Uma
fiscal contra o crime: o dia a dia no Parque Nacional do Pau-Brasil
Na
chamada “Costa do Descobrimento”, no sul da Bahia, a imagem que se impõe a quem
pesquisa o destino ou chega para passar férias é a de praias paradisíacas,
coqueiros, resorts de luxo e destinos badalados como Trancoso e Caraíva,
frequentados por influenciadores digitais e celebridades.
Mas,
por trás desse cartão-postal, desenha-se um mapa de conflitos complexo. A
região de Porto Seguro é, há décadas, marcada por disputas territoriais entre
povos indígenas e fazendeiros — e, mais recentemente, passou a figurar no
noticiário policial como palco de confrontos armados entre facções criminosas,
como o Comando Vermelho e a Polícia Militar da Bahia.
Em meio
a esse cenário conflagrado, três parques nacionais se impõem na paisagem
dominada pelo turismo: o Parque Nacional do Descobrimento, o Parque Nacional e
Histórico do Monte Pascoal e o Parque Nacional do Pau-Brasil. Juntas, essas
unidades de conservação preservam fragmentos de um Brasil anterior à chegada
dos portugueses e oferecem um vislumbre cada vez mais raro do que ainda resta
da Mata Atlântica.
Nem
mesmo esses territórios protegidos por lei escapam às atividades ilícitas.
Aline Polli, que aparece na imagem que abre esta reportagem, é a chefe do
parque e analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMBio). Ela afirma que os conflitos da região frequentemente
transbordam para a unidade. “Esses grupos usam o parque como rota de passagem
ou, por ser uma área mais remota, para desovar corpos. Já encontramos cadáveres
e tivemos de acionar o Instituto Médico Legal (IML). São muitas as demandas
para administrar um território desse tamanho”, relata.
O crime
ambiental soma-se à caça e à extração ilegais de madeira, às ameaças e aos
ataques contra servidores e moradores, bem como às disputas fundiárias.
Relatórios das operações Dó Ré Mi, do Ibama, e Ibirapitanga I e II, da Polícia
Federal, obtidos pela Agência Pública, indicam que parte do pau-brasil
utilizado por décadas por fabricantes de arcos de violino no Espírito Santo foi
extraída ilegalmente do interior do parque de 19 mil hectares, o que equivale a
2,5 vezes o tamanho do município de Vitória, no Espírito Santo.
Para
vigiar o território reconhecido como Patrimônio Natural Mundial pela UNESCO, o
ICMBio mantém cinco analistas ambientais no local — mas apenas três estão em
atividade — e apenas Polli como fiscal. Diante da falta de pessoal, a servidora
acumula funções e precisa conciliar a gestão da unidade com as ações de
fiscalização. “Estou sozinha na fiscalização, e sigo tentando obter mais
apoio”, explica.
A
equipe conta ainda com nove brigadistas terceirizados e, na maior parte do
tempo, dispõe de apenas um veículo em funcionamento. “É mata atlântica indo
para o chão em pleno apocalipse climático”, desabafou a servidora.
É nesse
cenário de escassez de pessoal e de estrutura que sobrevivem alguns dos últimos
exemplares de pau-brasil no planeta — espécie ameaçada de extinção desde 1992 e
que, por falta de recursos humanos e tecnológicos, ainda não pôde ser
quantificada com precisão na unidade. Ainda assim, sabe-se que o parque abriga
hoje o maior reduto da espécie nativa no mundo.
“Eu não
vejo uma preocupação real dos governantes em preservar o que restou da Mata
Atlântica, e menos ainda com o pau-brasil. Apesar de ter sido muito mais
impactado, o bioma recebe bem menos holofotes do que a Amazônia. A Amazônia
concentra hoje a maior parte da atenção nacional e internacional — é a menina
dos nossos olhos. É claro que ela é um bioma importantíssimo e ameaçado, mas a
Mata Atlântica foi historicamente muito mais degradada, e hoje não estamos
dando conta de proteger nem o que restou dela”, afirma Polli. De acordo com um
levantamento de 2023 da Fundação SOS Mata Atlântica, restam apenas 24% da
cobertura original do bioma.
O
parque também enfrenta a caça e o tráfico ilegal de espécies nativas —
pássaros, paca, tatu, cotia e veados —, práticas que reduzem as populações de
fauna, desequilibram as cadeias ecológicas e comprometem a regeneração natural
da floresta. Os infratores raramente enfrentam punições efetivas. Em geral,
recebem multas que, segundo Polli, quase nunca são pagas. “No Brasil, o crime
ambiental compensa”, lamenta a servidora, que explica que o entorno do parque
ainda enfrenta a especulação imobiliária crescente. “Estou passando por
situações horríveis de extração de areia e de madeira no entorno. É um cenário
de guerra”, afirma.
Latifúndios
de monocultura de eucalipto, café, cacau, mamão e pimenta-do-reino rodeiam o
território, ameaçando as espécies nativas. O risco é múltiplo: o uso de
agrotóxicos que escorrem pelo solo e contaminam a área protegida; a degradação
do entorno; e a ação de aves que transportam sementes de espécies exóticas para
o interior do parque — um território originalmente composto exclusivamente por
Mata Atlântica nativa.
<><>
Caravela é o símbolo colonial do parque
Quem
chega ao Parque Nacional do Pau-Brasil, após percorrer quilômetros de
monoculturas ainda visíveis pela estrada, encontra um pequeno centro de
visitantes. Ali, uma sala convida o público a conhecer a história da madeira
que deu nome ao país. A exposição reconstitui, com ilustrações, objetos e
painéis informativos, os ciclos de exploração da espécie — do uso como corante
têxtil no período colonial à fabricação de arcos de violino a partir do século
XIX. Um dos painéis destaca que grandes orquestras sinfônicas, em várias partes
do mundo, ainda utilizam arcos de pau-brasil.
No
mesmo centro de visitantes, um detalhe chama a atenção: a logomarca do parque
nacional. A imagem mostra uma caravela navegando no mar e, na vela da
embarcação, a folha do pau-brasil — um símbolo da exploração portuguesa que
ainda hoje estampa o próprio cartão de visitas da unidade de conservação.
“Essa
logo é, para mim, a coisa mais violenta que poderia existir. Ela simboliza que
até hoje continuam levando o pau-brasil embora. Levaram nossos recursos, o
conhecimento tradicional, a tintura. Hoje valorizam a madeira na música
clássica, mas de forma predatória: extraem a matéria-prima do Brasil e nos
mantêm em posição colonial. O bem manufaturado fica lá fora. Seguimos numa
posição de colônia e nossas vidas seguem em risco por conta dessas atividades
ilegais”, diz Polli. A chefe do parque articula uma votação online para renovar
a logomarca — mas a imagem oficial, por ora, permanece a mesma.
A
caravela na logomarca pode ser apenas uma imagem. Mas a poucos quilômetros do
centro de visitantes, na mata fechada do parque, os sinais de que o pau-brasil
continua sendo levado embora são concretos e recentes.
<><>
O que resta na floresta
Depois
da visita ao centro de visitantes, a equipe de reportagem da Pública saiu com
brigadistas do ICMBio para percorrer o parque em busca de sinais de extração de
pau-brasil. Segundo eles, flagrantes desse tipo tornaram-se cada vez mais raros
desde 2019 — assim como a própria comercialização da espécie na região,
atividade que, de acordo com os brigadistas, arrefeceu após as operações Dó Ré
Mi e Ibirapitanga.
Essas
investigações, conduzidas entre 2018 e 2022 pelo Ibama e pela Polícia Federal,
resultaram no indiciamento de 32 pessoas e na apreensão de mais de 230 mil
varetas de pau-brasil, mais de 11 mil metros cúbicos de ripas e 321 toretes
brutos. Parte desse material, segundo os relatórios, havia sido extraída
ilegalmente do interior do próprio parque — documentada com registros falsos
para parecer legal. “Os investigados inseriam informações falsas no sistema de
registro de estoques florestais para tentar esquentar essa madeira e, assim,
manufaturá-la ou exportá-la ilegalmente”, explica André Pimentel Filho,
procurador da República no Espírito Santo.
Os
brigadistas conduziram a reportagem a alguns pontos onde árvores haviam sido
derrubadas anos atrás. Ainda era possível ver troncos e raízes cortados, além
de fragmentos de madeira deixados para trás. No trajeto de volta, um enorme
tronco de pequizeiro havia sido abatido recentemente. Segundo os brigadistas
mais experientes, a árvore tinha mais de 600 anos. O tronco, ainda inteiro e
deitado no chão, atingia quase a altura de um adulto em pé.
Os
brigadistas explicaram que já o haviam avistado — a árvore fora derrubada
semanas antes e permanecia ali, aparentemente abandonada. Durante a expedição,
os brigadistas, até então descontraídos, ficaram tensos e recomendaram que
deixássemos o local. O motivo eram marcas recentes de pneus na terra e sinais
claros de atividade de corte. Sem porte de armas e frequentemente alvo de
ameaças, os brigadistas não conseguem fazer frente ao crime. “Os caras ainda
devem estar por aqui”, alertou Hugo Silva, chefe do esquadrão de brigadistas do
ICMBio — nome fictício, adotado por razões de segurança.
Assim
como o pau-brasil e outras madeiras nobres, o pequizeiro era grande demais para
ser transportado de uma só vez. O método dos madeireiros ilegais costuma seguir
um padrão: primeiro, derrubam a árvore — preferencialmente de madrugada ou nos
dias de folga dos fiscais. Depois, retornam para serrar o tronco em partes
menores, mais fáceis de carregar e de comercializar.
Ao fim
do dia, Polli mostrou à equipe de reportagem pilhas de tocos de pau-brasil e de
outras madeiras nobres, cortados e encontrados ao longo dos últimos anos pelos
funcionários do parque na mata. A extração do pau-brasil cessou no parque
devido à visibilidade gerada pelas operações do Ibama e da Polícia Federal —
mas a exploração ilegal de madeira persiste. Só mudou o alvo. “O parque é
grande demais para pouquíssimos funcionários. A gente tenta manter vigilância
constante, faz rondas, observa pegadas, marcas de pneus, vestígios de trilhas
abertas. Mas é impossível controlar tudo”, diz Polli.
O
pau-brasil pode ter saído do radar dos madeireiros ilegais momentaneamente —
mas, no parque que leva seu nome, a floresta segue sendo devorada em silêncio.
Fonte:
Por Augusta Lunardi, Giacomo Zandonini e Natália Alana, da Agencia Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário