quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A grande encruzilhada da América Latina: entre a pressão imperialista e o resgate da soberania nacional

O cenário internacional atravessa um dos seus momentos mais críticos das últimas décadas. Com o colapso acelerado do multilateralismo tradicional e a imposição brutal da realpolitik, a geopolítica global migrou do campo do diálogo diplomático direto para a política da força. Na avaliação do historiador e analista geopolítico Francisco Carlos Teixeira, no centro dessa engrenagem, o continente americano e o Sul Global voltam a figurar como alvos estratégicos do projeto neoimperialista de reorganização do domínio ocidental.

Em análise exposta no programa Fronteiras e Conflitos, da TV 247, o professor argumenta que as fronteiras entre a política interna e as relações exteriores desmoronaram por completo, submetendo governos progressistas e soberanos na América Latina e na Europa a uma ofensiva coordenada. O Brasil, pela sua estatura diplomática e liderança econômica regional, postula-se no olho deste furacão.

<><> O mapa das pressões: De Madri a Brasília, a geopolítica do cerco

A análise minuciosa dos acontecimentos internacionais recentes realizada por Francisco Teixeira revela que as ações no tabuleiro global não ocorrem de forma isolada. A recente escalada de tensões entre os Estados Unidos e países que mantêm posições de altivez diplomática evidencia um padrão claro de atuação imperial.

Segundo o professor, três nações tornaram-se alvos prioritários dessa postura agressiva: Cuba, historicamente sob o garrote econômico; a Espanha, cujo governo social-democrata assumiu uma posição firme de condenação às violações de direitos humanos na Palestina e recusou ceder suas bases territoriais para operações ofensivas no Oriente Médio; e o Brasil, que lidera a defesa da integração sul-americana, a soberania energética e a consolidação de um mundo multipolar através dos BRICS.

“Não há mais diques de contenção entre política interna e política externa. Vivemos um contínuo em que a soberania nacional precisa ser defendida contra tentativas de desestabilização internacional”, alerta Francisco Teixeira.

Nesse ecossistema de pressões, o especialista destaca que acordos militares periféricos e alianças estratégicas com governos alinhados ao projeto de Washington — de Assunção a Buenos Aires — visam cercar as iniciativas de autonomia do governo brasileiro e enfraquecer a coesão do bloco regional.

<><> O revisionismo histórico e a instrumentalização do passado

Outra dimensão crucial dessa ofensiva, apontada por Francisco Teixeira, é o combate no campo das narrativas e da memória histórica. A recente reabertura de debates e contendas diplomáticas na Bacia do Prata, alimentada por governos ultraconservadores, exemplifica como o passado tem sido instrumentalizado para gerar atritos desnecessários no presente.

Chico Teixeira adverte que tentativas de reescrever eventos dramáticos da história sul-americana, como a Guerra do Paraguai, ignorando a complexidade factual e o contexto de sangrentas ditaduras do século XIX, servem a um propósito bem claro: criar ruído diplomático e fragilizar os laços de solidariedade construídos a duras penas na região desde os processos de redemocratização e integração do século XX.

<><> Estratégias de desestabilização: A ameaça ao processo democrático

A grande preocupação que se desenha no horizonte político brasileiro, conforme enfatiza o historiador, diz respeito ao papel reservado à extrema-direita nacional. Diante de sucessivas derrotas no debate de propostas para o desenvolvimento social e econômico do país, setores extremistas passam a apostar abertamente na estratégia de melar o processo democrático.

Inspirados nos eventos de 6 de janeiro em Washington e 8 de janeiro em Brasília, Francisco Teixeira observa que o objetivo central dessas forças não é mais a disputa legítima nas urnas, mas sim a criação de uma crise institucional artificial. Ao questionar sistematicamente a integridade do sistema eleitoral e articular apoio no exterior com parlamentares e diplomatas alinhados à ultradireita internacional, busca-se construir a justificativa para um não reconhecimento dos resultados eleitorais.

<><> O caminho da altivez: Romper amarras e fortalecer a soberania

Frente a um mundo onde o multilateralismo institucionalizado deu lugar à lei do mais forte, Francisco Teixeira defende que o Brasil não pode se dar ao luxo de assistir passivamente aos movimentos do xadrez global. A preservação da democracia brasileira e da independência nacional exige coragem política e clareza estratégica.

Entre as propostas e reflexões trazidas pelo professor, destaca-se a necessidade imperativa de revisar e romper os acordos de cooperação militar e de dependência tecnológica com potências que abertamente atentam contra a soberania das instituições nacionais. Para Chico Teixeira, o fortalecimento das alianças com o Sul Global e o aprofundamento das parcerias no âmbito dos BRICS constituem os pilares fundamentais para garantir a estabilidade do país.

Como resume o historiador, a soberania de uma nação não é garantida por agentes externos, mas sim pela firmeza de seu povo e pela intransigência de suas instituições em defesa de um projeto nacional autônomo e pacífico.

¨      Crise com Lula ajuda Milei internamente, mas reduz espaço para iniciativas com região sul-americana

Na mais recente divergência entre os presidentes Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva, da Argentina e do Brasil, respectivamente, as críticas vieram mais do lado argentino. Especialistas ouvidas pelo Mundioka analisam a repercussão interna uma semana após a visita de Milei ao Brasil.

O jornal Clarín repercutiu os ataques de Milei e destacou que o conflito rompe uma tradição histórica de priorizar a boa relação entre Brasil e Argentina. Já o Página 12 foi mais incisivo: estampou a palavra "Vergonha" na manchete e classificou o episódio como a maior crise diplomática desde a redemocratização do país. Neste domingo (2), o presidente argentino insultou novamente Lula, chamando o petista de "ladrão, um corrupto".

O episódio ocorre em um momento delicado para o presidente argentino. Pesquisas recentes apontam que a confiança e a aprovação ao governo atingiram os menores níveis desde o início do mandato. O Índice de Confiança no Governo (ICG), elaborado pela Universidad Torcuato Di Tella, caiu para 1,94 ponto em uma escala de 0 a 5, o menor patamar da gestão Milei e 21% abaixo do registrado um ano antes. Já um levantamento da Atlas/Intel para a Bloomberg News mostrou que, em março, a aprovação do presidente recuou para 36,4%, enquanto a desaprovação se aproximou de 62%, os piores índices desde sua posse.

O desgaste já repercute entre empresários e no mercado financeiro, onde cresce a discussão sobre uma alternativa para as eleições presidenciais de 2027 que mantenha o compromisso com o equilíbrio fiscal e as reformas econômicas, mas adote uma postura menos confrontadora e combine disciplina nas contas públicas com maior atuação do Estado em áreas estratégicas.

Nesse cenário, a advogada de direitos humanos e deputada Myriam Bregman, hoje apontada como uma das políticas mais bem avaliadas do país, desponta como possível candidata da esquerda à Casa Rosada.

Para Beatriz Bandeira de Mello, doutora em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a ofensiva de Milei contra o governo brasileiro também deve ser compreendida à luz da política doméstica argentina. Segundo ela, crises diplomáticas passaram a ser usadas para produzir fatos políticos capazes de mobilizar sua base de apoio e deslocar o debate público para temas de maior apelo ideológico.

"Hoje, a gente não consegue dividir tanto política externa e política interna. As duas coisas estão muito entrelaçadas", afirma. Diante da perda de popularidade, Milei costuma recorrer a duas estratégias: reforçar sua agenda internacional ao lado dos Estados Unidos e de aliados ideológicos — ampliando a dependência de Buenos Aires em relação a Washington e aproximando-se de lideranças conservadoras, como ao participar da convenção do PL em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro — ou criar embates diplomáticos com parceiros regionais.

"Ele já fez isso com a Espanha, com a Colômbia, e agora tem feito isso recorrentemente com o Brasil para gerar um fato político e tentar conseguir algum apoio doméstico."

Para Mello, a escalada verbal também se insere no contexto eleitoral brasileiro e faz parte da tentativa de Milei de se consolidar como uma das principais lideranças da nova direita latino-americana, estreitando laços com a família Bolsonaro, Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia.

"Ele acaba fazendo dessa pauta uma tentativa de conseguir prestígio político, se colocar como uma figura relevante e distrair um pouco a audiência do que tem sido a política doméstica nos últimos meses."

Apesar do discurso do presidente argentino, as duas economias estão cada vez mais integradas. Em 2025, o comércio bilateral alcançou US$ 31,1 bilhões, o maior volume em 13 anos, sendo US$ 12,7 bilhões em exportações argentinas para o Brasil e US$ 18,4 bilhões em importações de produtos brasileiros.

A especialista ressalta que a integração das cadeias produtivas — especialmente na indústria automotiva — e os mecanismos criados pelo Mercosul, bloco que o próprio Milei tentou enfraquecer ao defender, em 2025, um acordo argentino de livre-comércio com os Estados Unidos, tornam improvável uma ruptura comercial.

A leitura é compartilhada por Flávia Loss, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

"É um péssimo exemplo para todas as relações que nós temos construído ao longo do século XX com a Argentina. É uma agenda puramente ideológica, não tem nenhum motivo para essas ofensas gratuitas e muito menos para que um chefe de Estado suba em um palanque para fazer propaganda eleitoral."

Na avaliação da professora, as críticas da imprensa, do empresariado e de parte da sociedade argentina demonstram que o episódio extrapolou uma divergência pessoal entre presidentes e passou a afetar a imagem institucional da Argentina. Ainda assim, ressalta que a estrutura construída pelo Mercosul e a forte integração produtiva continuam a funcionar como um freio às crises políticas.

Loss lembra que situações semelhantes ocorreram durante o governo Jair Bolsonaro, tanto nas relações com a Argentina quanto com a China, e que, em todas elas, prevaleceu o pragmatismo econômico. "O que segura o Mercosul, o que o mantém unido, ainda é essa parte do comércio e principalmente os industriais de ambos os países."

Em resumo, os efeitos dessa estratégia dificilmente provocarão um rompimento institucional ou comercial entre Brasil e Argentina. Para Loss, o maior risco está no longo prazo: o desgaste gradual da confiança política entre os dois países, reduzindo o espaço para novas iniciativas de integração regional e coordenação de políticas comuns.

"O que Javier Milei faz atende ao imediatismo do seu governo, mas acaba criando uma animosidade entre Brasil e Argentina que não é boa para nenhum dos dois lados. […] Política externa é uma política de longo prazo, de construção de relacionamentos."

¨      Após novos  ataques de Milei, Brasil rebaixa relações diplomáticas com Argentina

O governo brasileiro decidiu rebaixar as relações diplomáticas com a Argentina em resposta aos ataques do presidente Javier Milei contra o homólogo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Após participar da convenção que selou o nome do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa presencial, o líder argentino voltou a fazer duras críticas ao atual governo.

Em uma medida inédita na história da relação entre os dois países, o Itamaraty comunicou nesta terça-feira (4) ao embaixador argentino em Brasília, Guillermo Daniel Raimondi, que as tratativas diplomáticas passarão a ser conduzidas apenas pelo encarregado de negócios da representação. A informação foi divulgada inicialmente pelo jornal argentino Clarín.

A resposta inclui também a retirada de Julio Bitelli da Embaixada do Brasil em Buenos Aires. Com isso, o posto permanecerá vago enquanto Milei mantiver os ataques ao presidente brasileiro e a integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF).

Raimondi não será declarado persona non grata nem expulso do país. Ainda assim, deixará de atuar como principal interlocutor da relação bilateral, que passa a ser conduzida em um nível diplomático inferior.

A decisão foi tomada pouco mais de uma semana depois de Milei participar, em São Paulo, do lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. No evento, o presidente argentino chamou Lula de "ladrão" e "presidiário" e classificou o ministro Alexandre de Moraes como "lixo careca", após o magistrado impedir sua visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.

Na última segunda (3), Milei voltou a atacar o presidente brasileiro em entrevista à mídia local. "Ele foi solto por causa de uma falha processual. Ele não é inocente. [...] é muito menos grave chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar", justificou o argentino.

Milei não mediu esforços ao criticar o brasileiro ao afirmar que "se há alguém que interfere politicamente na região, é Lula, contaminando por completo com as ideias imundas do socialismo", sem apresentar provas dessa suposta interferência na América Latina.

<><> Queda da popularidade na Argentina

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil nos últimos dias apontam que os insultos são parte da estratégia de Milei para fortalecer sua base em meio à queda de popularidade. "Hoje, a gente não consegue dividir tanto política externa e política interna. As duas coisas estão muito entrelaçadas", avalia a pesquisadora Beatriz Bandeira de Mello.

Segundo a especialista, Milei tem o costume de, diante sua impopularidade, reforçar sua agenda ao lado dos EUA e criar embates com parceiros tradicionais e regionais. "Ele já fez isso com a Espanha e com a Colômbia."

Apesar do discurso, a relação econômica entre os dois países segue sólida. O comércio bilateral bateu R$ 160 bilhões em 2025, e a integração produtiva e o Mercosul reduzem o risco de uma ruptura comercial.

A internacionalista Flávia Loss pontua que as ações de Milei acabam criando uma animosidade entre Brasil e Argentina que não é boa para nenhum dos dois lados. O maior risco, diz, está no longo prazo: o desgaste gradual da confiança política entre os dois países, reduzindo o espaço para novas iniciativas de integração regional e coordenação de políticas.

¨      General venezuelano que acusou Lula negocia acordo com EUA de olho na eleição de 2026

Ex-diretor de Inteligência Militar da Venezuela se declarou culpado de narcoterrorismo e negocia colaboração com autoridades americanas, num movimento com potencial de impacto direto sobre a política brasileira.

Segundo o Revista Fórum, o ex-general venezuelano Hugo Carvajal, conhecido como "O Frango", pode estar prestes a fechar um acordo de delação premiada com os Estados Unidos.

Carvajal já fez acusações públicas contra o presidente Lula e é visto como peça central em um possível plano de Donald Trump para influenciar as eleições brasileiras de 2026.

O movimento ganhou força com a prisão e deportação do empresário Alex Saab para os EUA, em maio deste ano.

Saab, que até recentemente ocupava o Ministério da Indústria da Venezuela, enfrenta pena de até 20 anos de prisão. A expectativa das autoridades americanas é que ele coopere com as investigações.

Carvajal, ex-diretor de Inteligência Militar e ex-cônsul venezuelano, também está sob investigação nos EUA. Em 2025, ele se declarou culpado de conspiração para narcoterrorismo, ficando sujeito a uma pena de até 50 anos.

Uma delação conjunta dos dois pode expor detalhes sobre o chamado "Cartel dos Sóis", nome dado pelas autoridades americanas à rede de tráfico de drogas e armas ligada ao regime de Nicolás Maduro.

O histórico de Carvajal é complexo. Ele serviu sob Hugo Chávez e Maduro antes de romper com o chavismo em 2019, quando apoiou Juan Guaidó. Exilado na Espanha, foi preso a pedido de Washington e deportado para os EUA.

Em dezembro do ano passado, Carvajal escreveu uma carta aberta a Trump detalhando o que descreveu como o uso de drogas como arma contra os Estados Unidos e a instrumentalização do grupo Bonde de Aragua para exportar crime organizado. Ele também afirmou ter alertado Maduro sobre os riscos de permitir a instalação de um posto de escuta da inteligência russa na ilha de La Orchila.

A possibilidade de uma delação coordenada levanta preocupações sobre o uso político das informações por parte de Trump, com foco declarado na eleição de Flávio Bolsonaro em 2026.

 

Fonte: Brasil 247/Sputnik Brasil/O Cafezinho

 

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