O
que funciona no combate a incêndios florestais?
Na
mesma semana em que incêndios florestais devastadores na Europa e na América do
Norte tomaram conta das manchetes, o Brasil foi notícia por um dado positivo:
um levantamento do Mapbiomas indicou que as queimadas na Amazônia brasileira em
2025 atingiram o menor nível em 41 anos.
O
contraste entre as duas notícias reforça uma questão que mobiliza especialistas
em todo o mundo: quais estratégias realmente funcionam para prevenir e combater
o fogo em um cenário de mudanças climáticas?
Na
Europa, combinadas com secas prolongadas, as ondas de calor intenso e
persistente deste verão desencadearam mais uma temporada severa de incêndios
florestais. Os maiores focos têm sido registrados em países como França,
Espanha, Portugal, Itália, Reino Unido e até na Noruega.
Condições
semelhantes também alimentaram incêndios nos Estados Unidos e no Canadá. Há
semanas, centenas de incêndios florestais avançam pela vasta floresta boreal
que se estende do Yukon, no norte, até ilha de Terra Nova, no leste. Até 24 de
julho, eles haviam destruído ao menos 3,3 milhões de hectares — uma área maior
que a Bélgica.
Enquanto
a fumaça tóxica encobria grandes cidades, inclusive nos EUA, o presidente
americano, Donald Trump, acusou o Canadá nas redes sociais de "não fazer a
manutenção adequada de suas florestas" e de negligenciar deliberadamente a
"gestão florestal básica e a remoção de detritos". Mas isso é
verdade?
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Mudanças climáticas agravam a situação
Embora
eliminar material inflamável faça parte do trabalho dos especialistas em
incêndios, uma gestão eficaz vai além da simples retirada de detritos. No
Canadá, por exemplo, seria impossível limpar a vegetação rasteira de uma área
tão extensa e remota.
"Não
existe uma solução única", afirma Amy Duchelle, especialista sênior em
gestão florestal da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a
Agricultura (FAO).
"A
gestão florestal e dos incêndios precisa considerar o tipo de ecossistema
existente e compreender seu histórico de queimadas", explica Sophie
Wilkinson, professora assistente e especialista em incêndios florestais da
Simon Fraser University, na Colúmbia Britânica. "Existem muitos tipos
diferentes de ecossistemas, como florestas de áreas elevadas e zonas úmidas, e
cada um deles tem uma relação única com o fogo."
Apesar
de as florestas boreais do Canadá terem se adaptado a conviver com incêndios,
Wilkinson afirma que as ondas de calor extremo frequentes e as secas
prolongadas associadas às mudanças climáticas provocadas pela ação humana estão
ressecando as árvores e a vegetação rasteira, "tornando o manejo dos
incêndios florestais infinitamente mais difícil".
Incêndios
de alta intensidade têm maior probabilidade de "se espalhar mais
rapidamente e queimar de forma mais agressiva, dificultando tanto as opções de
manejo quanto sua eficácia" — inclusive em áreas que antes eram úmidas
demais para pegar fogo.
Já as
florestas tropicais não evoluíram para coexistir com incêndios — elas não
possuem árvores com casca espessa e resistente ao fogo nem plantas adaptadas a
germinar após uma queimada. Nesses casos, é fundamental interromper o
desmatamento ligado à mineração e à agricultura, preservar o dossel florestal
(camada formada pelas copas das árvores mais altas de uma floresta, que se unem
e criam uma espécie de "teto" vegetal) e a vegetação que criam um
ambiente úmido e resistente ao fogo, além de capacitar as pessoas para
responder imediatamente a qualquer risco de incêndio.
Na
Europa, as florestas fragmentadas (que foram divididas em pedaços menores por
atividades humanas ou fenômenos naturais, perdendo sua continuidade original)
enfrentam também outros desafios que as enfraquessem, como espécies invasoras,
explica Wilkinson.
Nesses
casos, as soluções de manejo podem incluir monitoramento e proteção
transfronteiriços, além da priorização de vegetação resistente ao fogo no lugar
de coníferas altamente inflamáveis. Isso também significa reintroduzir espécies
arbóreas diversificadas que contribuem para florestas mais resilientes,
reduzidas ao longo dos séculos pela agricultura e pela exploração econômica.
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Combatendo fogo com fogo
Em
alguns lugares, o próprio fogo é fundamental para preservar as florestas.
"Nossa
floresta boreal depende do fogo — ela precisa dele para se manter
saudável", destaca Amy Cardinal Christianson, indígena do povo Métis,
especialista em incêndios florestais e que vive no oeste do Canadá.
Segundo
ela, um certo número de incêndios faz parte do ciclo natural, criando barreiras
naturais contra o fogo, estimulando o crescimento de novas plantas e
restaurando ecossistemas — fatores que podem retardar a propagação dos
incêndios florestais.
Pesquisas
mostram que determinadas florestas evoluíram para conviver com incêndios
periódicos, que funcionam como uma espécie de reset. As chamas podem abrir
espaço para plantas menores que têm dificuldade para competir com a vegetação
densa, por exemplo, além de liberar nutrientes que enriquecem o solo.
Mas a
temporada de incêndios no Canadá está acelerando esse ciclo natural — começando
mais cedo, durando mais tempo e tornando-se mais difícil de controlar.
Ela
também está contribuindo para o aumento das emissões de carbono do país: a
temporada recorde de incêndios de 2023, que destruiu uma área florestal cinco
vezes maior do que a média anual, elevou em 23% às emissões globais anuais
provenientes de incêndios florestais. Parte dos poluentes chegou inclusive até
a Europa Ocidental.
Christianson,
ex-pesquisadora do Serviço Florestal Canadense e atualmente diretora de gestão
do fogo da Indigenous Leadership Initiative, destaca que práticas antigas de
manejo introduzidas por europeus para favorecer a indústria madeireira —
regulação rígida, supressão total dos incêndios e foco em monoculturas de
crescimento rápido — não se adequam à realidade canadense.
"Ao
excluir o fogo, nós, na verdade, aceleramos esse risco", ressalta,
acrescentando que queimadas controladas periódicas podem reduzir a
probabilidade de incêndios devastadores e fora de controle.
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Centro global de incêndios busca compartilhar conhecimento
Duchelle
conta que profissionais experientes, acostumados há décadas a lidar com
incêndios florestais, agora enfrentam focos que nem eles conseguem controlar.
"O fogo se move rápido demais, as chamas são altas demais, o calor é
intenso demais".
Diante
desses desafios, o foco deixou de ser apenas a supressão de incêndios e passou
a incluir a redução de riscos, a preparação para novas condições e a construção
de resiliência após os incêndios. Em 2023, a FAO criou o Global Fire Management
Hub para ajudar países a enfrentar incêndios florestais por meio de
treinamento, cooperação e compartilhamento de conhecimento.
Uma
prioridade importante é o uso de novas tecnologias e dados para orientar o
monitoramento e as respostas, juntamente com uma plataforma digital de
compartilhamento de informações e o desenvolvimento de interoperabilidade
internacional e gestão comunitária.
Christianson
colaborou com o Fire Hub para desenvolver uma rede voltada ao conhecimento e às
práticas indígenas, após criar uma rede independente com mais de 200 guardiões
locais no Canadá para auxiliar na resposta a incêndios florestais.
Isso
inclui a chamada queima cultural — pequenos incêndios deliberados de baixa
intensidade, adaptados a paisagens específicas, que ajudam a eliminar matéria
orgânica em decomposição de forma controlada, proteger contra grandes
incêndios, preservar a biodiversidade e manter culturas locais.
As
queimas prescritas, geralmente realizadas por órgãos governamentais, também são
benéficas e utilizadas há anos. Contudo, elas tendem a ser maiores e nem sempre
consideram as características locais do ambiente. Além disso, podem ocorrer
durante o verão, quando as condições estão mais secas, a fim de acelerar o
processo, aumentando assim o risco de perda de controle.
A
queima cultural costuma ocorrer no início da primavera ou no fim do outono no
hemisfério norte, com base na neve e em outros fatores ambientais. Mas as
mudanças climáticas também alteraram esse calendário, e Christianson afirma que
a familiaridade com a paisagem ajuda a perceber essas mudanças.
"Normalmente queimávamos em abril ou maio", comentou em relação a sua
propriedade. "Este ano, fiz várias queimadas em fevereiro."
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"Paisagens saudáveis" são fundamentais para conviver com o fogo
Falando
à DW de sua casa em Rocky Mountain House, Alberta, Christianson afirmou que,
embora as mesmas práticas de queima não possam ser aplicadas a todas as
culturas, ainda assim foi possível compartilhar internacionalmente ideias e
técnicas comprovadas.
"O
mais interessante das práticas indígenas de queima cultural é que existe uma
série de semelhanças gerais e uma responsabilidade compartilhada de cuidar da
paisagem, e o fogo é uma dessas formas importantes de fazer isso", relata
Christianson, que também apresentou a prática às suas filhas.
"O
objetivo geral da maioria dos povos indígenas com quem conversei é alcançar
paisagens saudáveis."
Isso
significa olhar para o panorama completo — restaurar áreas úmidas para tornar
os ecossistemas mais resilientes ao fogo ou reintroduzir espécies nativas como
o bisão no Canadá, que já existiu aos milhões e ajuda a controlar incêndios ao
consumir a vegetação que avança sobre campos e florestas.
A
prática também foi recentemente reintroduzida na Europa, utilizando cavalos e
bisões-europeus na Espanha e em Portugal.
"Uma
paisagem saudável [...] consegue se adaptar mais facilmente aos eventos de
incêndio que estamos observando".
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Incêndios na Amazônia atingem mínima histórica em 2025
Um dos
países que obteve sucesso recente no combate aos incêndios florestais foi o
Brasil.
"O
Brasil tem sido bastante eficaz na redução não apenas do desmatamento, mas
também da incidência de incêndios na Amazônia", destaca Duchelle,
atribuindo o resultado à cooperação entre agências estaduais, municipais e
federais, além de uma política nacional de gestão integrada do fogo.
"[Esse sucesso] não aconteceu por acaso."
Em
2025, os incêndios florestais em todo o país atingiram uma mínima histórica,
queimando cerca de 12,7 milhões de hectares — ainda assim uma área
aproximadamente equivalente ao tamanho da Grécia.
Novos
dados da rede de monitoramento ambiental MapBiomas mostraram que pouco menos de
um quarto da área total queimada estava na Floresta Amazônica. Isso representa
uma queda de 80% em comparação a 2024 e cerca de 56% abaixo da média histórica
dos últimos 40 anos.
Por
outro lado, o Cerrado, onde o fogo faz parte do ecossistema, continuou a
queimar em níveis semelhantes, em parte devido à seca prolongada. Especialistas
alertam que o fenômeno climático El Niño pode trazer condições ainda mais
secas, ampliando o risco de incêndios.
"Embora
o manejo de nossas florestas possa nos ajudar a nos adaptar ao aumento da
atividade dos incêndios, enfrentar a causa principal desse aumento — as
mudanças climáticas — provavelmente é a melhor estratégia de mitigação
disponível", reforça Wilkinson.
Fonte:
DW Brasil

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