quarta-feira, 17 de junho de 2026

Oliveiros Marques: O Novo que não é novo

Que Romeu Zema não é nenhum santo, isso já sabemos. Sua trajetória em Minas Gerais está longe de ser o modelo de gestão impecável que o Partido Novo gosta de projetar nas suas peças de publicidade. Mas esse não é o ponto. O ponto é outro, e é muito mais sério: quando dirigentes partidários constroem um partido sobre pilares declarados — liberdade de expressão, combate à corrupção e coerência ética — esses pilares não podem ser removidos toda vez que o vento eleitoral sopra em direção contrária. Discurso que não pauta a prática não é princípio. É propaganda.

E foi exatamente o que os diretórios do Novo no Paraná e em Santa Catarina entregaram ao Brasil nas últimas semanas.

O gatilho foi simples. Romeu Zema, pré-candidato à Presidência pelo próprio Partido Novo, publicou um vídeo afirmando que ouvir Flávio Bolsonaro cobrando R$ 163 milhões do dono do Banco Master — um banqueiro preso, usando tornozeleira eletrônica — é "imperdoável".

Difícil discordar. A autenticidade do áudio foi confirmada pelo próprio Flávio Bolsonaro. Os fatos estavam postos. E Zema fez exatamente o que se espera de um político que defende seus princípios publicamente: usou sua liberdade de expressão para se posicionar sobre um caso concreto de suspeita de irregularidade envolvendo um adversário político.

Foi aí que o Partido Novo mostrou do que é feito quando os interesses batem à porta.

O diretório paranaense — liderado, com deliciosa ironia, pelo ex-procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol — correu para apagar o incêndio. Em nota, classificou o vídeo de Zema como "precipitado" e informou que "gerou ruídos desnecessários em alianças já estabelecidas". A aliança em questão é com o PL de Flávio Bolsonaro, partido que sustenta a candidatura do inelegível Dallagnol ao Senado. A balança da ética, descobriu-se, tem um prato reservado para os princípios e outro para as conveniências. E as conveniências pesam mais.

Santa Catarina foi além. O diretório estadual não apenas desautorizou Zema como foi a ponto de excluí-lo de um evento do próprio partido no estado. O candidato presidencial da legenda, impedido de aparecer em atividade da sua própria sigla por ter dito o que o estatuto do Novo supostamente obriga seus membros a dizer. A liberdade de expressão, valor que o Novo defende com megafone quando o alvo é o STF ou a regulação das redes sociais, ficou guardada na gaveta quando o alvo era um aliado eleitoralmente útil.

A cena tem uma geometria política que merece ser contemplada com calma. O Partido Novo nasceu prometendo ser diferente. Sem fisiologismo. Sem trocas de apoio por silêncio. Sem o velho jogo de fechar os olhos para irregularidades quando o irregular é do mesmo time. Seus filiados pagam mensalidade. O partido recusa fundo eleitoral público. O estatuto prevê expulsão de quem vota contra a linha partidária sem justificativa.

Mas, ao que parece, o estatuto não prevê o que fazer quando a linha partidária é inconveniente para as alianças locais. Nesse caso, descobre-se que a solução é outra: desautorizar o candidato presidencial, preservar o palanque e torcer para que o eleitor não perceba a contradição.

O eleitor percebeu.

Não é pequena a ironia de ver os herdeiros políticos da Lava Jato — Dallagnol no Paraná, os dirigentes catarinenses — silenciando ou punindo quem cobrou explicações sobre dinheiro pedido por um senador a um banqueiro preso. A mesma lógica que Moro e Dallagnol aplicaram durante anos para investigar suspeitas muito mais frágeis do que essa foi abandonada quando o suspeito passou a ser eleitoralmente útil.

No fim, o que os diretórios do Novo no Paraná e em Santa Catarina entregaram não foi uma nota política. Foi um espelho. E o reflexo mostrou que a balança da liberdade de expressão, da fidelidade partidária e do combate à corrupção, para esses dirigentes, é calibrada caso a caso — de acordo com os interesses mesquinhos e pequeninos de cada arranjo eleitoral.

O Novo, afinal, não é assim tão novo.

•        Zema é desconvidado de evento do Novo em meio à crise com Flávio Bolsonaro

O ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência da República, Romeu Zema (Novo), foi desconvidado de um encontro partidário do Novo em Santa Catarina, marcado para o início de julho. A informação foi confirmada pela assessoria da legenda no estado, segundo o Metrópoles.

De acordo com o diretório catarinense, a decisão foi tomada após uma articulação interna envolvendo mandatários e os principais pré-candidatos da sigla. O episódio ocorre em meio ao agravamento das divergências entre Zema e integrantes do campo bolsonarista, especialmente após declarações do ex-governador sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Em Santa Catarina, Novo e Partido Liberal mantêm uma aliança política. No estado, o ex-vice-prefeito de Joinville, Adriano Silva, é apontado como pré-candidato ao governo catarinense, enquanto o governador Jorginho Mello (PL) é citado para comandar a chapa.

<><> Críticas a Flávio Bolsonaro

O desgaste entre Zema e aliados de Jair Bolsonaro aumentou após comentários do mineiro sobre a relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Durante entrevista ao canal Brasil Paralelo, na sexta-feira (12), Zema afirmou que "quem anda com bandido merece ser visto com cautela".

A declaração provocou reação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que classificou a postura do ex-governador como "vagabunda" e defendeu o rompimento da aliança entre PL e Novo.

As críticas feitas por Zema ocorreram após a divulgação de conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme "Dark Horse", produção que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro.

•        Flávio Bolsonaro perde apoio do Centrão contra Lula. Por Esmael Morais

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entrou nesta terça-feira (16) sem apoio nacional fechado da Federação União Progressista, com o Republicanos preso aos estados e com o Novo sob ataque do próprio clã Bolsonaro. A consequência é direta: o filho zero um de Jair Bolsonaro perde pontes no Centrão e leva a crise do Banco Master para o palanque de Sergio Moro (PL-PR), Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL-PR) no Paraná.

A Federação União Progressista reúne União Brasil e Progressistas (PP). O bloco foi aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 26 de março e passou a operar como força nacional para a eleição de outubro. Para qualquer presidenciável, isso significa tempo de televisão, fundo eleitoral, bancada no Congresso Nacional, prefeitos, governadores e palanques regionais.

Flávio precisa dessa máquina para sair da redoma bolsonarista. Ele ainda tem o PL, Jair Bolsonaro, militância digital e voto fiel da extrema direita. O que falta é entrar no eleitorado conservador que rejeita o PT, mas não quer viver sob nova temporada de crise institucional, escândalo financeiro e briga permanente com o mundo.

Esse eleitor é o “miolo” da eleição. Pesquisadores estimam algo em torno de 13% do eleitorado brasileiro. Não é lulista orgânico nem bolsonarista raiz. Pode simpatizar com a Lava Jato, defender pauta conservadora e desconfiar da esquerda. Mas quer Pix funcionando, boleto pago, comida mais barata, emprego, crédito, segurança e governo que não transforme cada semana em incêndio político.

A pesquisa Genial/Quaest divulgada em 10 de junho mostrou Lula (PT) com 44% contra 38% de Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno. A pesquisa foi publicada depois da revelação de conversas que ligaram o senador a Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, preso em investigação sobre fraude no sistema financeiro.

Flávio nega irregularidade e afirma que tratou de patrocínio privado para “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. A explicação pode funcionar para a base fiel. Para o eleitor moderado, a imagem é outra: um candidato que fala em moralidade apareceu orbitando um banqueiro preso.

O problema cresceu quando a Polícia Federal alcançou Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do Progressistas e peça central da Federação União Progressista. A PF apontou suspeita de pagamentos mensais de Daniel Vorcaro ao senador piauiense. Ciro nega irregularidade.

Ciro também foi associado a uma proposta legislativa apelidada de “emenda Master”, que mexeria em regras do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O FGC é o mecanismo que cobre parte do dinheiro de clientes se um banco quebrar. Ciro sustenta que sua proposta protege correntistas e enfrenta interesses dos grandes bancos.

Foi nesse ponto que Flávio tentou salvar a própria pele política.

Ao reagir à operação contra Ciro, Flávio divulgou nota sem citar o presidente do PP, mas classificou as notícias como graves e defendeu rigor na apuração. O recado era calculado: o senador do PL queria mostrar distância do aliado atingido pelo Master para impedir que a lama do banco grudasse ainda mais em sua pré-campanha.

No Centrão, esse gesto tem custo.

Ciro não é figurante. Ele controla partido, conversa com bancadas, negocia palanque, tempo, fundo eleitoral e sobrevivência parlamentar. Quando Flávio trata o mandachuva do PP como peso descartável, abre desconfiança justamente no bloco que poderia ajudá-lo a atravessar a fronteira entre bolsonarismo raiz e direita pragmática.

A Federação União Progressista não nasceu para carregar Flávio Bolsonaro no colo. Nasceu para ampliar poder, eleger bancadas e negociar estados. Se o candidato do PL vira risco, União Brasil e PP tendem a proteger seus próprios projetos antes de entregar apoio nacional fechado ao clã Bolsonaro.

O Republicanos joga o mesmo jogo. O partido de Marcos Pereira olha para os estados e cobra contrapartidas. No Paraná, a conta passa por Alexandre Curi, presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), e pela disputa sobre qual palanque terá força para eleger senador, deputados e aliados regionais.

O Novo entrou no moedor pelo caminho de Romeu Zema.

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), dos Estados Unidos, defendeu rompimento nacional entre PL e Novo depois que o ex-governador de Minas Gerais criticou a proximidade de Flávio com Daniel Vorcaro. Zema disse que “quem anda com bandido merece ser visto com cautela”. A frase atingiu o coração do arranjo bolso-lavajatista no Paraná.

Moro está no PL. Deltan está no Novo. Os dois tentam dividir o mesmo campo político contra Lula e contra a esquerda paranaense. Se Eduardo Bolsonaro força o PL a romper com o Novo, a costura Moro-Deltan perde chão antes da campanha oficial.

A contradição ficou exposta. O PL quer usar o Novo nos estados, mas não aceita crítica de Zema a Flávio. O Novo quer vender imagem liberal e moralista, mas abriga Deltan num palanque colado ao clã Bolsonaro. A Lava Jato quer falar em ética, mas aparece ao lado de uma candidatura enredada em Vorcaro, Master, Ciro e dinheiro privado para filme político.

No Paraná, Moro, Deltan e Filipe Barros escolheram embarcar nesse palanque em 29 de maio, no Centro de Eventos Tarumã, em Curitiba. O ato testou a frente bolso-lavajatista diante da militância. O Blog do Esmael contou 69 xingamentos na transmissão online e nenhuma proposta concreta para o país.

Esse dado explica o teto da direita radical. O eleitor moderado pode até rejeitar Lula. Isso não significa que queira comprar o pacote completo de Flávio Bolsonaro: Banco Master, Ciro queimado, Zema atacado, Eduardo Bolsonaro cobrando ruptura, Donald Trump pressionando o Brasil, Pix na mira e palanque regional movido a insulto.

A proposta de tarifa de 25% dos Estados Unidos contra produtos brasileiros ampliou o desgaste. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) citou temas como comércio digital e serviços de pagamento eletrônico. Para pequeno comerciante, entregador, autônomo, aposentado, produtor rural e exportador, esse debate não é ideologia. É custo real.

No Paraná, a discussão chega ao Porto de Paranaguá, ao agro, às cooperativas, aos frigoríficos, ao frete, ao diesel e ao preço dos alimentos. Quando aliados de Flávio tratam Trump como parceiro político, precisam explicar ao produtor e ao trabalhador por que pressão estrangeira contra o Brasil seria vantagem nacional.

Lula tenta ocupar esse espaço com a defesa do Pix, da soberania econômica e do emprego. A hipótese de vitória no primeiro turno segue como hipótese, porque eleição se decide na urna, em 4 de outubro de 2026. Mas o comportamento do Centrão mostra cálculo de risco antes das convenções.

Flávio Bolsonaro tentou se afastar de Ciro para reduzir o estrago do Master. Abriu crise com o PP, esfriou a Federação União Progressista, irritou uma peça decisiva do Centrão e expôs a fragilidade do próprio palanque.

No Paraná, Moro, Deltan e Filipe entraram no barco do Tarumã. Agora terão de explicar ao eleitor moderado por que um palanque sem proposta, cheio de xingamentos e contaminado por Vorcaro, Ciro, Zema, Eduardo Bolsonaro, Trump e ataque ao Pix seria alternativa de estabilidade para o estado e para o Brasil.

 

Fonte: Brasil 247

 

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