segunda-feira, 15 de junho de 2026

Aquiles Lins: Escândalo do BolsoMaster avança sobre Brasília enquanto Campos Neto segue intocado

A cada semana surge um novo capítulo no escândalo do BolsoMaster. Novas denúncias aparecem, novas suspeitas são levantadas. O nome de Daniel Vorcaro continua produzindo ondas de choque em Brasília. Mas um personagem central da história parece permanecer protegido por uma espécie de zona de silêncio: o ex-presidente do Banco Central de Jair Bolsonaro, Roberto Campos Neto.

A mais recente revelação, publicada pela revista Veja, aponta que uma nova proposta de delação de Vorcaro menciona o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Segundo o relato atribuído ao ex-banqueiro, Alcolumbre teria recebido US$ 30 milhões em conta no exterior, supostamente em troca de apoio a interesses do banco. O senador nega as acusações. A delação também cita a relação do grupo com o programa CredCesta, que prosperou na Bahia durante governos petistas e teria sido decisiva para a expansão da instituição financeira.

Antes de Alcolumbre, outros nomes da extrema direita e do Centrão já haviam sido arrastados para o escândalo. Entre eles está o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato presidencial do PL. Segundo documentos, áudios e mensagens divulgados pela imprensa, Vorcaro negociou um aporte de até US$ 24 milhões para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Desse total, pelo menos US$ 10,6 milhões teriam sido efetivamente transferidos entre fevereiro e maio de 2025.

No caso de Ciro Nogueira, as investigações apontam suspeitas de pagamentos periódicos a pessoas ligadas ao senador e a chamada "Emenda Master", proposta que, segundo investigadores, beneficiaria diretamente o modelo de negócios do banco ao ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Ciro nega qualquer irregularidade. Antônio Rueda apareceu em contatos revelados pela quebra de sigilo, enquanto o governador Ibaneis Rocha surgiu em agendas e relações mantidas por Vorcaro no entorno político de Brasília.

O escândalo do Master virou um retrato das conexões entre poder financeiro e poder político. Mas justamente por isso chama atenção a ausência de Roberto Campos Neto do centro do debate. O ex-presidente do Banco Central comandava a autoridade monetária durante os anos em que o Master viveu sua expansão mais acelerada, acumulando operações de alto risco e despertando alertas de agentes do mercado.

As investigações da Operação Compliance Zero lançaram novas dúvidas sobre esse período. Relatórios que ajudaram a afastar a possibilidade de intervenção no banco foram produzidos por servidores do Banco Central que hoje são investigados pela Polícia Federal por suspeita de favorecer Daniel Vorcaro. Entre eles estão Paulo Souza, responsável pelo acompanhamento do Master, e Belline Santana, então chefe da área de supervisão. Ambos sustentaram avaliações segundo as quais não haveria irregularidades relevantes na instituição.

Campos Neto também recebeu alertas sobre possíveis distorções nas operações do banco e determinou análises internas que concluíram pela normalidade da instituição. Agora, com a PF investigando suspeitas de corrupção, favorecimento e captura regulatória dentro do próprio Banco Central, cresce a pressão para esclarecer se a direção da autarquia foi apenas induzida ao erro ou falhou em exercer a supervisão que lhe cabia. Se o escândalo já alcançou políticos de diferentes correntes e até servidores do regulador, torna-se cada vez mais difícil justificar a ausência de Roberto Campos Neto do centro dessa história.

•        Filipe Barros, “reserva” de Eduardo Bolsonaro em comissão, copiou “emenda Master” para beneficiar Vorcaro

escândalo do Banco Master chegou à comissão da Câmara que Eduardo Bolsonaro dizia continuar controlando mesmo fora do Brasil. Filipe Barros (PL-PR), aliado do clã Bolsonaro e “reserva” político do filho de Jair Bolsonaro na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, copiou a chamada “emenda Master” em um projeto para multiplicar por quatro a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, medida que beneficiaria o banco de Daniel Vorcaro.

A nova frente foi revelada pela coluna de Malu Gaspar, no O Globo. Segundo a reportagem, Barros apresentou sete requerimentos, um projeto de lei e promoveu uma audiência pública entre novembro de 2024 e setembro de 2025. O conjunto de ações mirava temas sensíveis ao Banco Master, ao Banco Central, à CVM e a adversários de Vorcaro no mercado financeiro.

O caso amplia a conexão política entre o entorno de Jair Bolsonaro e o banqueiro. A Fórum vem mostrando que o escândalo Master já envolve Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira, Mário Frias, o filme “Dark Horse” e a tentativa de blindar Vorcaro no Congresso. Agora, a linha chega à CREDN, comissão oficialmente voltada a relações exteriores e defesa nacional.

<><> Filipe Barros ocupou espaço deixado por Eduardo Bolsonaro

Filipe Barros assumiu a presidência da CREDN em 19 de março de 2025.  Na posse, Barros citou Eduardo Bolsonaro, que havia se licenciado da Câmara no dia anterior. Disse que o filho de Jair Bolsonaro se exilava para fugir de uma “iminente perseguição” e apresentou a comissão como uma “trincheira” em defesa da soberania.

A coluna resgatou uma fala de Eduardo nas redes sociais. Nela, o deputado licenciado dizia que não havia perdido poder sobre a CREDN porque tinha Filipe Barros como aliado no comando do colegiado.

“Para quem acha que eu não estar sentado naquela cadeira, eu perdi o poder da CREDN, negativo, tá?”, disse Eduardo Bolsonaro.

Foi justamente nessa comissão que Barros passou a tratar de assuntos que não pertencem ao núcleo tradicional de relações exteriores, mas interessavam ao embate em torno do Banco Master: regulação bancária, mercado de capitais, FGC, Banco Central, CVM e BTG Pactual.

<><> Filipe Barros copiou o caminho da “emenda Master”

A primeira peça concreta foi o PL 4395/2024, apresentado por Filipe Barros em 14 de novembro de 2024. O projeto elevava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos por CPF ou CNPJ.

Na prática, a proposta ampliaria a rede de proteção para investidores de bancos médios e instituições com maior apetite por captação. Esse era um ponto central para o Banco Master, que cresceu oferecendo retornos acima dos grandes bancos e dependia da confiança dos clientes na garantia do FGC.

O texto de Barros tinha o mesmo teor da chamada “emenda Master”, apresentada no Senado por Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro. A Fórum mostrou que, segundo a investigação, a proposta de Ciro foi redigida por funcionários do banco e entregue ao senador a mando de Daniel Vorcaro.

A Fórum também mostrou que Ciro reapresentou a emenda mesmo depois de virar alvo da Polícia Federal na Operação Compliance Zero.

O projeto de Filipe Barros não foi votado. Ele foi retirado pelo próprio autor em fevereiro de 2026, conforme a ficha de tramitação da Câmara.

<><> Banco Central e CVM entraram na comissão de Filipe Barros

Depois do projeto do FGC, Barros levou a agenda financeira para a CREDN. Em julho de 2025, apresentou requerimento para convidar Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, a falar sobre ataque hacker contra a empresa C&M Software, o Sistema de Pagamentos Brasileiro e o Pix.

O REQ 113/2025 foi apresentado por Barros em 3 de julho de 2025 e aprovado seis dias depois. Galípolo foi convidado, mas não compareceu.

No mesmo período, a comissão recebeu João Pedro Nascimento, então presidente da CVM. A própria CREDN informou que Nascimento compareceu após três requerimentos de Filipe Barros sobre temas tratados pela autarquia, incluindo suposto conflito de interesses e impactos geoeconômicos da aquisição de ativos estratégicos por fundos soberanos. A audiência com o presidente da CVM foi tensa. Nascimento renunciou ao comando da autarquia dez dias depois, um ano antes do fim de seu mandato.

<><> Requerimentos miraram rivais de Vorcaro

A ofensiva de Barros também alcançou temas ligados ao BTG Pactual, visto no mercado como rival de Daniel Vorcaro antes da queda do Master. A CREDN questionou a Previc sobre eventual conflito envolvendo João Pedro Nascimento e o BTG, banco em que o irmão do então presidente da CVM trabalhava.

Em setembro de 2025, no mesmo dia em que o Banco Central rejeitou a compra do Banco Master pelo BRB, Barros apresentou novo requerimento ao regulador. O alvo eram liquidações extrajudiciais de instituições financeiras compradas pelo BTG, segundo O Globo.

A coluna afirma que os questionamentos miravam a diretoria do Banco Central que resistia à venda do Master ao BRB e defendia uma medida mais dura contra a instituição de Vorcaro.

<><> Banco Master empurrou crise para dentro do bolsonarismo

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., do Banco Master de Investimento S.A., do Banco Letsbank S.A. e da Master Corretora em 18 de novembro de 2025, conforme comunicado oficial.

Desde então, o caso deixou de ser apenas uma crise bancária. Virou uma crise política para o bolsonarismo.

A Fórum mostrou que Flávio Bolsonaro confirmou ter visitado Daniel Vorcaro. Também revelou que Mário Frias agradeceu Vorcaro em áudio pelo apoio ao filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro.

A Fórum ainda mostrou que Vorcaro teria bancado praticamente todo o filme sobre Bolsonaro. O avanço sobre Filipe Barros adiciona uma nova peça ao tabuleiro: a atuação parlamentar, dentro de uma comissão comandada por um aliado que Eduardo Bolsonaro dizia manter sob influência.

<><> O que diz Filipe Barros

Filipe Barros nega irregularidades. Ao O Globo, o deputado afirmou que nunca recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro, disse que não discutiu as iniciativas com Flávio ou Eduardo Bolsonaro e alegou ter interesse em regulação do mercado financeiro e de capitais.

Barros também defendeu que a CREDN trate de temas econômicos. Segundo o deputado, soberania nacional e soberania econômica não podem ser dissociadas.

•        Girão ironiza visita de Flávio Bolsonaro a Vorcaro: “marido infiel que vai a prostíbulo para avisar que não volta mais”

O senador Eduardo Girão (Novo-CE) defendeu que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresente explicações rápidas à sociedade e ao Congresso Nacional. O senador se referia, sobretudo, à divulgação de áudios e da informação de que se reuniu presencialmente com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, investigado por supostas fraudes financeiras.

Girão chegou a fazer ironias com o fato:

“O que para mim não está explicado, e isso dói, é aquela visita no dia depois da prisão. Tem uma analogia que o pessoal faz, inclusive lá no plenário, pessoas inclusive que a gente tem boa convivência, que diz: ‘Poxa, com todo respeito, é como se você fosse um marido infiel, fosse num prostíbulo e dissesse: Eu vim aqui hoje para dizer que eu não vou mais voltar aqui, estou arrependido, fiz as pazes com a minha mulher e não volto mais.’ E o próprio presidente do PL depois disse outra coisa, que foi cobrar o dinheiro”, ironizou o senador.

Apesar da ironia, o parlamentar afirmou em entrevista a um podcast acreditar que Flávio Bolsonaro tem interesse na completa apuração dos fatos.

“Quem for podre que se quebre”, declarou Girão ao defender que as investigações avancem de forma técnica e sem distinção política entre os envolvidos no caso.

<><> Desconforto no PL

A manifestação de Girão ocorreu após vir a público que Flávio Bolsonaro viajou a São Paulo para um encontro presencial com Daniel Vorcaro. A reunião aconteceu quando o banqueiro já era alvo de medidas cautelares e utilizava tornozeleira eletrônica.

Flávio Bolsonaro afirmou que a agenda teve caráter exclusivamente comercial e serviu para encerrar definitivamente a relação envolvendo investimentos de Vorcaro no filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. O senador alegou ainda que não tinha conhecimento da extensão dos problemas judiciais enfrentados pelo banqueiro no momento do encontro.

A revelação da reunião provocou desconforto entre integrantes do próprio Partido Liberal, ampliando questionamentos internos sobre a proximidade entre o parlamentar e o empresário investigado. Enquanto aliados defendem que os esclarecimentos sejam apresentados rapidamente, setores da oposição cobram o aprofundamento das investigações sobre as relações entre agentes políticos e o ex-controlador do Banco Master.

<><> Defendeu CPI

O senador também reforçou sua defesa pela instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as operações relacionadas ao Banco Master. Segundo ele, a apuração deve alcançar todos os envolvidos e rastrear o destino dos recursos movimentados no suposto esquema sob investigação.

Ao comentar a repercussão do caso entre integrantes da oposição, Girão sinalizou que o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema, também filiado ao Novo, reagiu de forma precipitada ao elevar o tom das críticas contra Flávio Bolsonaro em meio à crise envolvendo o financiamento do filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, intitulado Dark Horse.

Paralelamente, Girão utilizou a tribuna do Senado para elogiar a atuação da Polícia Federal e do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, por adotarem medidas mais rígidas contra Vorcaro. O parlamentar, contudo, fez críticas à atuação da Procuradoria-Geral da República, questionando a insistência do órgão em uma proposta de delação premiada que teria sido considerada inconsistente pela Polícia Federal.

Segundo Girão, é necessário esclarecer se a condução do caso poderia estar beneficiando figuras influentes dos Três Poderes, hipótese que, segundo ele, precisa ser investigada.

•        Após PF recusar delação, investigadores avaliam que Vorcaro não deve escapar de condenação

A rejeição da segunda proposta de delação premiada apresentada pelo banqueiro Daniel Vorcaro reforçou, nos bastidores da investigação sobre o Banco Master, a avaliação de que o ex-banqueiro enfrenta um cenário cada vez mais delicado na Justiça. A informação foi divulgada nesta sexta-feira (12) pelo jornalista Valdo Cruz, do G1.

Segundo fontes ligadas às apurações ouvidas pela coluna do jornalista Valdo Cruz, do G1, investigadores da Polícia Federa (PF)l consideram que o material reunido até o momento já é suficientemente robusto para sustentar eventual condenação de Vorcaro no âmbito das investigações sobre supostas fraudes bancárias envolvendo o Banco Master.

<><> Fraudes bilionárias estão no centro da investigação

As investigações da PF apontam para supostas irregularidades na venda de carteiras de crédito do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). De acordo com os investigadores, a operação teria sido utilizada para fortalecer a capitalização da instituição financeira controlada por Vorcaro.

Segundo a PF, cerca de R$ 12 bilhões em créditos considerados fraudulentos foram transferidos ao BRB. A operação, conforme a investigação, teria sido acertada entre Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do banco público do Distrito Federal.

As apurações também examinam possíveis conexões políticas relacionadas ao negócio. Investigadores avaliam que a operação teria envolvido interlocuções com integrantes do Centrão e com o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que nega qualquer participação em irregularidades.

<><> Delação de Vorcaro é rejeitada

A nova proposta de colaboração premiada apresentada por Daniel Vorcaro foi rejeitada pela Polícia Federal. Nos bastidores da investigação, a expectativa é de que o acordo também enfrente dificuldades para avançar na Procuradoria-Geral da República (PGR).

A avaliação das autoridades é que a colaboração apresentada pelo banqueiro não trouxe elementos considerados suficientes para alterar substancialmente o rumo das investigações.

Enquanto isso, a possível delação do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa permanece em compasso de espera. O termo de confidencialidade necessário para formalizar o acordo ainda não foi assinado, mas investigadores avaliam que a colaboração do ex-dirigente do BRB pode ganhar relevância diante do fracasso das negociações com Vorcaro.

<><> Investigação deve avançar no segundo semestre

Nos bastidores da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), prevalece o entendimento de que a estratégia adotada por Vorcaro pode não produzir os resultados esperados.

A avaliação é que apostar em uma futura reversão do cenário judicial para evitar eventual prisão ou condenação representa um caminho de alto risco diante do conjunto de evidências já reunido.

Além disso, as investigações sobre as supostas fraudes bancárias e sobre as relações políticas atribuídas ao empresário devem prosseguir ao longo do segundo semestre. A expectativa dos investigadores é que novas diligências resultem na produção de mais provas, ampliando a pressão jurídica sobre Daniel Vorcaro e fortalecendo as acusações em análise.

 

Fonte: Brasil 247

 

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