quinta-feira, 2 de julho de 2026

Luís Delcides: América Latina - tempos de “Deus, pátria e porrada”

A América Latina acaba de dar um passo perigoso. As vitórias de Keiko Fujimori, no Peru e de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, não são meras alternâncias de poder — são a consolidação de uma onda conservadora que traveste autoritarismo de promessa de ordem e disfarça intolerância de fé. E o pior: fazem isso com a bênção das igrejas e o aplauso dos quartéis. 

Espriella não esconde suas intenções. Prometeu aos militares colombianos restaurar a honra “roubada” pelo governo de esquerda — como se a honra das Forças Armadas residisse na repressão, e não na proteção da cidadania. Grupos evangélicos, num delírio teológico-político, comparam-no a Ciro, o Grande, o “ungido” de Deus que libertou os judeus do cativeiro. A mensagem é clara: Espriella se vê como um salvador enviado por Deus para livrar a Colômbia do “mal” progressista. E, como todo salvador, ele não admite questionamentos. 

Esse discurso não é apenas populista — é uma arma. Fala-se em “guerra espiritual” contra a política, mas o que se faz, na prática, é guerra contra o dissenso. A extrema-direita, com sua retórica rasteira e emocional, explora o medo e a ignorância das camadas mais humildes: promete o fim do comunismo, denuncia inimigos ocultos, exalta a meritocracia. Coisas simples, diretas, que não exigem leitura nem reflexão. Apenas adesão. 

O resultado é uma democracia esvaziada, onde o adversário político deixa de ser um oponente legítimo para se tornar um inimigo a ser aniquilado. A promessa de “mão firme” contra a insegurança e a restauração da “honra” militar são o prelúdio de um modelo que já conhecemos bem: o da militarização da vida pública, da violência estatal como política de governo e da supressão de direitos em nome da “ordem”. 

E não nos enganemos: essa ordem tem nome e sobrenome. É a ordem do capital, da exploração mineral desenfreada, do alinhamento subserviente aos Estados Unidos e do retrocesso ambiental. É a ordem que transforma a Amazônia em zona de saque e os povos indígenas em obstáculos a serem removidos. 

Importar o modelo de segurança de El Salvador — com suas megaprisões e mão de ferro — para a Colômbia é uma receita para o desastre. Um país com a complexidade histórica e social da Colômbia não pode ser tratado como um campo de batalha. A violência não se resolve com mais violência. A desigualdade não se resolve com discurso de ordem. E a pobreza não se resolve com promessas vazias de meritocracia. 

É profundamente preocupante ter Fujimori e Espriella no comando de dois países estratégicos para a região. Ambos carregam o peso de um passado autoritário — um, herdado do pai que dissolveu o Congresso e governou com mãos de ferro; outro, construído sobre uma retórica militarista que flerta com o caudilhismo. Juntos, representam um retrocesso civilizatório. 

A resposta da sociedade civil e dos movimentos sociais será decisiva. Se calarem, a democracia será devorada pelo próprio discurso que diz defender. Se resistirem, ainda haverá esperança. 

O futuro da América Latina não será decidido nos palácios presidenciais, mas nas ruas, nas comunidades, nas igrejas que optarem pela fé que acolhe, e não pela que condena; nas instituições que resistirem à cooptação; e na consciência de um povo que se recusa a trocar liberdade por promessas de ordem. 

Porque ordem sem justiça é tirania. E fé sem humanidade é fanatismo. 

¨      O decálogo da extrema-direita (e os alertas para a eleição no Brasil). Por Marcia Carmo

Com as eleições dos novos presidentes da Colômbia, Abelardo de la Espriella, e do Peru, Keiko Fujimori, o mapa da América do Sul ficou ainda mais inclinado para a extrema-direita. O Brasil, com o presidente Lula, e o Uruguai, com Yamandú Orsi, são as exceções num território que já teve, no início deste século, a predominância da esquerda e da centro-esquerda. Abelardo, o ‘tigre’, e Keiko, como gostam de ser chamados, unem-se agora a uma onda que já conta com Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast, no Chile, Daniel Noboa, no Equador, Santiago Peña, no Paraguai, e Rodrigo Paz, na Bolívia. Milei diz que é a ‘onda azul’. Numa foto ao lado do senador Flávio Bolsonaro, nesta segunda-feira, aqui em Buenos Aires, Milei escreveu em suas redes sociais que a ‘onda azul’ está chegando no Brasil.

<><> Mercosul, sem Milei e com Lula

O presidente boliviano se define como sendo de centro-direita, mas sua primeira viagem internacional após ter sido eleito foi aos Estados Unidos e não ao Brasil, rompendo uma tradição que era mantida por seus antecessores do Movimento ao Socialismo (MAS), Evo Morales e Luis Arce. Peña, do Paraguai, por sua vez, já fez elogios públicos ao presidente do Brasil durante uma reunião do Mercosul, em janeiro deste ano. Mas mantém diálogo frequente com Milei – com quem o presidente Lula não conversa. Nesta terça-feira, os presidentes do Mercosul participam da reunião semestral do bloco, em Assunção, no Paraguai, quando a presidência, que é rotativa, será passada para o Uruguai. Milei cancelou sua participação um dia antes, na segunda-feira, logo após encontro com o senador Flávio Bolsonaro em Buenos Aires. Milei argumentou questões internas porque dará posse, nesta terça-feira, ao novo chefe de Gabinete da Presidência. Lula confirmou presença. Os dois não se falam. Na reunião anterior, o presidente Lula não esteve e assim pode evitar ver o presidente da Argentina.

>>> A cartilha da extrema-direita:

Neste cenário, é possível traçar pontos em comum da extrema-direita, como as estratégias discursivas para atrair o eleitor.

A seguir dez pontos que formam, hoje, a cartilha da extrema-direita e motivos para prestar atenção em relação à eleição presidencial deste ano no Brasil.

>>> Redes Sociais e três desafios na campanha brasileira: Elas passaram a ser ferramenta decisiva nas eleições. Na Argentina e na Colômbia, Milei e Abelardo aplicaram estratégias intensas para atrair o voto, principalmente, dos mais jovens e dos indecisos. As mensagens curtas, e às vezes agressivas, chamaram atenção e, muitas vezes, foram viral. Neste ambiente as fake news também encontraram terreno fértil, desafiando as regras democráticas. Na Colômbia, o senador e filósofo de esquerda Iván Cepeda foi alertado sobre a importância do maior uso das redes sociais. Quando ele concordou com a ideia, faltavam poucos dias para o segundo turno. Seu opositor já dominava esse novo universo. Cepeda aceitou a vitória de Abelardo, mas acusou as fake News, a intromissão de Trump na campanha e o uso de Inteligência Artificial (IA). Sem dúvida, três desafios também na campanha brasileira.

>>> Simpatia militar e continência: O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, bate continência em quase todos os seus atos. A sua imagem nos cartazes da campanha teve o mesmo gesto. Apesar de ele ser um advogado criminalista e empresário milionário, sem trajetória militar, ao copiar a regra dos fardados, o colombiano (que venceu a eleição por menos de 1%) buscou mostrar sua simpatia pelas Forças Armadas e sinalizar que pretende impor a linha ‘mão de ferro’ na segurança pública. Milei, por sua vez, colocou um militar no cargo de ministro da Defesa, rompendo uma tradição de um civil à frente da pasta em tempos democráticos.

>>> Segurança pública e ‘bombas’: As medidas do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, têm inspirado os nomes da extrema-direita que prometem mão de ferro em suas políticas de segurança. A presidente eleita do Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, promete a maior participação das Forças Armadas no âmbito da segurança pública, incluindo a presença do Exército nos presídios. Ela também promete iniciativas que evitem processos na Justiça contra abusos de policiais e de militares, como informaram as agências internacionais de notícias. O colombiano Abelardo de la Espriella também promete linha dura contra o crime e chegou a dizer que lançaria ‘bombas’ em acampamentos de traficantes de drogas. 

Por sua vez, Noboa, do Equador, já conta com a presença de militares em suas ações em parceria com os Estados Unidos. O Equador é o país com maior índice de homicídios por 100 mil habitantes na América Latina. Mas a militarização não tem mostrado efeitos positivos nas estatísticas e na vida dos equatorianos. Outro presidente adepto da maior participação direta das Forças Armadas no cotidiano das pessoas é Kast, do Chile, que declarou admiração pelo ditador e general do Exército Augusto Pinochet. A segurança pública e seus métodos também fazem parte da preocupação dos brasileiros.

>>> Religião e guru espiritual: Milei viajou 4 vezes a Israel desde que tomou posse há dois anos e meio. Ele foi ao Muro das Lamentações, em Jerusalém, onde chorou copiosamente. A fé de Milei é associada ao judaísmo, apesar de ele não ter se convertido e se declarar católico. Sua crença incluiu a decisão de ter nomeado seu guru espiritual, o rabino Shimon Axel Wahnish, como o embaixador da Argentina em Israel. Milei já fez várias referências sobre sua fé em seus discursos. Já o presidente do Chile, José Antonio Kast, frequenta missas da Igreja católica quase diariamente e instaurou a realização de 4 missas por semana na capela do Palácio presidencial La Moneda. A associação entre religião e política nunca esteve tão forte desde o retorno da democracia no Chile, em 1990.

>>> Evangélicos? Ao contrário, da bancada evangélica no Brasil e da importância do ‘voto evangélico’ no ritmo da política brasileira, essa presença não é notória nos países onde a extrema-direita foi eleita recentemente. As igrejas pentecostais tiveram crescimento nos últimos tempos nos países da América Latina, mas não como no Brasil, onde encontraram terreno fértil.

>>> Imigração e bolsonarista: O presidente do Chile construiu valas para tentar impedir a chegada de migrantes dos países vizinhos – Peru, Bolívia e Venezuela. Milei, da Argentina, passou a exigir maior controle migratório e ampliou as exigências para os que requisitem a residência permanente no país. Mas concedeu asilo político a apoiadores de Bolsonaro que fugiram do Brasil após terem sido condenados pela intentona golpista de 8 de janeiro de 2023. No Peru, durante sua campanha à presidência, Keiko Fujimori, prometeu a expulsão de migrantes, seguindo como Kast, do Chile, por exemplo, as linhas de expulsão impostas por Trump nos Estados Unidos.

>>> Contra homoafetivos: No Fórum Econômico de Davos em 2025, Milei atacou a comunidade LGBTI+ e, como era esperado, recebeu fortes críticas na Argentina e em outros países. Ele também eliminou o ministério da Mulher e políticas em defesa das mulheres. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella, insinuou críticas contra políticos gays e indicou que casais do mesmo sexo não poderiam adotar crianças. Diante das críticas, ele disse, na reta final da campanha, que não é homofóbico e que respeitaria a constituição do país. Percebeu que o pensamento retrógrado lhe tiraria votos.

>>> Estado mínimo: O colombiano Abelardo se inspirou no pacote de arrocho de Milei, prometendo dolarizar a economia (o que Milei acabou não fazendo) e usar a ‘motosserra’ para cortar cerca de 40% do Estado e com 700 mil demissões. O Estado mínimo também é pilar do chileno Kast e da peruana Keiko Fujimori – ‘doa a quem doer’ na região, a América Latina, que é a mais desigual do planeta.

>>> Admiração por Trump e ‘MAGA’: Milei já esteve 16 vezes nos Estados Unidos desde que tomou posse há dois anos e meio. Sua admiração por Trump parece ser até maior do que sua admiração pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Nesta semana, Milei comunicou, através de suas redes sociais, a troca do chefe de Gabinete da Presidência e terminou a mensagem com a marca de Trump: MAGA (no caso dele para dizer: ‘Make Argentina Great Again – Faça a Argentina grande novamente’). Além de Milei, Abelardo, o ‘tigre’, da Colômbia, Keiko, do Peru, e Noboa, do Equador, e Peña, do Paraguai, são admiradores de Trump e querem continuar intensificando essa relação bilateral. Em quase todos os países da América do Sul, a China é o principal parceiro comercial. Algumas das exceções, por exemplo, são a Argentina que tem o Brasil como principal sócio comercial e a Colômbia que tem os EUA como principal parceiro histórico.

>>> A ‘reinvenção’ da política: Os políticos da extrema-direita eleitos recentemente na América Latina chegam com pouca ou nenhuma experiência na política partidária (a peruana Keiko é exceção). O colombiano Abelardo de la Espriella, advogado de 47 anos, jamais exerceu um cargo legislativo ou no Executivo e, como Milei, economista que ficou conhecido através de programas de TV e redes sociais, quer reinventar a forma de se fazer política.

>>> Partidos nanicos: O partido de Abelardo, Defensores da Pátria, tem apenas três parlamentares no Congresso Nacional. Ele espera ter o apoio da direita tradicional para poder aprovar seus projetos e governar. Mas ele já disse que os decretos serão seus aliados. A formação e a sobrevivência dos partidos são outro desafio nestes tempos democráticos.

¨      Da motosserra de Milei ao TikTok de Keiko: como a América Latina virou laboratório eleitoral digital

Quando Donald Trump afirmou que o Brasil pode se tornar um “laboratório na América Latina”, nas próximas eleições, a reação imediata oscilou entre o escândalo e a desqualificação. Para alguns, tratava-se de mais uma declaração provocativa, típica de sua retórica; para outros, de uma ameaça direta à soberania eleitoral brasileira. Ambas as leituras, embora compreensíveis, permanecem na superfície do problema.

O que está em jogo não é apenas o conteúdo da fala, mas o que ela revela sobre a transformação contemporânea das disputas políticas.

“laboratório eleitoral” não emerge no vazio. Ela só faz sentido em um contexto em que as eleições deixaram de ser processos estritamente nacionais para se tornarem eventos atravessados por dinâmicas transnacionais, mediados por plataformas digitais e orientados por estratégias de captura da atenção.

A atual fase do capitalismo, o Meio Técnico-Científico-Informacional, consolidada a partir da segunda metade do século XX, transformou a ciência, a tecnologia e as telecomunicações nas principais engrenagens do espaço mundial.

Nesse cenário, os dispositivos digitais e seus algoritmos assumiram o papel de mediadores centrais da dinâmica social, superando a condição de canais neutros.

Essas plataformas reconfiguram o repertório informativo coletivo ao ditar o que ganha relevância. Consequentemente, as heranças históricas e culturais perdem espaço na centralidade do debate público, que passa a ser governado pelas métricas de engajamento.

Essa transformação está ligada ao que se consolidou chamar de economia da atenção, em que o recurso mais escasso deixou de ser a informação e passou a ser o próprio foco do usuário. A disputa pela atenção prioriza informações imediatas e simplificadas em detrimento da profundidade analítica.

Para disputar esse recurso cada vez mais valioso, as plataformas das Big Techs ajustam seus algoritmos para privilegiar conteúdos que provocam reações intensas, como indignação, medo ou raiva. A política, ao ser tragada por essa dinâmica, submete-se à “impaciência algorítmica”, fenômeno que leva o indivíduo a desenvolver intolerância ao tempo de espera da vida real em razão dos estímulos gerados pelo uso constante de tecnologias que reduzem a profundidade analítica.

Dessa forma, o debate público torna-se esvaziado, o tempo da ponderação passa a ser substituído pela urgência da reação, e os discursos moderados tornam-se obsoletos diante de narrativas curtas, polarizadas e desenhadas para o confronto.

Dentro desse ecossistema de experimentação contínua, em que o eleitor deixa de ser um ator político para se tornar um dado moldável em tempo real, as democracias da América Latina enfrentam seus desafios mais dramáticos. Financiadas pelos modelos de negócios das grandes empresas de tecnologia (Big Techs), as plataformas deixaram de ser meras vitrines de conteúdo e assumiram a gestão da vontade popular.

Ao alimentar a impaciência algorítmica e a intolerância ao esforço cognitivo, essa dinâmica substitui a ponderação pelo confronto e premia soluções simplistas para problemas complexos, operando, em última análise, como o motor invisível por trás da ascensão de forças políticas de extrema-direita no território latino-americano.

É nesse ponto que a fala de Trump deixa de ser anedótica e passa a ser sintomática. Ao nomear o Brasil como possível espaço de teste, ele não inaugura uma prática, mas explicita uma racionalidade já em curso.

A política contemporânea, especialmente em democracias de grande escala e alta conectividade, tornou-se inseparável daquilo que se pode chamar de economia da atenção: um regime no qual visibilidade, engajamento e velocidade substituem progressivamente a mediação institucional e o tempo deliberativo.

Essa transformação ganha contornos ainda mais nítidos quando observada em articulação com atores políticos internos. A sugestão de Flávio Bolsonaro de construir uma “equipe de transição” com os Estados Unidos, caso vença as eleições, não deve ser lida apenas como um gesto de alinhamento ideológico. Ela indica algo mais profundo: a estrutura e a naturalização da ideia de que o processo político brasileiro pode ser influenciado, orientado ou até parcialmente conduzido a partir de fora.

Quando Trump sugere o Brasil como laboratório e Flávio Bolsonaro propõe uma transição com Washington, não estamos diante de falas isoladas, mas de um mesmo horizonte político no qual a soberania eleitoral se dilui em redes de influência transnacional.

O Brasil, nesse cenário, destaca-se por sua dimensão continental, sua centralidade no Sul Global e, sobretudo, por sua intensa penetração de plataformas digitais, o que o transforma em terreno privilegiado para a experimentação dessas novas disputas.

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Essa tendência reflete um movimento mais amplo que já reconfigura quase todo o cenário latino-americano, no qual a eficácia eleitoral passa a depender menos da densidade programática e mais da capacidade de adaptação à lógica da atenção.

Na Argentina, Javier Milei decodificou essa lógica ao utilizar a imagem de uma motosserra para sintetizar, de forma altamente compartilhável, o corte de gastos públicos. Em El Salvador, Nayib Bukele transformou a construção de megapresídios em espetáculo digital contínuo, convertendo políticas complexas de segurança em conteúdo de consumo rápido. Fenômeno semelhante ocorreu na Colômbia com o triunfo de Abelardo de la Espriella.

Ao performar sob a marca de “El Tigre”, ele transformou sua campanha em pura pirotecnia virtual, demonstrando que promessas de “mão de ferro” ganham tração inédita quando moldadas para satisfazer a pressa do eleitorado.

Já no Peru, Keiko Fujimori recorreu ao TikTok para tentar suavizar sua imagem perante a juventude por meio da lógica da instantaneidade.

É nesse ambiente de democracias frágeis que a América Latina se transforma em um verdadeiro tabuleiro geopolítico.

De um lado, os Estados Unidos usam suas gigantescas plataformas digitais para criar fluxos que atravessam fronteiras e estruturas locais, ditando diretamente as informações que consumimos e debatemos. Do outro, a China se consolida como a principal parceira econômica da região, tendo o Brasil como peça-chave desse tabuleiro.

Pequim vem expandindo sua presença por meio da “Rota da Seda Digital”, investindo pesadamente em infraestrutura e criando uma dependência tecnológica silenciosa nos países vizinhos. Assim, a América Latina torna-se palco de um duplo embate: a influência informacional estadunidense e o domínio estrutural chinês.

Em suma, essa nova arquitetura do poder digital redefine os conflitos globais. Como se observa, a intervenção de líderes como Donald Trump, apoiado pelas Big Techs, já não ocorre de forma clássica, nos moldes bélicos do século XX, com tiros ou canhões. Em vez disso, opera-se uma mutação estrutural, marcando a transição de uma geopolítica dos territórios para uma geopolítica dos fluxos, na qual o verdadeiro campo de batalha reside no controle da informação, da atenção e da influência digital.

Se Trump apenas disse em voz alta, é porque algo já estava sendo dito de outras formas. Compreender essa dinâmica exige ir além da indignação episódica e enfrentar uma questão mais incômoda: até que ponto as democracias contemporâneas ainda controlam seus próprios processos eleitorais e até que ponto já operam como ambientes de teste em uma disputa política que se tornou, definitivamente, global?

 

Fonte: Brasil 247/Diálogos do Sul Global

 

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