Acredite!
Pré-candidato do PL ao governo do RJ, defende que EUA bombardeiem embarcações
do tráfico na costa do Brasil
Após
perder o governo do Rio de
Janeiro devido à cassação de
Cláudio Castro, o PL aposta no deputado estadual Douglas Ruas, atual
presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), para
tentar retomar o comando do Palácio da Guanabara na eleição de outubro. Com
apoio do senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o pré-candidato recebeu a missão após o
ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União Brasil) ser afastado e preso por
suspeita de ligação com facções criminosas. Bacellar era cotado para disputar o
governo estadual com apoio do PL.
O
principal adversário de Douglas Ruas será o ex-prefeito do Rio de
Janeiro, Eduardo Paes,
pré-candidato ao governo pelo PSD. Paes lidera as pesquisas de intenção de
voto.
Confira
a seguir os principais trechos da entrevista:
·
Como avalia a atual situação política do Rio de Janeiro e
o governo do desembargador Ricardo Couto?
Douglas
Ruas - O
Estado do Rio de Janeiro passa por um imbróglio jurídico e institucional que se
iniciou com a renúncia do ex-governador Cláudio Castro. Desde o início desse
imbróglio, eu sempre tenho me posicionado a favor da realização de eleições
diretas, porque entendo que o exercício pleno da democracia se dá através do
voto popular. Conforme ocorreu ontem [21 de junho] no estado de Roraima, e foi
eleito o governador pelo PL. Lamentavelmente, o partido PSD entrou com uma
petição no Supremo Tribunal Federal, inicialmente questionando a
constitucionalidade da lei que regulamentou as eleições indiretas no Estado do
Rio de Janeiro e, quando já estava praticamente com maioria formada no plenário
virtual para um entendimento, inclusive acatando um dos pedidos desse partido,
eles entraram com uma nova petição pedindo que suspendesse as eleições
indiretas e, depois, entraram com uma outra petição pedindo para não cumprir-se
a Constituição Federal no que diz respeito à linha sucessória no governo do
Estado. Então, lamentavelmente, nós temos aqui um governo interino.
·
O senhor vê interferência política do STF no Rio de
Janeiro?
Douglas
Ruas - Eu
não quero ser leviano aqui de fazer uma afirmação de maneira, inclusive,
generalizada, àquela que é a nossa Suprema Corte do nosso país. Mas a gente não
concorda com a falta de celeridade com que foi tratado um tema de tamanha
importância e que vem perpetuando um cenário de interinidade no governo do
Estado. Nós tivemos dois casos semelhantes no Brasil, um com desfecho por
eleições indiretas, que foi o caso do Amazonas. E outro por eleições diretas,
no estado de Roraima. E o único onde não teve uma definição foi o Estado do Rio
de Janeiro. Recentemente, o atual presidente da República, o Lula, esteve no
Rio de Janeiro e, num palanque, falou ao microfone que o governador interino
vai permanecer por dez meses. É lamentável que o presidente da República se
posicione dessa maneira. A gente sabe o quanto as pessoas lutaram no passado
para que nós tivéssemos a redemocratização, para que fosse estabelecido o
direito ao voto. E agora aquele que está à frente do nosso país, eleito pelo
voto popular, defendendo um governo que não foi constituído pelo voto popular.
·
Após os escândalos de corrupção envolvendo o governador
Cláudio Castro, por que o eleitor deveria dar uma nova oportunidade ao PL para
comandar o Rio de Janeiro, elegendo o senhor?
Douglas
Ruas - Nós
somos o maior partido do Brasil. Vivemos no Estado Democrático de direito, onde
todos os atos praticados por quaisquer cidadão, eles devem ser
individualizados. E qualquer um, seja do meu partido, seja de partido aliado,
seja de outro partido que tiver cometido algum ato ilícito, ele deve pagar por
isso. E não pode as pessoas generalizarem a um partido por conta da conduta de
A, B ou C. Eu creio que a população vai, através da campanha eleitoral,
conhecer o Douglas Ruas e fazer a escolha, analisando a minha trajetória de
vida, a minha trajetória de trabalho e as minhas propostas. Não a daqueles que,
por ora, tenham participado do nosso partido.
·
O deputado federal Otoni de Paula (PSD), que apoia
Eduardo Paes para o governo do Rio, disse à BBC
News Brasil que Cláudio Castro instalou uma quadrilha no
Rio de Janeiro, junto com Rodrigo Bacellar, que era o ex-presidente da Alerj,
também aliado do senhor, e disse que a sua eleição seria uma continuidade desse
grupo no poder. Como vê essa declaração?
Douglas
Ruas - É
até desprezível o posicionamento dessa pessoa que você menciona, porque não tem
credibilidade alguma, se posiciona cada vez de uma maneira, de acordo com a
conveniência do momento. O meu plano de governo não é continuidade de nenhum
outro governo que tenha passado por aqui. Agora, enquanto os adversários tentam
associar o Douglas Ruas a qualquer outra figura política, se a gente olhar o
Eduardo Paes, apoiado por esse deputado [Otoni de Paula], a grande liderança
política dele no estado do Rio de Janeiro nos últimos 20 anos foi o
ex-governador Sérgio Cabral, que foi preso num caso emblemático de corrupção,
dentre todas as figuras que foram alcançadas pela Lava Jato aqui no Rio de
Janeiro. O próprio presidente da República, o Lula, que, na verdade, não foi
inocentado no processo dele. Todos sabem que ele foi condenado em diversas
instâncias por corrupção. E hoje essa figura que ocupa o cargo de deputado
federal, defende o Lula, defende o Eduardo Paes.
[Nota
da redação: Após ficar 580 dias preso e ser impedido de disputar a eleição
presidencial de 2018, Lula teve suas condenações na operação Lava Jato anuladas
em 2021 pelo STF. Lula havia sido considerado culpado pelos crimes de corrupção
passiva e lavagem de dinheiro, mas o STF anulou essas condenações por entender
que Lula não teve seus direitos respeitados ao longo dos processos conduzidos
pelo então juiz Sergio Moro.]
·
Políticos do PL costumam apontar o dedo para a corrupção
do PT. O presidente do seu partido, Valdemar Costa Neto, foi condenado por
corrupção no escândalo do Mensalão. Isso não é um problema?
Douglas
Ruas -
Nós não vamos tratar a campanha dessa maneira. Eu não quero dizer com quem o
Eduardo Paes andou no passado, o que ele fez. Eu quero falar com o cidadão do
Estado do Rio de Janeiro, que está preocupado com o avanço do domínio
territorial das facções criminosas, que está preocupado com a redução no seu
poder de compra por conta da política econômica instituída pelo atual governo
federal, com a taxa de juros altíssima que trava o desenvolvimento do Estado e
do país. É esse debate que a gente vai fazer. Eu fiz apenas uma consideração
diferente do que os nossos adversários trabalham, em apontar o dedo, em tentar
associar a minha imagem a qualquer outra figura que seja do meu partido, de um
outro partido aliado. Nós não vamos seguir nessa linha. Se fôssemos seguir, nós
teríamos inúmeros exemplos, como esses que citei aqui. Mas não é dessa maneira
que a gente vai conduzir a nossa campanha.
·
O Rio de Janeiro vive um grave quadro de desequilíbrio
fiscal. Apesar disso, estava sendo discutido na Alerj o aumento das emendas
parlamentares em R$ 1,5 bilhão no próximo ano. Faz sentido ampliar essa
despesa?
Douglas
Ruas - Quando
eu retornei à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e
posteriormente fui eleito presidente, essa proposta já estava tramitando na
Casa desde o ano passado. E eu anunciei para todos os meus pares que essa
proposta não vai tramitar. Pelo contrário, nós instalamos a Comissão Especial
para Contenção de Gastos. Qual o objetivo dessa comissão? Entender aonde, no
passado, o Estado do Rio de Janeiro se perdeu. Há cinco anos atrás, nós
tínhamos um orçamento equilibrado no Estado, quando as despesas cabiam dentro
da receita. E a gente foi entender o que aconteceu de lá para cá. A receita
aumentou nos últimos cinco anos em 20%. Então, onde está o problema? No aumento
da despesa. Então nós estamos trabalhando para entender aonde foram esses
excessos no aumento da despesa nos últimos cinco anos, para fazer a devida
correção e buscar o equilíbrio fiscal do nosso Estado.
·
Nos últimos cinco anos, era justamente o governo Cláudio
Castro. Esse governo do PL fracassou? Foi incompetente?
Douglas
Ruas - Eu
estive no governo como secretário de Estado das Cidades. Eu sou um servidor
público de carreira. Entrei no serviço público através de um concurso para a
Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. Em todos os cargos que ocupei, eu
nunca escolhi chefe, eu sempre escolhi a missão. A missão como secretário de
Estado das Cidades era levar investimentos para os municípios do nosso Estado,
que tem uma capacidade de investimento muito reduzida. E assim fiz nos últimos
dois anos e meio. E foram mais de R$ 2 bilhões em investimento em 73
municípios. Obras de infraestrutura que levaram mais mobilidade, mais dignidade
e melhoria na qualidade de vida para a população. Agora, como presidente da
Alerj, sou eu o responsável por conduzir esse debate da Lei Orçamentária. E eu
não concordo que o Poder Executivo mande para a Assembleia um orçamento
deficitário. Eu não concordo que o planejamento do Governo do Estado possa prever
uma despesa para além da sua receita. Então, eu não estou preso à continuidade,
às práticas dos outros governos anteriores, ainda que seja do meu partido. Eu
estou preso àquelas minhas convicções da boa prática da gestão pública.
·
O senhor foi secretário de Cidades do governo Cláudio
Castro. Críticos da sua gestão dizem que o senhor privilegiou de maneira
demasiada São Gonçalo, onde seu pai, Capitão Nelson, é prefeito. Quanto desses
mais de R$ 2 bilhões de investimentos foram para São Gonçalo? Eu solicitei essa
informação ao atual governo e não esclareceram.
Douglas
Ruas - Não
existe privilégio. Nós alcançamos, em dois anos e meio, 73 municípios dos 92
[municípios do Rio de Janeiro]. Então, quem fala isso não tem conhecimento dos
fatos.
·
Em percentual de investimento, quanto ficou em São
Gonçalo?
Douglas
Ruas - Na
minha gestão, eu só concluí um processo de licitação para São Gonçalo. Existiam
outras obras já em andamento pelo Governo do Estado, na cidade de São Gonçalo,
que eu, obviamente, dei continuidade, assim como foi em outros municípios
também. Mas nós tivemos uma atuação em 73 cidades. Eu não tenho aqui agora o
percentual exato do que foi destinado a São Gonçalo, mas de maneira alguma
houve qualquer privilégio. Pelo contrário, hoje a gente recebe o apoio de
muitos prefeitos do Estado do Rio de Janeiro, muito por conta disso.
·
Na área de educação, o senhor promete 200 escolas
cívico-militares. Como será feito isso?
Douglas
Ruas - O
Estado do Rio de Janeiro ocupa a 26.ª posição no ranking nacional do Ideb, ou
seja, penúltima. Nós somos a segunda maior economia do Estado, nós somos o
cartão de visita dessa nação, e temos essa posição pífia no ranking nacional.
Nós
temos aqui um pouco mais de 1200 unidades escolares na rede pública estadual.
Dentro dessas, nós encontramos 17 escolas cívico-militares e essas escolas
tiveram um desempenho muito bom no Ideb. A nota delas no Ideb está entre 5,2 e
5,8. Só para se ter ideia, o primeiro lugar no ranking nacional do Ideb, o
Estado do Paraná, tem nota [média] 4,9. Ou seja, se concorrêssemos apenas com
as escolas cívico-militares, nós seríamos primeiro lugar no Brasil. Então nós
temos dentro da nossa rede um modelo de ensino aprovado pelos profissionais da
educação, pelos pais dos alunos, pela comunidade escolar como um todo e com
resultados comprovada na nota do Ideb. Muitas das vezes, quando a gente fala de
escola cívico militar, as pessoas acham que as nossas crianças, os nossos
jovens, vão ser doutrinados a serem militares, e não é nada disso. São
profissionais militares da reserva que se integram à comunidade escolar para
criar um ambiente organizado, com disciplina, com civilidade. E todos os
professores que, até mesmo no início, tinham uma restrição a esse modelo de
ensino, hoje a gente conversa com eles, eles aprovam. E por quê? Porque a única
coisa que o professor quer é o respeito do aluno para com o professor. Isso faz
com que a aula tenha mais fluidez, com que eles possam ter uma performance
melhor para passar o conteúdo para os alunos. E os resultados estão
comprovados. A minha proposta é que a gente possa provocar reuniões com a
comunidade escolar, apresentar esse modelo de ensino, inclusive proporcionar
aos pais de alunos, aos profissionais de educação, visita a essas unidades que
já estão em funcionamento e, apenas com a aprovação da comunidade escolar, nós
vamos implementar. E a minha proposta é que nos próximos quatro anos a gente
possa ter pelo menos 200 escolas estaduais já com esse modelo de ensino.
·
Estudiosos da Educação dizem que as escolas cívico
militares costumam ter um melhor desempenho porque têm orçamento maior, não
necessariamente pelo modelo de ensino. Aqui no Rio, escolas federais e colégios
de aplicação, que não são militares, mas também têm orçamento maior, também
aparecem entre as melhores. Considerando que são mais de 1200 escolas no Rio de
Janeiro, como trazer impacto para toda a rede?
Douglas
Ruas - A
minha proposta é que a gente possa oportunizar [o acesso a escolas civico
militares], até mesmo porque, onde estão instaladas essas escolas, hoje existe
uma procura muito grande. Então nós vamos estar atendendo a um anseio da
população, dos pais de alunos, que querem aquele modelo de ensino. Mas, para
além das escolas cívico militar, nós temos outras boas práticas também, outros
bons colégios que não estão dentro desse modelo de ensino. E a gente precisa
pegar as boas práticas, entender o que está acontecendo de bom ali, e levar
para toda a rede pública estadual.Nós precisamos de uma atenção especial para a
educação, entendendo que esse tema tem uma relação direta com a nossa posição
também no que diz respeito à segurança pública. A mão de obra que está sendo
utilizada pelas facções criminosas são dos nossos jovens. Então, um outro
debate importante que nós vamos levar para a educação é trazer a qualificação
profissional já para o primeiro ano do ensino médio. Hoje os nossos jovens
chegam dentro da sala de aula e muitos deles não conseguem enxergar que aquele
tempo que eles estão entregando ali na escola vai lhe ser útil para alguma
coisa no futuro. A gente precisa antecipar esse debate da qualificação
profissional, pegar na mão do nosso jovens e mostrar a eles: existe um caminho
de prosperidade na sua vida e esse caminho é através da qualificação
profissional que vai te dar uma oportunidade no mercado de trabalho, a sua
primeira oportunidade, e depois você vai ter a oportunidade de buscar mais
qualificação e crescer na sua vida, ter dignidade.
·
O campo do PL, da direita bolsonarista, fala muito do
Escola Sem Partido. Essas escolas cívico-militares não são uma forma de levar
uma ideologia de direita, ligada ao militarismo, para as escolas?
Douglas
Ruas - De
forma alguma. Isso é uma completa inversão de valores, falarem que o
militarismo tem a ver com a direita. O militarismo é de todos. As Forças
Armadas pertencem a todo o Brasil, é um orgulho para toda a nossa nação,
independente de ideologia e de espectro político. E como já falei aqui: são
militares da reserva, que atuam para promover um ambiente escolar organizado,
com respeito, com civilidade, com disciplina. Não tem viés político ideológico
nesse modelo de ensino.
·
O senhor apoiou a operação do governo Cláudio Castro, que
resultou em 122 mortes nas comunidades da Penha do Alemão. O senhor considera
que o Estado está mais seguro depois dessa operação?
Douglas
Ruas - Eu
apoio toda operação policial que seja em favor da população de bem do nosso
Estado. O que aconteceu no Complexo da Penha e do Alemão é uma legítima ação do
Estado para o cumprimento de ordens judiciais expedidas pelo Poder Judiciário,
mandados de prisão contra criminosos que impõem um verdadeiro terror à
população de bem. E essa operação mostrou muito bem a maneira de atuação das
forças policiais. Você falou dos 122 mortos, mas mais de 100 criminosos foram
presos. Quem faz a opção são eles, aqueles que entenderam que o Estado chegou
para cumprir as ordens judiciais e eles se renderam, a polícia cumpriu o seu
papel. Agora, os 122 que empunharam um fuzil, que é um armamento de guerra, e
correram para a mata para enfrentar o Estado, para enfrentar a população de
bem, tiveram um resultado morte. E o policial é instado a se defender de uma
injusta agressão para defender a sua vida ou a vida de um outro cidadão de bem.
Então, a ação foi totalmente legítima. Lamentavelmente, nós vivemos nos últimos
anos com muitas restrições para a ação das forças policiais por conta da ADPF
635, que foi uma ação proposta por um partido político, que é o PSB, que foi ao
Supremo Tribunal Federal e disse que existe um estado de coisas
inconstitucionais, com a presença das forças policiais dentro das comunidades.
E é minha grande crítica desde o meu primeiro dia de mandato aqui na Assembleia
em relação à ADPF 635 é que o Supremo Tribunal Federal não ouviu o que mais
importava nessa decisão, que é o cidadão de bem que mora dentro das
comunidades. O Supremo Tribunal Federal decidiu a favor do pedido desse partido
e nós tivemos as ações policiais restringidas durante um grande período. O que
virou o Estado do Rio de Janeiro? Um resort para criminosos de tudo que é canto
do país. É só buscar no noticiário, você vai ver: criminosos de Minas Gerais,
Mato Grosso, Bahia, Rio Grande do Norte se instalaram nas nossas comunidades e
passaram a comandar o crime organizado nos seus estados a partir daqui. Por
que? Através de uma medida judicial, criou-se um ambiente seguro para eles
[criminosos] ficarem. Para eles [policiais] entrarem, precisam avisar com
antecedência a inúmeros outros órgãos e, obviamente, perde-se o fator surpresa.
Então, quando a polícia chegava lá, praticamente não encontrava ninguém, porque
eles tinham tempo para se organizarem, se esconderem e irem para outras
comunidades onde não seriam realizadas as operações.
·
O governo Cláudio Castro fez essa operação com discurso
muito forte de combate às facções e, ao mesmo tempo, o ex-presidente da Alerj,
Rodrigo Bacelar, que integrava o governo, está hoje preso suspeito de ligação
com as facções criminosas. Então, esse tipo de operação é muito midiática, mas
é isso que vai resolver o problema da violência?
Douglas
Ruas - O
maior problema hoje do estado do Rio de Janeiro é o domínio territorial pelas
facções criminosas. Uma operação como aquela, se não tiver uma continuidade
depois da presença do Estado, não só por parte da polícia, mas por outros
órgãos, realmente não nos dá uma efetividade duradoura. Nós precisamos ter um
plano e é isso que nós vamos apresentar no nosso plano de governo de retomada
do território. O Estado do Rio de Janeiro precisa assumir a sua
responsabilidade e não podemos aceitar que as facções criminosas mandem em
qualquer palmo do território do Estado do Rio de Janeiro.
·
É sabido que as facções criminosas que atuam no estado do
Rio de Janeiro são facilitadas pela corrupção policial. Como isso vai ser
combatido num eventual governo seu?
Douglas
Ruas - Nós
vamos criar a Corregedoria Geral Unificada, uma figura que se perdeu nos
últimos anos aqui no estado do Rio de Janeiro. E essa corregedoria vai ficar
debaixo do meu guarda-chuva como governador, para ter total isenção e autonomia
para trabalhar, para privilegiar o bom policial. Aquele que porventura esteja
inserido dentro das nossas forças policiais, para praticar crime, para estar
aliado às facções, terá uma punição severa e imediatamente nós vamos retirá-lo
de circulação e punir com todo o rigor da lei.
·
O pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro, seu
aliado, chegou a defender que os Estados Unidos bombardeiem embarcações
suspeitas de relação com facções criminosas na costa do Rio de Janeiro. O
senhor apoia esse tipo de ação?
Douglas
Ruas - Eu
tenho defendido que nós possamos classificar as facções criminosas como
terrorista, porque o que eles praticam é impor o terror à população de bem do
nosso Estado. As pessoas estão com as suas liberdades cerceadas por essas
pessoas. Lamentavelmente, o atual Presidente da República entende que eles não
são terroristas e ainda o chamou de nossos criminosos. Nós não temos
compromisso com criminosos. Não vamos chamá-los de nossos.
·
Mas o senhor apoiaria uma ação dos Estados Unidos na
costa brasileira?
Douglas
Ruas - Eu
defendo que nós possamos, sim, buscar cooperação internacional para o
enfrentamento ao crime organizado, entendendo que essas facções hoje elas têm
atuação em inúmeros países, não estão restritas ao nosso território nacional,
até mesmo porque não temos histórico de produção de entorpecentes no nosso
território nacional. A cocaína que é vendida aqui no Rio de Janeiro, que chega
às nossas cidades, que destrói as nossas famílias, a gente sabe onde é
produzida: nos nossos vizinhos, países sul-americanos. Nós não temos a produção
de armas. Ano passado, foram apreendidos aqui 920 fuzis, armamento de guerra,
num território urbano. E eles não são produzidos aqui. Entram pelas nossas
fronteiras sem qualquer controle. Então, defendo medidas efetivas para impedir
que essas armas e essas drogas cheguem ao nosso território. E, se for necessário
bombardear esses traficantes de drogas, traficantes de armas no mar aberto,
antes dessas armas chegarem aqui no nosso território, nas nossas cidades, têm o
meu total apoio.
·
O senhor tem um forte discurso de combate à
criminalidade, ao mesmo tempo, é um aliado importante do Flávio Bolsonaro.
Quando Flávio foi deputado estadual da Alerj, ele empregou a esposa e a mãe do
Adriano da Nóbrega, que era acusado de ser o chefe do Escritório do Crime, um
miliciano. Isso não é um problema?
Douglas
Ruas – Eu
não estava aqui na Assembleia Legislativa no passado. Esse foi o meu primeiro
mandato. Não acompanhei de perto. As informações que eu tenho a respeito desses
casos eu acompanhei através do noticiário, então não tenho conhecimento dos
autos para poder falar sobre esse assunto tecnicamente. Agora, volto a dizer:
eu sou o Douglas Ruas, pré-candidato a governador, respondo por todos os meus
atos. Não respondo pelos atos de qualquer um aliado, seja ele do meu partido ou
seja de outro partido. O que nós estamos apresentando à população do Estado do
Rio de Janeiro é um plano de governo que possa reconhecer que nós temos que
fazer o enfrentamento para retomar os territórios do nosso Estado, devolver a
liberdade econômica e o direito de ir e vir para a população de bem. Nós vamos
encarar o outro grande desafio, que é o equilíbrio fiscal, que pode, inclusive,
comprometer todas as outras políticas públicas para além da segurança, como
saúde, educação, assistência social, política para as mulheres, entre outros. É
isso que nós vamos apresentar à população. O meu pré-candidato à Presidência da
República é o Flávio Bolsonaro, tem o meu total apoio aqui. O que nós vimos nos
últimos quatro anos no nosso país foi uma política econômica que travou o nosso
desenvolvimento. O poder de compra das famílias foi reduzido. Nós temos um
recorde de endividamento. A gente tem total convicção de que o país não resiste
a mais quatro anos do PT. E o Flávio tem, sim, um plano de governo que vai
devolver a liberdade econômica, vai acabar com essa gastança no governo federal
para colocar o nosso Brasil no rumo certo.
·
Estou me referindo a um fato objetivo: os registros
históricos de quem atuou no gabinete do então deputado estadual Flávio
Bolsonaro são públicos, e ele empregou a mãe e a então esposa do Adriana da
Nóbrega por anos. Isso não é um problema?
Douglas
Ruas - Pra
minha pré-candidatura, não é problema algum. As pessoas podem pesquisar minha
trajetória de vida, minha trajetória de trabalho.
·
E o problema de o senhor ser aliado a ele?
Douglas
Ruas - Eu
sou aliado ao Flávio, e o Lula, quem são os aliados? Quem Lula nomeou? Lula
recebeu a Deolane [Bezerra], que está presa. Vão dizer o quê: o CPF dele está
atrelado à prática dela? Ele praticou algum ato? O Flávio praticou algum ato
junto com quem quer que seja relacionado a algum crime?
·
O seu pai, o capitão Nelson, prefeito de São Gonçalo, era
próximo da juíza Patrícia Acioli, que foi assassinada por combater milícias e
facções criminosas em São Gonçalo. E, por outro lado, seu pai constou como
suspeito de liderar uma milícia em São Gonçalo no relatório final da CPI das
Milícias da Alerj. O que tem a dizer sobre isso?
Douglas
Ruas - A
juíza Patrícia Acioli era muito atuante na comarca da cidade de São Gonçalo,
onde meu pai teve a sua atuação como policial militar. Num dado momento, ela
tomou conhecimento de que estava sendo ameaçada de morte e o presidente do
Tribunal de Justiça à época colocou que ela precisaria ter uma escolta. Ela
disse ao presidente do Tribunal de Justiça e ao então comandante da Polícia
Militar que só confiava numa pessoa para fazer a sua escolta, que seria o então
capitão Nelson, que trabalhava no sétimo batalhão na cidade de São Gonçalo. Não
era muito a praia do meu pai trabalhar em escolta pessoal de autoridade, mas a
juíza foi muito categórica que não aceitaria outra pessoa por relação de
confiança, porque ela sabia que se tratava de uma pessoa honesta, que
verdadeiramente combatia o crime àquela época, na cidade de São Gonçalo. O meu
pai aceitou e fez o trabalho ao lado dela até que fosse desmantelado todo esse
plano. Tão logo foi solucionado o caso, ele retornou para o seu trabalho na
Polícia Militar. Posteriormente, a juíza teve uma morte trágica por conta de
policiais corruptos que instaram contra o trabalho dela à frente do Poder
Judiciário e a vida dela foi ceifada. Esse crime foi elucidado pela Polícia
Civil do Estado do Rio de Janeiro, que prendeu todos os seus executores e
mandantes e submeteram à Justiça do nosso Estado. Em relação à menção na CPI
das milícias, teve um equívoco procedimental, que foram divulgados, ao final do
relatório, de uma maneira anexa, todos os disque-denúncias que foram realizados
[sobre milícias]. E o disque-denúncia, para quem não compreende bem a questão
da segurança pública, é uma matéria bruta. São informações anônimas que chegam
ao conhecimento das autoridades policiais e que elas precisam ser lapidadas,
porque, lamentavelmente, elas são utilizadas de maneira a tentar denegrir a
imagem de alguém, impor alguma calúnia, difamação. E, nesse caso da menção ao
meu pai, para quem conhece a cidade de São Gonçalo, é uma coisa até cômica,
porque a denúncia recebida pelo disque-denúncia fala da instalação de uma
milícia no bairro do Jardim Catarina, que é um bairro que sempre foi dominado
pelo tráfico de drogas. E quem seriam os mandantes dessa milícia? Seria o meu
pai e mais outras duas figuras da política que foram adversários a vida toda.
Os três são adversários: era o Mota da Copasa [Edson da Silva Mota] e Daizinho
[Aldair Corrêa]. Um foi vereador, o outro foi candidato a vereador, e sempre
adversários. Os três nunca nem se falaram. Não tem qualquer relação. Então, foi
uma verdadeira piada feita através de um disque-denúncia, e não avançou, não
teve qualquer investigação.
Fonte:
BBC News Brasil

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