Em
busca do local de um dos grandes milagres do Cristianismo
Exatamente
nove meses antes do Natal, os cristãos celebram a Anunciação, em honra ao dia
em que acreditam que um anjo apareceu a uma virgem chamada Maria e anunciou que
ela estava milagrosamente grávida de Jesus. Estudiosos bíblicos datam esses
eventos por volta de 6 a.C.
A
Anunciação mostra aos cristãos “que o nascimento de Jesus faz parte do plano
divino e que ele é humano, nascido de uma mulher, mas também divino”, afirma
Joan E. Taylor, professora emérita do King’s College London, na Inglaterra, e
autora do livro “Boy Jesus: Growing up Judean in Turbulent Times” (em tradução
livre: “Menino Jesus: Crescendo Judeu em Tempos Turbulentos”).
Apesar
da importância da Anunciação na fé cristã, os primeiros textos cristãos
fornecem “poucos detalhes concretos sobre o local onde o evento ocorreu”,
afirma James D. Tabor, professor aposentado de estudos religiosos/origens
cristãs da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, nos Estados Unidos,
e autor de "A Maria Perdida: Redescobrindo a Mãe de Jesus".
No
entanto, gerações de peregrinos visitam há muito tempo dois locais diferentes
em Nazaré, cidade ao norte onde hoje é Israel, onde acreditam que a Anunciação
aconteceu: uma gruta onde Maria supostamente viveu e um poço que ela
provavelmente usou.
Arqueólogos
bíblicos, por sua vez, examinaram esses locais na esperança de encontrar
evidências que datem da época da Anunciação, abrindo a possibilidade de que
Maria tenha estado lá.
Essas
escavações proporcionaram aos pesquisadores uma compreensão mais profunda da
Nazaré antiga, de como os primeiros cristãos veneravam Maria e das experiências
religiosas dos peregrinos — ainda que não tenham fornecido uma resposta
definitiva sobre o local onde a Anunciação teria ocorrido.
<><>
Os locais da Anunciação segundo o Evangelho de Lucas
Quatro
evangelhos compõem o Novo Testamento, mas a história da anunciação de Maria
está presente apenas em um deles: o Evangelho de Lucas, que os estudiosos
acreditam ter sido escrito no final do século 1 d.C. Isso significa várias
décadas depois da suposta ocorrência da anunciação.
De
acordo com o evangelho, “o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da
Galileia chamada Nazaré”, onde visitou Maria e anunciou seu destino divino.
Localizada
no norte de Israel, perto do Mar da Galileia, Nazaré ainda existe hoje – é uma
das maiores cidades árabes palestinas do país – mas sua história remonta à
antiguidade, quando os evangelhos a identificaram como a cidade natal de Jesus.
Na época, Nazaré estava sob o controle do Império Romano.
“A vila
[antiga] ficava nas encostas mais baixas, a oeste e acima do uádi [ou vale]”,
conta a arqueóloga Yardenna Alexandre, da Autoridade de Antiguidades de Israel.
“As casas foram construídas sobre o leito rochoso bastante inclinado.”
Enquanto
a Nazaré de hoje abriga cerca de 80 mil pessoas, a vila antiga era “uma pequena
vila agrícola com casas modestas”, diz Tabor; um lugar onde “as famílias viviam
próximas umas das outras, e a vida diária girava em torno das tarefas
domésticas, da agricultura e de recursos comunitários, como poços e nascentes”.
À
medida que sua religião se espalhava, os primeiros cristãos começaram a fazer
peregrinações a locais sagrados da região, incluindo Nazaré. Essas
peregrinações os levavam a lugares associados a Jesus, sua família e seu
ministério, para nutrir sua espiritualidade e transcender o mundo material.
Eles oravam, recebiam bênçãos, deixavam oferendas e levavam para casa
lembranças e objetos religiosos.
Taylor
afirma que essas peregrinações a Nazaré “começaram de fato no século 4” e
incluíam a gruta e o poço que ainda hoje são associados a Maria.
Mas não
há como saber exatamente por que esses dois locais se tornaram venerados,
afirma o arqueólogo Kenneth Dark, autor de Arqueologia da Nazaré de Jesus e
professor do St. Edmund’s College, da Universidade de Cambridge. “Simplesmente
não sabemos o que foi dito a esses primeiros peregrinos e por quem.”
<><>
A Igreja da Anunciação de Nazaré fica no topo de uma gruta associada a Maria
Uma das
peregrinas era Egéria, uma mulher espanhola cuja carta sobre suas viagens à
Terra Santa menciona sua visita a Nazaré por volta de 383 d.C. Ela escreveu que
acreditava que Maria havia vivido em “uma grande e esplêndida gruta”, sobre a
qual um altar havia sido erguido.
Esse
altar provavelmente fazia parte de uma sucessão de estruturas religiosas
construídas no que os peregrinos acreditavam ser o local da Anunciação. Igrejas
foram construídas e destruídas durante os períodos bizantino e das Cruzadas,
antes que outras fossem erguidas e ampliadas nos séculos subsequentes.
Em
1954, o antigo prédio da igreja foi demolido para dar lugar à Igreja da
Anunciação, que permanece de pé até hoje. A demolição da antiga igreja
proporcionou aos pesquisadores a rara oportunidade de escavar seus alicerces.
De 1955
a 1966, Bellarmino Bagatti, um arqueólogo italiano e padre franciscano,
descobriu cavernas, fossos e túneis que os antigos nazarenos teriam usado para
armazenamento, oficinas e até mesmo residências. Essas descobertas apenas
reforçaram a crença dos peregrinos de que Maria vivia na caverna ou em suas
proximidades.
Dark
afirma que instalações semelhantes em outros sítios próximos foram usadas como
esconderijos durante a Revolta Judaica por volta de 70 d.C., quando os judeus
da Judeia se rebelaram contra a Roma Imperial em busca de independência.
Como as
cavernas precisavam ter existido antes da revolta, Dark diz que a cronologia
coincide com a história da anunciação. "Não há nada arqueologicamente
refutável sobre a Caverna da Anunciação ser a caverna bíblica", diz ele,
embora também não haja nada que possa ser comprovado.
As
escavações também confirmaram que peregrinos cristãos viajavam para a caverna
desde pelo menos o final do período romano, quando Egéria visitou Nazaré. Dark
afirma haver evidências de uma "igreja ricamente decorada" que data
do século 5 sob os alicerces da Igreja da Anunciação. Escavações também
revelaram lâmpadas sob o piso de mosaico do edifício, sugerindo que peregrinos
visitavam a gruta muito antes da construção do final do período romano.
<><>
A anunciação ocorreu em um poço público?
A menos
de um quilômetro e meio da Igreja da Anunciação fica a Igreja Ortodoxa Grega de
São Gabriel. Ela está localizada perto do poço onde, segundo outra versão da
história da anunciação, o anjo contatou Maria pela primeira vez.
Essa
história aparece no Protoevangelho de Tiago, um evangelho apócrifo do século 2
que foi popular, influente e traduzido para pelo menos nove idiomas. O texto se
concentra no nascimento, na vida e na virgindade perpétua de Maria.
De
acordo com o texto, Maria “pegou o cântaro e saiu para enchê-lo de água” antes
de ouvir uma voz: “Salve, você que recebeu a graça; o Senhor está com você;
bendita é você entre as mulheres!”. Alarmada, Maria voltou para casa, onde foi
recebida por um anjo que anunciou que ela daria à luz Jesus.
“Não há
“nada [no texto] sobre ela estar em Nazaré”, destaca Taylor. No entanto, no
século 4, o poço já estava associado à vila, e os peregrinos atribuíam o local
da história da anunciação do Protoevangelho a um lugar chamado “Poço de Maria”.
Entre 1997 e 1998, Alexandre e sua equipe escavaram o Poço de Maria. Entre as
descobertas, estavam moedas com as efígies do Rei Herodes e de Cláudio, e uma
lâmpada que sugere que os habitantes de Nazaré eram judeus.
O
trabalho deles também comprovou que o poço era usado na época da anunciação, já
que “seus vestígios do final do período helenístico e do início do período
romano indicam que a nascente abastecia a vila nesses períodos”, explica
Alexandre.
Tabor
acrescenta que o poço “teria sido um ponto de encontro diário onde as mulheres
vinham buscar água. Em uma pequena vila como Nazaré, esse teria sido um dos
principais espaços comunitários”.
<><>
Nossa compreensão mais profunda do mundo de Maria
Especialistas
afirmam que, de uma perspectiva histórica e arqueológica, um local não é
necessariamente mais ou menos provável que o outro. Ambos apresentam evidências
de atividade durante o período em que a Anunciação teria ocorrido. E alguns
estudiosos acreditam que tentar determinar a localização exata do evento é
focar na questão errada.
“A
arqueologia não pode confirmar que a anunciação ocorreu, nem pode verificar os
aspectos sobrenaturais da história”, explica Tabor. “O que ela pode fazer é
reconstruir o contexto histórico em que a tradição surgiu.”
Fonte:
National Geographic Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário