Terá
a Saúde Coletiva abandonado a Comunicação?
Aqui no
Outra Saúde estamos envolvidos, junto com o Instituto de Comunicação e
Informação Científica e Tecnológica em Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz
(ICICT/Fiocruz) e demais parceiros, na realização do ciclo de debates Da
Reforma Sanitária ao Futuro do SUS: 40 anos da 8ª Conferência Nacional de
Saúde. As primeiras sessões foram realizadas em maio, no Rio de Janeiro (dias 7
e 8), e em São Paulo (dias 21 e 22). O encerramento será em Salvador, em
setembro.
Nesse
esforço coletivo de pensar as contribuições de um processo político e histórico
tão rico como a 8ª Conferência, tive a alegria de participar como debatedor na
sessão “Comunicação e Participação: Memórias, Práticas e Reinvenções”. Nesse
texto, tento costurar as ideias que trabalhei na sessão com as de demais
professores em outras mesas de nosso ciclo de debates para pensar: qual é a
grande aprendizagem que o passado da comunicação do setor sanitário deixa de
legado para o presente e que o precisamos superar para uma comunicação e saúde
conectada com o futuro do SUS?
Pensar
os processos e práticas de comunicação no setor saúde exige não apenas um olhar
para o que os diversos atores fazem e operam, mas uma compreensão
histórico-política sobre comos e porquês os temas e as pautas de comunicação
compõem e estão – ou não – nas palavras de ordem e nas entrelinhas desses
atores, em especial, do movimento sanitário.
A
começar pela identificação de elementos discursivos e estéticos que ajudam a
compor o contexto histórico, como trazido pelo professor Richarlls Martins ao
apresentar o que pulsava no Brasil de 1986. Entre os elementos da estética da
época, lembrou da novela Roque Santeiro. Escrita por Dias Gomes, dramaturgo
filiado ao Partido Comunista Brasileiro, a novela da Rede Globo foi censurada e
encerrada pela ditadura civil-militar, em 1975, em sua primeira exibição.
Contudo, no auge do movimento da redemocratização, Roque Santeiro é remontada
e, dentre outros temas à época polêmicos, fez uma chamada direta sobre a
realização da 8ª Conferência Nacional de Saúde, numas das cenas do personagem
padre Albano, vivido por Claudio Cavalcanti, na qual ele explicava a importância
de se debater o acesso à saúde no país, diante de um cartaz convidando para o
evento.
Se a
Conferência ganhou espaço nas telas, o mesmo não aconteceu nos grandes
jornalões paulistanos, como relembrou o professor Carlos Botazzo. À época,
editoriais e matérias dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo se
colocaram terminantemente contrários aos rumos e debates travados na Oitava,
apesar de terem se notabilizado, especialmente a Folha, como um jornalismo de
vanguarda pelas Diretas Já, dois anos antes.
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Uma mídia arcaica-modernizadora
Esses
dois elementos contextualizam e mostram os sentidos dúbios nos quais os
principais representantes do modelo hegemônico de comunicação no Brasil operam
seus jogos de interesses na disputa dos sentidos e das ideias. Ao mesmo tempo
que são figuras centrais de um empresariado patrimonialista, professam o
ideário de uma dita objetividade, imparcialidade e liberdade de imprensa
oriundas do pensamento liberal. Essa mistura de arcaico e moderno é uma das
marcas das nossas empresas e de nosso modelo de comunicação, como apontou o
professor Rodrigo Murtinho. É uma das marcas do Brasil.
E como
pagam as contas esses executivos vestidos de ternos bem cortados com botas de
colonizador manchadas do sangue das minorias? Esse modelo hegemônico, ao mesmo
tempo arcaico e promotor da modernidade, se mantém e se reproduz tanto pelo
investimento privado de grandes multinacionais como pela disputa do fundo
público – ambas as formas monetizadas pela lógica publicitária, herança esta da
ditadura militar.
Contudo,
em 1986, o processo de mobilização social que resultou na Oitava Conferência
não tinha nada de próximo aos modelos então vigentes, ainda que soubessem,
estrategicamente, com eles dialogar. Na verdade, toda a inovação e modernidade,
comumente tão atribuídas aos setores privados, estava ali, junto aos movimentos
sanitário, comunitário e suas instituições, que envidaram novos produtos,
processos e veículos de comunicação.
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A mídia alternativa da saúde
É o
caso da revista Saúde em Debate, lançada uma década antes, em 1976. O que hoje
entendemos como uma publicação científica central do nosso campo foi
apresentada inicialmente como uma revista de debates e veículo oficial do então
recém-criado Centro Brasileiro de Estudos em Saúde, o Cebes. Ao melhor modelo
da tradição leninista, a organização cria seu próprio veículo de comunicação
como instrumento de organização, formação e luta política, como afirmam Paulo
Amarante, Maria Lúcia Rizzotto e Ana Costa, no artigo “Memória de um movimento:
a revista Saúde em Debate e a Reforma Sanitária brasileira”, publicado em
Ciência e Saúde Coletiva, em julho de 2015. Dentre tantos marcos dessa centelha
sanitária, o primeiro momento de Saúde em Debate foi o veículo de circulação
pública do manifesto “A Questão Democrática na Saúde”, em 1980, e teve um
número especial distribuído para os delegados durante a 8ª Conferência Nacional
de Saúde. O acervo histórico está disponível na biblioteca virtual David
Capistrano.
Outra
inovação foi o então projeto Radis, sigla para Reunião, Análise e Difusão de
Informação sobre Saúde, criado pela então Escola Nacional de Saúde Pública
(ENSP), em 1982. De tacada, foram lançados três produtos impressos, em junho
daquele ano: Súmula, “uma sistematização de notícias dispersas (…) e também um
sumário de matérias mais relevantes dos principais jornais com respeito à Saúde
Coletiva”; Dados, que era boletim de sistematização de variados indicadores e
informações de economia da saúde e de epidemiologia relacionados a pautas do
momento; e Tema, que se propunha a destrinchar com mais profundidade um ou mais
assuntos por mês.
Com a
criação da Comissão Nacional da Reforma Sanitária, em março de 1987, surgiu
Proposta – Jornal da Reforma Sanitária. No editorial do nº1, assinado por
Sergio Arouca, o jornal é apresentado como um produto dentro do projeto RADIS,
voltado à informação dos profissionais de saúde, e com o fim específico de
“divulgação de opiniões, estudos, experiências nacionais e internacionais sobre
projetos de transformação no sistema de saúde” para auxiliar os processos em
curso galvanizados na 8ª conferência que, na leitura de Arouca, fariam de 1987
“o ano da Reforma Sanitária”. As quatro publicações seguiram suas trajetórias
e, em 1997não há mais publicações. A coletânea desta primeira fase está
disponível na web para consulta. A atual Revista Radis ganha forma em 2002.
A
atuação do núcleo de vídeo da Fiocruz, responsável pela gravação de mais de 100
horas das sessões do evento e que resultou nos vídeos da Conferência Solene de
Arouca, e no documentário da 8ª Conferência, junto a própria atuação da
assessoria de comunicação da Fundação completam esse cenário mobilizado pelas
ideias e forças desse marco histórico.
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E hoje?
Num
salto de 40 anos, o cenário comunicacional mudou bastante. A mídia brasileira
segue o seu modelo arcaico-moderno, porém sendo dragada pela força pós-moderna
e incontornável da internet na era das mídias sociais e Inteligência
Artificial. Dúbia e altamente interessada em ditar os caminhos políticos
nacionais em nome de sua própria manutenção, a mídia brasileira agora precisa
conviver com as Big Techs para tentar manter ao menos seu status e não ser
engolida totalmente por elas, já que as audiências foram, de fato,
fragmentadas. Esse é o novo modelo hegemônico, muito distante de qualquer
utopia que a internet já alimentou.
Contudo,
a lógica publicitária ainda as mantêm de pé. Pior: esta lógica foi ainda mais
aprofundada pelo processo licitatório da gestão pública, agora não apenas para
a produção de peças e informes publicitários, mas todo o tipo de conteúdo – de
artigo de opinião a memes para as redes sociais, produzidos por agências de
comunicação para a prestação da atividade de assessoria de imprensa. É uma
considerável fatia do orçamento público, agora também compartilhado com as Big
Techs. Somente a rubrica “Publicidade de Utilidade Pública” gastou cerca de R$
796,81 milhões em 2026 até o momento. A autarquia com maior utilização dessa
verba é, justamente, o Ministério da Saúde.
Do
nosso lado, da comunicação crítica, buscamos e tentamos ao máximo ocupar todos
os espaços. As assessorias das comunicações das entidades do movimento
sanitário, das entidades integrantes do Conselho Nacional de Saúde e dos
movimentos sociais como um todo realizam processos de comunicação, sejam eles
de menor ou de maior escala, com presença na internet e nas mídias sociais –
ainda que com capacidades institucionais e percepções políticas bem distintas
do lugar estratégico da comunicação. Por esses canais, apresentam suas análises
e perspectivas de fortalecimento do SUS, buscando tornar seus dirigentes
porta-vozes de suas temáticas e propostas.
Um
seleto segmento de veículos independentes e comprometidos com a Comunicação
Pública – e com destaque para este Outra Saúde – têm tido a importante
responsabilidade de serem os promotores dos debates públicos do movimento
sanitário: identificam tendências, acolhem e checam denúncias de
irregularidades no SUS, amplificam novos olhares e, ao propor e manter vivo o
espaço do debate público – proporcionam novas conexões. O ciclo de debates Da
Reforma Sanitária ao Futuro do SUS: 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde
é a materialização desses esforços.
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Há alternativas?
Porém,
para o futuro da comunicação do movimento sanitário, acredito que precisamos de
mais. A cauda longa da Internet – fragmentada e presa às lógicas de engajamento
criadas pelas e para proveito das Big Techs – não pode ser nossa única forma de
reverberação de propostas.
As
contradições da realidade mais uma vez ficam evidentes nos nossos processos de
pesquisa. Ao mesmo tempo que o termo comunicação ganha maior relevância e
presença nas resoluções conferenciais e nas falas de nossos dirigentes, as
questões de comunicação ficam mais específicas, segmentadas ou setorizadas. São
proposições repetidas que impedem nossa capacidade de síntese, de aglutinação
de forças e não tocam no ponto crucial: a disputa do fundo público para acesso
a recursos técnicos, tecnológicos, humanos e financeiros para a produção de
novas e outras formas de comunicação e saúde e que, junto à ampliação de nossa
capacidade comunicativa, ajude a, pelo menos, enfraquecer a lógica de
reprodução do modelo hegemônico de comunicação pelo orçamento do Ministério da
Saúde.
Enfrentar
essa lógica por dentro do setor saúde, com instrumentos, práticas e políticas
de comunicação pública, exige questionar os modelos vigentes já identificados,
como a presença e a lógica da produção de campanhas pelo modelo licitatório das
agências de publicidade e de comunicação; as reduzidas equipes de comunicação
das secretarias, o baixíssimo orçamento e a repetição das peças publicitárias,
os modelos de marketing e de gestão de crise importados, que servem unicamente
a uma comunicação laudatória e centrada na imagem do gestor e/ou restrita à
divulgação da prestação dos serviços das redes de cuidado de forma anódina e
fria.
Significa
também repensar como fazemos nossas campanhas preventivas e de promoção. Basta
ter a marca SUS para ser uma comunicação comprometida com os princípios,
diretrizes e desafios que orientaram os ventos do nosso movimento em 1986? Nós
nos reconhecemos no Zé Gotinha, mas qualquer skin e trend do momento que se
cole sobre esse ícone da saúde pública e da vacinação vale para “comunicar” com
a população?
Enfrentar
essa lógica por dentro do setor saúde requer um olhar histórico para questionar
como movimento sanitário e campo científico da Saúde Coletiva entenderam o
debate da comunicação à época e como nós o entendemos hoje. Afinal, como
entender a comunicação como primazia de uma única temática da Saúde Coletiva,
se na sua história institucional, a comunicação sempre andou lado a lado da
educação popular, da informação e, mais recentemente, da promoção da saúde?
Cabe a alguma área essa propriedade?
Por
que, nos anos 1990, à época da disputa nas estruturas do Estado, a área da
comunicação não recebeu a mesma preocupação dispensada às demais áreas técnicas
do MS? E, no momento atual, se parece ser consenso que a comunicação realmente
ocupa uma centralidade no debate social, por que sua discussão não consta das
grandes pautas do movimento? E por que, por muitos, ainda segue sendo vista
como meramente um processo técnico-operacional? Se é tão relevante, por que
vemos tentativas de domínio sobre a temática dentro do campo da Saúde Coletiva
se, na história institucional do setor saúde, a comunicação sempre andou lado a
lado com a educação popular, a informação e, mais recentemente, com a promoção
da saúde? Cabe a alguma área temática do campo a propriedade exclusiva sobre
essa dimensão das práticas e saberes, sejam nos aspectos profissionais e/ou
teóricos?
O
movimento da Comunicação e Saúde tem feitos diversos esforços – ora mais
coletivos, ora mais individualizados – em discutir a importância e necessidade
de uma Política Nacional de Comunicação e Saúde, tema que esteve presente na
17ª Conferência Nacional de Saúde e que recebeu uma atualização do atual
momento do debate nesta edição de junho da Revista Radis. Como aponta a
matéria, o caminho é longo e necessário, e muitas vozes precisam ser ouvidas
para que o debate seja ampliado. Porém, assim como as lutas do passado, os
futuros embates da comunicação no SUS precisam olhar para os processos
políticos e históricos do passado e do presente para a construção de consensos
e identificação dos nós górdios que centralmente precisam ser desatados – para
não corrermos o risco de boas políticas nascerem, iguais a tantas outras, como
letras mortas.
Fonte:
Por Bruno Cesar Dias, em Outra Saúde

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