quinta-feira, 2 de julho de 2026

Em busca do local de um dos grandes milagres do Cristianismo

Exatamente nove meses antes do Natal, os cristãos celebram a Anunciação, em honra ao dia em que acreditam que um anjo apareceu a uma virgem chamada Maria e anunciou que ela estava milagrosamente grávida de Jesus. Estudiosos bíblicos datam esses eventos por volta de 6 a.C.

A Anunciação mostra aos cristãos “que o nascimento de Jesus faz parte do plano divino e que ele é humano, nascido de uma mulher, mas também divino”, afirma Joan E. Taylor, professora emérita do King’s College London, na Inglaterra, e autora do livro “Boy Jesus: Growing up Judean in Turbulent Times” (em tradução livre: “Menino Jesus: Crescendo Judeu em Tempos Turbulentos”).

Apesar da importância da Anunciação na fé cristã, os primeiros textos cristãos fornecem “poucos detalhes concretos sobre o local onde o evento ocorreu”, afirma James D. Tabor, professor aposentado de estudos religiosos/origens cristãs da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, nos Estados Unidos, e autor de "A Maria Perdida: Redescobrindo a Mãe de Jesus".

No entanto, gerações de peregrinos visitam há muito tempo dois locais diferentes em Nazaré, cidade ao norte onde hoje é Israel, onde acreditam que a Anunciação aconteceu: uma gruta onde Maria supostamente viveu e um poço que ela provavelmente usou.

Arqueólogos bíblicos, por sua vez, examinaram esses locais na esperança de encontrar evidências que datem da época da Anunciação, abrindo a possibilidade de que Maria tenha estado lá.

Essas escavações proporcionaram aos pesquisadores uma compreensão mais profunda da Nazaré antiga, de como os primeiros cristãos veneravam Maria e das experiências religiosas dos peregrinos — ainda que não tenham fornecido uma resposta definitiva sobre o local onde a Anunciação teria ocorrido.

<><> Os locais da Anunciação segundo o Evangelho de Lucas

Quatro evangelhos compõem o Novo Testamento, mas a história da anunciação de Maria está presente apenas em um deles: o Evangelho de Lucas, que os estudiosos acreditam ter sido escrito no final do século 1 d.C. Isso significa várias décadas depois da suposta ocorrência da anunciação.

De acordo com o evangelho, “o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré”, onde visitou Maria e anunciou seu destino divino.

Localizada no norte de Israel, perto do Mar da Galileia, Nazaré ainda existe hoje – é uma das maiores cidades árabes palestinas do país – mas sua história remonta à antiguidade, quando os evangelhos a identificaram como a cidade natal de Jesus. Na época, Nazaré estava sob o controle do Império Romano.

“A vila [antiga] ficava nas encostas mais baixas, a oeste e acima do uádi [ou vale]”, conta a arqueóloga Yardenna Alexandre, da Autoridade de Antiguidades de Israel. “As casas foram construídas sobre o leito rochoso bastante inclinado.”

Enquanto a Nazaré de hoje abriga cerca de 80 mil pessoas, a vila antiga era “uma pequena vila agrícola com casas modestas”, diz Tabor; um lugar onde “as famílias viviam próximas umas das outras, e a vida diária girava em torno das tarefas domésticas, da agricultura e de recursos comunitários, como poços e nascentes”.

À medida que sua religião se espalhava, os primeiros cristãos começaram a fazer peregrinações a locais sagrados da região, incluindo Nazaré. Essas peregrinações os levavam a lugares associados a Jesus, sua família e seu ministério, para nutrir sua espiritualidade e transcender o mundo material. Eles oravam, recebiam bênçãos, deixavam oferendas e levavam para casa lembranças e objetos religiosos.

Taylor afirma que essas peregrinações a Nazaré “começaram de fato no século 4” e incluíam a gruta e o poço que ainda hoje são associados a Maria.

Mas não há como saber exatamente por que esses dois locais se tornaram venerados, afirma o arqueólogo Kenneth Dark, autor de Arqueologia da Nazaré de Jesus e professor do St. Edmund’s College, da Universidade de Cambridge. “Simplesmente não sabemos o que foi dito a esses primeiros peregrinos e por quem.”

<><> A Igreja da Anunciação de Nazaré fica no topo de uma gruta associada a Maria

Uma das peregrinas era Egéria, uma mulher espanhola cuja carta sobre suas viagens à Terra Santa menciona sua visita a Nazaré por volta de 383 d.C. Ela escreveu que acreditava que Maria havia vivido em “uma grande e esplêndida gruta”, sobre a qual um altar havia sido erguido.

Esse altar provavelmente fazia parte de uma sucessão de estruturas religiosas construídas no que os peregrinos acreditavam ser o local da Anunciação. Igrejas foram construídas e destruídas durante os períodos bizantino e das Cruzadas, antes que outras fossem erguidas e ampliadas nos séculos subsequentes.

Em 1954, o antigo prédio da igreja foi demolido para dar lugar à Igreja da Anunciação, que permanece de pé até hoje. A demolição da antiga igreja proporcionou aos pesquisadores a rara oportunidade de escavar seus alicerces.

De 1955 a 1966, Bellarmino Bagatti, um arqueólogo italiano e padre franciscano, descobriu cavernas, fossos e túneis que os antigos nazarenos teriam usado para armazenamento, oficinas e até mesmo residências. Essas descobertas apenas reforçaram a crença dos peregrinos de que Maria vivia na caverna ou em suas proximidades.

Dark afirma que instalações semelhantes em outros sítios próximos foram usadas como esconderijos durante a Revolta Judaica por volta de 70 d.C., quando os judeus da Judeia se rebelaram contra a Roma Imperial em busca de independência.

Como as cavernas precisavam ter existido antes da revolta, Dark diz que a cronologia coincide com a história da anunciação. "Não há nada arqueologicamente refutável sobre a Caverna da Anunciação ser a caverna bíblica", diz ele, embora também não haja nada que possa ser comprovado.

As escavações também confirmaram que peregrinos cristãos viajavam para a caverna desde pelo menos o final do período romano, quando Egéria visitou Nazaré. Dark afirma haver evidências de uma "igreja ricamente decorada" que data do século 5 sob os alicerces da Igreja da Anunciação. Escavações também revelaram lâmpadas sob o piso de mosaico do edifício, sugerindo que peregrinos visitavam a gruta muito antes da construção do final do período romano.

<><> A anunciação ocorreu em um poço público?

A menos de um quilômetro e meio da Igreja da Anunciação fica a Igreja Ortodoxa Grega de São Gabriel. Ela está localizada perto do poço onde, segundo outra versão da história da anunciação, o anjo contatou Maria pela primeira vez.

Essa história aparece no Protoevangelho de Tiago, um evangelho apócrifo do século 2 que foi popular, influente e traduzido para pelo menos nove idiomas. O texto se concentra no nascimento, na vida e na virgindade perpétua de Maria.

De acordo com o texto, Maria “pegou o cântaro e saiu para enchê-lo de água” antes de ouvir uma voz: “Salve, você que recebeu a graça; o Senhor está com você; bendita é você entre as mulheres!”. Alarmada, Maria voltou para casa, onde foi recebida por um anjo que anunciou que ela daria à luz Jesus.

“Não há “nada [no texto] sobre ela estar em Nazaré”, destaca Taylor. No entanto, no século 4, o poço já estava associado à vila, e os peregrinos atribuíam o local da história da anunciação do Protoevangelho a um lugar chamado “Poço de Maria”. Entre 1997 e 1998, Alexandre e sua equipe escavaram o Poço de Maria. Entre as descobertas, estavam moedas com as efígies do Rei Herodes e de Cláudio, e uma lâmpada que sugere que os habitantes de Nazaré eram judeus.

O trabalho deles também comprovou que o poço era usado na época da anunciação, já que “seus vestígios do final do período helenístico e do início do período romano indicam que a nascente abastecia a vila nesses períodos”, explica Alexandre.

Tabor acrescenta que o poço “teria sido um ponto de encontro diário onde as mulheres vinham buscar água. Em uma pequena vila como Nazaré, esse teria sido um dos principais espaços comunitários”.

<><> Nossa compreensão mais profunda do mundo de Maria

Especialistas afirmam que, de uma perspectiva histórica e arqueológica, um local não é necessariamente mais ou menos provável que o outro. Ambos apresentam evidências de atividade durante o período em que a Anunciação teria ocorrido. E alguns estudiosos acreditam que tentar determinar a localização exata do evento é focar na questão errada.

“A arqueologia não pode confirmar que a anunciação ocorreu, nem pode verificar os aspectos sobrenaturais da história”, explica Tabor. “O que ela pode fazer é reconstruir o contexto histórico em que a tradição surgiu.”

 

Fonte: National Geographic Brasil

 

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