sexta-feira, 31 de julho de 2026

Interferência imperialista, fraude e fascismo na Colômbia

Gostaria de começar este artigo com uma anedota pessoal. Durante o primeiro turno da campanha presidencial na Colômbia, a prestigiada revista New Left Review me convidou para escrever um artigo que ajudasse o público de língua inglesa a compreender a magnitude do que estava em jogo naquela eleição. Aceitei a incumbência com entusiasmo e, apesar do ritmo frenético da campanha, encontrei tempo e serenidade para escrevê-lo.

Achei essencial explicar ao leitor internacional as implicações para as democracias do continente da implementação da Estratégia de Segurança Nacional publicada pelo governo Trump no final de 2025. Uma coisa é ler um documento que afirma que o Hemisfério Ocidental se tornará uma prioridade — e até mesmo uma área de influência — para os Estados Unidos, e outra bem diferente é testemunhar as estratégias concretas com as quais esse plano pretende ser executado. Presumir que o documento mais importante da política externa e de defesa de Washington não estaria em vigor após as eleições colombianas seria, no mínimo, ingenuidade; especialmente considerando que, até a vitória de Gustavo Petro, a Colômbia era vista como a “Israel da América Latina”.

O que procurei fazer naquele artigo foi desvendar as irregularidades e os entraves legais que o Pacto Histórico teve de superar para consolidar a chapa presidencial de Iván Cepeda e Aída Quilcué. No entanto, a análise não parou por aí: também tentei levantar preocupações sobre um padrão recorrente na região, expresso na suspeita bem fundamentada de fraude perpetrada utilizando o próprio software usado para a contagem preliminar dos votos.

Eu estava tentando expor como a extrema direita global não se limita mais a usar táticas jurídicas ardilosas ou métodos heterodoxos para tentar remover, prender ou assassinar líderes populares na região — como aconteceu com Cristina Fernández de Kirchner, Luiz Inácio Lula da Silva, Evo Morales, Gustavo Petro, Hugo Chávez e Rafael Correa — mas agora visa interferir diretamente no próprio cerne do processo democrático. Expliquei que o próprio Tribunal Constitucional da Colômbia havia emitido uma decisão desfavorável sobre o software que seria usado nas eleições; esclareci quem era o proprietário e revelei seus laços com o candidato de extrema direita Abelardo de la Espriella.

Por alguma razão nunca explicada, os editores da New Left Review decidiram não publicar meu artigo e esperaram até depois do primeiro turno das eleições, oferecendo uma série de recomendações para que o texto atendesse às “suas expectativas”. Foi então que entendi que não se tratava de um exercício de solidariedade intelectual igualitária, por meio do qual nos ajudaríamos mutuamente a compreender o que estava acontecendo no novo cenário político, enganosamente chamado de “Ocidental”. Muito pelo contrário, percebi que o roteiro estava predeterminado e que eu precisava segui-lo à risca se quisesse ser publicada ali.

Numa leitura superficial, as sugestões visavam aprimorar o artigo e imbuí-lo com o ar de moderação tão almejado no Norte Global. Contudo, numa perspectiva mais profunda, o que estava em jogo era a própria narrativa do que está acontecendo no mundo hoje. O editor, após um longo debate com outro editor, concluiu que eu deveria explicar quais erros Petro havia cometido que impediram Iván Cepeda de vencer no primeiro turno.

Fui incumbida de redigir aquelas infames “tabelas de autocrítica” que tentam justificar por que a esquerda não consegue conquistar as pessoas com a mesma eficácia que a direita, como se existisse uma esfera pública habermasiana idílica na qual cada candidato apresentasse seu melhor argumento para persuadir a consciência neutra e livre de um cidadão ideal. É algo como uma versão secularizada daquele puritanismo simplista e cínico que nos levou a acreditar, durante décadas, que a religião era uma questão estritamente privada, enquanto lançava as bases para o evangelismo sionista autodestrutivo de hoje.

Mas voltemos ao caso. Além de me pressionarem para atribuir as dificuldades da vitória às falhas do Pacto Histórico, insistiram para que eu omitisse qualquer menção a uma possível fraude eleitoral. Do ponto de vista deles, não era prudente apontar algo que, supostamente e contra todas as evidências, o próprio Iván Cepeda havia descartado. Consideravam que esse argumento de autoridade — completamente falacioso, aliás, visto que Cepeda jamais descartou essa possibilidade — poderia distorcer a narrativa de irregularidades no processo e nos reconduzir à premissa reconfortante de um “mundo livre” no qual a esquerda está condenada a se regozijar com suas derrotas.

Após esses comentários, fui convidada a redigir uma nova versão, atualizada, para ser publicada antes do segundo turno. Confesso que minha primeira reação foi não enviar nada; no entanto, após reconsiderar, decidi refinar os argumentos e suavizar certos tons, insistindo que o Norte Global precisava compreender a magnitude da ofensiva contra os processos políticos populares em nossa região. Eu sei: fui ingênua. O editor não publicou a nova versão; esperou até depois do segundo turno e executou uma manobra retórica incomum, culpando-me por não ter entregado o texto a tempo. Ele também me convidou a incorporar as correções sugeridas para entregar uma nova versão adaptada ao cenário que previa a vitória de Abelardo de la Espriella. Nesse ponto, interrompi toda a comunicação.

A história poderia ter terminado aí, não fosse o fato de que, há apenas dez dias, fui contatada e convidada a escrever um artigo sobre a vitória de De la Espriella para o jornal espanhol El País. Como a pessoa que me contatou pareceu muito amigável, não hesitei em falar com ela com total franqueza. Avisei que minhas reflexões abordariam os diversos mecanismos de fraude eleitoral na Colômbia — e poderiam ser estendidas ao Equador, Honduras, Peru, etc. — e pedi que me dissesse, com a mesma honestidade, se isso passaria pelos “filtros” que essa publicação sempre impõe quando nos pede para comentar nossos processos políticos.

A resposta foi imediata: segundo ele, observadores internacionais haviam confirmado a transparência impecável das eleições, portanto não se tratava de censura, mas sim de um “exercício de bom senso” para evitar qualquer alusão a uma possível fraude. Mais uma vez, um suposto argumento de autoridade foi invocado para deslegitimar minha posição. Eu tinha carta branca para escrever o que quisesse sobre Abelardo de la Espriella, mas fui categoricamente proibida de questionar a integridade dos resultados eleitorais.

A princípio, contei apenas ao meu companheiro e a alguns amigos o que havia acontecido. Fiquei impressionada com o fato de ter passado pela mesma situação duas vezes em um período tão curto. Não tinha planejado escrever sobre isso; não gosto de misturar o pessoal com minhas reflexões políticas. Mas desta vez, acho que a anedota reflete um sintoma que vai além das pessoas específicas com quem tive esses desentendimentos. Em vez disso, aponta para uma sensibilidade profundamente enraizada no coração da esquerda no Norte Global. Como meu amigo, o filósofo Bruno Bosteels, gosta de dizer, a esquerda europeia está presa há muito tempo à “filosofia da derrota”. Mas não só isso: agora ela força o resto do mundo a se encaixar nesse mesmo roteiro.

Por que não me permitiram publicar um texto em que a autora assume a responsabilidade por suas próprias reflexões? A política não opera, como ensinou Aristóteles, no âmbito da plausibilidade conjectural? Que barreira eles temiam ultrapassar ao dar livre curso a uma série de reflexões desenvolvidas por uma intelectual latino-americana que passou quinze anos pesquisando os processos políticos da região? A que norma — ou a que medo — se apega essa sensibilidade liberal de esquerda?

Devo confessar que essa experiência, apesar das grandes diferenças, me ajudou a compreender em primeira mão as dificuldades enfrentadas pelas primeiras pessoas que tentaram contar a história das nossas ditaduras do século passado e os planos aterrorizantes usados ​​para silenciar toda uma geração de jovens determinados a construir uma América Latina justa e soberana. Mas não é com essa reflexão que eu queria terminar; trata-se, antes, da evidência que eu não pude oferecer na época aos autoproclamados guardiões do bom senso da esquerda no Norte Global.

Assim como muitos outros, assumi a responsabilidade de fazer parte do grupo de “testemunhas digitais” do Pacto Histórico. Graças a isso, pudemos monitorar rigorosamente todo o processo eleitoral durante o segundo turno na Colômbia. Isso serviu de base para uma denúncia criminal apresentada pelos cidadãos William Roy Villanueva, Jaime Casadiego León, Damian Garcés Restrepo, Alexander Montaña Narváez, Sixto Acuña Acevedo e Luis Alfredo Onofre Valencia contra o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), o Registro Civil Nacional, Abelardo de la Espriella e José Manuel Restrepo. Essa denúncia, endossada pelo atual Presidente da República, exige a anulação das eleições na Colômbia e a realização de um novo processo com as garantias necessárias de transparência.

Quem desejar compreender a dimensão deste caso pode consultar o processo, que sem dúvida estabelecerá um precedente valioso não só para o país, mas para toda a região. Ler, divulgar e debater publicamente esta informação é essencial se aspiramos defender a transparência democrática no nosso continente e compreender a magnitude do que está acontecendo com nossas democracias representativas. A denúncia apresentada às autoridades está estruturada em torno de três pontos fundamentais: a violação do direito dos cidadãos à verificação da autenticidade dos formulários E-14, a alteração sistemática de centenas de documentos digitalizados e a utilização não registada de um servidor nos Estados Unidos que esteve envolvido no processamento dos dados.

Essas descobertas levantam questões fundamentais que exigem respostas imediatas: O que um servidor não declarado estava fazendo operando nos Estados Unidos? É alarmante que um sistema externo, funcionando paralelamente à infraestrutura oficial do Registro Nacional, tenha estado envolvido na manipulação dos formulários E-14. Por que os primeiros resultados foram publicados prematuramente? A divulgação antecipada dos dados violou os protocolos de segurança antes que as informações pudessem ser devidamente validadas. Por que os mecanismos de verificação dos formulários E-14 foram removidos? Ao remover os selos de autenticidade das imagens, os formulários ficaram vulneráveis ​​a modificações e manipulações sem deixar rastros diretos.

Como explicar a rigidez de um padrão matemático dissociado da realidade? Em uma disputa com uma diferença de apenas 1%, é matematicamente suspeito que essa porcentagem tenha permanecido inalterada durante toda a apuração. Tal comportamento estático contrasta fortemente com a heterogeneidade natural das seções eleitorais em todo o país. Além disso, a análise revela um comportamento atípico nas novas seções eleitorais: 5.000 seções foram adicionadas para o segundo turno e, surpreendentemente, todas elas votaram esmagadoramente na candidatura de Abelardo De la Espriella.

Mas não foi só isso. Votos computados do além-túmulo e cédulas de pessoas falecidas: um fenômeno recorrente nas controvérsias eleitorais do país ressurgiu — o aparecimento de votos registrados em nome de pessoas mortas. Participação irregular de menores: foram detectados cadastros eleitorais de indivíduos que não atendiam à idade legal exigida pela Constituição para exercer o direito ao voto. Anomalias no armazenamento de material eleitoral: formulários E-14, previamente assinados e armazenados irregularmente em depósitos em Bogotá, fora dos procedimentos oficiais de transporte e armazenamento, foram encontrados.

As informações apresentadas nesta denúncia não devem ser relegadas aos tribunais; devem se tornar objeto de debate público em toda a América Latina. Exorto os cidadãos a analisarem as provas, divulgarem o caso e exigirem responsabilização. Essa mudança estratégica por parte do poder imperialista representa uma profunda alteração nas formas de interferência regional: não se trata mais de esperar o resultado das eleições para desestabilizar governos inconvenientes, mas de condicionar e manipular preventivamente as regras do jogo democrático.

Combinando guerra jurídica, manipulação algorítmica da contagem de votos e domínio midiático, a nova doutrina hemisférica busca garantir uma restauração conservadora por meio da própria arquitetura eleitoral. Nesse cenário, a disputa na Colômbia não é um episódio local isolado, mas um laboratório crucial onde a resiliência dos movimentos populares latino-americanos está sendo testada contra uma ofensiva geopolítica que visa restabelecer seu território por meio de mecanismos tecnocráticos e institucionais.

Romper o bloqueio midiático e nos libertar do paternalismo acadêmico do Norte Global não é uma opção teórica, mas um imperativo para a sobrevivência da democracia. Nem sua tutela editorial, nem sua resignação complacente definirão a verdade sobre o que acontece em nossas terras. Cabe a nós, por meio de ativismo rigoroso, pesquisa e ação cívica, contestar a narrativa, documentar a desapropriação e construir nossos próprios caminhos para a emancipação. A soberania da América Latina se defende não apenas nas urnas ou nas ruas, mas também pela coragem de pensar, denunciar e escrever por nós mesmos. E, aliás, talvez isso ajude a lembrar aos intelectuais do Norte Global algo que eles próprios foram capazes de estabelecer quando se colocaram ao lado dos oprimidos da história: a audácia de contar a história de uma maneira diferente.

¨      Promotoria na Bolívia ordena a prisão de Evo Morales

Os desafios judiciais para o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, não param de aumentar. Nesta quarta-feira (29/7), a Promotoria Departamental de Santa Cruz emitiu uma ordem de prisão contra ele por supostamente incentivar a recente onda de protestos e bloqueios de estradas que paralisaram o país por mais de 50 dias.

Não é a primeira vez que a Justiça boliviana ordena a detenção de Morales. O ex-governante de esquerda, que esteve à frente do país entre 2006 e 2019, rejeitou as acusações e denuncia que elas fazem parte de uma "perseguição política" promovida pelo atual governo do direitista Rodrigo Paz.

"Buscam nos responsabilizar pelas mobilizações sociais para ocultar o verdadeiro drama que vive a Bolívia: uma profunda crise econômica e social, fruto de um modelo que abandonou o povo e protege a corrupção", escreveu o ex-presidente, de 66 anos, em sua conta no X. "Não vão nos intimidar. Continuaremos lutando junto ao povo", advertiu.

Por sua vez, o governo de Paz refutou as acusações de Morales. "Não é o governo que emite a ordem de prisão, é a Justiça", declarou José Luis Gálvez, porta-voz do presidente Paz, ao jornal boliviano El Deber.

<><> As acusações

A Promotoria boliviana acusa Morales da suposta prática de seis crimes: levante armado contra a segurança e a soberania do Estado, terrorismo, atentado contra a segurança dos meios de transporte, associação criminosa, instigação pública ao crime e atentado contra a segurança dos serviços públicos.

Somente os crimes de terrorismo e levante armado atribuídos ao ex-mandatário preveem penas máximas de 20 e 30 anos de prisão, respectivamente, de acordo com o estabelecido no Código Penal boliviano.

A investigação contra Morales teve início a partir de uma denúncia do Comitê Pró-Santa Cruz, uma associação que reúne grupos empresariais, setores laborais, federações provinciais e associações locais do Departamento de Santa Cruz, à qual posteriormente se somou o ministro de Governo (cargo que no Brasil seria equivalente ao ministro da Justiça e Segurança Pública), Marco Antonio Oviedo Huerta, segundo meios de comunicação locais.

"Ele tem que vir explicar qual foi seu papel nos 53 dias (de bloqueio de estradas), explicar por que deu as declarações que deu, por que se responsabilizou, porque foi ele quem disse que estava praticamente no comando das ações", afirmou Gálvez.

Morales, por sua vez, justificou as manifestações como ações legítimas de protesto contra medidas econômicas adotadas pelo governo de Paz, bem como contra a inflação e a escassez de combustível.

"(No passado) com bloqueios de estradas recuperamos a democracia. Os bloqueios de estradas derrotaram o Plano Condor e derrotaram as ditaduras militares", declarou em junho.

Embora tenha negado que buscasse forçar a saída de Paz da Presidência, em 24 de maio Morales escreveu na rede social X que o mandatário tinha apenas "dois caminhos" diante dos conflitos: "militarizar" o país ou convocar eleições nos próximos 90 dias, relatou a agência de notícias espanhola EFE.

Os protestos registrados entre maio e junho não apenas provocaram um grave desabastecimento de medicamentos, combustível e alimentos em cidades como La Paz e El Alto, mas também deixaram 22 mortos, 88 feridos e 573 presos, segundo um relatório que a Defensoria do Povo da Bolívia, agência estatal autônom que promove a defesa de direitos humanos, apresentou no início de julho.

De acordo com o relatório, a maioria das mortes (11) ocorreu em acidentes de trânsito registrados quando as vítimas tentavam superar os bloqueios; três aconteceram em confrontos entre manifestantes e integrantes das forças policiais e militares; e outras três pessoas morreram enquanto tentavam chegar a hospitais.

<><> Outra ordem de prisão

Em 2024, a Promotoria emitiu uma primeira ordem de prisão contra Morales, desta vez pelos crimes de tráfico de pessoas, que foi renovada em meados de 2025.

Segundo a instituição, as acusações surgiram em razão da suposta relação que o ex-governante teria mantido com uma menor de idade durante seu último mandato, em 2015, com quem supostamente teve uma filha.

O ex-presidente negou as acusações e, na ocasião, disse que o então presidente do país, seu antigo aliado Luis Arce, estava iniciando uma "brutal guerra judicial".

O julgamento começou em maio passado, mas precisou ser interrompido devido à ausência de Morales, que permanece entrincheirado na região cocaleira de Chapare, no departamento de Cochabamba, seu reduto político no centro do país.

"Só faltou ordenarem meu esquartejamento imediato em uma praça, como ocorria na Colônia, quando os conquistadores castigavam severamente os indígenas que se rebelavam contra a opressão", declarou em janeiro de 2025, quando foi declarado foragido.

Morales está protegido por "2 mil pessoas, todos os dias e 24 horas por dia", assegurou à agência AFP Vicente Choque, da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia e um dos homens mais próximos do ex-chefe de Estado.

"Morales tomou as precauções para criar um cerco humano e não queremos colocar em risco a vida das pessoas", afirmou o porta-voz presidencial.

 

Fonte: Por Luciana Cadahia - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil/BBC News

 

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