quinta-feira, 30 de julho de 2026

Estudo: 83% das mulheres que tiveram gravidez precoce já perderam emprego

Cerca de oito em cada dez jovens brasileiras (83%) que engravidaram na infância ou adolescência já tiveram que deixar um emprego ou perderam oportunidades profissionais por causa do trabalho de cuidado com os filhos.

O dado é um dos achados centrais do novo estudo "Marcas do Tempo: Gravidez na Infância ou Adolescência e seus Impactos na Vida de Mulheres no Brasil", realizado pela Plan Brasil, que ouviu mais de 1,5 mil jovens mulheres de 19 a 29 anos em todas as regiões do país.

Para entender a experiência da gravidez precoce, a pesquisa comparou jovens mulheres que engravidaram na infância ou adolescência, e aquelas que não passaram por essa experiência. A pesquisa descontou fatores como pobreza ou baixa escolaridade prévia para isolar o impacto exclusivo da gestação.

O resultado mostrou que mesmo partindo de contextos parecidos, as jovens que engravidaram na infância ou adolescência acumulam desvantagens visivelmente maiores ao longo da vida seja na educação, no trabalho, na renda, na saúde e no exercício de seus direitos, quando comparadas às jovens que não viveram essa experiência.

<><> Cadeia de desvantagens começa antes da gravidez

Os impactos não se limitam ao mercado de trabalho. Jovens que engravidaram na infância ou adolescência têm 24 pontos percentuais a mais de chance de não estar estudando e 21 pontos percentuais a mais de chance de não concluir o Ensino Médio, em relação a quem não passou por essa experiência.

O abandono escolar também é muito mais frequente. 61% das que engravidaram precocemente pararam de estudar, contra 33% entre as que não engravidaram.

Entre as jovens que não engravidaram, a evasão escolar costuma ter causas diversas como dificuldades de saúde mental, contexto familiar, qualidade do ensino, desigualdades sociais. Já entre as que engravidaram, o abandono se concentra fortemente em um único fator, a própria gravidez ou o cuidado com os filhos, apontado como motivo direto por uma proporção 49 pontos percentuais maior do que no grupo de comparação.

"A gravidez na infância ou adolescência é um ponto de inflexão que aprofunda desigualdades que já existiam antes mesmo da gestação", afirma Cynthia Betti, CEO da Plan Brasil. A executiva afirma que reverter esse quadro exige implementação, monitoramento e orçamento para políticas públicas integradas e de prevenção, e não respostas isoladas.

<><> Planos de vida interrompidos

Por trás dos números, o estudo reuniu histórias de jovens que viram seus planos de vida mudarem de rumo da noite para o dia. É o caso de uma entrevistada da região Sul do país, hoje com 28 anos, que treinava para uma competição nacional de atletismo quando descobriu a gravidez ainda na adolescência:

“A sociedade não apoia mulheres mães de forma alguma a seguirem suas vidas. A sensação que se tem, que causa até uma angústia, é de que a tua vida acabou quando tu descobre estar grávida. Eu era atleta, estava me preparando para um campeonato brasileiro, no Paraná, e eu descobri a gravidez. E aí foi um choque, simplesmente eu senti que todos os meus planos de vida que eu tinha organizado acabaram”, contou a mulher de forma anônima.

Relatos como esse se repetem ao longo das 50 entrevistas em profundidade realizadas pela pesquisa, revelando um padrão comum: a chegada de uma criança nessa fase da vida frequentemente significa o fim abrupto de um projeto de vida em construção, seja nos estudos, no esporte ou na carreira.

"Essas mulheres não perderam apenas um emprego ou um ano de estudo, perderam a possibilidade de escolher os próprios caminhos no momento em que mais precisavam dessa autonomia", complementa a CEO.

<><> Violações de direitos e estigma

A pesquisa também expõe falhas graves na garantia de direitos sexuais e direitos reprodutivos com relatos de coerção contraceptiva institucional, incluindo a imposição de métodos como DIU sem consentimento pleno no período pós-parto, e de violência obstétrica.

"E aí, induziram meu parto. Na época era o famoso comprimido, não era na veia. Então, era uma coisa que a dor piorava, assim, mil vezes. E aí, eu ficava falando que eu estava sentindo muita dor e aí era tipo 'vai doer mesmo, é assim mesmo, pra fazer não doeu.' (...) Não foi nada agradável. E ainda mais por todas as mães ali, tava com seus companheiros e eu tava ali totalmente vulnerável." (Entrevista com jovem mulher que viveu gravidez na adolescência, negra, da região Centro-Oeste, 23 anos)

Já entre as jovens que engravidaram antes dos 14 anos, idade em que toda gestação é decorrente de estupro de vulnerável segundo a legislação brasileira, 50% não tiveram a possibilidade de interrupção legal da gestação ofertada pelos serviços de saúde.

Vale destacar também que 59% das jovens que engravidaram antes dos 19 anos passaram a viver em casamento ou união logo após a primeira gestação, e o estudo identifica um aumento de 19 pontos percentuais na chance de casamento antes dos 16 anos entre essas jovens.

Julgamentos sociais acompanham a gestação precoce. A discriminação é uma experiência entre a maioria das jovens que engravidaram precocemente, já que 73% relatam já ter sido discriminadas por causa da gravidez, seja na família, na escola ou em serviços de saúde.

Esse estigma aparece de forma recorrente nos relatos qualitativos, com jovens descrevendo julgamentos sobre sua capacidade intelectual, moral e profissional.

"Sabe o que eu noto? Sempre que eu ia fazer entrevista, as pessoas perguntam assim... 'Eu vi aqui que você tem filha, né? Mas você tem com quem deixar essa filha?' Sempre perguntam, tipo assim, sempre acham que nossa filha é um empecilho. Que a gente não serve para aquele trabalho." (Entrevista com jovem mulher que viveu gravidez na adolescência, negra, da região Nordeste, 26 anos).

<><> Rompendo o ciclo

A Plan Brasil também aponta um conjunto de recomendações que vão da garantia de educação sexual baseada em direitos e do acesso descomplicado a métodos contraceptivos, até a universalização de creches com horários compatíveis com a rotina de estudo e trabalho, o combate à violência obstétrica e à coerção contraceptiva, e políticas de primeiro emprego voltadas especificamente para jovens mães.

"O objetivo é oferecer ao poder público, às organizações da sociedade civil e à própria sociedade brasileira as evidências necessárias para que essas meninas deixem de ter seus direitos negados antes, durante e depois da gravidez", ressaltou a executiva.

A pesquisa foi realizada pela Akauã Consultoria de Dados com o apoio de organizações parceiras em diferentes regiões do país e contou com comitê externo de ética de pesquisa da Flacso Brasil.

¨      Pré-natal: 1 em cada 5 gestantes não recebe cuidado mínimo no Brasil

Embora quase todas as gestantes brasileiras realizem pelo menos uma consulta de pré-natal, uma em cada cinco não atinge o mínimo de sete consultas recomendadas pelo Ministério da Saúde, desde 2024, para o acompanhamento seguro da gestação.

A diferença na cobertura entre a primeira e a sétima consulta — que cai de 99,4% para 78,1% — atinge desproporcionalmente mulheres sem escolaridade, indígenas, adolescentes e moradoras da Região Norte.

Os dados são de um estudo nacional conduzido por pesquisadores do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel), em parceria com a Umane, organização que atua pelo fortalecimento da saúde pública, e estão disponíveis Observatório da Saúde Pública.

O levantamento se baseia em mais de 2,5 milhões de nascimentos registrados no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) do Ministério da Saúde em 2023.

Segundo os pesquisadores, o sistema de saúde consegue captar quase todas as gestantes, mas ainda falha em garantir a continuidade do cuidado, sobretudo entre os grupos mais vulneráveis.

“O Brasil praticamente universalizou o acesso ao início do pré-natal, mas ainda não consegue garantir que esse cuidado se mantenha até o final da gestação, deixando para trás populações já vulneráveis”, afirma a pesquisadora Luiza Eunice Sá da Silva, do ICEH/UFPel.

Para Evelyn Santos, gerente de investimento e impacto social da Umane, o estudo revela um cenário preocupante, mas também contribui para qualificar o debate público sobre as desigualdades no acesso ao pré-natal.

“Nesse contexto, a sociedade civil tem um papel estratégico como aliada do poder público, tanto no fortalecimento de políticas e iniciativas que promovam a equidade quanto no acompanhamento de sua implementação, contribuindo para que essas soluções alcancem, de fato, quem mais precisa”, afirma.

<><> Principais marcadores da exclusão

A escolaridade é um dos principais fatores que determinam quem consegue completar as sete consultas de pré-natal. Enquanto 86,5% das mulheres com maior nível de instrução (12 anos ou mais) atingem esse patamar, menos da metade das mulheres sem escolaridade (44,2%) consegue alcançar o cuidado mínimo recomendado.

Ao longo das diferentes faixas de escolaridade, a desigualdade acumulada chega a 25 pontos percentuais entre os extremos. No recorte racial, a exclusão indígena é a mais severa. Em comparação com os 84,3% das mulheres brancas que concluem as sete consultas, somente 51,5% das indígenas alcançam o mesmo patamar, seguidas por pretas (75,7%) e pardas (75,3%).

O dado mais crítico é a perda de acompanhamento: entre a primeira e a sétima consulta, a cobertura indígena cai 46,2 pontos percentuais (p.p.). — uma queda três vezes
superior à observada entre mulheres brancas (15,3 p.p.). Na prática, em quase metade dos casos, o acesso inicial da gestante indígena não se converte em acompanhamento adequado.

Na intersecção entre escolaridade e raça/cor da pele, as desigualdades se aprofundam: 19% das indígenas sem escolaridade completam sete consultas, enquanto 88,7% das brancas com 12 anos ou mais concluem o pré-natal.

<><> Desigualdades de região e faixa etária

As disparidades também se refletem no território e na idade materna. A Região Norte tem a cobertura mais baixa, com 63,3% das gestantes chegando às sete consultas. O melhor resultado aparece no Sul (85%), seguido por Sudeste (81,5%), Centro-Oeste (77%) e Nordeste (76,1%).

Entre as adolescentes menores de 20 anos, apenas 67,7% realizam o ciclo completo, índice significativamente inferior aos 82,6% observados entre mulheres acima de 35
anos. Essa diferença de quase 20 pontos percentuais reforça a vulnerabilidade das mães jovens no acesso à saúde integral.

Para o epidemiologista e coautor do estudo, Cesar Victora, os resultados confirmam a Hipótese da Equidade Inversa, segundo a qual novos avanços em saúde tendem a
beneficiar primeiro os grupos mais favorecidos.

“Sete consultas não são um número arbitrário, mas o mínimo necessário para acompanhar o ritmo acelerado da vida intrauterina. Sem esse monitoramento regular, perdemos a oportunidade de tratar precocemente condições como infecções, hipertensão e diabetes gestacional”, explica Victora.

O pesquisador alerta que, ao elevar o padrão de qualidade do cuidado, o país corre o risco de ampliar as desigualdades se não houver estratégias específicas para os
grupos mais distantes da meta. Os dados ganham relevância em um contexto em que o país ainda busca reduzir mortes maternas evitáveis.

Como o pré-natal é a principal estratégia para identificar e prevenir complicações na gestação, quando o acompanhamento é interrompido, aumentam os riscos de parto prematuro, baixo peso ao nascer e outras condições graves, especialmente entre mulheres em situação de vulnerabilidade.

Diante desse cenário, os pesquisadores defendem que a equidade deve ser o eixo central das políticas públicas de saúde. O fortalecimento da busca ativa de gestantes
com baixa escolaridade na atenção primária e a ampliação de estratégias culturalmente adequadas para populações indígenas surgem como prioridades urgentes.

Isso inclui a preparação de equipes multidisciplinares e a melhoria da logística em territórios de difícil acesso. Além disso, o estudo aponta para a necessidade de um acolhimento diferenciado que garanta a permanência de adolescentes no pré-natal, removendo barreiras sociais e geográficas.

Para os autores, o enfrentamento das desigualdades regionais, com reforço na infraestrutura das redes de cuidado nas regiões Norte e Nordeste, é passo fundamental para garantir que o avanço nos parâmetros de saúde chegue, de fato, a todas as brasileiras.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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