“Interoperabilidade”
ou entrega de dados de saúde?
Em
tramitação desde 2013, o PL 5.875 é a nova frente de batalha pelos dados dos
usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Batizado de PL da Interoperabilidade,
sua linha de defesa defende uma suposta integração positiva entre setor público
e privado. Para os críticos do projeto, o termo dissimula interesses
capitalistas no setor saúde.
O PL
conta com a relatoria da deputada Adriana Ventura, do Partido Novo-SP, que
unifica em sua atuação parlamentar o reacionarismo social e o ultraliberalismo
econômico. O projeto ainda ocupa lugar marginal nos debates, mas seu retorno à
pauta empresarial já desperta articulações contrárias no movimento social.
“O
campo da saúde é a grande promessa do capitalismo de dados. Desde dados
fisiológicos básicos, como também hábitos e necessidades. Não é como uma conta
no Facebook ou Instagram, que posso fechar a qualquer hora. São meus biodados,
informações genéticas, histórico clínico”, sintetizou Deivison Faustino,
professor da Faculdade de Saúde Pública.
Sua
fala se deu em encontro virtual realizado pela Coalizão Direitos na Rede
(assista abaixo), ocasião em que os especialistas não fizeram cerimônia para
qualificar o projeto como forma de “colonialismo digital”. “Os dados são o ouro
do mercado. E seremos escalpelados de todo jeito”, comparou Faustino.
Em
maio, a Coalizão Direitos na Rede publicou nota na qual denuncia um caráter
pouco democrático do projeto, além de apontar gargalos fundamentais na garantia
dos direitos dos usuários dos sistemas de saúde, tanto público como privado. Um
grupo de pesquisadores também publicou um manifesto posicionando-se contrário
ao PL.
“Nossa
crítica tem três pontos centrais: abertura para o setor privado, ausência de
proibição explícita de monetização e falta de menção ao Conselho Nacional de
Saúde e à participação social, em favor de uma suposta governança
participativa”, resumiu Raquel Rachid, pesquisadora de saúde digital e
mediadora de debate virtual realizado pela Coalizão.
Os
atores envolvidos são cautelosos ao falar sobre a regulação do uso de dados,
que não poderiam ser comercializados. No entanto, os analistas reunidos pela
Coalizão entendem que tal finalidade é a motivação real das pressões do setor
privado – como alertado por Leandro Modolo, pesquisador de saúde digital e
colunista do Outra Saúde, em entrevista ao programa de Outra Saúde para o Farol
Brasil.
“Esse
colonialismo digital tem o elemento da acumulação primitiva de dados, ou
extrativismo de dados, e essa é a matéria prima fundamental. Permitem treinar
modelos de IA e também manipular pessoas, mercado e política”, complementa
Deivison Faustino.
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O fetiche da tecnologia
Estão
em risco os dados de toda a população. Na prática, ao permitir a captação de
uma imensa quantidade de dados da população brasileira, o PL propiciaria a
redução de custos do setor privado de saúde, em contexto em que a saúde digital
já é uma realidade presente no cotidiano de tais serviços e que o mercado está
estimado em 1 trilhão de dólares anuais.
“É uma
precarização do sistema de saúde, ao invés de mais acesso e inovação. O fetiche
da neutralidade tecnológica ou de um avanço garantido não se reflete na
prática. É necessário criar vínculos com o sistema de saúde e a digitalização
como terceirização é o contrário do que pensamos para o SUS”, afirmou Clarissa
França, coordenadora do núcleo de saúde da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Para
ela, o projeto facilita a ampliação indiscriminada do teleatendimento, que
permite a realização de consultas e outros procedimentos à distância. Ideia
que, se não for bem concretizada, pode contrariar o conceito básico de atenção
primária e distanciar os profissionais de saúde dos usuários.
“O
Nordeste já vive esse momento de contratar grandes hospitais do Sudeste e não
profissionais locais pra fazer consultas e analisar exames de imagens. O
reflexo disso na população negra é muito grande porque 98% dela depende do
SUS”, explicou.
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Dependência de Big Techs
Outro
ponto delicado é a própria operação deste eventual sistema de dados integrados
entre empresas e Estado. “Estamos diante de uma proposta de aprofundamento da
dependência, na qual seríamos mero comprador de tecnologia dos grandes centros,
agora sob a possibilidade de entregar um imenso banco de dados. O caso da
Fiocruz e seu contrato com a Microsoft é emblemático”, destacou Clarissa
França.
Quanto
ao cuidado, os especialistas acreditam que o usuário sai perdendo, ao passo que
as empresas teriam à disposição a possibilidade de otimização de lucros.
“A
relação tecnologia-trabalho é mediada pelo capitalismo. E este precisa renovar
as tecnologias para poder explorar mais trabalho. Sempre se ‘inova’, mas não
para tornar o trabalho menos doloroso. Uma escuta, um acompanhamento, uma
relação humana pode ser melhor do que uma máquina que mecaniza o trabalho. Nem
tudo na saúde é quantificável. E, para o capitalismo, quanto mais trabalho
morto (não realizado por humanos), melhor”, analisou Deivison Faustino.
Para
ele, há uma perigosa euforia em torno da exaltação dos avanços tecnológicos.
Seu ponto de vista se apoia num contexto já percebido por especialistas e até
pela mídia: o uso indiscriminado da Inteligência Artificial.
“O PL
confronta a Reforma Sanitária ao reforçar da ideia do cuidado como
responsabilidade individual. Também facilita a patologização de tudo. Agora
todo mundo tem TDAH, alguma patologia, fora aqueles que psicotizam na relação
com a IA, com casos até de suicídio”, alertou Faustino.
Apesar
das ameaças, Clarissa França enxerga uma oportunidade de avançar na soberania
digital brasileira. Nesse sentido, o SUS já tem exemplos a dar. Afinal, já
existe um sistema de interoperabilidade no país, a Rede Nacional de Dados em
Saúde (RNDS), que pode se conectar com o setor privado através do mecanismo
denominado Troca de Informação em Saúde Suplementar (TISS). Apesar de
armazenado em nuvem da Amazon, o sistema é desenvolvido por tecnologia própria
do ministério, o DataSUS. Além disso, outras experiências como o Pix e o
CadÚnico comprovam a capacidade estatal em dirigir tais avanços.
“Mesmo
subfinanciado, o SUS sempre teve sistemas próprios de informação. Isso num
contexto onde a população não tem bom acesso a internet, para além de grandes
redes como Whatsapp ou Facebook. A interoperabilidade é uma oportunidade de
construir um olhar de desenvolvimento e não dependência, como as Big Techs
tentam nos convencer”, disse.
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Renovar a participação social
Como
alertado pela Coalizão, a proposta de “governança participativa” no PL traz a
contradição de deixar de lado os órgãos de participação e controle social do
SUS, como o Conselho Nacional de Saúde.
Na
crítica de Deivison Faustino, pode-se criar um cenário no qual a participação
da sociedade civil – inclusive profissionais de saúde – e do governo seja mero
carimbo legitimador do interesse empresarial. Sua análise foi corroborada por
um alerta vindo do próprio Ministério da Saúde.
“Se
queremos falar de saúde digital em linha com cidadania e inclusão, precisamos
dar um jeito de produzir adesão social e engajamento das pessoas. Isso passa
perto de uma necessidade de letramento, uma educação popular. É assustador o
que vivemos hoje. O algoritmo molda a nossa vida e a nossa percepção da
realidade”, pontuou Neli de Almeida, Coordenadora Geral de Redes e Serviços de
Saúde Mental, Álcool e outras DrogasSAES do Ministério da Saúde.
Sua
análise foi complementada por uma crítica sincera: a participação social do SUS
está estagnada. Sua observação dá a entender que se o debate se mantiver entre
gabinetes, em algum momento o setor privado conquistará sua nova “mina de
ouro”.
“O
debate não está chegando nos bairros. No campo da saúde mental isso se vê. Uma
minoria de usuários do serviço está lá. Temos de usar modos criativos de
superar essa limitação e aumentar a participação das ‘pessoas reais’, ouvir o
que elas têm a dizer”, defendeu.
Fonte:
Por Gabriel Brito, em Outra Saúde

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