Teoria
do apego: por que ela virou febre nas redes sociais e o que revela sobre seus
relacionamentos
Para
Lizzy, os relacionamentos sempre pareciam terminar da mesma forma. "Eu
tinha um segundo ou terceiro encontro e encontrava algo de errado com
eles."
Quando
as coisas pareciam ficar sérias, a conexão que ela buscava, de repente, parecia
desconfortável e até ameaçadora. E ela se afastava.
Lizzy
passou anos sem conseguir explicar a razão, até conhecer a teoria do apego. E a
descrição do chamado estilo evitativo-assustado (um dos quatro estilos de
apego) pareceu surpreendentemente familiar.
A
pessoa com estilo evitativo-assustado deseja a proximidade, mas receia que as
pessoas da sua vida, em algum momento, irão rejeitá-lo ou abandoná-lo.
"Foi
como encontrar a peça que faltava no quebra-cabeça que eu tentava solucionar há
anos", conta Lizzy.
Ela não
é a única. A teoria do apego explodiu em sucesso.
No
TikTok, vídeos marcados com #AttachmentTheory ("Teoria do apego", em
inglês) acumulam milhões de visualizações.
E, na
cultura popular, a teoria do apego é usada para explicar de tudo, como o
relacionamento dos personagens Marianne e Connell na série de TV e no livro
Pessoas Normais (Ed. Cia. das Letras, 2019), ou a letra da música Rein Me In,
de Sam Fender e Olivia Dean, recordista das paradas de sucesso britânicas.
"Na
primeira vez que ouvi, comecei a chorar", conta Lizzy.
Para
ela, a canção deu voz aos dois lados do apego evitativo: o medo que pode fazer
o amor se tornar insuportável e a confusão sentida pelo parceiro que ficou para
trás.
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Quais são os quatro estilos de apego?
Desenvolvida
nos anos 1950 pelo psiquiatra britânico John Bowlby (1907-1990), a teoria do
apego indica que os laços que formamos com os nossos primeiros cuidadores
formam nossas expectativas de relacionamento.
Se o
apoio estiver permanentemente disponível, você provavelmente considerará que as
outras pessoas são confiáveis.
Mas, se
o cuidado for imprevisível ou emocionalmente distante, você poderá desenvolver
estratégias para se proteger de decepções ou sofrimento.
Existem
quatro estilos de apego: ansioso, evitativo, evitativo-assustado e seguro.
Basicamente, eles são definidos desta forma:
• O apego ansioso é frequentemente
associado ao receio de rejeição ou abandono. Pessoas com este estilo de apego
podem buscar reafirmação frequente das pessoas próximas e enfrentar problemas
de baixa autoestima. Elas podem ficar muito atentas a alterações do
comportamento das outras pessoas;
• Pessoas com estilo de apego evitativo
priorizam sua independência e acham difícil se abrir emocionalmente ou confiar
nas pessoas. Subconscientemente, elas podem considerar a intimidade como uma
ameaça à sua autonomia e se afastar quando os relacionamentos se tornam
emocionalmente próximos demais;
• Aqueles com apego evitativo-assustado
desejam relacionamentos próximos, mas costumam ter dificuldade para se sentir
seguros. Eles podem buscar conexão em um momento e se afastar no segundo
seguinte;
• Alguém que é seguro fica confortável com
a proximidade e a independência nos relacionamentos. Elas geralmente conseguem
confiar nos demais, comunicar suas necessidades e buscar apoio quando
necessário.
Pesquisas
indicam que as pessoas seguras tendem a se dar melhor não apenas em
relacionamentos amorosos, mas em toda a vida.
Elas
gerenciam o estresse de forma mais eficiente, lidam melhor com os reveses, como
rejeição ou perda, e são melhores colegas e chefes no ambiente de trabalho.
O que
começou como uma forma de compreender os relacionamentos influencia cada vez
mais o comportamento das pessoas.
Nas
redes sociais, os estilos de apego são empregados para repensar amizades,
compreender as tensões familiares ou eliminar possíveis parceiros.
Coaches
de relacionamento prometem revelar os sinais ocultos da indisponibilidade
emocional em um parceiro ou como curar o apego ansioso.
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Os equívocos da teoria do apego
O
professor de psicologia Pascal Vrticka, da Universidade de Essex, no Reino
Unido, estudou o apego por cerca de duas décadas.
Ele
afirma que a teoria oferece "uma das melhores explicações" para as
diferentes formas em que as pessoas buscam apoio e conexão com os demais.
Vrticka
fica feliz em ver a teoria do apego chegar a um público maior, mas ele receia
que ela possa ser interpretada de forma "desatualizada, mal informada e,
no pior dos casos, prejudicial".
"Acho
que um dos problemas é que as pessoas generalizam demais a teoria e a empregam
em contextos onde ela talvez não seja a melhor forma de explicar o nosso
comportamento", explica ele.
Para
Vrticka, parte da questão está relacionada à evolução dos conceitos iniciais da
teoria do apego desde o seu desenvolvimento, nos anos 1950.
Ele
afirma que um dos maiores equívocos é acreditar que os estilos de apego são
fixos. Estudos demonstraram que eles podem apresentar um grau de estabilidade
ao longo do tempo, mas Vrticka afirma que é possível alterá-los.
"A
boa notícia é que há evidências que demonstram que o apego seguro é o mais
estável. Ou seja, quando você se torna seguro, a sua tendência é permanecer
assim."
Vrticka
afirma que o apego, muitas vezes, é remodelado durante períodos de transição,
particularmente durante a adolescência, quando os jovens começam a formar
relacionamentos próximos fora da família.
Eventos
posteriores da vida, como o início de um novo relacionamento, um rompimento ou
o luto, também podem exercer influência.
Mas
Vrticka explica que as mudanças são graduais e que, provavelmente, será
necessário apoio profissional para pessoas com padrões de apego mais
enraizados.
Esta
peculiaridade, segundo Lizzy, se perde com frequência nas discussões sobre a
teoria do apego. Ela afirma que algumas pessoas podem "rapidamente
presumir o pior" e reduzir os demais a rótulos.
Mas, ao
mesmo tempo em que pede maior empatia com as pessoas com estilo de apego
inseguro, Lizzy reconhece a importância da autoconsciência.
"Para
mim, sei que minhas tendências evitativas são tóxicas e seria injusto se eu
namorasse alguém no momento", explica ela.
Mas,
para Lizzy, isso não significa que as pessoas com apego inseguro sejam
incapazes de manter relacionamentos saudáveis.
"Cabe
a você reconhecer isso e trabalhar a mudança."
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Como se tornar seguro?
Poucas
pessoas detêm papel de maior influência para trazer o apego ao público do que
Amir Levine.
Ele e
Rachel Heller são os autores do livro Apegados: um guia prático e agradável
para estabelecer relacionamentos românticos recompensadores (Ed. Novo Conceito,
2013). A obra já vendeu milhões de cópias em todo o mundo, desde o lançamento
da sua versão original em inglês, em 2010.
Mas, no
seu último livro, Levine deixa de tentar identificar os estilos de apego para
apresentar uma nova questão: como nos tornarmos seguros?
Ele
defende que parte da resposta está no que ele chama de interações menores e
aparentemente insignificantes (SIMIs, na sigla em inglês).
Uma
mensagem de texto de um amigo perguntando sobre o seu fim de semana, por
exemplo. Ou o sorriso de um estranho.
"O
cérebro monitora as pequenas interações todo o tempo", explica Levine.
"É disso que trata o apego. É um sistema de monitoramento em busca de
segurança."
Para
Levine, estas interações formam gradualmente o que o cérebro espera dos
relacionamentos.
Experiências
positivas aumentam as evidências de que é possível confiar nas pessoas e nos
ajudam a caminhar rumo ao que chamamos de "modo seguro".
Mas, da
mesma forma, a demora em uma resposta ou um amigo que deixar de cumprir o
planejado pode gerar reações sutis de estresse no sistema nervoso.
É
importante observar que Levine afirma ser possível ter diferentes estilos de
apego com diferentes pessoas.
Por
isso, ele incentiva as pessoas a identificar os relacionamentos nas suas vidas
que já as fazem se sentir seguras e compreendidas, usando essas relações
"como veículo para se tornarem mais seguras como um todo".
Esta
noção de que é possível construir a segurança por meio dos relacionamentos
atuais reflete uma mudança maior, que deixa de considerar o apego simplesmente
como o resultado das nossas experiências da infância.
Para
alguns, a descoberta da teoria do apego pode envolver o reexame dos
relacionamentos familiares, o que pode acabar gerando ressentimentos.
Mas
Levine afirma que "não é apenas questão de onde você começou, mas do que
acontece posteriormente".
"Se
esta forma de pensar ajuda você a se compreender e seguir adiante, ela é
útil", explica ele. "Mas, se ela fizer você se sentir paralisado ou
abalado, ela não é correta, pois as pessoas realmente podem mudar."
Levine
também defende que os apegos inseguros podem ser pontos fortes.
Ele
afirma que as pessoas ansiosas, muitas vezes, ficam muito atentas aos
relacionamentos, identificando mudanças sutis de humor, tom e comportamento que
outras pessoas não percebem. Já as pessoas evitativas podem ser totalmente
independentes e se dar bem sob pressão.
Vrticka
concorda que os estilos de apego não devem ser considerados bons ou ruins. Mas
ele destaca que eles "trazem certos riscos e dificuldades" que,
segundo ele, não devem ser desconsiderados.
E ambos
concordam que a teoria do apego é mais útil quando ajuda as pessoas a
compreender os padrões, não a definir a si próprias.
Fonte:
BBC News

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