quarta-feira, 17 de junho de 2026

A esquerda precisa de um pensamento utópico

Em nenhum sistema de arranjos sociais fundado na competição individual pela riqueza individual as mulheres podem desfrutar da mesma felicidade que os homens.” Assim, os socialistas irlandeses William Thompson e Anna Wheeler vincularam a opressão de gênero à opressão econômica em sua extensa réplica feminista a James Mill, publicada em 1825. Tais argumentos posteriormente se tornariam fundamentais, até mesmo óbvios, para os marxistas.

No entanto, o próprio Karl Marx criticou o movimento do qual Thompson e Wheeler emergiram. Eles eram seguidores de Robert Owen, um dos “socialistas utópicos” do século XIX que Marx e Friedrich Engels criticaram no Manifesto Comunista. De acordo com o Manifesto, figuras como Owen produziam “descrições fantásticas da sociedade futura” que careciam de fundamento na luta de classes real.

Como Barbara Taylor demonstrou em sua obra clássica Eve and the new Jerusalem [Eva e a Nova Jerusalém], a avaliação de Marx e Engels foi injusta para com os owenistas, cujas reflexões sobre questões vitais como a emancipação da mulher os colocava surpreendentemente próximos das visões feministas mais convincentes da atualidade, em comparação com os contemporâneos progressistas dos owenistas e até mesmo com movimentos socialistas posteriores. De modo mais geral, o argumento da superioridade do socialismo “científico” sobre o socialismo “utópico”, para usar a terminologia de Engels, baseia-se em premissas questionáveis ​​e, em última análise, obscurece o valor do pensamento utópico para um projeto de transformação social.

<><> O que há de errado com a utopia?

Para compreender o antiutopismo, é útil identificar dois tipos de argumentos. David Leopold, um estudioso de Marx e da utopia, oferece uma distinção útil entre objeções fundacionais e não fundacionais. As objeções fundacionais rejeitam todas as descrições detalhadas de sociedades ideais, porém inexistentes (para usar a definição de utopia de Leopold), enquanto as objeções não fundacionais se opõem a características específicas de exemplos particulares do pensamento utópico. Como Leopold demonstra, Marx e Engels criticam o socialismo utópico sob ambas as perspectivas.

“Talvez o problema mais evidente do utopismo seja a sua teoria da mudança.”

Talvez o problema mais evidente do utopismo seja a sua teoria da mudança. Como argumentaram Marx e Engels, a estratégia central do owenismo, que envolvia operar através da força do exemplo e da persuasão moral, exigia a conquista daqueles que já detinham o poder. A menos que o movimento tivesse uma teoria sobre como a maioria oprimida poderia tomar o poder, ele precisava persuadir uma massa crítica daqueles que detinham os recursos materiais sob o capitalismo para construir as instituições sociais que propunha.

Mas os colegas industriais de Owen tinham poucos incentivos para construir uma utopia, já que o sistema vigente lhes proporcionava um nível de riqueza e status que uma transformação verdadeiramente igualitária lhes negaria, enquanto os trabalhadores tinham mais a ganhar. Uma teoria que conceda um papel mais central aos interesses materiais e à luta de classes é, portanto, preferível, embora a persuasão moral ainda deva desempenhar um papel importante (tanto na formação de “traidores de classe” como Marx e Engels, quanto no convencimento dos trabalhadores).

Na terminologia de Leopold, essa objeção ao pensamento utópico é convincente, mas não fundamental. Nada no utopismo em si exige uma teoria da mudança que se concentre na persuasão moral enquanto ignora a luta de classes. Para percebermos o valor de elaborar um plano socialista detalhado, não precisamos acreditar que a mera racionalidade desse plano levará à sua ampla implementação como sistema social.

Leopold identifica três críticas fundamentais que Marx e Engels dirigem ao utopismo em si. A “afirmação normativa” é que o utopismo é antidemocrático: as pessoas na sociedade futura devem decidir coletivamente como viverão, e não devemos presumir fazer isso por elas antecipadamente. A “afirmação epistemológica” é que a utopia é incognoscível: simplesmente não podemos formar uma imagem precisa da sociedade ideal a partir de nossa perspectiva atual (e somente uma imagem totalmente precisa seria útil). A “afirmação empírica” é que a construção utópica é desnecessária: a análise materialista histórica demonstra a inevitabilidade de uma revolução que substituirá o capitalismo pelo comunismo.

Tais objeções tiveram uma longa repercussão. Embora poucos ainda acreditem que uma revolução bem-sucedida seja inevitável, tendo visto o capitalismo se adaptar para sobreviver a muitas crises, variações das objeções epistemológicas e empíricas continuam a assombrar discussões políticas e teóricas. Mesmo as defesas do pensamento utópico tendem a exaltar os méritos de visões fragmentárias e vagas da sociedade ideal. De fato, alguns autores afirmam essa fragmentação e ambiguidade como características de um utopismo distintamente feminista.

Concordo com Leopold que as objeções fundamentais falham. Contra o argumento epistemológico, Leopold defende de forma convincente que mesmo metas imperfeitas servem como princípios orientadores úteis. É através da elaboração de planos e da tentativa de executá-los que exercemos nossa capacidade de ação construtiva, tanto coletiva quanto individualmente. Embora nunca possamos conhecer todas as circunstâncias relevantes para aperfeiçoar nossos planos, os exercícios de definição de metas, mesmo que falíveis, são valiosos.

Quanto à preocupação normativa, certamente as pessoas cuja autonomia um teórico queira proteger podem decidir por si mesmas se desejam endossar as visões desse teórico sobre a sociedade ideal e podem modificá-las conforme necessário. De fato, autores que hesitam em especificar os resultados desejados por medo de inviabilizar debates ou possibilidades futuras correm o risco de incorrer em um tipo diferente de elitismo antidemocrático: exageram sua própria autoridade intelectual. Leopold aponta corretamente que a “mera existência” de planos para uma sociedade futura não limita a autonomia dos indivíduos que se propõem a transformar a sociedade.

É claro que a força antidemocrática que se esconde por trás dos projetos utópicos pode, por vezes, ser de natureza mais material. O próprio Robert Owen exerceu tal força, levando ao fracasso da comunidade que seus seguidores estabeleceram em Queenwood. Quando a comunidade, composta em grande parte por trabalhadores e governada coletivamente, enfrentava dificuldades financeiras, Owen e um grupo de reformadores burgueses — conhecido como a “Sociedade de Colonização Doméstica” — exigiram o controle de sua governança em troca de financiamento.

Como relata Barbara Taylor, Owen gastou “milhares de libras construindo passarelas rebaixadas, calçadões e a famosa cozinha, esgotando assim todos os fundos centrais do movimento”. A comunidade acabou se amotinando e recuperou o controle democrático sobre seus assuntos. No fim, Queenwood não conseguiu reerguer suas finanças e se dissolveu em 1845. O movimento owenista em geral logo seguiu o mesmo caminho.

Mas este exemplo levanta uma objeção não fundamental. A experiência de Queenwood deveria nos alertar não contra a utopia em si, mas contra a dominação das visões utópicas por fundadores individuais. Não foi nenhum fato sobre o pensamento utópico propriamente dito, mas sim a tentativa bastante banal de Owen de tomar o poder que colocou seu projeto em conflito com a democracia.

<><> Recuperando o radicalismo owenista

Embora o owenismo não fosse, portanto, um modelo de perfeição, o movimento ainda merece mais crédito do que Marx e Engels lhe atribuíram. Enquanto os fundadores do marxismo respeitavam a crítica social apresentada pela primeira geração de socialistas utópicos, concordando com sua oposição às estruturas familiares patriarcais, ao sistema salarial e à indústria voltada para o lucro privado, eles rejeitaram as propostas construtivas dos utópicos para substituir essas instituições, considerando-as fantasiosas. À medida que a história progredia e as possibilidades da luta de classes se desdobravam, Marx e Engels concluíram que o socialismo utópico perdeu seu caráter radical:

Embora os idealizadores desses sistemas fossem, em muitos aspectos, revolucionários, seus discípulos, em todos os casos, formaram meras seitas reacionárias. Eles se apegam às ideias originais de seus mestres, em oposição ao desenvolvimento histórico progressivo do proletariado.

Pode haver alguma verdade nessa observação, mas certamente não “em todos os casos”. Como Taylor demonstra, os seguidores de Owen, predominantemente da classe trabalhadora, iam além de suas próprias ideias, tanto em termos de radicalismo quanto na adoção de estratégias mais próximas daquelas defendidas por Marx, como evidenciado pela militância operária owenista nas décadas de 1820 e 1830.

Notavelmente, o feminismo owenista era distintamente radical. Owen e seus seguidores defendiam a igualdade entre os sexos (embora, às vezes, mais na teoria do que na prática). Eles condenavam as tendências antissociais fomentadas em um sistema de famílias atomizadas, cada uma buscando seu próprio benefício, e propunham a criação comunitária dos filhos como forma de educar membros altruístas da sociedade e com espírito comunitário. Embora as propostas de Owen inicialmente não tenham questionado o trabalho feminino como categoria, Thompson e Wheeler introduziram no pensamento owenista a ideia de que a divisão de trabalho por gênero impedia a igualdade das mulheres.

O owenismo forneceu uma estrutura e uma plataforma para o envolvimento político das mulheres da classe trabalhadora. Embora os homens dominassem os escalões superiores da organização owenista, as mulheres participavam amplamente. Taylor descreve como elas se engajavam em ativismo trabalhista militante, proferiam palestras populares e prenunciavam relações igualitárias ao jantar em mesas mistas, uma prática que gerou controvérsia diante das normas de gênero da era vitoriana.

Juntamente com a propriedade privada e a religião, Owen condenou o casamento, propondo, em vez disso, uniões afetivas livres. Entre seus seguidores, surgiram divergências sobre a liberdade sexual, e debates acirrados se intensificaram sobre se (na linguagem do movimento) abandonar o casamento já era apropriado no “Velho Mundo Imoral”, ou apenas no “Novo Mundo Moral”. Como observa Taylor:

Sob a pressão dessa dissidência, a “linha” owenista sobre o casamento, que originalmente era representada apenas nas palestras de Owen, começou a se dissolver em uma gama de posições, oscilando entre várias reformulações de sua filosofia libertária e um reconhecimento tardio da vulnerabilidade das mulheres, particularmente das solteiras.

Os seguidores de Owen representavam, portanto, um movimento da classe trabalhadora com consciência feminista. Através de debates acalorados e dissidência, eles adaptaram suas ideias às suas próprias realidades e descontentamentos. Embora Owen defendesse a igualdade, inclusive entre os sexos, ele não enfatizou a capacidade de ação da classe trabalhadora na luta contra a própria opressão, algo que foi colocado em prática pela atividade política das mulheres da classe trabalhadora no movimento.

Aqueles entre nós que se baseiam em ideias marxistas para a crítica social podem, ainda assim, resistir à tentação de recorrer a Marx quando se trata de utopia. Podemos seguir Marx e Engels ao rejeitar as ideias de Owen sobre mudança e liderança, e podemos condenar as próprias tendências antidemocráticas de Owen, sem deixar de reivindicar os aspectos positivos do pensamento utópico — incluindo os pontos em que os owenistas acertaram.

<><> Qual a utilidade da utopia?

Se reconhecermos que Marx e Engels foram injustos com os owenistas em particular e com os utópicos em geral, ainda assim nos deparamos com a questão de o que, afinal, o pensamento utópico pode nos oferecer hoje.

Primeiro, como Mark Fisher apontou, sucumbir a um sentimento de desgraça iminente reforça o status quo. Uma visão detalhada de um futuro promissor pode ter efeitos desnaturalizantes, inspiradores e mobilizadores, ajudando a abalar a sensação de que as coisas só podem ser como são (ou piores) e a motivar as pessoas à ação coletiva. Segundo, a direita já está fazendo um bom trabalho ao esboçar alternativas; a esquerda precisa entrar no páreo.

Uma terceira resposta é que precisamos de utopias para o feminismo. Alguns chegam a afirmar que o próprio feminismo é necessariamente utópico. Em seu artigo de 1982 sobre ficção utópica feminista, Anne Mellor, por exemplo, chamou a teoria feminista de “inerentemente utópica” porque a “igualdade entre os sexos” “nunca existiu no passado histórico”. Se o objetivo do feminismo não foi alcançado nem mesmo segundo essa definição bastante restrita da década de 1980, então os compromissos com a emancipação da opressão com base na sexualidade, na não conformidade de gênero e na transexualidade tornam o feminismo ainda mais utópico hoje.

Essa é, ao mesmo tempo, uma maneira certa e errada de encarar a questão. É certamente verdade que os objetivos legítimos do feminismo não foram alcançados em lugar nenhum — nem nas comunas owenistas que professavam igualdade, mas ainda tendiam a atribuir a limpeza, a cozinha e os cuidados com os filhos às mulheres, nem nos antigos matriarcados cujos mitos as feministas radicais da década de 1970 buscaram reescrever na história. Inquestionavelmente, o feminismo precisa de uma utopia porque precisa olhar para o futuro em busca de respostas.

Mas isso não é verdade apenas em um sentido conceitual, em que tudo o que é feminista já é utópico. Em vez disso, o feminismo precisa da utopia não como uma vaga orientação para o futuro, mas como um método reflexivo: para formular objetivos propriamente feministas, não podemos olhar apenas para o passado ou para as contradições do presente — temos que elaborar qual sociedade futura queremos e o que a tornaria plausível e desejável.

O compromisso compartilhado por marxistas e owenistas de conectar as questões feministas com uma ampla transformação social é fundamental. Qualquer feminista socialista convicta sabe que o verdadeiro feminismo é incompatível com o capitalismo. Uma das razões é que a libertação das mulheres envolve a socialização do trabalho reprodutivo de maneiras que não podem ser feitas sob o capitalismo (ou pelo menos não de uma forma em que a cura não seja pior que a doença).

Comparar o pensamento utópico com uma compreensão marxista unidimensional da revolução ajuda a esclarecer sua utilidade peculiar. Não temos bons motivos para acreditar que a transformação de um elemento da sociedade — por meio da tomada dos meios de produção pelo proletariado, por exemplo — levará inevitavelmente, e sem a necessidade de planejamento prévio, à transformação desejável de todos os outros elementos.

O pensamento utópico pode nos ajudar a imaginar uma sociedade a ser almejada, considerando quais elementos desejáveis ​​podem se reforçar mutuamente, quais instituições são pré-condições para a existência ou estabilidade de outras e como podemos tornar a coerção obsoleta na maior medida possível. É especialmente valioso, portanto, conceber em detalhes uma sociedade ideal, desde suas instituições econômicas, políticas e reprodutivas até a textura das experiências psicológicas e dos relacionamentos pessoais que ela fomenta.

A ambivalência em relação ao casamento entre as mulheres owenistas e seu público feminino, identificada por Taylor, pode parecer um argumento contrário à utopia, visto que planos rígidos impedem tal contestação. Mas existe uma maneira diferente e melhor de compreender o aspecto construtivo da utopia. O utopismo, como modo de pensamento político, permite que teóricos e movimentos políticos radicais considerem e contestem o conjunto de instituições e práticas que gostariam de construir em substituição àquelas a serem abolidas, e que considerem cada uma delas no contexto de um todo social.

Por exemplo, embora o abandono do casamento no século XIX possa ter prejudicado as mulheres ao reduzir a responsabilidade material dos homens pelos filhos, um mundo sem o contrato matrimonial seria, ainda assim, melhor, abrindo possibilidades não apenas para as mulheres, mas também para as pessoas LGBTQIA+. Uma condição essencial para esse mundo melhor é a socialização do cuidado infantil e a abolição da propriedade privada, que Owen e muitos de seus seguidores também defendiam, uma vez que essas mudanças tornariam desnecessária a atribuição de responsabilidade financeira aos pais.

Ainda assim, Marx não está certo ao afirmar que um objetivo que parece radical hoje pode se tornar reacionário em alguns anos ou décadas? E como saber qual utopia devemos seguir? Em um artigo recente, o teórico político Titus Stahl segue Leopold ao rejeitar as objeções fundamentais ao projeto utópico. Mas Stahl adota uma ressalva mais branda: como os próprios conceitos que usamos para entender o mundo e formular nossos objetivos foram formados dentro das estruturas sociais injustas em que vivemos, não podemos usá-los para conceber a sociedade ideal agora.

Contudo, as visões utópicas não precisam surgir totalmente formadas da mente de uma única pessoa. Como demonstra o movimento owenista, mesmo com um líder que tenta consolidar seus próprios projetos, a visão utópica central do movimento pode, ainda assim, gerar diversidade e divergências sem perder seu caráter utópico. A revisão coletiva dos objetivos utópicos por meio da contestação democrática pode resolver o impasse.

Stahl argumenta que a utopia não deve ser um ponto final estático, mas sim um objetivo a ser continuamente debatido e repensado à medida que os experimentos produzem resultados e as circunstâncias mudam. Ele também defende que podemos avaliar propostas utópicas com base no sucesso com que elas resolveriam os problemas que afligem a sociedade atual. Inventar e avaliar visões utópicas dessa maneira não exige um salto impossível para além de nossa perspectiva histórica. É claro que a prática é o teste final, mas podemos usar a teoria para fazer previsões e escolher entre objetivos utópicos com base nessas previsões.

<><> Futuros mais brilhantes

Olivro de Haylor oferece um epílogo um tanto melancólico para ilustrar o potencial radical perdido do feminismo owenista. Ela traça um paralelo com o cartismo, um movimento contemporâneo que buscava atender às preocupações dos trabalhadores por meio da expansão da representação parlamentar. Entre os cartistas, a visão de que o lugar apropriado da mulher era no lar era comum, e as reivindicações pelo sufrágio feminino permaneceram marginais. A base de apoio popular do cartismo se dissipou na década de 1850, pouco depois do declínio do owenismo.

A organização trabalhista britânica durante o restante do século XIX assumiu uma forma dominada por homens, com sua abordagem conservadora à “questão feminina” chegando, por vezes, ao nível de um antifeminismo convicto. Como escreve Taylor:

O apelo owenista por uma ofensiva multifacetada contra todas as formas de hierarquia social, incluindo a hierarquia sexual, desapareceu — para ser substituído por uma insistência dogmática na primazia das questões de classe, uma exigência de unidade sexual diante de um inimigo de classe comum e uma vaga promessa de melhoria do status das mulheres “após a revolução”.

Entretanto, uma perspectiva reformista ganhou terreno no cenário da organização feminina após a queda do cartismo e do owenismo, que enfraqueceu a conexão entre a transformação socialista e os direitos das mulheres, e à medida que mais mulheres da classe média, preocupadas com a respeitabilidade, aderiram ao movimento. Nas décadas de 1850 e 1860, grupos feministas emergentes abraçaram o apelo de John Stuart Mill para remover os obstáculos à entrada das mulheres na livre competição em igualdade de condições com os homens. Isso contrastava com o objetivo owenista de abolir os sistemas sociais orientados para tal competição.

Opções políticas que lembram essas alternativas decepcionantes ainda seguem vivas e atuantes hoje em dia. Persiste o perigo de marginalizar formas de opressão ao identificar uma causa fundamental para todos os males sociais, cuja superação inevitavelmente resolverá os demais, e abundam reivindicações modestas por melhorias feministas que se desvinculam de um projeto mais amplo de transformação social. O pensamento utópico, por outro lado, pode nos ajudar a revitalizar a conexão entre feminismo e anticapitalismo.

A direita percebeu isso. Os conservadores de hoje não apenas resistem à mudança. O Projeto 2025, por exemplo, é em muitos aspectos um exemplo clássico de pensamento utópico, com uma visão ética que fundamenta suas propostas políticas específicas e abrange todos os aspectos da sociedade, da família ao comércio, do gênero aos impostos. Esse mundo imaginado é um mundo que eles querem criar, não preservar, mesmo que esteja envolto em ideologia tradicionalista.

A esquerda precisa de suas próprias contrapropostas: relatos abrangentes de uma sociedade transformada que nos ajudem a decidir quais passos devemos dar agora e nos mantenham motivados a longo prazo. Não estou sugerindo que todos os esquerdistas devam se unir em torno de uma utopia, mas sim que o debate e a experimentação em torno de objetivos ambiciosos de transformação social são um projeto político urgente, e não uma mera questão acadêmica. Contrariando Marx e Engels, o potencial radical da utopia ainda não foi esgotado.

 

Fonte: Por Polina Whitehouse  Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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