quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A ansiedade migratória na busca de uma vida melhor

Migrar costuma ser associado a coragem, oportunidade e recomeço. Para muitos brasileiros, deixar o país representa a possibilidade de conquistar melhores condições financeiras, segurança, reconhecimento profissional ou uma vida considerada mais promissora. Entretanto, por trás do projeto migratório existe uma dimensão frequentemente pouco discutida: o impacto psicológico de deixar referências conhecidas, construir uma nova identidade e enfrentar a possibilidade de não ser plenamente acolhido pela sociedade de destino.

A experiência migratória não começa necessariamente quando a pessoa atravessa uma fronteira. Ela pode começar muito antes, ainda no Brasil, quando surgem expectativas, fantasias, medos e dúvidas sobre o futuro. E também não termina necessariamente quando o indivíduo retorna. Para algumas pessoas, voltar ao país de origem pode representar outro processo de adaptação, marcado por sentimentos de fracasso, estranhamento, perda de identidade e dificuldade de reconhecer o próprio lugar na sociedade que um dia foi familiar. A literatura científica contemporânea tem chamado atenção justamente para essa dimensão psicológica da migração.

Uma das experiências potencialmente mais desgastantes para quem migra é perceber que a sua nacionalidade, sotaque, aparência, profissão ou maneira de se comportar podem influenciar a forma como é tratado.

Uma revisão de escopo publicada em 2024, que analisou 143 estudos sobre discriminação e adaptação psicológica de imigrantes de primeira geração, encontrou evidências consistentes de associação entre discriminação percebida e desfechos negativos de saúde mental. A discriminação esteve relacionada a maiores níveis de depressão, sofrimento psicológico e ansiedade, além de menor bem-estar e satisfação com a vida. Isso é importante porque a rejeição migratória nem sempre aparece de maneira explícita. Ela pode estar presente em uma ofensa direta, mas também em situações mais sutis: ser constantemente tratado como menos competente, receber comentários sobre o sotaque, ter sua formação profissional desvalorizada, ser excluído de determinados círculos sociais, enfrentar estereótipos relacionados à nacionalidade ou sentir que precisa provar constantemente que merece estar naquele lugar.

A experiência repetida de situações como essas pode produzir uma espécie de vigilância psicológica: a pessoa passa a antecipar a possibilidade de ser rejeitada. E o problema não é apenas aquilo que aconteceu, mas também aquilo que ela passa a imaginar que poderá acontecer.

Os brasileiros constituem um grupo migratório particularmente interessante porque muitas vezes são percebidos de maneiras diferentes dependendo do país, gênero, raça, classe social, profissão e contexto cultural.

Uma revisão integrativa publicada em 2023 sobre a saúde mental de brasileiros imigrantes nos Estados Unidos identificou como temas relevantes as necessidades específicas de cuidado psicológico, as fontes de suporte e estresse na comunidade, além de fatores socioeconômicos relacionados à saúde mental, incluindo discriminação, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, coesão comunitária e aculturação. Os autores também chamam atenção para uma questão importante: brasileiros frequentemente são agrupados genericamente em categorias como “latinos”, o que pode apagar características culturais, linguísticas e históricas específicas da experiência brasileira. Esse apagamento pode contribuir para a sensação de não pertencimento. É como se a pessoa deixasse de ser reconhecida pelo que construiu sobre si mesma e passasse a ser interpretada principalmente pela categoria de “estrangeiro”.

Portugal oferece um exemplo particularmente relevante. A existência de uma língua compartilhada pode criar a expectativa de que a adaptação será simples. Porém, compartilhar o idioma não significa compartilhar necessariamente os códigos sociais, as relações de poder, os costumes, as expectativas profissionais ou a maneira como determinados grupos são percebidos.

Um estudo publicado em 2024, envolvendo 604 imigrantes brasileiros e cabo-verdianos em Portugal, encontrou uma associação importante entre discriminação percebida e sofrimento psicológico. Entre os brasileiros, aproximadamente 28,6% apresentaram sofrimento psicológico ; 10,4% apresentaram ansiedade moderada a grave na amostra estudada. A percepção de discriminação esteve associada ao sofrimento psicológico, enquanto resiliência e suporte social apareceram como fatores protetivos.

Outro estudo do mesmo projeto identificou que a discriminação estava relacionada ao sofrimento psicológico e que mulheres apresentavam maior vulnerabilidade em algumas dimensões analisadas. O estudo qualitativo também mostrou como a ausência de redes familiares, a insegurança e experiências discriminatórias podem produzir medo e ansiedade antes mesmo de uma nova situação de preconceito acontecer. Essa antecipação merece atenção clínica.

O indivíduo pode começar a pensar:

“Será que vão me tratar diferente porque sou brasileiro?”

“Será que meu sotaque vai fazer as pessoas me considerarem menos competente?”

“Será que vou conseguir emprego?”

“Será que estão rindo de mim?”

“Será que realmente pertenço a este lugar?”

A ansiedade migratória pode ser alimentada justamente por esse estado de incerteza constante.

É importante não interpretar todo sofrimento migratório como transtorno mental.

Migrar é uma experiência complexa e, em muitos casos, o desconforto faz parte de um processo esperado de adaptação. A questão clínica surge quando o sofrimento se torna intenso, persistente e começa a comprometer relações, trabalho, sono, autoestima, tomada de decisões ou funcionamento cotidiano.

A evidência científica sugere que a discriminação pode funcionar como um estressor social relevante, mas seus efeitos não acontecem de maneira automática ou igual para todas as pessoas.

O suporte social, a resiliência, as condições econômicas, o domínio do idioma, a situação profissional, a possibilidade de pertencimento comunitário e a maneira como o indivíduo interpreta suas experiências podem modificar significativamente esse processo. A revisão de 2024 sobre discriminação e aculturação, por exemplo, identificou o suporte social como um possível fator de proteção diante dos efeitos psicológicos da discriminação.

Por isso, compreender a ansiedade migratória exige olhar para além do indivíduo.Não se trata simplesmente de perguntar: “Por que essa pessoa não consegue se adaptar?”. Também é necessário perguntar: “O que essa pessoa está encontrando no ambiente em que está tentando se adaptar?”

Existe ainda uma dimensão emocional menos visível: o luto pelas perdas produzidas pela migração. A pessoa pode perder a convivência cotidiana com familiares, amigos, lugares conhecidos, referências culturais, comidas, festas, rituais, espontaneidade linguística e até uma determinada versão de si mesma.

Ao mesmo tempo, existe uma pressão para demonstrar que a escolha de migrar foi acertada.É comum que o indivíduo sinta que precisa mostrar aos familiares e amigos que “está tudo bem”, mesmo quando enfrenta solidão, insegurança ou sofrimento. Essa contradição pode produzir um conflito interno importante: “Eu escolhi isso. Então por que estou sofrendo?”. Sofrer não significa necessariamente que a decisão de migrar foi errada. Da mesma maneira, sentir saudades do Brasil não significa necessariamente que a pessoa precise retornar. A experiência migratória pode conter simultaneamente conquista e perda, liberdade e solidão, crescimento e medo. Parece filosófico não é?

Pouco se fala sobre a dimensão psicológica do retorno. Existe uma ideia social de que voltar significa simplesmente “ir para casa”. Mas, psicologicamente, o retorno pode ser muito mais complexo. A pessoa que retorna não é exatamente a mesma que saiu. Durante o período no exterior, ela pode ter adquirido novos valores, hábitos, expectativas, formas de relacionamento e maneiras diferentes de interpretar o mundo. Enquanto isso, sua família, seus amigos, sua cidade e sua própria posição social também podem ter mudado. Por isso, voltar pode produzir um fenômeno conhecido na literatura como estresse de reentrada, estresse de reaculturação ou choque cultural reverso.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 analisou 55 estudos sobre o processo de readaptação após o retorno ao país de origem. Os estudos encontrados apresentaram prevalências de estresse de reentrada variando de 40% a 92%, embora os autores ressaltem diferenças importantes entre métodos e populações estudadas. O retorno, portanto, não deve ser compreendido como simplesmente “voltar para onde tudo era conhecido”. É voltar para um lugar conhecido com uma identidade que pode ter mudado.

Essa pode ser uma das experiências mais dolorosas do retorno. O indivíduo pode perceber que já não se identifica completamente com o país de origem, mas também não se sente totalmente pertencente ao país onde viveu. Surge então uma experiência de identidade entre dois mundos.

Pesquisas com brasileiros que retornaram da Irlanda, por exemplo, descrevem dificuldades socio psicológicas relacionadas ao processo de reintegração, incluindo dificuldades de readaptação à vida no Brasil, perda ou transformação de redes sociais e desafios relacionados à reconstrução da vida após o retorno. Essa situação pode ser ainda mais complexa quando o retorno acontece acompanhado de uma sensação de fracasso. A pessoa pode pensar:

“Eu não consegui.”

“Todo mundo esperava que eu desse certo.” “Como vou explicar que voltei?”

“O que as pessoas vão pensar de mim?”

Nesse contexto, o retorno pode ser vivido não apenas como uma decisão prática, mas como uma ameaça à identidade e à autoestima.

Existe uma diferença importante entre decidir retornar e sentir-se obrigado a retornar. Quando o retorno acontece depois de experiências prolongadas de discriminação, dificuldades financeiras, problemas documentais, desemprego, isolamento social ou sofrimento psicológico, a pessoa pode interpretar o retorno como uma derrota. Esse significado atribuído ao retorno pode ser mais importante para a saúde mental do que o simples fato de voltar.

A literatura sobre retorno migratório ainda é relativamente limitada, mas estudos contemporâneos apontam que fatores como expectativas frustradas, alienação, dificuldades identitárias, suporte social insuficiente e falta de apoio institucional podem aumentar o estresse antes e depois do retorno. Por isso, a pergunta clínica não deveria ser apenas: “Por que você voltou?”; mas também:“O que voltar significa para você?”.

A migração pode modificar profundamente a maneira como uma pessoa se percebe. Antes, sua identidade podia estar organizada em torno de papéis relativamente estáveis: profissional, filho, mãe, pai, amigo, membro de uma comunidade. Depois da migração, esses papéis podem ser questionados. A pessoa pode descobrir novas capacidades, mas também enfrentar situações que desafiam sua autoestima.

Uma pesquisa de 2022 com jovens nipo-brasileiros que viviam no Japão, caracterizados como migrantes de retorno em relação ao Brasil e com ancestralidade japonesa, encontrou associação entre identidade étnica e indicadores de saúde mental. Aqueles com menor identificação étnica apresentaram piores condições de saúde mental na amostra estudada.

Embora esse estudo tenha uma população específica e não possa ser generalizado para todos os brasileiros que migram, ele ajuda a demonstrar uma questão importante: identidade e pertencimento podem ser componentes relevantes da saúde mental em contextos migratórios.

A ansiedade relacionada à migração pode envolver diferentes dimensões. Pode aparecer antes da partida, durante a adaptação e também após o retorno. Antes de migrar, pode estar relacionada à antecipação e à incerteza. Durante a permanência no exterior, pode envolver solidão, discriminação, dificuldades profissionais, barreiras culturais, distância da família e medo do futuro. No retorno, pode aparecer como insegurança sobre a própria identidade, dificuldades de readaptação, comparação com outras pessoas, vergonha, sensação de fracasso ou dificuldade de reconstruir vínculos. Por isso, o acompanhamento psicológico precisa considerar a história migratória como um processo, e não como um único acontecimento.

Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, uma das possibilidades é compreender como as experiências migratórias influenciam pensamentos, emoções, comportamentos e crenças sobre si mesmo e sobre o mundo. Depois de experiências repetidas de rejeição, por exemplo, podem surgir pensamentos como:

“As pessoas sempre vão me rejeitar.”

“Nunca vou ser aceito aqui.”

“Sou inferior porque sou estrangeiro.”

“Preciso provar meu valor o tempo inteiro.” “Se eu voltar, significa que fracassei.”

<><> “Minha vida no Brasil não tem mais lugar para mim.”

Esses pensamentos não devem ser automaticamente classificados como distorções cognitivas. Em algumas situações, eles podem estar relacionados a experiências reais de discriminação. A intervenção cognitivo-comportamental precisa, portanto, diferencia uma interpretação excessivamente ameaçadora de uma ameaça social efetivamente existente. Esse cuidado é fundamental.

O objetivo da psicoterapia não é convencer o imigrante de que “tudo está na cabeça dele”, mas ajudá-lo a desenvolver recursos para lidar com aquilo que pode ser modificado, reconhecer aquilo que não está sob seu controle, fortalecer redes de apoio, trabalhar autoestima e identidade e construir estratégias mais flexíveis diante das incertezas.

Uma das armadilhas psicológicas da experiência migratória é transformar a permanência ou o retorno em uma prova de sucesso ou fracasso. Mas permanecer não significa necessariamente vencer. E retornar não significa necessariamente fracassar. Algumas pessoas encontram no exterior oportunidades que não encontrariam no Brasil. Outras percebem que o custo emocional ou social da permanência é maior do que esperavam. Algumas retornam e constroem uma nova vida. Outras retornam temporariamente e depois migram novamente. A decisão precisa ser compreendida dentro da história individual, das condições concretas de vida e dos valores pessoais.

A psicoterapia pode ajudar justamente nesse espaço de reflexão: separar a decisão baseada em valores e necessidades reais daquela tomada exclusivamente pelo medo, pela vergonha ou pela pressão social.

<><> Cuidar da saúde mental também é cuidar da experiência migratória

A ciência contemporânea mostra que a saúde mental do imigrante não pode ser compreendida exclusivamente como uma característica individual. Discriminação, precarização profissional, isolamento, ausência de suporte social, insegurança econômica e barreiras institucionais podem fazer parte do contexto que produz sofrimento. Estudos recentes com brasileiros em Portugal reforçam essa rhttps://outraspalavras.net/crise-brasileira/3201878/elação e apontam, simultaneamente, para a importância de fatores protetivos como resiliência e suporte social.

Ao mesmo tempo, a literatura sobre retorno mostra que a volta também pode exigir um novo processo de adaptação. Isso significa que cuidar da saúde mental durante uma experiência migratória não é simplesmente ajudar alguém a “se acostumar com outro país”. É ajudar a pessoa a compreender quem ela está se tornando durante esse processo. Porque, muitas vezes, a pergunta mais profunda não é: “Onde eu devo morar?”; mas:“Quem eu sou depois de tudo o que vivi entre esses dois lugares?”.

 

Fonte: Por Karina Beatriz Gangi, em Outras Palavras

 

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