A
ansiedade migratória na busca de uma vida melhor
Migrar
costuma ser associado a coragem, oportunidade e recomeço. Para muitos
brasileiros, deixar o país representa a possibilidade de conquistar melhores
condições financeiras, segurança, reconhecimento profissional ou uma vida
considerada mais promissora. Entretanto, por trás do projeto migratório existe
uma dimensão frequentemente pouco discutida: o impacto psicológico de deixar
referências conhecidas, construir uma nova identidade e enfrentar a
possibilidade de não ser plenamente acolhido pela sociedade de destino.
A
experiência migratória não começa necessariamente quando a pessoa atravessa uma
fronteira. Ela pode começar muito antes, ainda no Brasil, quando surgem
expectativas, fantasias, medos e dúvidas sobre o futuro. E também não termina
necessariamente quando o indivíduo retorna. Para algumas pessoas, voltar ao
país de origem pode representar outro processo de adaptação, marcado por
sentimentos de fracasso, estranhamento, perda de identidade e dificuldade de
reconhecer o próprio lugar na sociedade que um dia foi familiar. A literatura
científica contemporânea tem chamado atenção justamente para essa dimensão
psicológica da migração.
Uma das
experiências potencialmente mais desgastantes para quem migra é perceber que a
sua nacionalidade, sotaque, aparência, profissão ou maneira de se comportar
podem influenciar a forma como é tratado.
Uma
revisão de escopo publicada em 2024, que analisou 143 estudos sobre
discriminação e adaptação psicológica de imigrantes de primeira geração,
encontrou evidências consistentes de associação entre discriminação percebida e
desfechos negativos de saúde mental. A discriminação esteve relacionada a
maiores níveis de depressão, sofrimento psicológico e ansiedade, além de menor
bem-estar e satisfação com a vida. Isso é importante porque a rejeição
migratória nem sempre aparece de maneira explícita. Ela pode estar presente em
uma ofensa direta, mas também em situações mais sutis: ser constantemente
tratado como menos competente, receber comentários sobre o sotaque, ter sua
formação profissional desvalorizada, ser excluído de determinados círculos
sociais, enfrentar estereótipos relacionados à nacionalidade ou sentir que
precisa provar constantemente que merece estar naquele lugar.
A
experiência repetida de situações como essas pode produzir uma espécie de
vigilância psicológica: a pessoa passa a antecipar a possibilidade de ser
rejeitada. E o problema não é apenas aquilo que aconteceu, mas também aquilo
que ela passa a imaginar que poderá acontecer.
Os
brasileiros constituem um grupo migratório particularmente interessante porque
muitas vezes são percebidos de maneiras diferentes dependendo do país, gênero,
raça, classe social, profissão e contexto cultural.
Uma
revisão integrativa publicada em 2023 sobre a saúde mental de brasileiros
imigrantes nos Estados Unidos identificou como temas relevantes as necessidades
específicas de cuidado psicológico, as fontes de suporte e estresse na
comunidade, além de fatores socioeconômicos relacionados à saúde mental,
incluindo discriminação, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, coesão
comunitária e aculturação. Os autores também chamam atenção para uma questão
importante: brasileiros frequentemente são agrupados genericamente em
categorias como “latinos”, o que pode apagar características culturais,
linguísticas e históricas específicas da experiência brasileira. Esse
apagamento pode contribuir para a sensação de não pertencimento. É como se a
pessoa deixasse de ser reconhecida pelo que construiu sobre si mesma e passasse
a ser interpretada principalmente pela categoria de “estrangeiro”.
Portugal
oferece um exemplo particularmente relevante. A existência de uma língua
compartilhada pode criar a expectativa de que a adaptação será simples. Porém,
compartilhar o idioma não significa compartilhar necessariamente os códigos
sociais, as relações de poder, os costumes, as expectativas profissionais ou a
maneira como determinados grupos são percebidos.
Um
estudo publicado em 2024, envolvendo 604 imigrantes brasileiros e
cabo-verdianos em Portugal, encontrou uma associação importante entre
discriminação percebida e sofrimento psicológico. Entre os brasileiros,
aproximadamente 28,6% apresentaram sofrimento psicológico ; 10,4% apresentaram
ansiedade moderada a grave na amostra estudada. A percepção de discriminação
esteve associada ao sofrimento psicológico, enquanto resiliência e suporte
social apareceram como fatores protetivos.
Outro
estudo do mesmo projeto identificou que a discriminação estava relacionada ao
sofrimento psicológico e que mulheres apresentavam maior vulnerabilidade em
algumas dimensões analisadas. O estudo qualitativo também mostrou como a
ausência de redes familiares, a insegurança e experiências discriminatórias
podem produzir medo e ansiedade antes mesmo de uma nova situação de preconceito
acontecer. Essa antecipação merece atenção clínica.
O
indivíduo pode começar a pensar:
“Será
que vão me tratar diferente porque sou brasileiro?”
“Será
que meu sotaque vai fazer as pessoas me considerarem menos competente?”
“Será
que vou conseguir emprego?”
“Será
que estão rindo de mim?”
“Será
que realmente pertenço a este lugar?”
A
ansiedade migratória pode ser alimentada justamente por esse estado de
incerteza constante.
É
importante não interpretar todo sofrimento migratório como transtorno mental.
Migrar
é uma experiência complexa e, em muitos casos, o desconforto faz parte de um
processo esperado de adaptação. A questão clínica surge quando o sofrimento se
torna intenso, persistente e começa a comprometer relações, trabalho, sono,
autoestima, tomada de decisões ou funcionamento cotidiano.
A
evidência científica sugere que a discriminação pode funcionar como um
estressor social relevante, mas seus efeitos não acontecem de maneira
automática ou igual para todas as pessoas.
O
suporte social, a resiliência, as condições econômicas, o domínio do idioma, a
situação profissional, a possibilidade de pertencimento comunitário e a maneira
como o indivíduo interpreta suas experiências podem modificar
significativamente esse processo. A revisão de 2024 sobre discriminação e
aculturação, por exemplo, identificou o suporte social como um possível fator
de proteção diante dos efeitos psicológicos da discriminação.
Por
isso, compreender a ansiedade migratória exige olhar para além do indivíduo.Não
se trata simplesmente de perguntar: “Por que essa pessoa não consegue se
adaptar?”. Também é necessário perguntar: “O que essa pessoa está encontrando
no ambiente em que está tentando se adaptar?”
Existe
ainda uma dimensão emocional menos visível: o luto pelas perdas produzidas pela
migração. A pessoa pode perder a convivência cotidiana com familiares, amigos,
lugares conhecidos, referências culturais, comidas, festas, rituais,
espontaneidade linguística e até uma determinada versão de si mesma.
Ao
mesmo tempo, existe uma pressão para demonstrar que a escolha de migrar foi
acertada.É comum que o indivíduo sinta que precisa mostrar aos familiares e
amigos que “está tudo bem”, mesmo quando enfrenta solidão, insegurança ou
sofrimento. Essa contradição pode produzir um conflito interno importante: “Eu
escolhi isso. Então por que estou sofrendo?”. Sofrer não significa
necessariamente que a decisão de migrar foi errada. Da mesma maneira, sentir
saudades do Brasil não significa necessariamente que a pessoa precise retornar.
A experiência migratória pode conter simultaneamente conquista e perda,
liberdade e solidão, crescimento e medo. Parece filosófico não é?
Pouco
se fala sobre a dimensão psicológica do retorno. Existe uma ideia social de que
voltar significa simplesmente “ir para casa”. Mas, psicologicamente, o retorno
pode ser muito mais complexo. A pessoa que retorna não é exatamente a mesma que
saiu. Durante o período no exterior, ela pode ter adquirido novos valores,
hábitos, expectativas, formas de relacionamento e maneiras diferentes de
interpretar o mundo. Enquanto isso, sua família, seus amigos, sua cidade e sua
própria posição social também podem ter mudado. Por isso, voltar pode produzir
um fenômeno conhecido na literatura como estresse de reentrada, estresse de
reaculturação ou choque cultural reverso.
Uma
revisão sistemática publicada em 2024 analisou 55 estudos sobre o processo de
readaptação após o retorno ao país de origem. Os estudos encontrados
apresentaram prevalências de estresse de reentrada variando de 40% a 92%,
embora os autores ressaltem diferenças importantes entre métodos e populações
estudadas. O retorno, portanto, não deve ser compreendido como simplesmente
“voltar para onde tudo era conhecido”. É voltar para um lugar conhecido com uma
identidade que pode ter mudado.
Essa
pode ser uma das experiências mais dolorosas do retorno. O indivíduo pode
perceber que já não se identifica completamente com o país de origem, mas
também não se sente totalmente pertencente ao país onde viveu. Surge então uma
experiência de identidade entre dois mundos.
Pesquisas
com brasileiros que retornaram da Irlanda, por exemplo, descrevem dificuldades
socio psicológicas relacionadas ao processo de reintegração, incluindo
dificuldades de readaptação à vida no Brasil, perda ou transformação de redes
sociais e desafios relacionados à reconstrução da vida após o retorno. Essa
situação pode ser ainda mais complexa quando o retorno acontece acompanhado de
uma sensação de fracasso. A pessoa pode pensar:
“Eu não
consegui.”
“Todo
mundo esperava que eu desse certo.” “Como vou explicar que voltei?”
“O que
as pessoas vão pensar de mim?”
Nesse
contexto, o retorno pode ser vivido não apenas como uma decisão prática, mas
como uma ameaça à identidade e à autoestima.
Existe
uma diferença importante entre decidir retornar e sentir-se obrigado a
retornar. Quando o retorno acontece depois de experiências prolongadas de
discriminação, dificuldades financeiras, problemas documentais, desemprego,
isolamento social ou sofrimento psicológico, a pessoa pode interpretar o
retorno como uma derrota. Esse significado atribuído ao retorno pode ser mais
importante para a saúde mental do que o simples fato de voltar.
A
literatura sobre retorno migratório ainda é relativamente limitada, mas estudos
contemporâneos apontam que fatores como expectativas frustradas, alienação,
dificuldades identitárias, suporte social insuficiente e falta de apoio
institucional podem aumentar o estresse antes e depois do retorno. Por isso, a
pergunta clínica não deveria ser apenas: “Por que você voltou?”; mas também:“O
que voltar significa para você?”.
A
migração pode modificar profundamente a maneira como uma pessoa se percebe.
Antes, sua identidade podia estar organizada em torno de papéis relativamente
estáveis: profissional, filho, mãe, pai, amigo, membro de uma comunidade.
Depois da migração, esses papéis podem ser questionados. A pessoa pode
descobrir novas capacidades, mas também enfrentar situações que desafiam sua
autoestima.
Uma
pesquisa de 2022 com jovens nipo-brasileiros que viviam no Japão,
caracterizados como migrantes de retorno em relação ao Brasil e com
ancestralidade japonesa, encontrou associação entre identidade étnica e
indicadores de saúde mental. Aqueles com menor identificação étnica
apresentaram piores condições de saúde mental na amostra estudada.
Embora
esse estudo tenha uma população específica e não possa ser generalizado para
todos os brasileiros que migram, ele ajuda a demonstrar uma questão importante:
identidade e pertencimento podem ser componentes relevantes da saúde mental em
contextos migratórios.
A
ansiedade relacionada à migração pode envolver diferentes dimensões. Pode
aparecer antes da partida, durante a adaptação e também após o retorno. Antes
de migrar, pode estar relacionada à antecipação e à incerteza. Durante a
permanência no exterior, pode envolver solidão, discriminação, dificuldades
profissionais, barreiras culturais, distância da família e medo do futuro. No
retorno, pode aparecer como insegurança sobre a própria identidade,
dificuldades de readaptação, comparação com outras pessoas, vergonha, sensação
de fracasso ou dificuldade de reconstruir vínculos. Por isso, o acompanhamento
psicológico precisa considerar a história migratória como um processo, e não
como um único acontecimento.
Na
perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, uma das possibilidades é
compreender como as experiências migratórias influenciam pensamentos, emoções,
comportamentos e crenças sobre si mesmo e sobre o mundo. Depois de experiências
repetidas de rejeição, por exemplo, podem surgir pensamentos como:
“As
pessoas sempre vão me rejeitar.”
“Nunca
vou ser aceito aqui.”
“Sou
inferior porque sou estrangeiro.”
“Preciso
provar meu valor o tempo inteiro.” “Se eu voltar, significa que fracassei.”
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“Minha vida no Brasil não tem mais lugar para mim.”
Esses
pensamentos não devem ser automaticamente classificados como distorções
cognitivas. Em algumas situações, eles podem estar relacionados a experiências
reais de discriminação. A intervenção cognitivo-comportamental precisa,
portanto, diferencia uma interpretação excessivamente ameaçadora de uma ameaça
social efetivamente existente. Esse cuidado é fundamental.
O
objetivo da psicoterapia não é convencer o imigrante de que “tudo está na
cabeça dele”, mas ajudá-lo a desenvolver recursos para lidar com aquilo que
pode ser modificado, reconhecer aquilo que não está sob seu controle,
fortalecer redes de apoio, trabalhar autoestima e identidade e construir
estratégias mais flexíveis diante das incertezas.
Uma das
armadilhas psicológicas da experiência migratória é transformar a permanência
ou o retorno em uma prova de sucesso ou fracasso. Mas permanecer não significa
necessariamente vencer. E retornar não significa necessariamente fracassar.
Algumas pessoas encontram no exterior oportunidades que não encontrariam no
Brasil. Outras percebem que o custo emocional ou social da permanência é maior
do que esperavam. Algumas retornam e constroem uma nova vida. Outras retornam
temporariamente e depois migram novamente. A decisão precisa ser compreendida
dentro da história individual, das condições concretas de vida e dos valores
pessoais.
A
psicoterapia pode ajudar justamente nesse espaço de reflexão: separar a decisão
baseada em valores e necessidades reais daquela tomada exclusivamente pelo
medo, pela vergonha ou pela pressão social.
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Cuidar da saúde mental também é cuidar da experiência migratória
A
ciência contemporânea mostra que a saúde mental do imigrante não pode ser
compreendida exclusivamente como uma característica individual. Discriminação,
precarização profissional, isolamento, ausência de suporte social, insegurança
econômica e barreiras institucionais podem fazer parte do contexto que produz
sofrimento. Estudos recentes com brasileiros em Portugal reforçam essa
rhttps://outraspalavras.net/crise-brasileira/3201878/elação e apontam,
simultaneamente, para a importância de fatores protetivos como resiliência e
suporte social.
Ao
mesmo tempo, a literatura sobre retorno mostra que a volta também pode exigir
um novo processo de adaptação. Isso significa que cuidar da saúde mental
durante uma experiência migratória não é simplesmente ajudar alguém a “se
acostumar com outro país”. É ajudar a pessoa a compreender quem ela está se
tornando durante esse processo. Porque, muitas vezes, a pergunta mais profunda
não é: “Onde eu devo morar?”; mas:“Quem eu sou depois de tudo o que vivi entre
esses dois lugares?”.
Fonte:
Por Karina Beatriz Gangi, em Outras Palavras

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