Oliveiros
Marques: O Novo que não é novo
Que
Romeu Zema não é nenhum santo, isso já sabemos. Sua trajetória em Minas Gerais
está longe de ser o modelo de gestão impecável que o Partido Novo gosta de
projetar nas suas peças de publicidade. Mas esse não é o ponto. O ponto é
outro, e é muito mais sério: quando dirigentes partidários constroem um partido
sobre pilares declarados — liberdade de expressão, combate à corrupção e
coerência ética — esses pilares não podem ser removidos toda vez que o vento
eleitoral sopra em direção contrária. Discurso que não pauta a prática não é
princípio. É propaganda.
E foi
exatamente o que os diretórios do Novo no Paraná e em Santa Catarina entregaram
ao Brasil nas últimas semanas.
O
gatilho foi simples. Romeu Zema, pré-candidato à Presidência pelo próprio
Partido Novo, publicou um vídeo afirmando que ouvir Flávio Bolsonaro cobrando
R$ 163 milhões do dono do Banco Master — um banqueiro preso, usando
tornozeleira eletrônica — é "imperdoável".
Difícil
discordar. A autenticidade do áudio foi confirmada pelo próprio Flávio
Bolsonaro. Os fatos estavam postos. E Zema fez exatamente o que se espera de um
político que defende seus princípios publicamente: usou sua liberdade de
expressão para se posicionar sobre um caso concreto de suspeita de
irregularidade envolvendo um adversário político.
Foi aí
que o Partido Novo mostrou do que é feito quando os interesses batem à porta.
O
diretório paranaense — liderado, com deliciosa ironia, pelo ex-procurador da
Lava Jato Deltan Dallagnol — correu para apagar o incêndio. Em nota,
classificou o vídeo de Zema como "precipitado" e informou que
"gerou ruídos desnecessários em alianças já estabelecidas". A aliança
em questão é com o PL de Flávio Bolsonaro, partido que sustenta a candidatura
do inelegível Dallagnol ao Senado. A balança da ética, descobriu-se, tem um
prato reservado para os princípios e outro para as conveniências. E as conveniências
pesam mais.
Santa
Catarina foi além. O diretório estadual não apenas desautorizou Zema como foi a
ponto de excluí-lo de um evento do próprio partido no estado. O candidato
presidencial da legenda, impedido de aparecer em atividade da sua própria sigla
por ter dito o que o estatuto do Novo supostamente obriga seus membros a dizer.
A liberdade de expressão, valor que o Novo defende com megafone quando o alvo é
o STF ou a regulação das redes sociais, ficou guardada na gaveta quando o alvo
era um aliado eleitoralmente útil.
A cena
tem uma geometria política que merece ser contemplada com calma. O Partido Novo
nasceu prometendo ser diferente. Sem fisiologismo. Sem trocas de apoio por
silêncio. Sem o velho jogo de fechar os olhos para irregularidades quando o
irregular é do mesmo time. Seus filiados pagam mensalidade. O partido recusa
fundo eleitoral público. O estatuto prevê expulsão de quem vota contra a linha
partidária sem justificativa.
Mas, ao
que parece, o estatuto não prevê o que fazer quando a linha partidária é
inconveniente para as alianças locais. Nesse caso, descobre-se que a solução é
outra: desautorizar o candidato presidencial, preservar o palanque e torcer
para que o eleitor não perceba a contradição.
O
eleitor percebeu.
Não é
pequena a ironia de ver os herdeiros políticos da Lava Jato — Dallagnol no
Paraná, os dirigentes catarinenses — silenciando ou punindo quem cobrou
explicações sobre dinheiro pedido por um senador a um banqueiro preso. A mesma
lógica que Moro e Dallagnol aplicaram durante anos para investigar suspeitas
muito mais frágeis do que essa foi abandonada quando o suspeito passou a ser
eleitoralmente útil.
No fim,
o que os diretórios do Novo no Paraná e em Santa Catarina entregaram não foi
uma nota política. Foi um espelho. E o reflexo mostrou que a balança da
liberdade de expressão, da fidelidade partidária e do combate à corrupção, para
esses dirigentes, é calibrada caso a caso — de acordo com os interesses
mesquinhos e pequeninos de cada arranjo eleitoral.
O Novo,
afinal, não é assim tão novo.
• Zema é desconvidado de evento do Novo em
meio à crise com Flávio Bolsonaro
O
ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência da República, Romeu
Zema (Novo), foi desconvidado de um encontro partidário do Novo em Santa
Catarina, marcado para o início de julho. A informação foi confirmada pela
assessoria da legenda no estado, segundo o Metrópoles.
De
acordo com o diretório catarinense, a decisão foi tomada após uma articulação
interna envolvendo mandatários e os principais pré-candidatos da sigla. O
episódio ocorre em meio ao agravamento das divergências entre Zema e
integrantes do campo bolsonarista, especialmente após declarações do
ex-governador sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Em
Santa Catarina, Novo e Partido Liberal mantêm uma aliança política. No estado,
o ex-vice-prefeito de Joinville, Adriano Silva, é apontado como pré-candidato
ao governo catarinense, enquanto o governador Jorginho Mello (PL) é citado para
comandar a chapa.
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Críticas a Flávio Bolsonaro
O
desgaste entre Zema e aliados de Jair Bolsonaro aumentou após comentários do
mineiro sobre a relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro,
controlador do Banco Master. Durante entrevista ao canal Brasil Paralelo, na
sexta-feira (12), Zema afirmou que "quem anda com bandido merece ser visto
com cautela".
A
declaração provocou reação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP),
que classificou a postura do ex-governador como "vagabunda" e
defendeu o rompimento da aliança entre PL e Novo.
As
críticas feitas por Zema ocorreram após a divulgação de conversas entre Flávio
Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme "Dark
Horse", produção que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro.
• Flávio Bolsonaro perde apoio do Centrão
contra Lula. Por Esmael Morais
O
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entrou nesta terça-feira (16) sem apoio
nacional fechado da Federação União Progressista, com o Republicanos preso aos
estados e com o Novo sob ataque do próprio clã Bolsonaro. A consequência é
direta: o filho zero um de Jair Bolsonaro perde pontes no Centrão e leva a
crise do Banco Master para o palanque de Sergio Moro (PL-PR), Deltan Dallagnol
(Novo) e Filipe Barros (PL-PR) no Paraná.
A
Federação União Progressista reúne União Brasil e Progressistas (PP). O bloco
foi aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 26 de março e passou a
operar como força nacional para a eleição de outubro. Para qualquer
presidenciável, isso significa tempo de televisão, fundo eleitoral, bancada no
Congresso Nacional, prefeitos, governadores e palanques regionais.
Flávio
precisa dessa máquina para sair da redoma bolsonarista. Ele ainda tem o PL,
Jair Bolsonaro, militância digital e voto fiel da extrema direita. O que falta
é entrar no eleitorado conservador que rejeita o PT, mas não quer viver sob
nova temporada de crise institucional, escândalo financeiro e briga permanente
com o mundo.
Esse
eleitor é o “miolo” da eleição. Pesquisadores estimam algo em torno de 13% do
eleitorado brasileiro. Não é lulista orgânico nem bolsonarista raiz. Pode
simpatizar com a Lava Jato, defender pauta conservadora e desconfiar da
esquerda. Mas quer Pix funcionando, boleto pago, comida mais barata, emprego,
crédito, segurança e governo que não transforme cada semana em incêndio
político.
A
pesquisa Genial/Quaest divulgada em 10 de junho mostrou Lula (PT) com 44%
contra 38% de Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno. A pesquisa foi
publicada depois da revelação de conversas que ligaram o senador a Daniel
Vorcaro, controlador do Banco Master, preso em investigação sobre fraude no
sistema financeiro.
Flávio
nega irregularidade e afirma que tratou de patrocínio privado para “Dark
Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. A explicação pode funcionar para a base
fiel. Para o eleitor moderado, a imagem é outra: um candidato que fala em
moralidade apareceu orbitando um banqueiro preso.
O
problema cresceu quando a Polícia Federal alcançou Ciro Nogueira (PP-PI),
presidente do Progressistas e peça central da Federação União Progressista. A
PF apontou suspeita de pagamentos mensais de Daniel Vorcaro ao senador
piauiense. Ciro nega irregularidade.
Ciro
também foi associado a uma proposta legislativa apelidada de “emenda Master”,
que mexeria em regras do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O FGC é o mecanismo
que cobre parte do dinheiro de clientes se um banco quebrar. Ciro sustenta que
sua proposta protege correntistas e enfrenta interesses dos grandes bancos.
Foi
nesse ponto que Flávio tentou salvar a própria pele política.
Ao
reagir à operação contra Ciro, Flávio divulgou nota sem citar o presidente do
PP, mas classificou as notícias como graves e defendeu rigor na apuração. O
recado era calculado: o senador do PL queria mostrar distância do aliado
atingido pelo Master para impedir que a lama do banco grudasse ainda mais em
sua pré-campanha.
No
Centrão, esse gesto tem custo.
Ciro
não é figurante. Ele controla partido, conversa com bancadas, negocia palanque,
tempo, fundo eleitoral e sobrevivência parlamentar. Quando Flávio trata o
mandachuva do PP como peso descartável, abre desconfiança justamente no bloco
que poderia ajudá-lo a atravessar a fronteira entre bolsonarismo raiz e direita
pragmática.
A
Federação União Progressista não nasceu para carregar Flávio Bolsonaro no colo.
Nasceu para ampliar poder, eleger bancadas e negociar estados. Se o candidato
do PL vira risco, União Brasil e PP tendem a proteger seus próprios projetos
antes de entregar apoio nacional fechado ao clã Bolsonaro.
O
Republicanos joga o mesmo jogo. O partido de Marcos Pereira olha para os
estados e cobra contrapartidas. No Paraná, a conta passa por Alexandre Curi,
presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), e pela disputa sobre
qual palanque terá força para eleger senador, deputados e aliados regionais.
O Novo
entrou no moedor pelo caminho de Romeu Zema.
O
ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), dos Estados Unidos, defendeu rompimento
nacional entre PL e Novo depois que o ex-governador de Minas Gerais criticou a
proximidade de Flávio com Daniel Vorcaro. Zema disse que “quem anda com bandido
merece ser visto com cautela”. A frase atingiu o coração do arranjo
bolso-lavajatista no Paraná.
Moro
está no PL. Deltan está no Novo. Os dois tentam dividir o mesmo campo político
contra Lula e contra a esquerda paranaense. Se Eduardo Bolsonaro força o PL a
romper com o Novo, a costura Moro-Deltan perde chão antes da campanha oficial.
A
contradição ficou exposta. O PL quer usar o Novo nos estados, mas não aceita
crítica de Zema a Flávio. O Novo quer vender imagem liberal e moralista, mas
abriga Deltan num palanque colado ao clã Bolsonaro. A Lava Jato quer falar em
ética, mas aparece ao lado de uma candidatura enredada em Vorcaro, Master, Ciro
e dinheiro privado para filme político.
No
Paraná, Moro, Deltan e Filipe Barros escolheram embarcar nesse palanque em 29
de maio, no Centro de Eventos Tarumã, em Curitiba. O ato testou a frente
bolso-lavajatista diante da militância. O Blog do Esmael contou 69 xingamentos
na transmissão online e nenhuma proposta concreta para o país.
Esse
dado explica o teto da direita radical. O eleitor moderado pode até rejeitar
Lula. Isso não significa que queira comprar o pacote completo de Flávio
Bolsonaro: Banco Master, Ciro queimado, Zema atacado, Eduardo Bolsonaro
cobrando ruptura, Donald Trump pressionando o Brasil, Pix na mira e palanque
regional movido a insulto.
A
proposta de tarifa de 25% dos Estados Unidos contra produtos brasileiros
ampliou o desgaste. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos
(USTR) citou temas como comércio digital e serviços de pagamento eletrônico.
Para pequeno comerciante, entregador, autônomo, aposentado, produtor rural e
exportador, esse debate não é ideologia. É custo real.
No
Paraná, a discussão chega ao Porto de Paranaguá, ao agro, às cooperativas, aos
frigoríficos, ao frete, ao diesel e ao preço dos alimentos. Quando aliados de
Flávio tratam Trump como parceiro político, precisam explicar ao produtor e ao
trabalhador por que pressão estrangeira contra o Brasil seria vantagem
nacional.
Lula
tenta ocupar esse espaço com a defesa do Pix, da soberania econômica e do
emprego. A hipótese de vitória no primeiro turno segue como hipótese, porque
eleição se decide na urna, em 4 de outubro de 2026. Mas o comportamento do
Centrão mostra cálculo de risco antes das convenções.
Flávio
Bolsonaro tentou se afastar de Ciro para reduzir o estrago do Master. Abriu
crise com o PP, esfriou a Federação União Progressista, irritou uma peça
decisiva do Centrão e expôs a fragilidade do próprio palanque.
No
Paraná, Moro, Deltan e Filipe entraram no barco do Tarumã. Agora terão de
explicar ao eleitor moderado por que um palanque sem proposta, cheio de
xingamentos e contaminado por Vorcaro, Ciro, Zema, Eduardo Bolsonaro, Trump e
ataque ao Pix seria alternativa de estabilidade para o estado e para o Brasil.
Fonte:
Brasil 247

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