Donald
Trump e o declínio da democracia liberal
Nas
últimas décadas, principalmente a partir dos anos 70 do século passado, algumas
transformações no sistema econômico atual vêm abalando os fundamentos da
democracia liberal. Compreender essa passagem não é simples. Até porque a queda
está associada a dois fenômenos fortemente interligados: o crescimento da
extrema direita e um declínio acentuado das instituições democráticas em muitos
países.
Vários
autores, como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, se dedicaram ao tema,
especialmente em sua vertente política. Sem querer esgotar o assunto, este
artigo pretende analisar os aspectos econômicos subjacentes a essas
transformações.
Historicamente
a democracia liberal se consolidou na passagem do século XIX para o XX, no
período conhecido como Segunda Revolução Industrial, com a formação do mercado
de consumo de massa e de uma extensa classe média nos países
centrais. Desde então, a classe média se tornou a principal base de
sustentação política e social do capitalismo. Esse fenômeno atingiu seu apogeu
nos trinta anos após o término da Segunda Guerra Mundial, quando recebeu a
designação de “Golden Age” nos EUA e “Trente Glorieuses” na França
(1945-1975). Foi o auge da democracia liberal e do Estado de bem-estar social.
Por
conta desse período excepcional, moldou-se a convicção entre certos setores da
intelectualidade de que a história tinha chegado ao fim. Um apressado Francis
Fukuyama, em seu livro O fim da história e o último homem,
escreveu: “Nós, que vivemos em democracias liberais estáveis e duradouras,
encontramo-nos numa situação singular. No tempo dos nossos avós, muitas pessoas
ponderadas podiam sonhar com um radiante futuro socialista, em que a
propriedade privada e o capitalismo tivessem sido abolidos e, de certo modo, a
própria política fosse ultrapassada. Hoje em dia, pelo contrário, é difícil
imaginar um mundo que seja radicalmente melhor do que o nosso ou um futuro que
não seja essencialmente democrata e capitalista. É claro que, neste contexto,
muito haveria a aperfeiçoar: podíamos dar casa aos sem abrigo, garantir
oportunidades às minorias e às mulheres, melhorar a competitividade e criar
novos empregos” […] “Mas não é possível imaginar um mundo essencialmente
diferente e simultaneamente melhor do que o atual”.
Entretanto,
a Era de Ouro não foi obra do acaso. Teve causas bem objetivas. A reconstrução
das economias europeias e japonesa destruídas pela guerra, a expansão
demográfica (baby boom) e a disponibilidade de energia barata, com os
combustíveis fósseis, foram componentes importantes no crescimento observado.
Além disso, a produção de bens de capital nos países desenvolvidos foi
impulsionada pela ascensão dos emergentes, ávidos por máquinas e equipamentos
industriais.
Ao
mesmo tempo, baixas taxas de desemprego no período de expansão econômica,
favoreceram as ações dos sindicatos, que se empenhavam em obter melhores
salários e condições de trabalho. Paralelamente, nos parlamentos, partidos
trabalhistas, socialistas, comunistas e social democratas, aprovaram leis e
regulamentos que favoreciam a distribuição de renda e o bem-estar da população.
No
entanto, nas décadas seguintes, as condições favoráveis, que deram origem à Era
de Ouro, desapareceram ou começaram a perder força.
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Crise e instabilidade
Em 1973
e 74, em consequência da formação da OPEP e da instabilidade política no
Oriente Médio, o preço do barril de petróleo passou de 3 para 12 dólares. Em
1979 e 80, novamente saltaram de 13 para 40 dólares, gerando uma forte inflação
em todo o mundo. Para conter a inflação o banco central americano (FED), elevou
os juros básicos da economia de cerca de 3% em 1972 para 12% em 1974, atingindo
um pico de quase 20% em meados de 1981. A recessão se instalou em boa parte do
planeta. A recuperação das economias europeias e japonesa chegou ao fim. A
expansão demográfica declinou.
Uma das
consequências mais funestas da política monetária americana desse período foi a
elevação brutal das dívidas dos países periféricos, que eram denominadas em
dólares e gravadas por juros flutuantes. Uma sucessão de moratórias se espalhou
pelo mundo, especialmente na América Latina. Entre 1982 e 1987, México, Brasil,
Argentina, Peru, Equador, Chile e Venezuela tiveram que recorrer à moratória ou
se envolver em duras renegociações de suas dívidas externas.
Em
paralelo, vários países emergentes, principalmente os asiáticos, atingiram um
grau elevado de industrialização que lhes permitiu passar de consumidores para
fornecedores de bens industriais. Muitos desenvolveram sistemas nacionais de
educação e tecnologia que os tornaram capazes de competir com produtos
industriais mais elaborados. A presença dos orientais nos mercados mundiais,
especialmente do Japão e dos Tigres Asiáticos aumentou muito as dificuldades
comerciais dos EUA e da Europa. Na década de 2000, a entrada da China agravou
ainda mais esse quadro.
Mas não
foi só isso. Desde os anos 70 do século passado, os ativos financeiros
cresceram muito mais rápido que o PIB mundial. A financeirização aumentou a
instabilidade do sistema e a concentração de renda e riqueza.
Diante
desse cenário obviamente degradado e longe da Era de Ouro, políticos e
economistas da Europa e EUA, articularam uma reação que se mostraria muito
ineficiente.
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O neoliberalismo no Ocidente
Liderados por Ronald
Reagan e Margareth Tatcher, que governaram os EUA e a Inglaterra entre 1979 e
1990, muitos entenderam que a única solução possível para retomar o controle da
economia e sustentar uma concorrência aberta com os asiáticos seria aumentando,
a todo custo, a competitividade das empresas em seus países. Para tal
implantaram uma radical privatização e um gigantesco corte em direitos
trabalhistas e serviços públicos, essenciais para o bem-estar da população.
Estavam
convictos de que somente a liberação total e a redução de custos seriam capazes
de criar as condições para o enfrentamento da nova realidade. No mercado
financeiro cortaram as regulações usuais nessa área. Em consequência, mais
adiante, em 2007/2008, explodiu nos EUA uma das maiores crises que o
capitalismo já conheceu.
Em
decorrência dessas políticas, a classe média dos países centrais viu suas
condições de vida se deteriorarem. Estagnação da renda real, precarização do
trabalho, condições mais difíceis para a aposentadoria, e endividamento levaram
a classe média ao desespero. Certamente em cada região ou país a insatisfação
desse segmento social assumiu características próprias. Entretanto, as
condições econômicas quase sempre estão presentes. Na maioria dos países
periféricos, especialmente na América Latina, não foi diferente. As condições
de vida dos setores mais vulneráveis da população se deterioraram. Mesmo a
reduzida classe média desses países sentiu a queda.
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Uma resposta eleitoral nada surpreendente
Com o
agravamento das condições de vida, a população começou a votar em candidatos de
extrema direita que se declaravam antissistema. Não por acaso, escolheram
Donald Trump nos EUA, Jair Bolsonaro no Brasil, Javier Milei na Argentina, José
Antonio Kast no Chile, Nayib Bukele em El Salvador e Nasry Asfura em Honduras.
Na Europa votaram em Viktor Orbán na Hungria, Giulia Meloni na Itália, Geert
Wilders nos Países Baixos, Herbert Kickl na Áustria e Karol Nawrocki na
Polônia. Mesmo em países onde esses grupos não chegaram ao poder, seus partidos
têm demonstrado um crescimento constante.
Observadores
atentos têm constatado que a ascensão da extrema direita tem sido acompanhada
por um declínio das instituições democráticas em todo o mundo. O Instituto
V-Dem, do Departamento de Ciência Política da Universidade de Gothenburg na
Suécia, é o principal organismo acadêmico que acompanha essa evolução. Segundo
seu último relatório, publicado em março de 2026, em 2005, 50% da população
mundial vivia em uma democracia, enquanto que em 2025 somente 26% está nessa
condição; uma queda de quase à metade em duas décadas.
Essa
correlação não deveria nos surpreender, já que existem precedentes históricos
para tal comportamento coletivo. Nas décadas seguintes ao término da Primeira
Guerra Mundial, a população alemã, diante de condições de vida degradantes,
colocou no poder um partido nazista de triste memória que, entre outras
barbaridades, sepultou de vez os últimos resquícios de democracia, herdados da
República de Weimar.
Deve-se
observar que, os líderes da extrema direita, uma vez eleitos, não se propõem a
restaurar o estado de bem-estar social, nem promover o desenvolvimento dos
países ainda atrasados. Na verdade, misturam atitudes caóticas e
antidemocráticas com aprofundamento do ultraliberalismo, agravando ainda mais
as precárias condições dos mais vulneráveis e dificultando a vida da classe
média.
Donald
Trump nos EUA, adota uma mistura de delírios autoritários com medidas que
favorecem o grande capital, deixando de fora qualquer expectativa de retorno ao
“sonho americano”. Perseguição implacável aos imigrantes, tarifas
protecionistas indiscriminadas, intervenção ideológica nas maiores
Universidades, desregulamentação das Big Techs e cortes de impostos para os
mais ricos são alguns dos pontos mais característicos de sua agenda.
Além
disso, numa clara subordinação ao complexo militar industrial, aumenta as
verbas para projetos armamentistas e intervém militarmente em outros países. “A
proposta orçamentária de Trump para o ano fiscal de 2027 prevê um gasto de US$
1,5 trilhão em defesa, de longe o maior valor em dólares da história moderna” (Wall
Street Journal em 04 04 26). No Irã, diretamente ou através de Israel,
despeja grande quantidade de armas de todo tipo, certamente aumentando as
encomendas e contratos para os seus fabricantes e fornecedores. O complexo
militar industrial, do qual nos alertava Dwight Eisenhower no seu discurso de
despedida, agradece e retribui; com vultuosas contribuições para as
próximas campanhas eleitorais.
No
Brasil, Jair Bolsonaro tem uma administração igualmente caótica; não poucas
vezes tentou golpear as instituições democráticas; promoveu uma campanha
antivacinação em plena epidemia da Covid 19; desmontou sistematicamente o
combate à degradação ambiental e incentivou o desprezo e agressão às mulheres.
Na
economia, entregou o controle ao ultraliberal Paulo Guedes que privatizou
setores estratégicos para o desenvolvimento, como a Eletrobrás, a BR
Distribuidora e a Refinaria Landulpho Alves. Além disso, buscou, a qualquer
custo e sem critério, redução do orçamento público, não distinguindo gastos com
investimentos de despesas correntes; comprometendo ainda mais o já combalido
crescimento da economia.
Diante
desse quadro, seria de se esperar uma reação coordenada dos partidos mais à
esquerda do espectro ideológico. Trabalhistas, socialistas e social democratas,
ao invés de se submeter à onda neoliberal, poderiam apresentar para suas bases
políticas e eleitorais um projeto alternativo, de longo prazo e convincente.
Deveriam propor a retomada do desenvolvimento para os emergentes, tendo como
objetivo o Estado de bem-estar social para todos.
Uma
atitude desse tipo seria capaz de despertar a esperança por um futuro melhor,
colocando o campo progressista de volta à liderança do jogo político. Nada
disso é impossível, já que uma parte dos asiáticos conseguiu e outros estão a
caminho. Naturalmente, esses países vêm adotando modelos econômicos distantes
do neoliberalismo. No geral, constroem modelos híbridos onde o Estado tem forte
presença.
Fonte:
Por Sergio Gonzaga de Oliveira, em A Terra é Redonda

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