A
pobreza não pode esperar
O
recém-lançado relatório The Roadmap for
Eradicating Poverty Beyond Growth [Um roteiro para a erradicar a
pobreza para além do crescimento] coordenado por Olivier De Schutter,
submete a questão da pobreza a um exame rigoroso. Fruto de dezoito meses de
consultas com especialistas, universidades, organismos internacionais,
movimentos sociais e representantes de governos, o documento parte de uma
proposição tão simples quanto poderosa: o combate à pobreza não pode permanecer
refém do ritmo de crescimento da economia.
Por
décadas, enraizou-se a crença de que a pobreza diminuiria naturalmente à medida
que a economia crescesse. No Brasil, essa lógica encontrou expressão máxima no
lema “É preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”, amplamente
difundido durante a ditadura militar. A lógica parecia simples. A expansão da
produção estimularia investimentos, ampliaria o emprego, elevaria a arrecadação
do Estado e, com o tempo, criaria as condições necessárias para reduzir as
desigualdades. Aos poucos, essa hipótese mítica sobre o funcionamento da
economia acabou moldando o imaginário coletivo acerca do desenvolvimento.
Em
muitos países, a expansão econômica esteve, de fato, associada à melhora das
condições de vida de milhões de pessoas. O equívoco nasceu em outro momento,
quando uma trajetória histórica e geograficamente bem localizada passou a valer
como lei geral. O crescimento, que era um caminho possível para enfrentar a
pobreza, foi promovido à condição indispensável para que ela pudesse ser
reduzida. A erradicação da pobreza deixou, assim, de constituir um compromisso
permanente da sociedade para transformar-se numa consequência esperada, fruto
do bom desempenho da economia, a ser colhida tardiamente. A dignidade humana
ficou, ainda que ninguém o diga em voz alta, umbilicalmente amarrada aos ciclos
de expansão econômica.
Nenhuma
sociedade cogitaria suspender a liberdade de expressão, o acesso à Justiça ou à
educação básica até que o Produto Interno Bruto atingisse determinado patamar.
Esses direitos nascem da própria dignidade humana e vinculam o Estado em
qualquer circunstância, sem esperar autorização da economia. Diante da pobreza,
porém, o raciocínio muda de rota: em vez de perguntar como assegurar a todos
uma existência compatível com essa dignidade, pergunta-se quanto a economia
ainda precisa crescer antes que esse direito possa ser efetivamente garantido.
Num caso, a economia permanece instrumento; no outro, torna-se pré-requisito
para que um direito sequer seja reconhecido.
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É hora de discutir o compartilhamento da riqueza
Aforça
dessa mudança não está apenas nas respostas que o relatório propõe, mas na
pergunta que devolve ao centro do debate. Por décadas, discutiu-se qual taxa de
crescimento seria necessária para reduzir a pobreza. Raramente se perguntou por
que a efetivação de um direito humano haveria de depender do desempenho
econômico. Na prática, essa mudança reconfigura o horizonte do problema: já não
basta discutir quanto produzir, é preciso discutir como a riqueza é produzida,
apropriada e distribuída.
Nada
disso diminui a importância do crescimento econômico. Nenhuma sociedade
prescinde da produção de riqueza, da inovação, do investimento, da ampliação de
sua capacidade produtiva, e nos países de baixa renda sobretudo, a expansão da
economia continua indispensável para garantir infraestrutura, alimentação,
energia, saneamento e serviços públicos essenciais. O que o crescimento não
faz, contudo, é responder às perguntas decisivas. Quem se apropria da riqueza
produzida? Quem fica de fora de seus benefícios? A que custo social e ambiental
ela é obtida? Sobre isso, o indicador continua mudo.
E aqui
a resposta do relatório merece nome próprio. Nas últimas três décadas, o
patrimônio de bilionários cresceu a um ritmo próximo de oito por cento ao ano,
quase o dobro da taxa observada entre a metade mais pobre da população mundial.
O um por cento do topo da distribuição capturou, sozinho, mais de um terço de
toda a riqueza mundial acumulada entre 1995 e 2025, enquanto a metade mais
pobre da humanidade ficou com uma fração ínfima desse total. Não é imprecisão
estatística nem efeito colateral de um sistema ainda em ajuste: é o resultado
esperado de regras tributárias regressivas no topo, de mercados financeiros
liberalizados o bastante para absorver sem atrito fortunas cada vez maiores, e
de uma arquitetura jurídica que protege a acumulação de capital com mais rigor
do que protege o trabalho que a viabiliza.
Some-se
a isso outro duto de absorção da riqueza, menos visível ainda: a que atravessa
fronteiras. O relatório estima que, apenas em 2015, uma fração considerável do
produto das economias ricas foi apropriada, por meio de trocas comerciais
estruturalmente desiguais, de matérias-primas, energia e trabalho originados no
Sul Global; somado o período entre 1990 e 2015, o valor drenado supera em
muitas vezes toda a ajuda internacional ao desenvolvimento concedida no mesmo
intervalo. Não é desvio ocasional do comércio internacional, mas sua lógica
estrutural: extração no Sul, processamento e captura de valor no Norte, com o
excedente convertido em patrimônio financeiro que circula por sistemas
tributários desenhados, propositalmente, para não o alcançar.
Economias
que ampliaram de forma consistente sua produção conviveram, lado a lado, com
concentração patrimonial elevada, precarização do trabalho e pobreza
persistente, como duas curvas que sobem juntas sem nunca se tocar. Ao mesmo
tempo, a crise climática revelou que um modelo dependente da expansão contínua
da produção material esbarra em limites ecológicos que já não podem ser
tratados como hipótese distante. O planeta está a um palmo da exaustão.
É nesse
ponto que reside a contribuição mais relevante do relatório: pobreza,
desigualdade e degradação ambiental deixam de ser tratadas como fenômenos
isolados e passam a ser lidas como expressões de uma mesma arquitetura
econômica. Se a pobreza resultasse apenas da escassez de riqueza, bastaria
produzir mais para superá-la. Ocorre que ela nasce também da forma como
riqueza, poder e oportunidades são distribuídos — e é aí que sua permanência
deixa de parecer inevitável. Ela passa a ser vista como resultado de escolhas
institucionais e prioridades políticas: formas específicas de organizar a
economia que beneficiam justamente quem já a controla.
Essa
nova perspectiva transforma a própria definição de pobreza. Por muito tempo,
prevaleceu uma concepção quase exclusivamente monetária: pobre era quem vivia
abaixo de determinado patamar de renda. O critério, embora indispensável para
dimensionar a privação extrema, jamais foi suficiente para descrever a
realidade que pretendia medir. Entre a insuficiência de renda e a experiência
concreta da pobreza existe um território inteiro de vulnerabilidades:
insegurança permanente, discriminação, invisibilidade institucional, restrições
ao exercício de direitos, escassa capacidade de influir nas decisões que moldam
a própria existência.
A renda
continua importante; apenas perde o monopólio da explicação. O centro da
análise migra para os mecanismos que distribuem oportunidades, concentram
patrimônio e reproduzem vulnerabilidades ao longo do tempo, e a pobreza
revela-se, antes de tudo, como processo contínuo de fabricação de desvantagens.
Combatê-la exige mais do que ampliar a renda disponível ou aperfeiçoar
políticas compensatórias: exige intervir sobre as próprias estruturas que
produzem, acumulam e perpetuam desigualdades, a começar por quem detém o
capital produtivo e financeiro, e pelas regras que lhe permitem crescer mais
rápido do que qualquer outra fatia da renda nacional.
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A pobreza não é crise, mas projeto
Nesse
novo olhar, desaparece a imagem do pobre como destinatário passivo da
assistência estatal, e em seu lugar surge uma compreensão mais lúcida: a
pobreza como expressão de relações econômicas, políticas e jurídicas que
limitam, de forma recorrente, o acesso equitativo à riqueza socialmente
produzida. A pergunta decisiva não é mais quanto a economia precisa crescer,
mas quais instituições continuam permitindo que a exclusão se reproduza mesmo
quando a riqueza aumenta, de que modo o fazem, e a favor de quem foram
desenhadas.
A
redistribuição da riqueza, como a conhecemos, foi concebida como etapa
posterior ao funcionamento dos mercados — um reparo aplicado depois do estrago.
O relatório propõe outra lógica: reformular o próprio processo de geração da
riqueza, não apenas corrigir seus resultados. Nessa leitura mais ampla, a
distribuição não começa quando o Estado arrecada tributos e financia políticas
sociais; começa antes, na definição das regras que organizam a própria
atividade econômica. As escolhas institucionais que disciplinam o trabalho, a
concorrência, a tributação, a propriedade e o crédito decidem, desde a origem,
como renda e patrimônio serão repartidos entre quem trabalha e quem detém o
capital.
Rompe-se,
com isso, uma das dicotomias mais persistentes do pensamento econômico
contemporâneo: a de que os mercados produzem riqueza segundo lógica própria,
cabendo ao Estado apenas redistribuir, depois, parte dos resultados. Mercados
não existem à margem das instituições que lhes dão forma. Direitos de
propriedade, contratos, sistemas tributários, políticas monetárias, normas
regulatórias e regras de concorrência não corrigem um mercado preexistente; são
a condição de sua própria existência, e foram, historicamente, moldados por
quem já concentrava capital suficiente para influenciar sua redação. A
distribuição da riqueza está gravada nas regras que definem o funcionamento do
mercado, como uma marca d’água que só se revela quando se olha o papel contra a
luz.
A
implicação ultrapassa a economia. Se as instituições moldam continuamente a
distribuição das oportunidades, combater a pobreza deixa de ser tarefa
periférica das políticas públicas e passa a integrar o próprio desenho da ordem
econômica: não apenas reparar injustiças produzidas pelo mercado, mas impedir
que a expropriação da riqueza coletivamente criada se consolide como resultado
previsível de seu funcionamento.
Ganha
sentido, nesse contexto, a ideia de uma economia orientada pelos direitos
humanos. Os direitos civis e políticos sempre foram tratados como garantias
imediatamente exigíveis; os direitos sociais, ao contrário, ficaram
subordinados às restrições orçamentárias e às prioridades de cada governo. O
relatório recusa essa assimetria: alimentação, moradia, saúde, educação e
proteção social não são metas programáticas condicionadas à prosperidade, são
exigências permanentes da dignidade humana e, por isso, critérios de
organização da própria economia. Enquanto a superação da pobreza for tratada
como uma política pública entre tantas outras, sua realização continuará à
mercê das oscilações da conjuntura, das restrições fiscais e da resistência de
quem se beneficia da manutenção do arranjo atual. Ancorada nos direitos
humanos, ela muda de estatuto, não apenas de prioridade.
Essa
conclusão não apaga a diversidade das realidades nacionais. Países de baixa
renda continuam precisando ampliar sua capacidade produtiva para assegurar
infraestrutura, alimentação, energia e saneamento. Nas economias mais
desenvolvidas, o desafio é outro: reduzir a dependência de um modelo assentado
na expansão permanente do consumo material, cujos custos ambientais já não
cabem dentro da estabilidade dos ecossistemas. Em ambos os casos, permanece o
mesmo ponto decisivo: o crescimento pode continuar sendo necessário; o que
deixa de ser aceitável é transformá-lo em condição para o reconhecimento de
direitos fundamentais, ou em álibi para adiar a discussão sobre quem concentra
seus frutos.
A
mudança de foco também expõe os limites do principal indicador da vida
econômica contemporânea, o PIB: ele mede a riqueza produzida, mas nada diz
sobre como ela é distribuída, quem participou de sua produção ou quem foi
excluído dela. Por isso não basta substituir um indicador por outro: pouco
mudará se a estrutura institucional continuar tratando o crescimento como
finalidade superior, sem perguntar quem decide como a riqueza circula.
Indicadores descrevem prioridades; não as criam.
Aí
reside a contribuição mais profunda do relatório: a pobreza deixa de ser lida
como efeito colateral de uma economia ainda insuficiente e passa a expor os
limites da própria arquitetura institucional que organiza a produção e a
apropriação da riqueza — e os interesses que essa arquitetura protege. Enquanto
a pobreza for interpretada como consequência inevitável da escassez, a
sociedade seguirá esperando que o crescimento produza, algum dia, os recursos
para combatê-la — uma espera sem prazo, porque sem causa reconhecida.
Reconhecer que ela resulta também das regras que disciplinam a economia, e de
quem se beneficia delas, faz essa espera perder sentido.
A
história recente sustenta essa virada: a economia mundial atingiu níveis
inéditos de produtividade e riqueza, mas, enquanto o patrimônio dos mais ricos
cresce a taxas sem precedentes, a renda do trabalho perde participação
relativa, empurrada por décadas de desregulamentação e enfraquecimento
sindical. A permanência da pobreza em meio a essa abundância não é prova de que
falta riqueza — é prova de que essa riqueza tem dono, e esse dono raramente é
quem a produz.
O
relatório é um convite ao abandono da premissa de que os direitos humanos
dependem da expansão contínua da economia. A distinção pode parecer apenas
conceitual, mas não é — dela depende o próprio sentido que damos ao
desenvolvimento. Uma economia capaz de produzir cada vez mais, mas incapaz de
repartir de forma minimamente equitativa os frutos dessa produção, fracassa no
propósito que justifica sua existência: como uma colheita farta que apodrece no
paiol enquanto, ao lado, falta pão, porque alguém decidiu, antes da colheita,
quem teria a chave.
A
pobreza não espera o crescimento. Ela espera justiça. E a justiça começa por
perguntar quem decide o destino da riqueza que ainda não foi repartida.
Fonte:
Por Edward Magro, para Jacobin Brasil

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