Pochmann:
Os clãs políticos sobreviverão à Era Digital?
Há uma
pergunta incômoda que atravessa toda a história política nacional. Os clãs
políticos brasileiros que superaram as transformações econômicas, sociais e
tecnológicas do Brasil desde a independência nacional serão capazes de
sobreviver na era digital?
A
dúvida é relevante porque o Brasil mudou profundamente desde o fim da
colonização. O país deixou de ser uma economia agrária baseada originalmente no
trabalho escravo para se tornar, posteriormente, numa sociedade urbana e
industrial e, mais recentemente, uma economia dominada pelos serviços, pelas
finanças, pelos dados e pelas plataformas digitais.
Mudaram
as formas de produção, os meios de comunicação, as relações de trabalho e até
os mecanismos de participação política. Mas teria mudado a estrutura do poder?
Uma hipótese que merece atenção, uma vez que os clãs políticos não tenham
desaparecido.
Talvez
tenham apenas se metamorfoseado. Se essa hipótese estiver correta, a história
política brasileira pode ser interpretada como uma sucessão de adaptações de um
mesmo fenômeno estrutural. A capacidade de determinadas famílias e grupos de
interesses em transformar as mudanças econômicas e tecnológicas em mecanismos
de reprodução de poder.
A
origem dessa trajetória encontra-se na própria formação colonial. As capitanias
hereditárias, instituídas em 1534, não representavam apenas uma forma de
ocupação territorial. Elas estabeleceram um princípio organizador da vida
política com a associação entre patrimônio, autoridade e herança familiar.
O poder
nascia ligado à terra e transmitia-se por laços de sangue. A Colônia terminou
por consolidar esse padrão, uma vez que grandes proprietários rurais não
exerciam apenas funções econômicas. Controlavam a vida social, religiosa,
militar e política dos territórios sob sua influência. A família
transformava-se na principal instituição de organização do poder.
A
Independência nacional, contudo, não rompeu com essa lógica. A ruptura com
Portugal preservou a estrutura fundiária, a escravidão e boa parte das elites
que dominavam a sociedade colonial. O Estado nacional surgiu sem que houvesse a
promoção transformação profunda das bases sociais do poder. Ao longo do século
XIX, o coronelismo emergiu como uma adaptação dessa herança.
A
criação da Guarda Nacional, em 1831, fortaleceu os grandes proprietários locais
que passaram a atuar como intermediários entre um Estado distante e a população
dispersa pelo território. O coronel tornou-se uma espécie de gestor local da
ordem política. O poder, assim, continuava associado à terra, mas agora estava
articulado cada vez mais às instituições do Estado nacional.
A
Primeira República, por exemplo, não eliminou também a estrutura herdada. Ao
contrário, em muitas regiões ela a consolidou. Os clãs familiares
transformaram-se em máquinas eleitorais locais, controlando prefeituras,
cartórios, delegacias, associações econômicas e redes de clientela política. Em
diversas localidades, a disputa eleitoral ocorria menos entre projetos
políticos distintos do que entre famílias tradicionais.
Pela
modernização industrial que avançou em parte do século XX tampouco produziu o
desaparecimento desses grupos. O que ocorreu foi uma mudança na base material
de sustentação do poder. Se antes a terra era o principal ativo estratégico, o
processo de urbanização e industrialização ampliou a importância da máquina
pública, dos contratos governamentais, das empresas estatais e das estruturas
partidárias.
Neste
novo contexto, os clãs políticos adaptaram-se ao novo ambiente. A reprodução familiar do poder deixou de
depender exclusivamente da propriedade rural e passou a incorporar o controle
de cargos, recursos públicos e instituições estatais. Em sequência, o
aparecimento e avanço dos meios de comunicação abriu uma nova etapa. Rádios,
jornais e emissoras de televisão transformaram-se em instrumentos fundamentais
de construção de influência política.
Surgiu
uma nova fase de coronelismo eletrônico. O controle da opinião pública passou a
complementar o controle do território. A autoridade política já não dependia
apenas da presença física do chefe local, mas também da capacidade de moldar
percepções, construir reputações e influenciar comportamentos coletivos.
E na
contemporaneidade da era digital, os clãs políticos sobreviverão? Será que o
salto inovativo da tecnologia com redes sociais, algoritmos e poder quase
monopolista das big techs estrangeiras terminará por destruiria as estruturas
tradicionais de poder no Brasil?
A
internet prometia horizontalizar a comunicação, democratizar o acesso à
informação e ampliar a participação cidadã. Os resultados até agora se mostram,
entretanto, mais complexos. As redes digitais abriram novos espaços de
participação, mas também criaram inéditos mecanismos de concentração econômica
e informacional. Os antigos clãs políticos encontraram nessas plataformas
oportunidades de reinvenção convertendo-se em marcas.
O
sobrenome segue um ativo eleitoral precioso. A influência deixou de depender
exclusivamente da presença territorial e passou a ser exercida através de redes
digitais capazes de conectar municípios, estados e regiões inteiras. O que
antes era predominantemente local tornou-se nacional.
Mas a
transformação mais profunda talvez não esteja na política convencional. Ela
está na emergência das grandes plataformas digitais globais. Pela primeira vez
na história brasileira, uma parcela significativa da comunicação pública, da
circulação de informações e da formação da opinião coletiva passou a ser
mediada por empresas privadas estrangeiras. Não se trata apenas de tecnologia.
Trata-se de poder.
Os
algoritmos definem visibilidades, ampliam determinados conteúdos, silenciam
outros, organizam fluxos de atenção e influenciam comportamentos coletivos. Ao
mesmo tempo, os dados produzidos pela sociedade brasileira tornam-se
matéria-prima de uma economia digital cuja apropriação da riqueza vaza
frequentemente para fora do território nacional.
Surge,
assim, uma nova questão histórica. Se os clãs políticos foram capazes de
adaptar-se à passagem da sociedade agrária para urbana e industrial e desta
para a de serviços e informação hiperconectada, qual será a forma do poder
político no capitalismo digital? Estaria em curso o nascimento de uma nova
etapa dos clãs políticos? Ou ao surgimento de uma estrutura ainda mais
complexa, na qual dinastias locais passam a operar conectadas a plataformas
globais capazes de organizar simultaneamente economia, comunicação e política?
A
pergunta permanece em aberto. Mas uma conclusão parece inevitável. A história
brasileira não pode ser compreendida apenas pelas rupturas que proclama. Ela
precisa ser analisada também pelas continuidades que preserva. Das capitanias
hereditárias ao coronelismo, do coronelismo ao poder midiático e deste ao
universo dos algoritmos, observa-se uma impressionante capacidade de adaptação
das estruturas de poder.
A
modernização brasileira transformou a economia, urbanizou a sociedade,
industrializou a produção e digitalizou a comunicação. Mas não eliminou
completamente a tendência histórica à concentração do poder. O desafio do
século XXI talvez seja justamente o de impedir que a revolução digital produza
apenas uma atualização tecnológica de velhas formas de dominação.
Afinal,
uma democracia não se mede apenas pela realização de eleições. Ela se mede pela
capacidade de renovar lideranças, democratizar oportunidades e impedir que o
poder se transforme em patrimônio hereditário. Essa é uma tarefa que continua
inacabada na República brasileira.
• "IA pode ampliar — e não reduzir —
desigualdades", alerta Lula
O
presidente Lula (PT) alertou nesta quarta-feira (17), em discurso lido no
almoço de trabalho do G7, em Évian, na França, que a inteligência artificial
pode ampliar — e não reduzir — desigualdades caso não haja ação deliberada dos
governos. Em fala sobre “Inteligência Artificial e proteção de menores na
internet”, ele defendeu regulação do ambiente digital, proteção de crianças e
adolescentes e uma governança internacional da IA que respeite a soberania dos
países.
No
discurso, Lula afirmou que a inteligência artificial e os serviços digitais
estão transformando profundamente as economias, com efeitos positivos sobre
produtividade industrial, serviços públicos, medicina, segurança alimentar e
energética. O presidente, porém, chamou atenção para riscos graves associados
ao uso dessas tecnologias.
Segundo
Lula, há práticas “extremamente nefastas” no ambiente digital, como o uso de
armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pedofilia, manipulação de
imagens de crianças e mulheres para pornografia, violência contra mulheres e
meninas e precarização do trabalho.
O
presidente defendeu que o envolvimento das grandes empresas de tecnologia é
indispensável para que o futuro digital seja seguro, ético e alinhado ao
interesse público. “Regular o ambiente digital é central para proteger direitos
fundamentais”, afirmou.
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Proteção de crianças e adolescentes
Lula
destacou a aprovação, neste ano, do Estatuto Digital para Crianças e
Adolescentes, que estabelece obrigações para empresas que operam serviços
digitais voltados ao público infantil. Segundo ele, trata-se de uma das
legislações mais avançadas do mundo para proteger crianças e adolescentes no
ambiente digital.
“Estamos
garantindo que nossas crianças e adolescentes possam estar online em
segurança”, disse o presidente. “Estamos dando um basta aos criminosos que
ameaçam a integridade física e mental de nossas crianças e adolescentes.”
Lula
também afirmou que o Brasil proibiu a monetização de conteúdos criminosos
envolvendo crianças e adolescentes. Ao citar dados da UNICEF, ele classificou
como “estarrecedor” o levantamento segundo o qual um em cada cinco adolescentes
e crianças brasileiras, entre 12 e 17 anos, foi vítima de exploração ou abuso
sexual no ambiente digital.
O
presidente afirmou ainda que o Brasil adotou novas regras sobre
responsabilidade para plataformas digitais e empresas de inteligência
artificial, com o objetivo de prevenir crimes digitais, especialmente contra
mulheres. Segundo ele, 8,8 milhões de mulheres brasileiras já sofreram algum
tipo de violência online, incluindo ameaças, assédio e invasões de contas.
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Desigualdade digital e soberania dos dados
Lula
ressaltou que, enquanto empresas de tecnologia alcançam valor equivalente ao de
grandes economias, 2,6 bilhões de pessoas ainda permanecem desconectadas da
internet. Para o presidente, a concentração tecnológica pode aprofundar
desigualdades globais.
“Sem
ação deliberada, a inteligência artificial pode ampliar — e não reduzir —
desigualdades”, afirmou.
Ele
também apontou a concentração no mercado global de serviços de computação em
nuvem. Segundo Lula, entre 2016 e 2021, um único país foi responsável por quase
90% das exportações globais do setor, enquanto muitos países do Sul Global
seguem inseridos na economia digital como fontes de dados, mercados
consumidores e fornecedores de insumos estratégicos.
O
presidente afirmou que o Brasil defende que a governança e os benefícios
econômicos sobre os dados produzidos por seus cidadãos e instituições sejam
protegidos e gerem valor para a sociedade brasileira.
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Infraestrutura pública digital
Lula
classificou a infraestrutura pública digital como um dos bens mais estratégicos
do século XXI. Segundo ele, essa estrutura amplia a capacidade do Estado de
servir, incluir e conectar cidadãos por meio de políticas públicas.
O
presidente citou como exemplo uma das principais entregas do Estado brasileiro
ao cidadão: um sistema de pagamento público e gratuito, apresentado por ele
como referência de uso de dados integrados para promover inclusão financeira e
eficiência digital.
Lula
afirmou que o Brasil seguirá fortalecendo um ambiente digital doméstico baseado
em segurança jurídica, previsibilidade regulatória e igualdade de tratamento
entre empresas nacionais e estrangeiras.
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Governança global da inteligência artificial
No
plano internacional, Lula defendeu uma governança que reconheça a diversidade
de trajetórias nacionais e assegure que a inteligência artificial fortaleça a
democracia, a coesão social e a soberania dos países.
“Nenhum
foro substitui a universalidade das Nações Unidas”, afirmou.
O
presidente também mencionou o Pacto Digital Global, aprovado em Nova Iorque em
setembro de 2024, e destacou o Painel Científico Internacional Independente
sobre Inteligência Artificial como o primeiro órgão científico global sobre o
tema, reunindo especialistas, fatos e evidências em suas manifestações.
Lula
encerrou o discurso defendendo avanços concretos no Diálogo Digital sobre
Governança de Inteligência Artificial, organizado pela União Internacional de
Telecomunicações, previsto para julho deste ano em Genebra.
Fonte:
Outras Palavras/Brasil 247

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