harvard, juntamente com Anupam Jena, professor de
Políticas de Saúde na mesma instituição.
Para
chegar a essa conclusão, a equipe utilizou o Sistema Nacional de Estatísticas
Vitais dos EUA, cujos registros só recentemente foram vinculados à ocupação
habitual das vítimas da doença.
Isso
permitiu que fossem examinadas quase 13 milhões de mortes registradas entre
2020 e 2024, distribuídas em 503 ocupações diferentes, incluindo 14 mil pilotos
e 7 mil comissários de bordo.
Com
esse banco de dados, o estudo seguiu uma lógica simples, como os próprios
autores explicaram à revista Time. Se a radiação cósmica fosse realmente a
responsável, o excesso de mortalidade deveria estar concentrado em cânceres
associados à radiação – mama, próstata, melanoma e certos tipos de leucemia – e
não em outros, como o câncer de cólon.
Também
deveria aparecer entre outros trabalhadores expostos à radiação, como técnicos
nucleares, mas não entre o pessoal da aviação que nunca voa, como mecânicos e
montadores de aeronaves.
Os
resultados seguiram o padrão esperado em relação a essa hipótese, com uma
consistência que os pesquisadores consideram difícil de atribuir ao acaso.
Entre os comissários de bordo, 6,9% das mortes e, entre os pilotos, 6,7% foram
atribuídas a cânceres relacionados à radiação, as duas maiores proporções entre
as profissões analisadas. Os técnicos nucleares, em comparação, ficaram em
décimo segundo lugar.
<><>
O que poderia explicar esse padrão?
Por
outro lado, os mecânicos e montadores de aeronaves não apresentaram taxas mais
elevadas do que outras profissões e, para cânceres não relacionados à radiação,
a tripulação aérea permaneceu em níveis semelhantes ao restante da população.
No geral, as comparações mostraram um padrão consistente quando é analisada a
hipótese da radiação.
A
principal hipótese aponta para a exposição à radiação cósmica durante os voos.
Quanto mais alto se voa, menor a proteção que a atmosfera oferece contra
partículas de alta energia provenientes do Sol e do espaço profundo. A
exposição também depende da latitude da rota, já que a proteção é menor perto
dos polos do que perto do equador.
Em
termos concretos, estima-se que pilotos e comissários de bordo acumulem entre 3
e 6 milisieverts de radiação cósmica por ano, em comparação com os 0,4
milisieverts recebidos, segundo dados dos Centros de Controle e Prevenção de
Doenças (CDC) citados por Harvard, por um passageiro que realiza dez voos de
ida e volta por ano dentro do país. Ou seja, a dose anual estimada para um
membro da tripulação é aproximadamente 7,5 a 15 vezes maior do que a de um
passageiro.
<><>
Os passageiros devem se preocupar?
É
melhor não tirar conclusões precipitadas sobre as próximas férias. Os próprios
autores enfatizam à revista Time que o sinal observado geralmente reflete uma
carreira inteira na aviação, não um único voo ou algumas viagens por ano,
portanto, eles não veem esses resultados como um motivo para alterar seus
planos de viagem. Em resumo, o sinal observado diz respeito principalmente
àqueles que acumulam centenas de horas de voo anualmente ao longo de décadas.
Isso
também não é uma prova definitiva de causalidade, uma vez que os dados não
medem a exposição real recebida por cada pessoa, e fatores como turnos de
trabalho noturnos ou exposição à luz ultravioleta na cabine de comando –
mencionados pelos epidemiologistas Catherine Olsen e Ken Karipidis à Time – e
também podem contribuir para o padrão observado. O estudo não permite isolar
completamente a potencial influência disso.
Mesmo
assim, a pesquisa levanta um debate trabalhista em curso. A própria
Administração Federal de Aviação (FAA) dos EUA reconhece que pilotos e
comissários de bordo são expostos à radiação ionizante devido ao seu trabalho.
No entanto, de acordo com a Escola de Medicina de Harvard, as tripulações de
voo dos EUA não têm limites federais para a exposição que podem receber e não
são obrigadas a monitorá-la, ao contrário de outros trabalhadores e tripulações
expostos à radiação em outros países.
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário