Catadoras
de materiais recicláveis carregam peso da emergência climática
No
Brasil, cerca de 800 mil pessoas trabalham na coleta de materiais recicláveis,
segundo o Movimento Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis
(MNCR). Desse total, aproximadamente 70% são mulheres. Elas desempenham um
papel fundamental na limpeza das cidades, na redução do volume de resíduos
enviados aos aterros sanitários e na manutenção dos sistemas de reciclagem.
Ainda assim, permanecem entre as populações mais vulneráveis aos impactos
crescentes da crise climática.
Independentemente
dos números, no entanto, os catadores e catadoras – organizados em cooperativas
ou atuando de forma independente – são indispensáveis para o sistema de
reciclagem no Brasil. Sua importância é ainda maior considerando que os
programas municipais de coleta seletiva ainda são limitados em grande parte do
país. Eles desempenham um papel essencial na limpeza das cidades, na redução do
volume de resíduos enviados aos aterros e na sustentação dos sistemas de
reciclagem. Ainda assim, apesar de prestarem esse serviço essencial, permanecem
entre os grupos mais vulneráveis aos impactos crescentes da crise climática.
Dentro
dos galpões de reciclagem, o calor extremo e as chuvas intensas já não são mais
interrupções ocasionais; passaram a fazer parte da rotina. Para as mulheres
catadoras, as mudanças climáticas intensificam as condições de trabalho já
precárias, ameaçando diretamente sua saúde, segurança e meios de subsistência.
A
maioria das cooperativas funciona em estruturas frágeis, muitas vezes cobertas
por telhados de zinco que absorvem e amplificam o calor durante as ondas de
calor cada vez mais frequentes. Segundo o Atlas da Reciclagem 2024, publicado
pela Associação Nacional dos Catadores (Ancat), as mulheres representam 56% da
força de trabalho nas cooperativas de reciclagem em todo o país, contra 44% de
homens.
Com o
aumento das temperaturas, muitos galpões se tornam locais de trabalho
insuportáveis, obrigando a interrupção das atividades por horas. Em períodos de
chuvas intensas, enchentes e goteiras danificam os materiais recicláveis,
interrompem o trabalho e criam condições inseguras para trabalhadores que já
lidam diariamente com resíduos e equipamentos pesados.
As
consequências dos eventos climáticos extremos são particularmente graves para
as mulheres catadoras porque muitas são chefes de família e dependem
exclusivamente da renda diária da reciclagem para sustentar seus lares. Quando
o trabalho é interrompido por calor excessivo ou chuvas fortes, a renda
desaparece imediatamente. Diferentemente de trabalhadores formais, elas não têm
acesso a licença remunerada, benefícios de saúde, seguro-desemprego ou medidas
de adaptação climática que possam ajudá-las a enfrentar essas interrupções.
A crise
climática também aprofunda desigualdades sociais históricas. Além de passarem
longas horas dentro dos galpões de reciclagem, muitas mulheres catadoras
acumulam a maior parte do trabalho doméstico e das responsabilidades de
cuidado. Os eventos climáticos extremos colocam ainda mais pressão sobre
rotinas já física e emocionalmente exigentes.
Apesar
desses desafios, as mulheres catadoras continuam prestando um serviço ambiental
essencial. As cooperativas de reciclagem ajudam a reduzir as emissões de gases
de efeito estufa ao evitar que materiais recicláveis sejam descartados em
aterros e ao reinseri-los na cadeia produtiva da economia.
Dados
da WIEGO e da Aliança Internacional de Catadores mostram que catadores e
catadoras em todo o mundo mitigam, juntos, entre 170 milhões e 390 milhões de
toneladas de emissões de CO₂ equivalente por ano. Em outras palavras, sua
contribuição é comparável à compensação das emissões anuais de um país como a
Espanha.
Na
prática, esses trabalhadores são agentes ambientais na linha de frente da luta
contra as mudanças climáticas. Ainda assim, permanecem amplamente excluídos das
políticas públicas de adaptação e dos investimentos em infraestrutura voltados
para enfrentar seus impactos.
Criar
ambientes de trabalho resilientes ao clima para catadores e catadoras, homens e
mulheres, não é mais opcional; é uma necessidade urgente. O sistema de
Monitoramento em Tempo Real de Eventos Climáticos Extremos (NRTM) da WIEGO no
Brasil tem demonstrado como o agravamento das condições climáticas afeta
diretamente a capacidade de trabalho e renda desses profissionais.
Investimentos em ventilação adequada, telhados térmicos, sistemas de drenagem e
instalações mais seguras são essenciais para proteger esses trabalhadores
diante da intensificação dos impactos climáticos. Essas melhorias físicas devem
ser acompanhadas por proteções sociais, incluindo acesso à saúde, medidas de
segurança e saúde no trabalho e mecanismos de apoio à renda que ajudem a lidar
com os impactos financeiros e sanitários das interrupções climáticas.
A crise
climática não é apenas um desafio ambiental. É também uma questão trabalhista e
de justiça social. Os catadores e catadoras, especialmente as mulheres, estão
na interseção desses três campos. Ignorar suas condições de trabalho é ignorar
as mulheres que carregam, todos os dias, o peso da emergência climática.
Fonte:
Por Sonia Dias, no Le Monde

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