Flávio
Bolsonaro, o candidato da ultradireita
trumpista
A
convenção do Partido Liberal (PL), realizada no último sábado no Estádio do
Pacaembu, em São Paulo, deveria marcar a unificação da direita em torno da
candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Terminou produzindo o efeito
contrário. Em vez de simbolizar a consolidação de uma ampla coalizão
conservadora, expôs as dificuldades políticas da candidatura logo em seu
lançamento.
A
imagem que ficou registrada não foi a de uma direita unida, mas a ausência de
parte importante de suas lideranças e o protagonismo de convidados estrangeiros
que ocuparam o espaço político deixado vazio dentro do próprio campo
conservador brasileiro.
O
presidente argentino Javier Milei transformou-se na principal estrela do
evento. Donald Trump e Benjamin Netanyahu enviaram mensagens de apoio. Jair
Bolsonaro apareceu como um avatar produzido por inteligência artificial. Ao
final da convenção, a impressão dominante era incomum: a candidatura brasileira
parecia depender mais da presença de lideranças internacionais da ultradireita
do que da mobilização de seus próprios aliados nacionais.
Essa
percepção não ficou restrita aos adversários de Flávio Bolsonaro.
Nesta
terça-feira, 28, o jornal O Estado de S. Paulo, tradicional porta-voz da
direita liberal brasileira, publicou um editorial contundente sob o título “Um
candidato nanico”. Segundo o jornal, sem apoio consistente do Centrão e sem um
discurso próprio, Flávio estaria recorrendo a Trump, Milei e Netanyahu para
disfarçar a fragilidade de uma candidatura que existe sobretudo em função do
sobrenome do pai. O editorial afirma ainda que o senador “atrelou seu destino
como candidato a atores externos” e que essa estratégia tende a fortalecer
eleitoralmente Luiz Inácio Lula da Silva.
Mais
importante do que a dureza das críticas é sua origem. Não se trata de um
veículo identificado com a esquerda, mas de um dos jornais historicamente mais
influentes entre setores do empresariado, do mercado financeiro e da direita
liberal.
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As ausências
Também
chamou a atenção a leitura feita pelo jornalista Pedro Doria, na newsletter
Meio. Para ele, as ausências de Michelle Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Nikolas
Ferreira e dirigentes de partidos que poderiam compor uma ampla aliança
conservadora não foram casuais. Representariam um cálculo político.
Na
interpretação de Doria, muitos preferiram não aparecer na fotografia daquele
momento porque avaliam que a candidatura de Flávio enfrenta dificuldades
maiores do que seus organizadores admitem publicamente. “Aquilo lá era uma sala
de espera”, escreveu. “Um monte de gente relevante da direita brasileira
sentada, olhando para o relógio”.
Editoriais
e análises não substituem pesquisas eleitorais. Mas ajudam a identificar
mudanças de percepção dentro das elites políticas e econômicas. E, nas últimas
semanas, esses sinais começaram a convergir.
Foi
nesse contexto que surgiu outro fato politicamente relevante.
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Na plateia, 400 empresários
Durante
evento promovido pelo Lide, o Grupo de Líderes Empresariais, Felipe Nunes, CEO
da Quaest, afirmou que a probabilidade estatística de reeleição de Lula havia
alcançado cerca de 60%. O dado, isoladamente, não decide eleição alguma. O
aspecto mais significativo era o ambiente em que foi apresentado.
Na
plateia estavam cerca de 400 empresários. Na mesa, além de Felipe Nunes,
encontravam-se os responsáveis pelo Datafolha, AtlasIntel e Paraná Pesquisas.
Mais do que um debate sobre números, aquele encontro indicava que a percepção
do cenário eleitoral começava a mudar também entre atores que influenciam
alianças políticas, estratégias partidárias e decisões empresariais.
É
justamente nesse ponto que a história começa a ficar mais interessante.
À
medida que crescem os sinais de dificuldade da candidatura de Flávio Bolsonaro
para ampliar sua base política no Brasil, aumenta também o peso de sua
articulação internacional. Essa talvez seja a principal novidade da eleição
presidencial de 2026.
Não
apenas a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas a transformação da política
internacional da extrema-direita em um dos eixos centrais da campanha
presidencial brasileira.
Até
poucos meses atrás, a candidatura de Flávio Bolsonaro seguia o roteiro
tradicional de uma campanha presidencial: ampliar alianças, atrair partidos,
conquistar governadores, dialogar com o empresariado e construir uma maioria
capaz de enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
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A convenção revelou outro cenário
Em vez
de apresentar uma ampla coalizão nacional, a candidatura exibiu como principal
demonstração de força o apoio de lideranças estrangeiras. Javier Milei ocupou o
centro do palco. Donald Trump e Benjamin Netanyahu enviaram mensagens de apoio.
O discurso do presidente argentino, marcado por ataques a Lula e ao ministro
Alexandre de Moraes, dominou a cobertura do evento muito mais do que as
propostas do próprio candidato brasileiro.
Esse
talvez tenha sido o aspecto mais revelador da convenção.
Não
porque candidatos não possam manter relações internacionais — isso faz parte da
política de qualquer democracia. O que chama a atenção é a inversão de papéis:
a dimensão internacional deixou de funcionar como complemento da campanha e
passou a ocupar um lugar central na construção de sua legitimidade política.
Essa
mudança coincide com as dificuldades de Flávio Bolsonaro para ampliar sua base
de apoio dentro do próprio campo conservador.
Ela
aparece nas ausências do Pacaembu e na reação da imprensa tradicionalmente
identificada com a direita liberal. Nos últimos dias, O Estado de S. Paulo,
Folha de S.Paulo, Valor Econômico e outros analistas conservadores passaram a
questionar, por razões distintas, tanto a estratégia quanto a viabilidade da
candidatura.
As
críticas variam, mas convergem para um mesmo diagnóstico: Flávio Bolsonaro
enfrenta obstáculos políticos muito maiores do que imaginava poucos meses
atrás.
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Rede internacional da ultradireita
É nesse
contexto que ganha novo significado a crescente aproximação entre o
bolsonarismo e a rede internacional da ultradireita.
Desde o
início do ano, a administração Donald Trump intensificou sua atuação em temas
relacionados ao Brasil. Tarifas comerciais, críticas ao Supremo Tribunal
Federal, manifestações de integrantes do Departamento de Estado e
questionamentos sobre o processo eleitoral passaram a integrar um mesmo
ambiente político.
A
tentativa, revelada pela imprensa norte-americana, de enviar representantes ao
Brasil para levantar dúvidas sobre o sistema eleitoral — iniciativa barrada
pelo governo brasileiro — tornou esse movimento ainda mais explícito.
Ao
mesmo tempo, Steve Bannon conta com o bolsonarismo como peça importante de sua
articulação internacional. Marco Rubio tornou-se um dos principais críticos do
governo Lula. Milei transformou sua participação na convenção do PL em um ato
político de apoio a Flávio Bolsonaro, além dos contatos frequentes do candidato
com Trump.
Observados
separadamente, esses episódios poderiam parecer fatos isolados. Reunidos,
revelam algo maior: a tentativa de inserir a eleição brasileira em uma
narrativa internacional da extrema-direita, na qual disputas nacionais passam a
ser apresentadas como capítulos de um mesmo confronto ideológico.
Essa
estratégia não elimina as dificuldades internas da candidatura. Procura
compensá-las. A questão deixa de ser apenas quem apoia Flávio Bolsonaro dentro
do Brasil. Passa a ser por que, justamente quando cresce sua dificuldade de
ampliar alianças domésticas, aumenta também sua projeção política no exterior.
É essa
pergunta que ajuda a compreender o verdadeiro significado da convenção do PL.
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A rede internacional liderada por Trump
Naturalmente,
ainda é cedo para prever o resultado da eleição presidencial. Campanhas mudam,
alianças se reorganizam e pesquisas registram apenas o retrato de um
determinado momento.
Mas uma
mudança importante já pode ser percebida. Até pouco tempo, a principal pergunta
da direita brasileira era quem conseguiria unificar o campo conservador para
enfrentar Lula. A convenção do PL mostrou que essa resposta continua distante.
Enquanto
setores importantes da direita tradicional hesitam em aderir plenamente à
candidatura de Flávio Bolsonaro, sua campanha amplia a aposta na rede
internacional da ultradireita liderada por Donald Trump. Isso ajuda a explicar
o protagonismo de Javier Milei no Pacaembu, as manifestações de Trump e
Netanyahu e o espaço inédito que a política externa passou a ocupar numa
disputa presidencial que, em circunstâncias normais, estaria concentrada em
temas como economia, emprego, saúde e segurança pública.
A
disputa continua sendo brasileira. Mas a campanha de Flávio Bolsonaro passou a
integrar uma narrativa política construída para além das fronteiras nacionais.
Essa
narrativa procura apresentar eleições nacionais como parte de um confronto
global contra tribunais, imprensa profissional, organismos multilaterais e
governos identificados com o campo progressista. Foi assim nos Estados Unidos,
culminando na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Foi assim também na
tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, em Brasília.
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Soberania nacional
Essa
estratégia produziu, porém, um efeito político inesperado. Quanto mais a
candidatura de Flávio Bolsonaro se identifica com lideranças estrangeiras que
intervêm no debate político brasileiro, maior tende a ser o espaço para que
Lula apresente sua campanha como uma defesa da soberania nacional.
Essa
talvez seja a maior ironia da campanha de 2026. Ao buscar apoio na ultradireita
internacional, Flávio Bolsonaro acabou oferecendo a Lula uma poderosa bandeira
política: a soberania nacional.
Se essa
estratégia produzirá resultados eleitorais, somente as urnas poderão responder.
Mas a convenção do PL talvez seja lembrada menos pelo lançamento oficial da
candidatura de Flávio Bolsonaro do que pela estratégia que revelou.
Diante
das dificuldades para ampliar sua base política no Brasil, a campanha passou a
apostar cada vez mais na legitimação oferecida pela ultradireita internacional.
Se essa aposta será suficiente para alterar o rumo da eleição, ninguém sabe.
Mas ela
já produziu uma mudança inédita na política brasileira.
A busca
de apoio externo deixou de ser um elemento periférico e passou a ocupar um dos
eixos centrais de uma candidatura ao Palácio do Planalto: a de Flávio
Bolsonaro, o candidato da extrema-direita sul-americana e da ultradireita
continental liderada por Donald Trump.
• ‘Flávio Bolsonaro é tão apagado que
Milei roubou a cena durante convenção do PL’, diz Lindbergh
O
deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) criticou os ataques feitos por Javier
Milei ao presidente Lula (PT) e afirmou nesta terça-feira (28) que a convenção
do PL no último sábado (25) demonstrou a falta de força do senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) na disputa pela Presidência da República.
“Como
ele é apagado. Veja, a convenção era dele. Era para ele aparecer apresentando
propostas para o país. O Milei roubou a cena”, disse o petista na rede social
X, acrescentando que o aliado de Flávio Bolsonaro “ficou ainda mais isolado e
impopular na Argentina”. “Nós não vamos aceitar ingerência externa nessa
eleição do Brasil”, acrescentou.
O
presidente argentino veio ao Brasil no último sábado participar da convenção do
PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da
República. No evento, Milei atacou Lula e chamou o atual presidente brasileiro
de “presidiário”.
Ainda
no X, Lindbergh fez críticas à concepção de governo da extrema direita. “A
política deles é só de cortes na saúde, na educação, de cortes, de redução do
salário mínimo. Flávio Bolsonaro, de cabo eleitoral, está muito mal”,
complementou. “O Brasil é um país soberano, o Brasil é dos brasileiros.”
Conforme
destacou o parlamentar do Partido dos Trabalhadores, o desgaste político da
Milei fica evidente nas pesquisas. A gestão dele é desaprovada por 64,5% dos
argentinos, apontou a consultoria Zuban Córdoba.
A
pesquisa BTG/Nexus, divulgada nesta segunda-feira (27), mostrou que o
presidente Lula aumentou sua vantagem na disputa presidencial e venceria todos
os adversários testados em um eventual segundo turno.
Na
pesquisa Datafolha, divulgada na última sexta-feira (24), Lula conseguiu oito
pontos percentuais de vantagem sobre Flávio Bolsonaro, segundo colocado. O
petista também abriu cinco pontos percentuais contra o senador na simulação de
segundo turno.
Fonte:
Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

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