quarta-feira, 17 de junho de 2026

Caso Master: irmã de 'Sicário' ameaçou revelar arquivos capazes de 'acabar com a família' de Vorcaro, mostra PF

Joana Mourão, irmã de Luiz Phillipi Mourão, conhecido como 'Sicário', ameaçou revelar arquivos capazes de "acabar com a família" de Daniel Vorcaro, e aliados do banqueiro dono do Master atuaram ativamente para tentar comprar seu silêncio, segundo documentos de uma investigação preliminar da Polícia Federal (PF) obtidos pelo g1.

O documento foi produzido pelos investigadores e enviado ao ministro relator do Caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça. Nesta terça-feira (16), o ministro retirou o sigilo do documento.

Segundo a PF, após a prisão e morte de Luiz Phillipi 'Sicário' Mourão, Manoel Mendes Rodrigues, conhecido como "Manolo", braço direito do pai de Daniel, Henrique Vorcaro, no RJ, atuou de maneira ativa para viabilizar recursos financeiros para a família Mourão, que estava com dificuldades financeiras desde a prisão de Luiz Phillipi.

'Sicário' foi preso em março deste ano, durante a 3ª fase da Compliance Zero. Ele foi apontado nas investigações como braço direito de Daniel Vorcaro. Segundo a PF, ele tinha papel central na organização criminosa, atuando em monitoramento de alvos, extração ilegal de dados e ações de intimidação. Ele morreu dentro da prisão e os laudos da perícia apontaram suicídio.

Nas mensagens interceptadas pela PF, Joana cobra interlocutores de Vorcaro por suas dificuldades financeiras. Em uma delas, relata que, nos dias seguintes, teria de arcar com uma parcela de R$ 40 mil de um financiamento, além da prestação da casa onde mora. "Estou desesperada já", afirmou.

Após esse contato, Manoel Mendes Rodrigues, conhecido como "Manolo", passa a tratar do assunto com Keysom Moreira, primo de Joana. Em uma das conversas, Keysom diz: "Vou na mãe dela, que esta menina é descontrolada".

A PF destaca a relação entre Vorcaro e Manolo, apontado como integrante da chamada "Turma" — grupo responsável por ameaças, coerções e levantamentos clandestinos, com participação de operadores ligados ao jogo do bicho. Segundo os investigadores, Manolo liderava esse braço da organização e atuava como aliado próximo do banqueiro.

A investigação afirma que "Manolo" era usado como "instrumento de pressão física e moral" a favor dos interesses da família Vorcaro. Segundo a Polícia Federal, sua reputação no meio da contravenção era explorada para conferir credibilidade às ameaças e intimidar as vítimas.

Diante das ameaças feitas por Joana, "Manolo" sugeriu um encontro presencial, marcado para 28 de abril de 2026. De acordo com os investigadores, Joana estava acompanhada da mãe, Denise. A conclusão se baseia em mensagens enviadas por "Manolo" a Henrique Vorcaro, nas quais ele relata estar reunido com a "mãe" e informa quando deixa o local.

Em uma das mensagens, "Manolo" escreveu ao pai de Vorcaro: "Henrique, boa noite. Estamos conversando com a mãe aqui. Vamos passar os contratos dos ativos pertinentes ao nosso amigo para o nome dela, mãe, para resolver a questão".

A PF destaca ainda que a reunião terminou por volta de 0h38. Nesse horário, "Manolo" enviou nova mensagem a Henrique Vorcaro: "Saí agora, amanhã conversamos".

Mesmo após o encontro com "Manolo", Joana continuou, segundo a PF, ameaçando divulgar documentos que comprometeriam a família Vorcaro.

De acordo com a investigação, em 7 de maio de 2026, Joana enviou a "Manolo" uma mensagem com um link de uma publicação no Instagram sobre a prisão de Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro. Na sequência, ela afirmou que pretendia expor Henrique Vorcaro.

"Já foi o filho, o genro, hoje o sobrinho. No que depender de mim, HV será o próximo. Domingo já coloco tudo no Fantástico e no Cabrini dessa família maldita!!!", escreveu Joana, em mensagem interceptada pela Polícia Federal.

Segundo os investigadores, a sigla "HV" é uma referência a Henrique Vorcaro.

Em 12 de maio de 2026, Joana enviou mais uma mensagem a "Manolo". Nela, perguntou sobre a formalização de um contrato: "Bom dia! Como vc está?! Tudo certo?! Que dia posso assinar o contrato, sabe se já está pronto?! Me liga qdo puder por favor?"

Segundo a Polícia Federal, a mensagem faz referência à participação de Joana no quadro societário da JM Consultoria e Participações Imobiliária Ltda. Ao consultar os registros da Receita Federal, os investigadores verificaram que Joana Machado de Moraes Mourão figura como sócia-administradora da empresa, cujo capital social é de R$ 1 milhão.

Até o momento, a PF não confirmou se o contrato mencionado na conversa chegou a ser assinado. Para os investigadores, porém, as movimentações podem indicar uma possível prática de lavagem de dinheiro. A suspeita é que recursos obtidos por "Sicário" como contrapartida por crimes que teria cometido a mando de Daniel Vorcaro estivessem sendo repassados à mãe e à irmã dele.

<><> 'Sicário' morreu após prisão

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como "Sicário", é apontado pela Polícia Federal como braço direito de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Ele foi preso em março de 2026 durante a Operação Compliance Zero.

Segundo os investigadores, desempenhava papel central na organização criminosa, atuando no monitoramento de alvos, na obtenção ilegal de dados e em ações de intimidação. Também acumulava antecedentes por crimes como estelionato, receptação, uso de documento falso e ameaça.

Horas após a prisão, enquanto aguardava audiência de custódia na Superintendência da Polícia Federal em Belo Horizonte, Mourão tentou tirar a própria vida dentro da cela.

Ele foi socorrido e levado a um hospital, mas teve a morte cerebral confirmada dias depois.

•        Investigadores encontram prova de acesso ilegal a sistema da PF na casa de Henrique Vorcaro

As investigações da Operação Compliance Zero revelaram a existência de pessoas que atuavam em favor de Henrique Vorcaro dentro da Polícia Federal, segundo documentos de uma investigação preliminar da Polícia Federal (PF) obtidos pelo blog.

Durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão na residência de Henrique Moura Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro, os policiais federais localizaram a impressão de uma captura de tela do sistema SINAPSE, uma ferramenta de inteligência de acesso restrito e exclusivo da Polícia Federal.

O documento apreendido registrava uma consulta detalhada aos dados pessoais de Augusto Conte. Augusto Conte é ex-sócio de Daniel Vorcaro .

Para as autoridades, o fato de um civil possuir fisicamente um registro de um sistema interno de segurança confirma a hipótese criminal de que Henrique Vorcaro mantinha colaboradores infiltrados dentro da corporação.

Esses "braços" atuavam ilicitamente em favor dos interesses do grupo, realizando pesquisas sobre pessoas de interesse estratégico para os investigados.

A descoberta consta em ofício enviado ao Ministro André Mendonça, do STF. O relatório apresenta uma análise preliminar dos materiais da sexta fase da operação.

De acordo com o documento, a apreensão “corrobora a hipótese(...) de que HENRIQUE VORCARO dispunha a seu favor, no âmbito da Polícia Federal, de servidor(es) que se encontrava(m) disposto(s) a acessar, de maneira ilícita, os sistemas internos da corporação, a fim de atender seus interesses pessoais”.

A investigação relaciona o acesso clandestino a dados sigilosos para sustentar as atividades da estrutura liderada pela família Vorcaro e pelo operador Manoel Mendes Rodrigues.

<><> Henrique Vorcaro foi preso na 6ª fase da Compliance Zero

Deflagrada em 14 de maio de 2026, a sexta fase teve como foco o suposto uso da máquina pública para obtenção ilegal de informações, e um dos presos foi Henrique Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro, preso sob suspeita de coordenar ações de intimidação realizadas pelos grupos “A Turma” e “Os Meninos”.

A operação também prendeu o policial federal Anderson Wander da Silva Lima.

Segundo os investigadores, o agente acessava bancos de dados sigilosos e repassava informações sobre passaportes, viagens internacionais e movimentações migratórias de pessoas monitoradas pela organização criminosa.

A PF afirma que os dados eram usados para perseguir adversários e proteger interesses financeiros do grupo.

As apurações também revelaram tentativas de destruição de provas após fases anteriores da operação.

•        Daniel Vorcaro dava 'tratamento privilegiado' a Ciro Nogueira, aponta PF

A Polícia Federal afirmou, em representação enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, dava um "tratamento privilegiado" e "diferenciado" ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), inclusive com o custeio de viagens internacionais de luxo.

A relação de Vorcaro com o parlamentar do Piauí chamou a atenção dos investigadores, pelo pagamento de acomodações de "elevado padrão", inclusive em hotéis de luxo no exterior.

As conclusões constam de um documento da PF enviado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), cujo sigilo foi retirado nesta terça-feira (16). Esse relatório embasou decisões tomadas pelo magistrado no inquérito do caso Master.

Conforme a representação da PF, o relacionamento entre os dois ia além da proximidade pessoal, sendo descrito pelos investigadores como uma "relação funcional e instrumental" voltada ao benefício mútuo.

A representação destaca que, enquanto o parlamentar do PP atuava no Senado para defender interesses do banqueiro, Vorcaro retribuía com vantagens financeiras.

Segundo os investigadores, essas vantagens incluíam:

•        pagamento de valores mensais, classificados pela PF como uma espécie de "mesada" que, em alguns casos, atingia R$ 300 mil, chegando até a R$ 500 mil;

•        aquisição de participação societária com expressivo deságio;

•        custeio de viagens internacionais, incluindo passagens em jatos particulares, hospedagens em hotéis de luxo e despesas com eventos e restaurantes sofisticados.

Além disso, a Polícia Federal aponta que o senador Ciro Nogueira teria utilizado o seu poder parlamentar para beneficiar os interesses do Banco Master, destacando a apresentação da "Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023", apelidada no mercado como "emenda Master".

O texto da proposta teria sido elaborado pela própria assessoria do banco e entregue diretamente a Ciro Nogueira, inclusive com orientações de entrega do envelope no endereço residencial do senador.

"O parlamentar apresentou a Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, cujo conteúdo foi integralmente concebido por assessoria vinculada ao Banco Master, conforme evidenciado por comunicações obtidas no aparelho celular apreendido, metadados de arquivos e cotejo literal entre minutas privadas e o texto efetivamente protocolizado no Senado Federal", afirmam os investigadores.

"A proposição legislativa detinha aptidão concreta para ampliar significativamente os negócios da instituição financeira vinculada ao grupo investigado, ao passo que transferia risco relevante ao Fundo Garantidor de Créditos, evidenciando potencial externalização de prejuízos ao sistema", completa a PF.

O inquérito, que tramita no STF, aponta que o esquema contava com a atuação de terceiros e empresas interpostas para tentar mascarar a origem e a destinação dos recursos, dificultando a rastreabilidade financeira.

Dono do Master, banco que foi liquidado pelo Banco Central, Daniel Vorcaro está preso em Brasília, onde tenta um acordo de delação premiada com as autoridades. No entanto, propostas de colaboração apresentadas pelo empresário já foram rejeitadas pela PF e pelo Ministério Público.

Daniel Vorcaro está preso na Superintendência da Polícia Federal, acusado de irregularidades e fraudes financeiras.

<><> Ciro Nogueira nega irregularidades

Em maio, quando Ciro Nogueira foi alvo de uma operação da PF relacionada às apurações sobre o caso Master, a defesa do senador afirmou que ele está comprometido "em contribuir com a Justiça, a fim de esclarecer que não teve qualquer participação em atividades ilícitas e nos fatos investigados", e está "à disposição para esclarecimentos".

Os advogados acrescentaram que Ciro Nogueira repudia "qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar".

"Medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade, tema que deverá ser enfrentado tecnicamente pelas Cortes Superiores muito em breve, assim como ocorreu com o uso indiscriminado de delações premiadas", diz um trecho da nota.

 

Fonte: g1

 

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