Ex-ministro
de Bolsonaro e empresas lideradas por ele receberam R$ 11 milhões do Master em
dois anos
Vamos
mostrar a relação de um ex-ministro do governo Bolsonaro com o Banco Master,
sua ligação com o sistema bancário e como tudo isso foi ignorado em comissões
de investigação do Congresso Nacional por parlamentares de direita e esquerda.
Logo
após comandar o Ministério da Cidadania, pasta que beneficiou o mercado do
crédito consignado, Ronaldo Vieira Bento migrou para a iniciativa privada para
atuar em empresas que atuam exatamente nessa modalidade de empréstimo. Entre
elas, uma firma licenciada pelo Banco Master que tinha contratos públicos para
emprestar dinheiro para servidores públicos, aposentados e pensionistas.
Nesta
edição, eu e o editor sênior de investigações, Eduardo Goulart, contamos as
conexões entre Bento e o banco de Daniel Vorcaro. Pois bem, vamos aos fatos.
Ao
analisar a declaração de Imposto de Renda do Banco Master enviada pela Receita
Federal para a Comissão Parlamentar de Inquérito, a CPI, do Crime Organizado do
Senado, descobrimos que as conexões da instituição financeira de Daniel Vorcaro
com a extrema direita vão muito além do filme “Dark Horse”. O ex-ministro da
Cidadania do governo Bolsonaro Ronaldo Vieira Bento e empresas ligadas a ele
receberam R$ 11 milhões diretamente do Banco Master nos últimos dois anos.
Advogado,
ex-agente da Polícia Federal e filiado ao Republicanos desde 2023, Bento atuou
em 2022 na autorização de empréstimo consignado – concessão de crédito com
desconto direto das parcelas na folha de pagamento – para os beneficiários do
Auxílio Brasil, que, na época, substituiu o Bolsa Família. Logo depois de sair
do governo, ele foi trabalhar na iniciativa privada em diferentes empresas, e
uma delas, licenciada pelo Master, atua com empréstimos desse tipo.
Após
chefiar o Ministério da Cidadania – atual Ministério do Desenvolvimento e
Assistência Social, Família e Combate à Fome – entre março e dezembro de 2022,
o ex-ministro assumiu os cargos de diretor-presidente do Banco Pleno e de
administrador da Mettacard Administradora de Cartões, empresas ligadas ao
conglomerado do Banco Master, investigado na Operação Compliance Zero da
Polícia Federal por suspeita de fraudes financeiras.
O Pleno
era o antigo Banco Voiter, comprado pelo Master em fevereiro de 2024 e depois
vendido em julho de 2025 para o empresário Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de
Daniel Vorcaro, o dono do Master. Bento assumiu o cargo de diretor-presidente
do Pleno nesse período.
Já a
Mettacard era uma empresa licenciada pelo Banco Master que oferecia um cartão
de benefícios consignado voltado para servidores públicos, aposentados e
pensionistas. Essa modalidade funciona de modo similar a um cartão de crédito,
por permitir compras de produtos e saques, mas costuma cobrar juros menores, e
a parcela mínima do saldo devedor é debitada automaticamente na folha de
pagamento.
A
liquidação extrajudicial – uma intervenção emergencial de órgãos do governo
quando alguns tipos de empresas, como instituições financeiras e planos de
saúde, entram em colapso e há risco para os seus clientes – do Banco Pleno foi
determinada pelo Banco Central, o BC, em fevereiro deste ano por
comprometimento financeiro, deterioração de liquidez, quebra de normas e
descumprimento de decisões. Entre as medidas adotadas, foi determinada a
indisponibilidade dos bens de Ronaldo Vieira Bento, além de controladores e
outros ex-administradores do Pleno
Do
total de R$ 11 milhões repassados diretamente pelo Master para Bento e empresas
ligadas a ele, R$ 773,3 mil foram pagos diretamente para o ex-ministro como
pessoa física. O restante foi direcionado para empresas em que ele era
administrador ou com as quais mantinha ligação societária.
A maior
parte dos valores repassados pelo Master foi para a Meta Consultoria, que
recebeu R$ 6,2 milhões em 2025. O ex-ministro é sócio dessa empresa, criada em
junho de 2023, que funciona em um edifício na Asa Sul em Brasília. A Meta
Consultoria declara realizar atividades de consultoria em gestão empresarial,
preparação de documentos e outros serviços especializados de apoio
administrativo.
Em
novembro de 2024, ela se juntou com uma outra empresa chamada CLT Participações
para criar uma terceira, a Beta Serviços Financeiros, fechada em março deste
ano. No período em que essa sociedade esteve ativa, a CLT recebeu R$ 1,2 milhão
do Master.
No
período em que Ronaldo Vieira Bento administrava a Mettacard, a empresa recebeu
R$ 2,98 milhões do Banco Master. O ex-ministro foi eleito para o cargo em
agosto de 2024 e renunciou em 10 de dezembro do ano passado, menos de um mês
depois da deflagração da primeira fase da operação, quando Vorcaro foi preso no
Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, na região metropolitana de
São Paulo.
A
Mettacard anunciava em seu site oficial possuir convênios com prefeituras de
sete municípios brasileiros, além do Instituto de Previdência do Município de
São Gonçalo, da Macapá Previdência, do Tribunal de Contas do Estado do Paraná e
do governo do estado do Paraná.
Em 24
de novembro do ano passado, o governo do Paraná bloqueou o lançamento de novos
descontos em folha de pagamento dos cartões da Mettacard e da Credcesta, outra
empresa licenciada pelo Banco Master, com o objetivo de proteger servidores
contra suspeitas de fraude e descontos indevidos, no rastro das investigações
da Polícia Federal. Segundo o comunicado emitido na época, as duas empresas
aguardavam um posicionamento do Banco Central e haviam suspendido as
atividades.
O
Sindicato Estadual dos Servidores Públicos da Agricultura, Meio Ambiente,
Fundepar e Afins, o Sindiseab, denunciou, por exemplo, o caso de um servidor
que fez um empréstimo de R$ 1,2 mil e ficou devendo cerca de R$ 8 mil. “Os
cartões de benefícios foram oferecidos aos servidores, há um tempo atrás, e
muitos aderiram, principalmente, os servidores que recebem os menores
salários”, escreveu o Sindiseab em nota publicada em dezembro do ano passado.
Um
ex-administrador da Mettacard explicou ao Intercept, na condição de anonimato,
que a empresa teria baixa atividade se comparada à Credcesta, que teria mais
clientes e capilaridade. Essa fonte avalia que o cartão da Mettacard seria uma
espécie de “plano B” do Master, a depender da estratégia de mercado.
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Blindado pelos parlamentares
Ronaldo
Bento chegou a ser mencionado mais de uma vez na Comissão Parlamentar Mista de
Inquérito do Instituto Nacional do Seguro Social, a CPMI do INSS, e na CPI do
Crime Organizado, mas os requerimentos para in econheceo nunca foram para
frente e ele acabou passando ileso pelo escrutínio dos parlamentares.
O
deputado federal Rogério Correia, do Partido dos Trabalhadores, o PT, de Minas
Gerais, chegou a apresentar um requerimento para a convocação de Ronaldo Vieira
Bento para a CPMI do INSS. Embora a comissão fosse voltada inicialmente para
investigar os descontos indevidos em aposentadorias e pensões de milhares de
pessoas, na chamada farra do INSS, o foco da investigação acabou aumentando com
a apuração de empréstimos consignados e fraudes do Banco Master.
O
requerimento do petista foi apresentado em dezembro do ano passado, mas não foi
apreciado. A mesa diretora sequer colocou o pedido na pauta para votação. A
CPMI do INSS acabou em março deste ano sem aprovação do relatório final.
“Ronaldo
Bento foi um ministro tampão. Foi escolhido a dedo para fazer um trabalho sujo
na véspera das eleições, que foi colocar milhões [de reais] à disposição de
quem era beneficiário do Bolsa Família para fazer empréstimo consignado,
endividando essas famílias, e buscando com isso angariar votos para Jair
Bolsonaro”, avaliou Rogério Correia ao Intercept.
Uma
segunda chance de os parlamentares investigarem o ex-ministro de Bolsonaro e
suas conexões com o Master aconteceu na CPI do Crime Organizado, que também
teve seu foco desviado para o caso do banco de Vorcaro.
Um
requerimento para convocação de Bento feito pelo senador Randolfe Rodrigues, do
PT do Amapá, até foi aprovado, mas a comissão acabou em abril deste ano sem
ouvi-lo – e também sem a aprovação do relatório final.
Durante
uma reunião da CPI do Crime Organizado em 18 de março deste ano, o senador
Humberto Costa, do PT de Pernambuco, apresentou um requerimento com pedido de
acesso aos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático do ex-ministro da
Cidadania. No entanto, o parlamentar acabou retirando o requerimento na mesma
reunião.
A
assessoria de imprensa do senador informou, por mensagem enviada pelo WhatsApp,
que a retirada do requerimento foi “fruto de um acordo entre governo e
oposição, com anuência do presidente e do relator”. “Vários requerimentos foram
retirados da pauta nesse dia”, escreveu. Quando questionada sobre o que seria
esse acordo, a assessoria afirmou que foi um “acordo verbal”. “Não tem acordo
em relação a uns, não tem acordo em relação a outros, centra-se numa pauta
comum e retiram-se as divergências para posterior discussão. Rotina nas Casas”,
escreveu.
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Farra dos consignados
A
autorização para empréstimos consignados com desconto direto na folha de
pagamento vinculados ao Auxílio Brasil foi autorizada por meio da medida
provisória, a MP, nº 1.106/22, apresentada por Bolsonaro durante a gestão do
antecessor de Bento, o então ministro da Cidadania João Roma, em março de 2022.
Mas a
regulamentação e operação desse tipo de empréstimo foi realizada já na gestão
de Ronaldo Vieira Bento, depois que a MP foi transformada na lei nº 14.431/22,
sancionada por Bolsonaro em agosto daquele ano. Na época, o ex-ministro
defendia a medida como uma maneira de ajudar os mais pobres a conseguir
empréstimo, sem ficar na mão de agiotas.
“O
empréstimo consignado chega para se somar às demais políticas sociais como
mecanismo de superação da pobreza para população em situação de extrema pobreza
ou de pobreza no nosso país”, defendeu Bento no programa A Voz do Brasil, em
setembro de 2022.
Um
relatório de avaliação da Controladoria-Geral da União, a CGU, de agosto de
2023, no entanto, identificou R$ 8,4 milhões de descontos indevidos do Auxílio
Brasil ao verificar apenas os contratos firmados com a Caixa Econômica Federal
entre novembro de 2022 e março de 2023. Ainda segundo o documento, 93% dos
contratos de empréstimo consignado vinculados ao programa social foram firmados
em outubro de 2022, durante a gestão de Ronaldo Vieira Bento e antes do segundo
turno das eleições.
O então
Ministério da Cidadania era responsável por habilitar os bancos que poderiam
realizar esse tipo de empréstimo vinculado ao Auxílio Brasil. Na época, cerca
de um terço das famílias brasileiras, mais de 21,6 milhões de pessoas, recebia
o benefício que substituiu o Bolsa Família. A justificativa na época era que
famílias já endividadas seriam auxiliadas por esse novo empréstimo com taxa de
juros máxima de 3,5% ao mês. Segundo a CGU, 3,6 milhões de pessoas firmaram
contrato para esse tipo de empréstimo.
Cerca
de dois anos depois de dar a entrevista para A Voz do Brasil como ministro, o
então empresário Ronaldo Vieira Bento foi eleito administrador da Mettacard,
empresa licenciada pelo Master que oferecia cartões com empréstimo consignado
para funcionários públicos.
O
Intercept entrou em contato com Ronaldo Vieira Bento por ligação e mensagens de
texto, mas inicialmente não houve resposta. Nove dias depois, após nova
tentativa por ligação e mensagem, a assessoria de imprensa do ex-ministro
enviou uma nota na qual Bento informa que os pagamentos mencionados pela
reportagem se referem à remuneração do trabalho do ex-ministro na assessoria da
instituição financeira.
“A
remuneração, devidamente declarada ao fisco, é compatível com os valores do
mercado. Não há qualquer irregularidade nas operações citadas”, informou a
assessoria de Bento, na nota.
O
Intercept também entrou em contato com a assessoria do ex-presidente Jair
Bolsonaro, a Mettacard, a CLT Participações e a Meta Consultoria por e-mail e
mensagens, mas não houve retorno até a publicação da reportagem. A assessoria
de imprensa de Daniel Vorcaro informou que ele não irá se manifestar sobre o
tema.
Fonte:
Por Thalys Alcântara e Eduardo Goulart, em The Intercept

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