sexta-feira, 1 de maio de 2026

Guerra e autoritarismo minam liberdade de imprensa no mundo

A capacidade de jornalistas trabalharem com segurança e de forma independente está sob ameaça em todo o mundo, segundo o Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026, divulgado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

A ONG, que monitora anualmente a situação do jornalismo global desde 2002, define liberdade de imprensa como "a capacidade de jornalistas, como indivíduos ou coletivamente, de selecionar, produzir e disseminar notícias para o interesse público, de forma independente de interferências políticas, econômicas, legais e sociais, e na ausência de ameaças à sua segurança física e mental".

Atualmente, a RSF classifica o ambiente da liberdade de imprensa como "problemático" ou em situação pior em cerca de 75% dos países. Em mais da metade deles, as condições para o trabalho da mídia vão de "difíceis" a "muito graves", segundo a organização.

Em 2013, menos de um terço dos países era classificado como tendo condições "difíceis" ou "muito difíceis", enquanto 71% figuravam como "problemáticos" ou em situação pior.

O Brasil ficou entre os países que mostraram sinais de melhora ou relativa estabilidade, passando da 63ª posição em 2025 para o 52º lugar no ranking deste ano, embora ainda seja classificado como "problemático".

Apesar da tendência global de queda, a situação da liberdade de imprensa varia conforme a região. Em geral, os países mais livres, incluindo os quatro primeiros colocados do ranking – Noruega, Estônia, Holanda e Dinamarca –, estão na Europa, enquanto jornalistas em partes da África e da Ásia enfrentam condições mais duras.

As discrepâncias dentro de uma mesma região também podem ser marcantes. Na Europa, por exemplo, há uma divisão clara entre o sul e o leste, onde os desafios à liberdade de imprensa são maiores, e o norte e o oeste, cujos países, em geral, aparecem classificados como de situação "satisfatória" a "boa". De forma semelhante, jornalistas do norte da África tendem a ser menos livres do que colegas do sul do continente.

<><> Polônia e Eslováquia seguem caminhos distintos

Outro exemplo de divisão regional pode ser encontrado no coração da Europa: a imprensa na Polônia tornou-se mais livre, enquanto na vizinha Eslováquia cresceu a hostilidade contra os meios de comunicação. Ambos os países ainda são classificados como de situação "satisfatória", mas caminham em direções claramente opostas.

De acordo com a RSF, o ponto de virada na Polônia foi a mudança de governo. Após o partido Lei e Justiça (PiS), contrário ao aborto e aos direitos LGBTQ+ e defensor de políticas antimigração, ter sido afastado do poder no fim de 2023, o novo governo reduziu ataques verbais e ações judiciais contra a imprensa.

Uma eleição naquele mesmo ano também marcou uma guinada na Eslováquia. Depois de anos na oposição, Robert Fico iniciou, em 2023, seu quarto mandato como primeiro-ministro. "Ele tem uma longa carreira, e sempre foi parte de sua narrativa tratar jornalistas como inimigos", afirmou Lukas Diko, editor-chefe do Investigative Center of Jan Kuciak (ICJK), organização jornalística independente que leva o nome de um repórter assassinado durante o terceiro mandato de Fico.

Kuciak investigava ligações entre grupos do crime organizado e empresas na Eslováquia conectadas a integrantes do partido governista de Fico. Embora o assassinato do jornalista tenha desencadeado uma onda de protestos anticorrupção que contribuíram para a queda do governo em 2018, Diko afirmou que os ataques à imprensa se intensificaram desde o retorno de Fico ao poder. "Não há regras", disse.

Segundo Diko, o medo causado pelo assassinato do jovem jornalista, somado à retórica hostil de autoridades, afastou pessoas da carreira jornalística. "Não são muitos os jovens que querem se tornar jornalistas hoje", afirmou. "O assassinato de Kuciak ainda é algo que diz a eles para não fazer isso – e eles tampouco querem ser atacados verbalmente todo dia."

<><> Ataques à imprensa como estratégia política

A Argentina é outro país que caiu vertiginosamente no ranking. Campanhas de difamação contra a imprensa promovidas pelo presidente Javier Milei, cujas políticas de ultradireita priorizam as liberdades financeiras acima de outras, criaram um clima hostil para jornalistas. Ele frequentemente usa as redes sociais para atacar críticos e afirma que jornalistas "não são odiados o suficiente".

"Quando Milei insulta um jornalista, ele não faz isso como Milei, o economista, ou Milei, um cidadão comum", disse Fernando Stanich, presidente do Fórum de Jornalismo Argentino (Fopea), uma organização que defende a liberdade de imprensa e promove o jornalismo de qualidade na Argentina. "Ele faz isso como o principal representante do Estado argentino."

Segundo Stanich, governos argentinos anteriores também foram hostis à imprensa – a peronista Cristina Kirchner, por exemplo, entrou em confronto com a mídia durante sua presidência, entre 2007 e 2015. Mas, de acordo com monitoramentos do Fopea, o atual nível de ataques verbais contra jornalistas é inédito.

Assim como Milei, na Argentina, e Fico, na Eslováquia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, insulta e ameaça a imprensa desde sua primeira campanha eleitoral, em 2016. Coincidentemente, os EUA também registraram uma queda significativa em sua posição no ranking mundial de liberdade de imprensa, ao lado de outros países cujos líderes seguem a mesma cartilha, como El Salvador.

Argentina, Eslováquia e Estados Unidos mostram como países considerados relativamente estáveis e democráticos podem se tornar rapidamente hostis aos jornalistas. Já em Eritreia, China, Coreia do Norte e Irã, a imprensa nunca foi livre, uma vez que esses países são governados há décadas por regimes autoritários que silenciam o jornalismo independente.

O relatório da RSF aponta conflitos armados como a "razão primária para o declínio da liberdade de expressão", por exemplo no Iraque, Sudão, Sudão do Sul e Iêmen. Na guerra em Gaza, a entidade contabiliza mais de 220 jornalistas mortos por ataques israelenses, dos quais ao menos 70 em serviço, desde que Israel foi alvo de ataques terroristas liderados pelo Hamas em outubro de 2023.

<><> Construindo redes para enfrentar ameaças

Vera Slavtcheva-Petkova, professora do Departamento de Comunicação e Mídia da Universidade de Liverpool, afirma que as ameaças sociais à liberdade de imprensa se enquadram em três grandes categorias. O uso de estruturas políticas para intimidar ou prejudicar jornalistas – incluindo ataques verbais de autoridades públicas, ameaças de violência e prisão – é o indicador mais evidente de declínio da liberdade de imprensa.

Os outros métodos para reprimir a imprensa passam pela perseguição de jornalistas por gênero, raça ou orientação sexual, e pressões econômicas sobre um mercado de trabalho precarizado na mídia.

Segundo Slavtcheva-Petkova, jornalistas podem enfrentar esses desafios ao se unir e ao colaborar com organizações que compartilham seus valores, como ativistas de direitos humanos e acadêmicos.

"Saber que existe alguém em quem você pode confiar para obter apoio é muito importante", disse. "Quando jornalistas não têm isso, quando não sabem a quem recorrer por ajuda, acabam sentindo que aquilo que estão vivendo pode até ser culpa deles."

Com a maioria dos jornalistas no mundo trabalhando hoje em condições que são, no mínimo, problemáticas, como demonstra o Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026, essas redes tendem a se tornar ainda mais importantes nos próximos anos, tanto dentro dos países quanto internacionalmente.

No geral, 17 países melhoraram seus índices de liberdade de imprensa entre 2013 e 2026, enquanto 163 apresentaram piora.

A África do Sul é um exemplo de país em que essas estratégias parecem estar funcionando. No ranking da RSF, o país se destaca em relação aos vizinhos regionais. Desde 2013, mantém a classificação "satisfatória", o que resultou em uma subida constante no ranking à medida que outras nações perderam posições.

Glenda Daniels, jornalista e professora de estudos de mídia na Universidade de Witwatersrand (Wits), em Joanesburgo, afirma que uma sociedade civil forte ajudou a África do Sul a manter esse status, mesmo com o declínio global da liberdade de imprensa. Apesar de desafios comuns a jornalistas em todo o mundo – incluindo preconceitos e ameaças contra mulheres na mídia e um mercado de trabalho em retração –, Daniels diz que redes sólidas ajudaram a preservar a liberdade de imprensa no país.

Ela própria atua como secretária-geral do South African National Editors' Forum (Sanef), entidade que defende o direito de jornalistas exercerem sua profissão. "O Sanef é barulhento e faz ruído", afirmou. "Faz diferença ter uma abordagem forte da sociedade civil, com advocacy e ativismo."

•        Prêmio de liberdade de expressão da DW vai para Jimmy Lai

O empresário de comunicação e ativista pró-democracia de Hong Kong Jimmy Lai recebeu o Freedom of Speech Award de 2026 da DW, em reconhecimento à sua defesa das liberdades de imprensa e de expressão.

Em fevereiro, Lai, de 78 anos, foi sentenciado por um tribunal de Hong Kong a 20 anos de prisão após ser considerado culpado em dezembro de duas acusações de conspiração para conluio com forças estrangeiras e de um crime de sedição vinculado à difusão de material subversivo.

Crítico ferrenho do governo chinês, ele se tornou uma das primeiras figuras proeminentes a serem presas e condenadas sob a lei de segurança nacional imposta pela China ao território semiautônomo em 2020.

A sentença gerou preocupação entre governos estrangeiros e grupos de direitos humanos, que pediram a libertação do cidadão britânico. Mas o Ministério do Exterior da China afirmou que Lai é um cidadão chinês e instou outros países a respeitarem sua soberania e o Estado de Direito em Hong Kong.

<>< Quem é Jimmy Lai?

Nascido em 1947 em Cantão, Lai chegou a Hong Kong ainda criança e começou a trabalhar numa fábrica têxtil, onde ascendeu a gerente antes de iniciar o próprio negócio.

Em 1981 ele fundou a cadeia de roupas Giordano, que se expandiu pela Ásia e outros mercados, e no início dos anos 90 começou a se dedicar à comunicação social.

O primeiro passo foi dado em 1990, quando fundou uma empresa de comunicação social com a qual lançou a revista online Next Magazine, que desde o início criticou Pequim, combinando sensacionalismo com análises políticas e econômicas.

Cinco anos depois, à medida que se aproximava a devolução de Hong Kong à China, Lai criou o Apple Daily, um jornal que rapidamente se tornou o segundo mais lido no território.

O Apple Daily não só refletia as preocupações da sociedade de Hong Kong num momento de transição política como também desempenhou um papel crucial na promoção da agenda pró-democracia, consolidando-se como um bastião da imprensa livre numa região cada vez mais vigiada por Pequim.

As manifestações antigovernamentais de 2019 em Hong Kong, inicialmente convocadas contra um projeto de lei de extradição, colocaram Lai no centro do debate público. O Apple Daily deu ampla cobertura aos protestos e adotou uma linha editorial crítica em relação às autoridades de Hong Kong e Pequim.

A entrada em vigor da lei de segurança nacional, em 2020, transformou o ambiente midiático e político da cidade, e Lai definiu a regulamentação, imposta por Pequim após os protestos em larga escala, como uma sentença de morte para Hong Kong.

Nos meses seguintes, Lai foi detido várias vezes e o seu grupo editorial ficou sob crescente escrutínio, até fechar as portas, em junho de 2021.

Lai permanece numa prisão de segurança máxima desde sua detenção em dezembro de 2020 e cumpre também uma pena de cinco anos e nove meses por fraude num outro caso.

<><> "Dedicação indispensável aos valores democráticos"

Sebastien Lai, filho de Jimmy que há muito tempo atua por sua libertação, disse à DW que "as pessoas que lutam pela liberdade, que lutam pela liberdade dos outros, nunca estão sozinhas". Ele considera significativa a escolha do pai para ser laureado com prêmio. "Acho que se ele soubesse disso, ficaria muito feliz."

A diretora-geral da DW, Barbara Massing, disse que, com o prêmio, a DW homenageia a "dedicação indispensável de Jimmy Lai aos valores democráticos".

"Jimmy Lai defendeu inabalavelmente a liberdade de imprensa em Hong Kong, correndo grandes riscos pessoais, mesmo quando o espaço para o jornalismo independente se tornou cada vez mais limitado. Com o Apple Daily, ele deu aos jornalistas uma plataforma para reportagens livres e uma voz ao movimento democrático em Hong Kong. Seu compromisso nos lembra que a liberdade de imprensa nunca é garantida – ela deve ser constantemente defendida."

Desde 2015, o Freedom of Speech Award da DW homenageia jornalistas e defensores dos direitos humanos como forma de chamar a atenção para as restrições à liberdade de imprensa e para situações preocupantes de direitos humanos em todo o mundo.

No ano passado, a premiação foi entregue à ativista Tamar Kintsurashvili, que luta contra a desinformação e o discurso de ódio na Georgia.

 

Fonte: DW Brasil

 

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