A
armadilha do Duplo digital
Tudo é
estranho. Trabalhamos em casa. Socializamos online. Nossas vidas privadas estão
cada vez mais públicas. As pessoas fingem ser marcas; as marcas fingem ser
pessoas. Otimizamos nossos corpos até que eles se rompam. E quanto mais
sabemos, menos seguros nos sentimos.
Neste
mundo invertido, buscamos compreender o que é real e o que é verdadeiro. Para
conhecer a verdade sobre nós mesmos, começamos por um lugar que nos parece
natural: o espelho. Desejamos nos ver como os outros nos veem, e a vida moderna
nos oferece inúmeras oportunidades para isso.
Constantemente
nos deparamos com nossa própria imagem, quer queiramos ou não: em nossos
celulares, vídeos com a câmera frontal, selfies, perfis nas redes sociais,
chamadas de Meet, espaços públicos, sistemas de reconhecimento facial. Acabamos
esquecendo que os espelhos tanto duplicam a realidade quanto a invertem. Nenhum
deles mostra exatamente como somos. Tudo é estranho.
O
historiador Christopher Lasch escreveu que “para o narcisista, o mundo é um
espelho”. Quase 50 anos depois, esse diagnóstico continua preciso, mas não
capta totalmente a extensão da crise espiritual que enfrentamos atualmente.
Acredito que a sala de espelhos que nos cerca constantemente evoca algo
perturbador, sombrio. É uma armadilha afetiva na qual o imaginado suplanta o
real: escolhemos uma fantasia de nós mesmos em prejuízo da realidade dos
outros. E essa armadilha é atraída e facilitada pela tecnologia.
Para
entender o que quero dizer, basta imaginarmos nosso comportamento online na
vida real, sem as plataformas que embaralham os limites do que é aceitável.
Imagine-se
em uma festa de trabalho — daquelas que você detesta. Um colega se aproxima. Ao
lado dele, há um grande espelho, e enquanto você conversa e responde às suas
perguntas pessoais invasivas, você não olha para o rosto dele. Em vez disso,
olha para si mesma, para o seu próprio reflexo. Você se observa falando e
rindo, vê a careta que faz quando ele pergunta se você pretende ter outro filho
em breve. Você monitora seu reflexo, corrige a postura, exagera na expressão de
“estou ouvindo”. Pessoalmente, isso seria totalmente bizarro. As pessoas
provavelmente perguntariam se você precisa se sentar. Mas é exatamente isso que
fazemos, o dia todo, nas telas de aplicativos como o Meet.
Ou
imagine uma certa influenciadora de beleza mostrando seus produtos favoritos
para o verão — mas sem o celular. Por seis minutos seguidos, ela encara o
próprio olhar ávido no espelho do banheiro, falando com o reflexo. Ela toca nos
produtos, murmurando sobre — sei lá — os benefícios da mucina de caracol. Você
chamaria a polícia. Ou pelo menos quem estiver montando o elenco do novo filme
do Ari Aster.
Há algo
de inquietante em ser ao mesmo tempo orador e espectador, em representar a
própria identidade para si mesmo, em vez de simplesmente vivê-la. Quando
assumimos os papéis de ator, público e crítico simultaneamente, isso
inevitavelmente produa desgaste psicológico.
Historicamente,
nós, humanos, tivemos muito pouco acesso à nossa própria imagem, por mais que
sempre o desejássemos. Os espelhos de cobre e bronze do antigo Egito, Grécia e
Roma — culturas obcecadas pela beleza — eram objetos de luxo produzidos para os
ricos. Durante o Renascimento, os retratos a óleo encomendados eram destinados
à aristocracia e eram notoriamente pouco confiáveis. Qualquer fã da história
dos Tudor já ouviu a história de Ana de Cleves enganando o rei Henrique VIII
com um retrato tão impreciso que ele alegou não conseguir consumar o casamento.
Os
espelhos não eram objetos domésticos comuns até meados de 1800. Então, vieram
as imagens estáticas de nós mesmos, as imagens em movimento de nós mesmos e a
onipresente câmera do smartphone que combina as três, além de tornar essas
imagens acessíveis em qualquer lugar, por qualquer pessoa. Em quase toda a
história da humanidade, as pessoas não estavam olhando em seus próprios olhos,
e certamente não estavam assistindo a si mesmas em loop nos stories do
Instagram, tomando taças de espumante em um brunch de
despedida de solteira.
Sejamos
honestos: eu não deveria saber como fico quando levo o lixo para fora de casa.
Mas sei, porque minha câmera de segurança Google Home me alertou recentemente
sobre uma “Pessoa Vista – Câmera Traseira”. “Pessoa” é um termo generoso para o
que eu vi: uma figura fantasmagórica e abatida, com o cabelo oleoso preso para
trás, curvada sobre um saco de lixo como uma velha bruxa.
Somos
constantemente filmados: em público, pelo Estado, por empresas privadas
tentando nos vender coisas, até mesmo por estranhos. Eu me arrepio só de pensar
em todas as fotos minhas que existem nos celulares de desconhecidos. No meu
próprio filme de terror pessoal, lá estou eu, comendo um bagel, e algum turista
de 17 anos dá um zoom no meu rosto pixelado, tira um print e manda para o grupo
da família no WhatsApp — “a cara dessa mulher kkkk” — e eu me torno a piada
interna que define aquele feriado em Nova York pelos próximos anos.
É
curioso, especialmente considerando o quão pouco nos olhávamos no passado e o
quão raros e imperfeitos eram os espelhos durante milhares de anos, que a
sabedoria tradicional nos ensine a ter cautela com o ato de nos observarmos. As
três religiões com mais seguidores no Ocidente — cristianismo, islamismo e
judaísmo — alertam contra os perigos dos espelhos, da vaidade, do orgulho e da
preocupação excessiva consigo mesmo.
Durante
o shiva, o período de luto judaico de sete dias, os espelhos são cobertos para
incentivar a reflexão sobre a relação entre Deus e o homem e para desencorajar
a vaidade e o egocentrismo. O Livro de Provérbios ensina que o orgulho é
espiritualmente prejudicial: “O orgulho precede a ruína, / A arrogância, o
fracasso.”
Muitos
cristãos acreditam que o orgulho não é apenas um pecado, mas o pecado original
e o pior de todos. É demoníaco, “o estado de espírito completamente anti-Deus”,
como escreveu C.S. Lewis em “Cristianismo Puro e Simples”. O orgulho é um
afastamento de Deus e uma exaltação de si mesmo. O espelho é um símbolo de
orgulho e vaidade, mas também simboliza nosso conhecimento terreno incompleto.
Como escreveu o apóstolo Paulo sobre Deus em sua primeira carta aos Coríntios:
“Agora vemos como em espelho, de modo obscuro; então veremos face a face”.
A
tradição profética islâmica (hadith) desencoraja a representação de seres vivos
em contextos religiosos. No entanto, no misticismo islâmico, um espelho
embaçado é uma metáfora para a alma humana. Somente quando o ego é aniquilado e
a superfície é polida e limpa, o divino se torna visível. O Alcorão também é
explícito sobre o orgulho e a vaidade social: “Não desprezeis as pessoas, nem
andeis sobre a terra com arrogância”.
A
mensagem é clara: a auto-obsessão é espiritualmente perigosa e precisamos
manter-nos vigilantes. Nas três religiões, o espelho é uma forma pobre e
incompleta de ver. É coberto, escuro e embaçado. Não revela a verdade ou mesmo
a nós mesmos como somos. É somente através da contemplação privada, de
encontros face a face e de uma transformação espiritual interior que chegamos a
conhecer a verdade.
Se ao
menos fosse tão fácil. Como Narciso, somos facilmente seduzidos por nossos
próprios reflexos, por nossos eus imaginados e idealizados. Diariamente, somos
incentivados a essa auto-sedução. Mas seduzir a si mesmo… Francamente, não é
assim que a sedução deveria funcionar.
A
psicologia convencional, e praticamente todos os aspectos da vida moderna,
enfatizam bastante a importância de um ego saudável. É uma ideia reconfortante
e harmoniosa, essencial para qualquer personalidade equilibrada. Todos sabemos
que precisamos de amor-próprio e autocuidado. Sim, priorize-se, estabeleça
limites, use uma máscara facial hidratante… A mensagem oposta, de que existe
amor-próprio ou preocupação excessiva consigo mesmo, não é muito difundida no
TikTok. Mas obviamente, tudo tem seus limites.
O que
acontece quando os limites são ultrapassados? Coisas ruins, infelizmente.
Coisas terríveis. O reflexo de si mesmo raramente é reconfortante por muito
tempo. Em diversas culturas, espelhos têm sido usados por adivinhos,
feiticeiros e bruxas para adivinhação, vidência e tentativas de vislumbrar além
do mundo visível. No folclore e nas práticas ocultistas, o espelho não é
meramente reflexivo, mas permeável — um portal onde algo pode aparecer ou
alguém pode retornar.
Até
mesmo os pós-modernistas têm seus próprios alertas. Em 1967, Michel Foucault
descreveu o espelho de forma sombria como uma espécie de limiar, uma mistura
entre um mundo de fantasia, uma utopia e algum outro lugar estranho à margem —
que ele chamou de “heterotopia”. O espelho é um desses lugares estranhos porque
descobrimos nossa presença e nossa ausência ao mesmo tempo. “Eu me vejo ali
onde não estou”, escreveu ele, “em um espaço irreal e virtual que se abre por
trás da superfície”.
Outras
heterotopias, segundo Foucault, incluem a lua de mel, hospitais psiquiátricos,
resorts, prisões, o teatro, o cinema, museus, bibliotecas, bordéis e o
cemitério. Nesses ambientes, a ordem normal das coisas se desfaz e certas
verdades são expostas. Cada um desses lugares poderia servir como uma metáfora
apropriada para as telas, monitores e aplicativos de redes sociais que nos
refletem incessantemente. Essa tecnologia é um espelho, mas também é um museu,
um teatro, uma prisão.
Habitar
esse reino espelhado e dual, essa existência duplicada, não parece natural. Nem
mesmo parece neutro. Algo está errado, e quando algo está errado, Freud
provavelmente já tentou explicá-lo. Ele chamou isso de “o estranho”, um
conceito que, por sua própria natureza, resiste a uma definição precisa,
embora, se você já viu um filme de David Lynch, você o tenha experimentado em
primeira mão.
Complexos
de castração e fantasias uterinas à parte, Freud faz um trabalho bastante
preciso: o estranho, segundo seu ensaio de 1919 com o mesmo título, “é aquela
classe do terrível que remete a algo que nos é conhecido há muito tempo, algo
que outrora nos era muito familiar”. É fácil que algo novo ou desconhecido nos
assuste, mas a sensação de estranheza depende de já o conhecermos de alguma
forma.
O
estranho é uma versão sombria do familiar. Ele surge quando a fronteira entre
imaginação e realidade começa a se confundir, quando mecanismos ocultos parecem
estar em ação sob a superfície e quando algo ganha vida quando não deveria. (Ou
vice-versa, no caso de influenciadores, que podem ter aquele olhar morto e
penetrante.) É marcado pela repetição, por uma sensação de algo predestinado e
inescapável. Freud observou que o estranho é frequentemente e facilmente
produzido quando um símbolo começa a assumir toda a força daquilo que
representa. É difícil imaginar uma descrição mais precisa da vida online.
Os
efeitos psicológicos da observação prolongada de si mesmo são realmente
perturbadores. Um estudo de 2010 da Universidade de Urbino, na Itália,
descobriu que, quando jovens adultos saudáveis olhavam para seus próprios
rostos em um espelho sob baixa luminosidade, os resultados eram imediatos e
inquietantes. Os participantes relataram ver grandes deformações em seus
próprios rostos, uma pessoa desconhecida e até mesmo seres fantásticos e
monstruosos. Alguns viram o rosto de um animal, como um gato, um porco ou um
leão. Alguns viram seus pais. Todos experimentaram alguma forma de dissociação.
Alguns participantes sentiram que o outro rosto no espelho era o que os
observava.
Intimamente
ligada aos espelhos e ao estranho está a ideia do duplo, ou doppelgänger, um
tema há muito explorado na literatura e no cinema, desde a novela “O Duplo”, de
Dostoiévski, até o filme de terror “Nós”, de Jordan Peele. No folclore alemão e
do leste europeu, o doppelgänger é um presságio, um usurpador, a sombra do eu e
um sinal de que a identidade é instável. O eu é dividido, assombrado, imitado e
perseguido por sua própria imagem.
Hoje em
dia, tratamos nossa própria imagem — tanto no espelho quanto online — como algo
psicologicamente protetor: uma forma de estabilizar nossa identidade, gerenciar
nossa reputação e garantir um senso de identidade coerente.
Mas
tudo isso sugere a possibilidade oposta: quanto mais tentamos nos estabilizar
por meio da repetição, da duplicação, da auto-observação e — vou dizer — da
publicação na rede social, mais estranhos e frágeis nos tornamos. Uma
preocupação com o eu estável produz instabilidade. Hoje em dia, não abordamos
nossos duplos com cautela; nós os convidamos e chegamos ao ponto de os
selecionar.
É como
uma versão invertida de “O Retrato de Dorian Gray”. No romance de Oscar Wilde,
Dorian mantém sua bela imagem pública, enquanto seu retrato revela sua
corrupção e feiura interior. Sob a cultura da imagem moderna, tentamos a
operação inversa: apresentamos um duplo digital perfeito à custa de nosso eu
real, que fica a cargo do desconforto e da tensão entre os dois. Se você posta
a foto perfeita, pouco importa que se sinta triste por dentro.
A
situação é pior que a vaidade, mais sombria que o narcisismo. Os espelhos ao
nosso redor, especialmente os tecnológicos, nos dividem uns contra os outros —
e isso é desestabilizador e perigoso. À medida em que novos aspectos de nossas
vidas se apresentam em um reino virtual, e nos identificamos cada vez mais com
as fantasias de nossos sósias digitais, começamos a nos desumanizar. Quando
fazemos isso, torna-se sem dúvida mais fácil desumanizar os outros.
Uma
pequena forma de como isso acontece todos os dias: o desaparecimento
generalizado das boas maneiras. Frequentemente encontro alguém caminhando na
calçada em minha direção, absorto no celular, até que percebe a presença de
outra coisa vindo em sua direção, que neste caso sou eu, um ser humano. Esse
jogo de “quem pisca primeiro” insuportável pode ter algo a ver com a forma como
fomos condicionados a enxergar uns aos outros: como coisas, não como pessoas.
Vemos as outras pessoas como obstáculos para o que queremos, nas calçadas e em
outros lugares. Ou como coisas que podemos usar para conseguir o que queremos.
Grande parte da tecnologia nos trata como coisas a serem manipuladas,
“usuários” a serem usados. Nos acostumamos com isso, internalizamos essa mentalidade
e retribuímos o tratamento às pessoas ao nosso redor.
Quando
nos olhamos no espelho, buscamos algo. Queremos ser conhecidos, vistos e
compreendidos. Mas estamos olhando para o lugar errado. O espelho nos mostra
nosso próprio olhar autoexaltante — o olhar do orgulho, do prazer e do ego.
Essa fantasia é poderosa, até mesmo hipnotizante, mas pouco confiável. Quando
olhamos apenas para nós mesmos, não encontramos nada que nos resista; não há
contradições, nem interrupções. Precisamos do olhar honesto: o olhar dos outros
e o olhar voltado para os outros. Para nos enxergarmos com clareza, não usamos
espelhos. Usamos relacionamentos.
Antes
de ter um filho, eu tinha a impressão de ser uma pessoa muito paciente. Achava
que conseguiria limpar ovo mexido do chão sem nenhuma frustração, ler “Filhotes
de Coruja” pela enésima vez sem me cansar de Sarah, Percy, Bill e sua mãe
coruja sem nome. Mas meu lindo filho expôs minhas inadequações com uma clareza
alarmante. (Estou trabalhando nisso.) Em nossos relacionamentos amorosos com os
outros, somos levados para fora de nós mesmos e para o mundo.
Os
espelhos nos incentivam a escolher nossas fantasias em detrimento da realidade
alheia. É melhor desviarmos o olhar.
Fonte: Por
Catherine Shannon, em sua página no Substack | Tradução: Antonio Martins, em
Outras Palavras

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