quinta-feira, 2 de julho de 2026

Sono excessivo pode ser sinal de problemas de saúde

Uma meta-análise constatou que pessoas que relataram dormir mais de oito horas por noite apresentam 28% mais risco de desenvolver demência. Especialistas ressaltam que dormir mais não é, essencialmente, o problema.

Apesar de horas excessivas dormindo serem associadas com doenças que afetam o cérebro e outros sistemas do organismo, dormir mais que o necessário também pode gerar efeitos imediatos, como a dificuldade de raciocinar de maneira rápida e sensações de que o corpo está dolorido.

O sono excessivo ainda pode ser sinal de doenças neurodegenerativas, depressão, apneia do sono e até mesmo doenças cardiovasculares.

O professor de Neurologia da FMRP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto) da USP, Alan Eckeli, explica que, mesmo que a duração do sono seja usada como indicador de descanso, isso não é o suficiente para declarar que uma pessoa está dormindo bem.

“Aspectos como despertares frequentes durante a noite, dificuldade para atingir fases profundas do sono e a sensação de cansaço ao acordar também interferem na recuperação do organismo e na saúde cerebral. Por isso, passar mais tempo na cama não significa, necessariamente, obter os benefícios esperados do sono”, declara o professor ao Jornal da USP.

O docente ressalta também que quantidade e qualidade de sono são dimensões diferentes, mas que se complementam e são medidas pessoais. Contudo, ele alerta para a atenção redobrada com sonolência excessiva durante o dia, cochilo involuntários, dificuldades para manter a atenção, alterações de humor, irritabilidade e queixas sobre memória e concentração, que podem indicar que o sono não está adequado.

<><> O sono ideal

Apesar dessas variações sobre qualidade e quantidade de sono, Alan Eckeli avalia, a partir da meta-análise publicada pela York University na revista Plos One, que pesquisas como essa permitem identificar uma faixa de duração que é mais associada com melhores conclusões sobre estados de saúde.

O professor informa que “Estudos apontam que pessoas que dormem menos de seis horas ou mais de nove horas por noite costumam apresentar maior associação com desfechos desfavoráveis. Uma faixa associada a menores riscos para a saúde está no intervalo de sete a oito horas de sono. É o que mais frequentemente aparece associado a melhores desfechos de saúde.”

Para além da duração do sono, também é necessário avaliar outros hábitos diários que influenciam a saúde cerebral, como o sedentarismo, sendo necessária a prática regular de atividades físicas, manter uma alimentação equilibrada e outras medidas importantes para prevenção do declínio cognitivo.

•        Como a falta de sono destrói sua saúde cardiovascular

O sono ganhou reconhecimento científico como o terceiro pilar da saúde, ao lado da alimentação e dos exercícios físicos. É o que defendem os especialistas Luciano Drager e Geraldo Lorenzi-Filho. Segundo eles, ignorar a qualidade do sono pode ter consequências graves para a saúde cardiovascular e para a longevidade.

O cardiologista Luciano Drager, da Unidade de Hipertensão do InCor, destacou que o tema passou a ocupar posição central na medicina ao longo das décadas, impulsionado por inúmeros estudos. "A saúde cardiovascular dos pacientes que têm distúrbios do sono, que estão dormindo mal, que estão tendo insônia, que estão roncando e tendo apneia, está sendo prejudicada. Esses problemas encurtam a vida de alguém", afirmou.

<><> O que acontece no organismo durante o sono

Já o pneumologista Geraldo Lorenzi-Filho, diretor do Laboratório do Sono do InCor, explicou que dormir é uma função ativa e essencial para a fisiologia humana, não um processo passivo. "Dormir é ativamente programado pelo cérebro", ressaltou. Ele detalhou que o sono possui fases distintas, incluindo o sono profundo, responsável pela restauração do organismo, e a fase REM, durante a qual ocorrem os sonhos e o processamento das experiências do dia.

Quando esse ciclo é fragmentado — seja por insônia, apneia ou privação de horas de sono —, o organismo não consegue se recuperar adequadamente, elevando o risco de diversas doenças. "Se você não dorme bem à noite, o dia seguinte não vai bem", brincou o pneumologista.

<><> Epidemia de privação de sono

Drager alertou para um fenômeno preocupante na sociedade contemporânea: a percepção equivocada de que dormir é perda de tempo. "As pessoas estão com múltiplas demandas", observou, citando o uso excessivo de redes sociais, celulares e o consumo de séries de televisão como fatores que empurram cada vez mais tarde o horário de ir para a cama. O resultado é uma população cronicamente privada de sono, que acorda cedo por obrigação sem ter dormido o suficiente.

<><> Três dimensões do sono saudável

Para reverter esse quadro, Drager apontou que a mudança de hábitos é indispensável, embora não precise ser abrupta. Ele elencou três dimensões fundamentais para um sono de qualidade: a quantidade, que deve ser respeitada; a qualidade, que pode ser comprometida por condições como a apneia; e a regularidade, ou seja, manter horários consistentes para dormir e acordar. "O nosso corpo tem sensores que detectam isso, e essa regularidade ajuda nessa ritmicidade nossa", concluiu o cardiologista.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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