STF
condena Eduardo Bolsonaro por articular retaliações ao Brasil nos EUA: o que
acontece agora
A
Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou, por
unanimidade, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) por coação no
curso do processo, um crime que ocorre quando alguém tenta intimidar,
pressionar ou interferir em investigações ou ações judiciais.
A
acusação é de que Eduardo articulou nos Estados Unidos retaliações do governo
Donald Trump contra o Brasil e autoridades brasileiras para tentar impedir o
julgamento do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-SP), por
tentativa de golpe de Estado — ele acabou condenado em setembro e, no momento,
cumpre pena em prisão domiciliar humanitária.
Votaram
pela condenação do ex-deputado federal os quatro ministros que integram a Turma
no momento: Alexandre de Moraes, relator do caso,
Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino.
"No
intuito de beneficiar seu próprio pai, a atividade criminosa do então deputado
licenciado Eduardo Bolsonaro prejudicou todo o país e não amedrontou essa corte
como jamais amedrontaria o Supremo Tribunal Federal", disse Moraes, ao
votar.
A pena
para o crime, que é de um a quatro anos de prisão e multa, ainda será fixada
pelos ministros, após o julgamento ser interrompido para um intervalo.
No
entanto, a legislação penal prevê que penas de até quatro anos de prisão sejam
substituídas por outras punições, como prestação de serviços comunitários.
Eduardo
Bolsonaro se mudou para os Estados Unidos em fevereiro de 2025, afirmando ser
alvo de perseguição política no Brasil e que o país passaria por um momento de
privações de liberdade devido à atuação do STF.
Pouco
depois, ele disse que pediria asilo político ao governo americano, mas não há
informações públicas sobre se essa solicitação ocorreu e como estaria
tramitando.
Já em
dezembro, perdeu seu mandato parlamentar por excesso de faltas, já que deixou
de comparecer à Câmara de Deputados.
Segundo
a Procuradoria Geral da República (PGR), o filho de Jair Bolsonaro passou a
atuar junto à Casa Branca por retaliações ao STF, como a suspensão de vistos de
oito ministros da Corte e a aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de
Moraes, impondo a ele restrições financeiras, ambas adotadas no ano passado
pela gestão Trump.
O
empresário Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo, também foi alvo da
denúncia, mas será julgado em outro momento.
Entre
as evidências apresentadas pela PGR contra ambos estão postagens feitas nas
redes sociais e reportagens publicadas pela BBC News Brasil e outros
veículos.
A
acusação também menciona entrevistas de Eduardo a veículos de imprensa
nacionais e estrangeiros, defendendo sua atuação na imposição das tarifas
americanas contra importações brasileiras, anunciadas em julho de 2025.
Uma
delas foi concedida à BBC News Brasil em agosto. Nela, o deputado disse que
brasileiros entendiam que o tarifaço de Trump seria "um sacrifício a ser
feito".
A
defesa de Eduardo Bolsonaro foi exercida pela Defensoria Pública da União, já
que o ex-parlamentar não conistuiu um advogado no processo. Ele também não
compareceu para prestar depoimento durante a instrução processual.
Quando
se tornou réu no STF, o então parlamentar disse que estava sendo vítima de
perseguição judicial.
"Moraes
está usando a política dentro do tribunal para limar a possibilidade de que a
direita tenha uma maioria no Senado ano que vem."
O
ex-deputado ainda negou ter cometido o crime de coação e tentado influenciar o
julgamento de seu pai.
Segundo
ele, sua atuação visava a aprovação de uma lei de anistia que beneficiaria seu
pai e outros condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, quando
bolsonaristas radicais atacaram as sedes dos Três Poderes.
"Ele
está dizendo que a [Lei] Magnitsky, as tarifas e outras ações da administração
de Trump são porque eu comandei eles para livrar meu pai da cadeia, o que é um
absurdo. Eu nunca trabalhei pela absolvição do meu pai. Eu trabalhei pela
anistia ser votada por um Congresso livre das ameaças de Alexandre de
Moraes."
"Como
o crime de coação exige um meio ilícito, e a Magnitsky não é um meio ilícito, é
um meio legal aqui nos Estados Unidos, e um instrumento que esteja a minha
disposição, e eu não assino a Magnitsky, nem tarifa eu assino, quem assina isso
é o Trump e o secretariado dele, então notoriamente esses são crimes que não
competem a mim, eu jamais poderia estar sendo acusado por isso",
acrescentou.
Ao
argumentar pela inocência do réu, o defensor Esdras dos Santos argumentou que
Eduardo Bolsonaro atuou nos Estados Unidos no exercício do seu mandato
parlamentar, exercendo sua liberdade de expressão, e não poderia ser
responsabilizado por decisões do governo americano.
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O que pode acontecer com Eduardo Bolsonaro
Após a
condenação de Eduardo Bolsonaro, a defesa ainda terá direito a apresentar
recursos na Primeira Turma, os chamados embargos de declaração.
Ao
final do processo, caso a condenação seja mantida, o governo brasileiro deve
dar início ao pedido de extradição ao governo americano para que o ex-deputado
cumpra a pena no Brasil, explicou à BBC News Brasil o juiz e professor de
processo penal da USP Guilherme Madeira Dezem
Esse
processo, porém, pode levar anos, ressalta.
O
ex-deputado Alexandre Ramagem, condenado por tentativa de golpe de Estado em
setembro, segue vivendo nos Estados Unidos. Seu pedido de extradição foi
formalizado em janeiro.
Segundo
Dezem, a decisão final sobre pedidos de extradição cabe ao governo Trump,
aliado da família Bolsonaro.
"Nos
EUA, ocorre uma dupla análise. A primeira fase é judicial, em que um juiz
federal avalia se o pedido cumpre requisitos formais. Após isso, a palavra
final cabe ao Poder Executivo", disse o professor.
O
professor explica ainda que eventuais rejeições a pedidos de extradição ao
Brasil podem se tornar definitivas. Ou seja, não necessariamente poderão ser
revertidas depois, quando Trump deixar de ser presidente.
"Depende
do motivo da rejeição. Se negado por questões burocráticas, pode ser refeito o
pedido. Se negado por questões de mérito, como perseguição politica, não".
Além
disso, disse Dezem, se for concedido o asilo a Eduardo Bolsonaro, ele não
poderá ser extraditado.
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Articulação para sanções
A
primeira sanção dos EUA contra o Brasil foi anunciada no início de julho.
Donald
Trump mandou uma carta pública ao
presidente Lula,
anunciando tarifas de 50% sobre determinados produtos brasileiros.
Trump
utilizou motivos políticos para justificar a imposição das tarifas, entre eles
o tratamento dado pelo Judiciário do Brasil a Bolsonaro e a empresas de
tecnologia americanas.
Segundo
o americano, o ex-presidente, sua família e seus apoiadores estariam sofrendo
uma "caça às bruxas" devido ao julgamento que no STF.
Na
ocasião, Eduardo Bolsonaro se manifestou agradecendo Trump. "Espero que as
autoridades brasileiras agora tratem esses assuntos com a seriedade que
merecem", disse na rede social Truth Social.
O
governo brasileiro acusou Eduardo de articular sanções e o presidente Lula
disse que não aceitaria interferência externa em processos judiciais envolvendo
pessoas acusadas de participar de golpe de Estado.
Cerca
de duas semanas depois, no dia 18 de julho, o governo americano anunciou
sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, relator do processo de Bolsonaro
no STF.
Em uma
postagem nas redes sociais, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, informou que revogou os vistos
americanos do ministro, "seus aliados e familiares imediatos".
"A
caça às bruxas política do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal
Federal, contra Jair Bolsonaro criou um complexo de perseguição e censura tão
abrangente que não só viola direitos básicos dos brasileiros, mas também se
estende além das fronteiras do Brasil e atinge os americanos", argumentou
Rubio.
As
sanções foram anunciadas no mesmo dia em que Moraes determinou medidas
restritivas a Bolsonaro, como uso de tornozeleira eletrônica, a pedido da PGR.
O
ministro argumentou que Jair Bolsonaro estaria atuando de forma deliberada e
ilícita, junto com Eduardo, para estimular sanções estrangeiras contra agentes
públicos brasileiros.
Após o
anúncio da revogação dos vistos, Eduardo Bolsonaro parabenizou Rubio nas redes
sociais e disse: "tem muito mais por vir".
Novas
sanções vieram dias depois. Ainda em julho, o governo americano anunciou a
inclusão do nome do ministro na lista de estrangeiros punidos pela Lei
Magnitsky.
As
punições incluem o bloqueio de bens e contas no país, além da proibição de
entrada em território americano.
A
sanção já era uma possibilidade desde maio, quando Rubio disse que ela estava
sendo considerada.
No fim
de setembro, os EUA também sancionaram a esposa de Moraes, Viviane Barci de
Moraes, com a mesma lei. A empresa administrada por Viviane e os três filhos do
casal também foi incluída na lista.
Essa
última rodada de sanções aconteceu após o STF condenar Jair Bolsonaro por golpe
de Estado e outros crimes, no dia 11 de setembro.
A
sanção à Viviane Moraes foi mencionada por Eduardo Bolsonaro como pressão por anistia.
Fonte:
BBC News Brasil

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