O
moleiro de Sans-Souci
A
“teoria dos três poderes” legada pela Revolução Gloriosa, na Inglaterra, e
teorizada pelo filósofo e jurista francês Charles de Montesquieu (1689-1755)
está em crise há muito tempo. A mídia corporativa se candidatou a “quarto
poder” no século XX, mas nunca ultrapassou a condição de braço auxiliar do
status quo.
No
Brasil, na análise da tripartição dos poderes, o Congresso Nacional com as
emendas impositivas é cooptado por interesses pessoais e de classe acima do bem
comum. Enquanto o Judiciário se torna uma loja de conveniências para
magistrados que perdem a noção de decoro no exercício da função, com um
vergonhoso simulacro de consumo de luxo espelhado em hábitos dos mais ricos.
O
Executivo padece sob um sistema eleitoral que não vincula o voto no candidato
majoritário à distribuição das cadeiras no Legislativo. A eleição dos
prefeitos, governadores e presidente não têm correspondência na composição
parlamentar. A governabilidade depende de alianças exóticas. Um fisiologismo
substitui as afinidades programáticas e desqualifica o sentido da política na
opinião pública.
Em cada
país acham-se vetores atuantes na desconstituição do Estado de direito e da
democracia. A presença de uma intencionalidade religiosa e os discursos de
autoajuda se propagam, junto aos ideais de um empreendedorismo individual. O
reino da necessidade mostra-se mais forte do que o altruísmo das personas em
favor dos interesses gerais. Faltam republicanos para sustentar uma República.
No
contexto global, dos valores que segundo Montesquieu regem as formas de
governo, a saber, a “virtude” na República, a “honra” na Monarquia e o “medo”
no Despotismo apenas o último se destaca na contemporaneidade. A insegurança se
estende ao conjunto da sociedade civil e desperta um alerta sobre os jovens.
Conforme
a pesquisa “Next Generation Brasil 2025”, no Atlas das Juventudes, em torno de
50 milhões de pessoas situam-se na faixa etária de 15 a 29 anos. Estão abertas
às ideias de participação política e cívica e pedem representatividade e
inclusão. Tamanho potencial para o progresso econômico e o desenvolvimento
social, porém, corre o risco de não se realizar pela ausência de oportunidades.
Não
bastam professores com uma pedagogia antirracista e decolonial. É preciso que a
juventude seja acolhida por políticas que a protejam da superexploração em
aplicativos. E mais, que ajudem a reorganizar a esperança militante. A
destruição dos laços de identidade e solidariedade laboral condensa uma imensa
vitória do neoliberalismo contra os direitos, para acelerar um processo de
acumulação.
A
instabilidade no mundo do trabalho rompe o contrato social, alastra a guerra de
todos contra todos e reatualiza a lógica do “estado de natureza” hobbesiano. Os
demagogos aproveitam a situação para incrementar as pautas sobre a diminuição
da idade penal e a proibição do aborto até em casos dos estupros em crianças. O
medo é um instrumento eficaz para impor a obediência e a aceitação da ordem.
A
limitação de poderes é a lição aprendida no enfrentamento ao Absolutismo em
priscas eras. Tinha em vista a moderação para garantir a estabilidade sistêmica
com a institucionalização dos conflitos, contornando os atos de violência na
luta de classes. Mas a tentação pelos Estados de exceção retorna hoje,
obedecendo a impulsos históricos e conjunturais que melindram a autoridade das
convenções.
O
imperialismo estadunidense cultua o medo com a força das armas e do dólar, ora
ao mexer nas receitas estrangeiras com as tarifas de exportação. Israel faz o
mesmo desde o nascimento, com uma despossessão dos palestinos. A extrema
direita reitera o rito no discurso de ódio, xenofobia e perseguição aos
imigrantes legais e ilegais. Como sentencia o sábio Riobaldo, em Grande sertão:
veredas, “O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no
meio da travessia”.
Nesta
dialética sem síntese, a racionalidade rentista atrela à política os projetos
de “austeridade” onde ajustes fiscais rebaixam o IDH (Índice de Desenvolvimento
Humano). A economia ortodoxa divorcia o Estado e a nação. Os desesperançados
abraçam o diabo na expectativa se dar bem no inferno com a benção do patrão.
O caos
é uma consequência do desequilíbrio na correlação de forças entre capital e
trabalho. Ao privilegiar o polo capitalista e subjugar o movimento trabalhista,
por via da desindustrialização que gera desemprego e arrocha os salários,
escancara la porte de l’enfer. A precarização e as terceirizações são uma
decorrência natural das investidas contra a dignidade, a diversidade e idem os
direitos de cidadania.
Os
vícios do patrimonialismo (transferência de bens e funções públicas para o
privado), o negacionismo estrutural (desmonte dos órgãos de regulamentação), o
monopólio tecnológico das Big Techs (indução ao consumo e escolhas eleitorais)
e o neoliberalismo (empoderamento do livre mercado, sem participação social na
definição de políticas) são fatores de desestabilização da ordem na sociedade.
Não
obstante, os ventos mudam. A camisa da seleção brasileira na Parada do Orgulho
LGBTQIA+ quebra o monopólio político do amarelo pelo bolsonarismo. A febre do
álbum da Copa com adultos e crianças em espaços públicos para uma troca de
figurinhas, mais do que evento comercial, simboliza a confraternização lúdica
com leveza para a sociabilidade cotidiana. É o antídoto ao ressentimento e ao
divisionismo ideológico. Acena compartilhamentos além das bolhas tóxicas.
O ponto
fora da curva é o ministro Nunes Marques, presidente do TSE (Tribunal Superior
Eleitoral), ao suspender a divulgação de pesquisa da AtlasIntel que revela o
desgaste nas intenções de voto em Flávio Bolsonaro dadas provas de ligações do
senador com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Doravante estatísticas
estão sujeitas à censura da toga. Um tal despautério abala a fé na justiça.
“Ainda existem juízes em Berlim”, pergunta agora remoçado o moleiro de
Sans-Souci.
Fonte:
Por Luiz Marques, em A Terra é Redonda

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