A
esquerda precisa de um pensamento utópico
Em
nenhum sistema de arranjos sociais fundado na competição individual pela
riqueza individual as mulheres podem desfrutar da mesma felicidade que os
homens.” Assim, os socialistas irlandeses William Thompson e Anna Wheeler
vincularam a opressão de gênero à opressão econômica em sua extensa réplica feminista a
James Mill, publicada em 1825. Tais argumentos posteriormente se tornariam
fundamentais, até mesmo óbvios, para os marxistas.
No
entanto, o próprio Karl Marx criticou o movimento do qual Thompson e Wheeler
emergiram. Eles eram seguidores de Robert Owen, um dos “socialistas utópicos”
do século XIX que Marx e Friedrich Engels criticaram no Manifesto Comunista. De acordo com
o Manifesto, figuras como Owen produziam “descrições fantásticas da
sociedade futura” que careciam de fundamento na luta de classes real.
Como
Barbara Taylor demonstrou em sua obra clássica Eve and the new
Jerusalem [Eva
e a Nova Jerusalém], a avaliação de Marx e Engels foi injusta para com os
owenistas, cujas reflexões sobre questões vitais como a emancipação da mulher
os colocava surpreendentemente próximos das visões feministas mais convincentes
da atualidade, em comparação com os contemporâneos progressistas dos owenistas
e até mesmo com movimentos socialistas posteriores. De modo mais geral, o
argumento da superioridade do socialismo “científico” sobre o socialismo
“utópico”, para usar a terminologia de Engels,
baseia-se em premissas questionáveis e, em última análise,
obscurece o valor do pensamento utópico para um projeto
de transformação social.
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O que há de errado com a utopia?
Para
compreender o antiutopismo, é útil identificar dois tipos de argumentos. David
Leopold, um estudioso de Marx e da utopia, oferece uma distinção útil entre
objeções fundacionais e não fundacionais. As objeções fundacionais rejeitam
todas as descrições detalhadas de sociedades ideais, porém inexistentes (para
usar a definição de utopia de Leopold), enquanto as objeções não fundacionais
se opõem a características específicas de exemplos particulares do pensamento
utópico. Como Leopold demonstra, Marx e Engels criticam o socialismo utópico
sob ambas as perspectivas.
“Talvez
o problema mais evidente do utopismo seja a sua teoria da mudança.”
Talvez
o problema mais evidente do utopismo seja a sua teoria da mudança. Como
argumentaram Marx e Engels, a estratégia central do owenismo, que envolvia
operar através da força do exemplo e da persuasão moral, exigia a conquista
daqueles que já detinham o poder. A menos que o movimento tivesse uma teoria
sobre como a maioria oprimida poderia tomar o poder, ele precisava persuadir
uma massa crítica daqueles que detinham os recursos materiais sob o capitalismo
para construir as instituições sociais que propunha.
Mas os
colegas industriais de Owen tinham poucos incentivos para construir uma utopia,
já que o sistema vigente lhes proporcionava um nível de riqueza e status que
uma transformação verdadeiramente igualitária lhes negaria, enquanto os
trabalhadores tinham mais a ganhar. Uma teoria que conceda um papel mais
central aos interesses materiais e à luta de classes é, portanto, preferível,
embora a persuasão moral ainda deva desempenhar um papel importante (tanto na
formação de “traidores de classe” como Marx e Engels, quanto no convencimento
dos trabalhadores).
Na
terminologia de Leopold, essa objeção ao pensamento utópico é convincente, mas
não fundamental. Nada no utopismo em si exige uma teoria da mudança que se
concentre na persuasão moral enquanto ignora a luta de classes. Para
percebermos o valor de elaborar um plano socialista detalhado, não precisamos
acreditar que a mera racionalidade desse plano levará à sua ampla implementação
como sistema social.
Leopold
identifica três críticas fundamentais que Marx e Engels dirigem ao utopismo em
si. A “afirmação normativa” é que o utopismo é antidemocrático: as pessoas na
sociedade futura devem decidir coletivamente como viverão, e não devemos
presumir fazer isso por elas antecipadamente. A “afirmação epistemológica” é
que a utopia é incognoscível: simplesmente não podemos formar uma imagem
precisa da sociedade ideal a partir de nossa perspectiva atual (e somente uma
imagem totalmente precisa seria útil). A “afirmação empírica” é que a
construção utópica é desnecessária: a análise materialista histórica demonstra
a inevitabilidade de uma revolução que substituirá o capitalismo pelo
comunismo.
Tais
objeções tiveram uma longa repercussão. Embora poucos ainda acreditem que uma
revolução bem-sucedida seja inevitável, tendo visto o capitalismo se adaptar
para sobreviver a muitas crises, variações das objeções epistemológicas e
empíricas continuam a assombrar discussões políticas e teóricas. Mesmo as
defesas do pensamento utópico tendem a exaltar os méritos de visões
fragmentárias e vagas da sociedade ideal. De fato, alguns autores afirmam essa
fragmentação e ambiguidade como características de um utopismo distintamente
feminista.
Concordo
com Leopold que as objeções fundamentais falham. Contra o argumento
epistemológico, Leopold defende de forma convincente que mesmo metas
imperfeitas servem como princípios orientadores úteis. É através da elaboração
de planos e da tentativa de executá-los que exercemos nossa capacidade de ação
construtiva, tanto coletiva quanto individualmente. Embora nunca possamos
conhecer todas as circunstâncias relevantes para aperfeiçoar nossos planos, os
exercícios de definição de metas, mesmo que falíveis, são valiosos.
Quanto
à preocupação normativa, certamente as pessoas cuja autonomia um teórico queira
proteger podem decidir por si mesmas se desejam endossar as visões desse
teórico sobre a sociedade ideal e podem modificá-las conforme necessário. De
fato, autores que hesitam em especificar os resultados desejados por medo de
inviabilizar debates ou possibilidades futuras correm o risco de incorrer em um
tipo diferente de elitismo antidemocrático: exageram sua própria autoridade
intelectual. Leopold aponta corretamente que a “mera existência” de planos para
uma sociedade futura não limita a autonomia dos indivíduos que se propõem a
transformar a sociedade.
É claro
que a força antidemocrática que se esconde por trás dos projetos utópicos pode,
por vezes, ser de natureza mais material. O próprio Robert Owen exerceu tal
força, levando ao fracasso da comunidade que seus seguidores estabeleceram em
Queenwood. Quando a comunidade, composta em grande parte por trabalhadores e
governada coletivamente, enfrentava dificuldades financeiras, Owen e um grupo
de reformadores burgueses — conhecido como a “Sociedade de Colonização
Doméstica” — exigiram o controle de sua governança em troca de financiamento.
Como
relata Barbara Taylor, Owen gastou “milhares de libras construindo passarelas
rebaixadas, calçadões e a famosa cozinha, esgotando assim todos os fundos
centrais do movimento”. A comunidade acabou se amotinando e recuperou o
controle democrático sobre seus assuntos. No fim, Queenwood não conseguiu
reerguer suas finanças e se dissolveu em 1845. O movimento owenista em geral
logo seguiu o mesmo caminho.
Mas
este exemplo levanta uma objeção não fundamental. A experiência de Queenwood
deveria nos alertar não contra a utopia em si, mas contra a dominação das
visões utópicas por fundadores individuais. Não foi nenhum fato sobre o
pensamento utópico propriamente dito, mas sim a tentativa bastante banal de
Owen de tomar o poder que colocou seu projeto em conflito com a democracia.
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Recuperando o radicalismo owenista
Embora
o owenismo não fosse, portanto, um modelo de perfeição, o movimento ainda
merece mais crédito do que Marx e Engels lhe atribuíram. Enquanto os fundadores
do marxismo respeitavam a crítica social apresentada pela primeira geração de
socialistas utópicos, concordando com sua oposição às estruturas familiares
patriarcais, ao sistema salarial e à indústria voltada para o lucro privado,
eles rejeitaram as propostas construtivas dos utópicos para substituir essas
instituições, considerando-as fantasiosas. À medida que a história progredia e
as possibilidades da luta de classes se desdobravam, Marx e Engels concluíram
que o socialismo utópico perdeu seu caráter radical:
Embora
os idealizadores desses sistemas fossem, em muitos aspectos, revolucionários,
seus discípulos, em todos os casos, formaram meras seitas reacionárias. Eles se
apegam às ideias originais de seus mestres, em oposição ao desenvolvimento
histórico progressivo do proletariado.
Pode
haver alguma verdade nessa observação, mas certamente não “em todos os casos”.
Como Taylor demonstra, os seguidores de Owen, predominantemente da classe
trabalhadora, iam além de suas próprias ideias, tanto em termos de radicalismo
quanto na adoção de estratégias mais próximas daquelas defendidas por Marx,
como evidenciado pela militância operária owenista nas décadas de 1820 e 1830.
Notavelmente,
o feminismo owenista era distintamente radical. Owen e seus seguidores
defendiam a igualdade entre os sexos (embora, às vezes, mais na teoria do que
na prática). Eles condenavam as tendências antissociais fomentadas em um
sistema de famílias atomizadas, cada uma buscando seu próprio benefício, e
propunham a criação comunitária dos filhos como forma de educar membros
altruístas da sociedade e com espírito comunitário. Embora as propostas de Owen
inicialmente não tenham questionado o trabalho feminino como categoria,
Thompson e Wheeler introduziram no pensamento owenista a ideia de que a divisão
de trabalho por gênero impedia a igualdade das mulheres.
O
owenismo forneceu uma estrutura e uma plataforma para o envolvimento político
das mulheres da classe trabalhadora. Embora os homens dominassem os escalões
superiores da organização owenista, as mulheres participavam amplamente. Taylor
descreve como elas se engajavam em ativismo trabalhista militante, proferiam
palestras populares e prenunciavam relações igualitárias ao jantar em mesas
mistas, uma prática que gerou controvérsia diante das normas de gênero da era
vitoriana.
Juntamente
com a propriedade privada e a religião, Owen condenou o casamento, propondo, em
vez disso, uniões afetivas livres. Entre seus seguidores, surgiram divergências
sobre a liberdade sexual, e debates acirrados se intensificaram sobre se (na
linguagem do movimento) abandonar o casamento já era apropriado no “Velho Mundo
Imoral”, ou apenas no “Novo Mundo Moral”. Como observa Taylor:
Sob a
pressão dessa dissidência, a “linha” owenista sobre o casamento, que
originalmente era representada apenas nas palestras de Owen,
começou a se dissolver em uma gama de posições, oscilando entre várias
reformulações de sua filosofia libertária e um reconhecimento tardio da
vulnerabilidade das mulheres, particularmente das solteiras.
Os
seguidores de Owen representavam, portanto, um movimento da classe trabalhadora
com consciência feminista. Através de debates acalorados e dissidência, eles
adaptaram suas ideias às suas próprias realidades e descontentamentos. Embora
Owen defendesse a igualdade, inclusive entre os sexos, ele não enfatizou a
capacidade de ação da classe trabalhadora na luta contra a própria opressão,
algo que foi colocado em prática pela atividade política das mulheres da classe
trabalhadora no movimento.
Aqueles
entre nós que se baseiam em ideias marxistas para a crítica social podem, ainda
assim, resistir à tentação de recorrer a Marx quando se trata de utopia.
Podemos seguir Marx e Engels ao rejeitar as ideias de Owen sobre mudança e
liderança, e podemos condenar as próprias tendências antidemocráticas de Owen,
sem deixar de reivindicar os aspectos positivos do pensamento utópico —
incluindo os pontos em que os owenistas acertaram.
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Qual a utilidade da utopia?
Se
reconhecermos que Marx e Engels foram injustos com os owenistas em particular e
com os utópicos em geral, ainda assim nos deparamos com a questão de o que,
afinal, o pensamento utópico pode nos oferecer hoje.
Primeiro,
como Mark Fisher apontou, sucumbir a um sentimento de desgraça iminente reforça
o status quo. Uma visão detalhada de um futuro promissor pode ter
efeitos desnaturalizantes, inspiradores e mobilizadores, ajudando a abalar a
sensação de que as coisas só podem ser como são (ou piores) e a motivar as
pessoas à ação coletiva. Segundo, a direita já está fazendo um bom trabalho ao
esboçar alternativas; a esquerda precisa entrar no páreo.
Uma
terceira resposta é que precisamos de utopias para o feminismo. Alguns chegam a
afirmar que o próprio feminismo é necessariamente utópico. Em seu artigo de
1982 sobre ficção utópica feminista, Anne Mellor, por exemplo, chamou a teoria
feminista de “inerentemente utópica” porque a “igualdade entre os sexos” “nunca
existiu no passado histórico”. Se o objetivo do feminismo não foi alcançado nem
mesmo segundo essa definição bastante restrita da década de 1980, então os
compromissos com a emancipação da opressão com base na sexualidade, na não
conformidade de gênero e na transexualidade tornam o feminismo ainda mais
utópico hoje.
Essa é,
ao mesmo tempo, uma maneira certa e errada de encarar a questão. É certamente
verdade que os objetivos legítimos do feminismo não foram alcançados em lugar
nenhum — nem nas comunas owenistas que professavam igualdade, mas ainda tendiam
a atribuir a limpeza, a cozinha e os cuidados com os filhos às mulheres, nem
nos antigos matriarcados cujos mitos as feministas radicais da década de 1970
buscaram reescrever na história. Inquestionavelmente, o feminismo precisa de
uma utopia porque precisa olhar para o futuro em busca de respostas.
Mas
isso não é verdade apenas em um sentido conceitual, em que tudo o que é
feminista já é utópico. Em vez disso, o feminismo precisa da utopia não como
uma vaga orientação para o futuro, mas como um método reflexivo: para formular
objetivos propriamente feministas, não podemos olhar apenas para o passado ou
para as contradições do presente — temos que elaborar qual sociedade futura
queremos e o que a tornaria plausível e desejável.
O
compromisso compartilhado por marxistas e owenistas de conectar as questões
feministas com uma ampla transformação social é fundamental. Qualquer feminista
socialista convicta sabe que o verdadeiro feminismo é incompatível com o
capitalismo. Uma das razões é que a libertação das mulheres envolve a
socialização do trabalho reprodutivo de maneiras que não podem ser feitas sob o
capitalismo (ou pelo menos não de uma forma em que a cura não seja pior que a
doença).
Comparar
o pensamento utópico com uma compreensão marxista unidimensional da revolução
ajuda a esclarecer sua utilidade peculiar. Não temos bons motivos para
acreditar que a transformação de um elemento da sociedade — por meio da tomada
dos meios de produção pelo proletariado, por exemplo — levará inevitavelmente,
e sem a necessidade de planejamento prévio, à transformação desejável de todos
os outros elementos.
O
pensamento utópico pode nos ajudar a imaginar uma sociedade a ser almejada,
considerando quais elementos desejáveis podem se reforçar mutuamente, quais
instituições são pré-condições
para a existência ou estabilidade de outras e como podemos tornar a
coerção obsoleta na maior medida possível.
É especialmente valioso, portanto, conceber em detalhes
uma sociedade ideal, desde suas instituições econômicas,
políticas e reprodutivas até a textura das experiências
psicológicas e dos relacionamentos pessoais que ela fomenta.
A
ambivalência em relação ao casamento entre as mulheres owenistas e seu público
feminino, identificada por Taylor, pode parecer um argumento contrário à
utopia, visto que planos rígidos impedem tal contestação. Mas existe uma
maneira diferente e melhor de compreender o aspecto construtivo da utopia. O
utopismo, como modo de pensamento político, permite que teóricos e movimentos
políticos radicais considerem e contestem o conjunto de instituições e práticas
que gostariam de construir em substituição àquelas a serem abolidas, e que
considerem cada uma delas no contexto de um todo social.
Por
exemplo, embora o abandono do casamento no século XIX possa ter prejudicado as
mulheres ao reduzir a responsabilidade material dos homens pelos filhos, um
mundo sem o contrato matrimonial seria, ainda assim, melhor, abrindo
possibilidades não apenas para as mulheres, mas também para as pessoas
LGBTQIA+. Uma condição essencial para esse mundo melhor é a socialização do
cuidado infantil e a abolição da propriedade privada, que Owen e muitos de seus
seguidores também defendiam, uma vez que essas mudanças tornariam desnecessária
a atribuição de responsabilidade financeira aos pais.
Ainda
assim, Marx não está certo ao afirmar que um objetivo que parece radical hoje
pode se tornar reacionário em alguns anos ou décadas? E como saber qual utopia
devemos seguir? Em um artigo recente, o teórico político Titus Stahl segue
Leopold ao rejeitar as objeções fundamentais ao projeto utópico. Mas Stahl
adota uma ressalva mais branda: como os próprios conceitos que usamos para
entender o mundo e formular nossos objetivos foram formados dentro das
estruturas sociais injustas em que vivemos, não podemos usá-los para conceber a
sociedade ideal agora.
Contudo,
as visões utópicas não precisam surgir totalmente formadas da mente de uma
única pessoa. Como demonstra o movimento owenista, mesmo com um líder que tenta
consolidar seus próprios projetos, a visão utópica central do movimento pode,
ainda assim, gerar diversidade e divergências sem perder seu caráter utópico. A
revisão coletiva dos objetivos utópicos por meio da contestação democrática
pode resolver o impasse.
Stahl
argumenta que a utopia não deve ser um ponto final estático, mas sim um
objetivo a ser continuamente debatido e repensado à medida que os experimentos
produzem resultados e as circunstâncias mudam. Ele também defende que podemos
avaliar propostas utópicas com base no sucesso com que elas resolveriam os
problemas que afligem a sociedade atual. Inventar e avaliar visões utópicas
dessa maneira não exige um salto impossível para além de nossa perspectiva
histórica. É claro que a prática é o teste final, mas podemos usar a teoria
para fazer previsões e escolher entre objetivos utópicos com base nessas
previsões.
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Futuros mais brilhantes
Olivro
de Haylor oferece um epílogo um tanto melancólico para ilustrar o potencial
radical perdido do feminismo owenista. Ela traça um paralelo com o cartismo, um
movimento contemporâneo que buscava atender às preocupações dos trabalhadores
por meio da expansão da representação parlamentar. Entre os cartistas, a visão
de que o lugar apropriado da mulher era no lar era comum, e as reivindicações
pelo sufrágio feminino permaneceram marginais. A base de apoio popular do
cartismo se dissipou na década de 1850, pouco depois do declínio do owenismo.
A
organização trabalhista britânica durante o restante do século XIX assumiu uma
forma dominada por homens, com sua abordagem conservadora à “questão feminina”
chegando, por vezes, ao nível de um antifeminismo convicto. Como escreve
Taylor:
O apelo
owenista por uma ofensiva multifacetada contra todas as formas de hierarquia
social, incluindo a hierarquia sexual, desapareceu — para ser substituído por
uma insistência dogmática na primazia das questões de classe, uma exigência de
unidade sexual diante de um inimigo de classe comum e uma vaga promessa de
melhoria do status das mulheres “após a revolução”.
Entretanto,
uma perspectiva reformista ganhou terreno no cenário da organização feminina
após a queda do cartismo e do owenismo, que enfraqueceu a conexão entre a
transformação socialista e os direitos das mulheres, e à medida que mais
mulheres da classe média, preocupadas com a respeitabilidade, aderiram ao
movimento. Nas décadas de 1850 e 1860, grupos feministas emergentes abraçaram o
apelo de John Stuart Mill para remover os obstáculos à entrada das mulheres na
livre competição em igualdade de condições com os homens. Isso contrastava com
o objetivo owenista de abolir os sistemas sociais orientados para tal
competição.
Opções
políticas que lembram essas alternativas decepcionantes ainda seguem vivas e
atuantes hoje em dia. Persiste o perigo de marginalizar formas de opressão ao
identificar uma causa fundamental para todos os males sociais, cuja superação
inevitavelmente resolverá os demais, e abundam reivindicações modestas por
melhorias feministas que se desvinculam de um projeto mais amplo de
transformação social. O pensamento utópico, por outro lado, pode nos ajudar a
revitalizar a conexão entre feminismo e anticapitalismo.
A
direita percebeu isso. Os conservadores de hoje não apenas resistem à mudança.
O Projeto 2025, por exemplo, é em muitos aspectos um exemplo clássico de
pensamento utópico, com uma visão ética que fundamenta suas propostas políticas
específicas e abrange todos os aspectos da sociedade, da família ao comércio,
do gênero aos impostos. Esse mundo imaginado é um mundo que eles querem criar,
não preservar, mesmo que esteja envolto em ideologia tradicionalista.
A
esquerda precisa de suas próprias contrapropostas: relatos abrangentes de uma
sociedade transformada que nos ajudem a decidir quais passos devemos dar agora
e nos mantenham motivados a longo prazo. Não estou sugerindo que todos os
esquerdistas devam se unir em torno de uma utopia, mas sim que o debate e a
experimentação em torno de objetivos ambiciosos de transformação social são um
projeto político urgente, e não uma mera questão acadêmica. Contrariando Marx e
Engels, o potencial radical da utopia ainda não foi esgotado.
Fonte:
Por Polina Whitehouse Tradução Pedro
Silva, em Jacobin Brasil

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