quinta-feira, 18 de junho de 2026

‘Brasil consome muito futebol da Europa e EUA’: jornalista explica como aproveitar a Copa para olhar a África

Pela primeira vez, o continente africano está representado com 10 seleções na Copa do Mundo. Apesar de pouco conhecido e divulgado, o futebol é forte na África. A partida entre Brasil e Marrocos deu o tom desse cenário, já que a seleção brasileira encontrou dificuldades e conseguiu apenas o empate por 1 x 1. Nesta segunda-feira (15), foi a vez de Cabo Verde dar muito trabalho a uma das seleções favoritas do mundo, a Espanha, em jogo que ficou no 0 x 0, com atuação histórica do goleiro Vozinha.

Mesmo antes de chegar dentro das quatro linhas, o continente africano também tem ocupado o noticiário, já que houve casos de racismo na chegada de algumas delegações aos Estados Unidos e um episódio emblemático da deportação do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, por autoridades da imigração do governo de Donald Trump.

Ao BdF Entrevista, o jornalista Luis Fernando Filho, criador do Ponta de Lança, classifica o caso como racismo evidente. Ele defende que política e futebol são indissociáveis em algumas questões, e essa é uma delas.

“A gente está falando de um cara que ficou de 11 a 15 horas sendo interrogado pelo governo dos Estados Unidos simplesmente porque ele é da Somália, um país que tem tensões com os Estados Unidos por causa do grupo terrorista Al-Shabaab, que domina o país, e, infelizmente, dá muita dor de cabeça para o governo somali. Omar foi interrogado com uma incriminação dos órgãos interrogatórios, dizendo que ele tinha ligação com membros terroristas do grupo Al-Shabaab, o que não foi comprovado em nenhum momento. Então, a gente está falando de uma acusação muito grave contra um árbitro do futebol, que basicamente está dentro daquele estereótipo que países do Ocidente colocam sobre vários países africanos, especialmente que eles detectam como inimigo”, pondera.

“O próprio Donald Trump falou, há um tempo atrás, que a Somália é um país de quarto mundo”, lembra. “O caso do Omar é bem sintomático dessa relação e desse estereótipo de algumas regiões do continente africano, do continente asiático, do Oriente Médio, que são ditos inimigos diplomáticos dos Estados Unidos, e, de uma forma ou outra, pessoas que não têm nada a ver com nada disso estão sofrendo.”

Filho destaca que alguns países africanos vivem, neste momento, cenários de guerra civil e conflitos internos bastante perturbadores e que é possível que isso apareça de alguma forma em manifestações durante os jogos. Um dos exemplos é o Congo. “A gente está falando da República Democrática do Congo tendo um dos solos mais ricos do mundo e historicamente sendo explorado pelo Ocidente. E quando eu falo Ocidente, é muito interessante, porque a gente está falando de muitas guerras e conflitos civis que acontecem no continente africano, mas que têm o apoio do Ocidente. A gente está vendo um conflito no Sudão, que até agora está acontecendo, e com um apoio maciço de países fora da África, apoiando ou o grupo paramilitar ou o Exército militar do Sudão. E no Congo não é diferente; lá tem muito recurso mineral, o mundo está olhando para aquilo. A mão invisível do Ocidente está sempre presente no continente africano”, relata.

Luis Fernando Filho defende que a Copa é uma ótima oportunidade para que os brasileiros passem a descolonizar um pouco o imaginário futebolístico, hiperfocado nos campeonatos europeus. “No Brasil, a gente consome muito essa cultura, ou estadunidense ou europeia”, diz. “A África do Sul, que já estreou contra o México, tem quase 100% do elenco feito na África do Sul. A maioria dos jogadores ou é do Mamelodi Sundowns — que é o atual campeão africano, que jogou contra o Fluminense no Super Mundial de Clubes e está confirmado no Mundial de Clubes no final do ano já — e do Orlando Pirates, que acabou de ser campeão sul-africano também. É basicamente a base da África do Sul que está na Copa do Mundo em 2026. Ao contrário de outras seleções, em que grande parte está jogando já na Europa, a África do Sul é uma seleção extremamente doméstica. E se você acompanha pelo menos um jogo, você percebe que tem muito talento”, destaca.

•        Copa do Mundo: como histórias de colonização e tortura unem França, Senegal, Argentina e Argélia

Os jogos da Copa do Mundo na terça-feira (16) reuniram países com disputas que vão muito além das quatro linhas.

Coordenador de jornalismo do Brasil de Fato, Lucas Estanislau lembra que o embate entre Argentina e Argélia marcará a estreia de Lionel Messi no mundial. Mas as conexões históricas entre os países remontam aos anos 1950 e envolvem a violência colonial.

“Em 1954, quando a Argélia ainda não era um país independente, o povo argelino lutava contra a dominação francesa”, recorda. “Naquele ano, vários movimentos independentistas se unificaram na chamada FLN, a Frente de Libertação Nacional, para empreender uma luta armada de todo um povo. Isso implicava em táticas insurgentes de guerra revolucionária e contava com a atuação do Kasbah de Argel, um grande bairro popular, que derrubou a dominação francesa. Como funcionava isso? Não apenas os guerrilheiros iam para a luta armada contra o Exército francês, mas também a população local, que acobertava os guerrilheiros. O Exército da FLN foi muito vitorioso durante anos”, conta.

Após essa disputa, os franceses criaram técnicas para conter movimentos rebeldes, que incluíam perseguição, invasão de domicílios e tortura, e exportaram esse modelo de repressão para diversos países, inclusive a Argentina. “Quando o peronismo ficou proibido na Argentina, após o golpe, militantes peronistas foram perseguidos e ali, naquele momento, a presença de militares franceses se deu de forma muito intensa para ensinarem os argentinos essas táticas”, relembra.

“Os povos argelino e argentino guardam, de certa forma, um passado de luta contra a repressão francesa e a repressão argentina e toda uma luta pelos direitos humanos e pela memória e justiça. Inclusive, há documentos que provam que o Exército dos EUA ficava até com inveja das táticas militares de perseguição e tortura contra movimentos insurgentes”, destaca. “A França fez escola e exportou modelo de perseguição a militantes, processos de tortura e desaparecimentos forçados.”

Assim como a Argélia, o Senegal foi colônia francesa. Lucas conta que a independência dos dois países está conectada. “Mesmo com todo o aparato de repressão, a França não estava conseguindo derrotar a FLN, porque era a luta de todo um povo contra a dominação”, conta. Senegal acabou então sendo inspirado pela luta argelina e, em 1960, consegue iniciar seu processo de libertação.

“Acho que não tem como [essas questões políticas] não entrarem em campo. O sentimento de pátria, nacionalidade está muito arraigado em cada um de nós. Tanto nesse passado africano, como no nosso latino-americano, tem a história de ter sido colônia europeia; esse sentimento de identidade fica arraigado e acho que entra em campo, sim”, avalia Lucas Estanislau.

•        Brasil "busca o antigo encanto" na Copa, diz mídia alemã

A imprensa alemã não poupou críticas à estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026, no empate em 1 a 1 com o Marrocos neste sábado. Publicações afirmaram neste domingo (14/06) que a equipe se apresentou em um "duelo intenso", exibiu "duas caras", jogando sem forma de campeão, com um desempenho que ficou muito aquém do brilho do passado de uma seleção pentacampeã.

Para as publicações, o Brasil mostrou talento, mas também exibiu fragilidades que colocam em dúvida seu status de favorito logo na largada.

<><> "Duas caras"

O site esportivo Kicker foi direto ao caracterizar o jogo como um "duelo intenso" e apontar que o Brasil demorou a entrar na partida. Segundo o veículo, a seleção não conseguiu controlar o jogo e precisou recorrer à qualidade individual de Vinícius Júnior para evitar um resultado pior.

Na avaliação do portal, o Brasil apresentou "duas caras": uma equipe apática e desorganizada no primeiro tempo e outra mais competitiva depois do empate, mas ainda sem domínio real do adversário.

<><> Em busca do velho encanto

Já o renomado diário Süddeutsche Zeitung veículo destacou que o Brasil segue em busca do "antigo encanto" (ou seja, do futebol brilhante que consagrou a seleção historicamente) e indicou que o empate só foi possível graças a um momento de genialidade individual. Ao mesmo tempo, ressaltou que o Marrocos já se consolidou como adversário de alto nível, capaz de enfrentar as potências de igual para igual.

<><> Adversários "exigiram tudo um do outro"

O site Tagesschau, da emissora pública ARD, uma das principais referências jornalísticas da Alemanha, destacou o caráter equilibrado do confronto, afirmando que Brasil e Marrocos "exigiram tudo um do outro".

A análise ressaltou a intensidade do duelo e o fato de que, embora o Brasil tenha melhorado ao longo do jogo, não conseguiu transformar esse crescimento em domínio claro. A leitura reforça a ideia de uma partida parelha, na qual a seleção teve dificuldades para impor seu ritmo diante de um adversário bem estruturado.

<><> Lembranças do 7 a 1

A agência de notícias alemã SID, especializada em informações esportivas, classificou a estreia brasileira no Mundial como uma exibição de "pouco brilho" e destacou que, apesar de Vinícius Júnior ter evitado um "início desastroso", o empate gerou forte inquietação no Brasil, com direito a comparações com o traumático 7 a 1 de 2014.

Segundo o veículo, o desempenho brasileiro no primeiro tempo foi marcado por nervosismo, falta de ideias e baixa qualidade técnica. Esse cenário, na avaliação da agência, fez crescer a pressão sobre Carlo Ancelotti, embora o treinador tenha reagido com calma, afirmando que "uma Copa não se ganha no primeiro jogo" e garantindo que a equipe tende a evoluir.

A SID também enfatizou a dependência da seleção em relação a Vinícius Júnior, ao mesmo tempo em que apontou a ausência de Neymar como um fator que amplia as incertezas. O recado implícito é claro: o Brasil evitou a derrota, mas não convenceu.

<><> Fora dos favoritos

A agência alemã DPA afirmou que os brasileiros não mostraram forma de favoritos – "mesmo que isso não se encaixe na autoimagem deles".

Para o veículo, o empate não chega a ser um desastre, mas funciona como um forte sinal de alerta e um freio nas expectativas em torno da equipe.

Segundo a DPA, a equipe brasileira, neste momento, não pode ser considerada entre as principais favoritas ao título, algo incomum para um país pentacampeão. O desempenho foi descrito como pesado e pouco criativo, especialmente no primeiro tempo, quando a equipe acumulou erros de passe e demonstrou falta de equilíbrio.

A agência também destacou que Vinícius Júnior foi o grande destaque – autor do gol de empate e melhor jogador da partida –, mas ressaltou que "precisa vir mais do resto do time". A avaliação reforça a ideia de que o Brasil depende excessivamente de sua principal estrela, algo visto como perigoso em um torneio longo.

Além disso, a DPA mencionou as críticas vindas do próprio Brasil e até provocações da imprensa argentina (citando a alfinetada do jornal portenho Página/12, alegando que o Brasil "esqueceu o samba no hotel"), reforçando que o empate não passou despercebido no cenário internacional.

 

Fonte: Brasil de Fato/DW Brasil

 

 

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