Após
Congresso derrubar veto de Lula, discussão sobre redução de penas deve voltar
ao Supremo
O líder
do PT na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai (SC), afirmou nesta quinta-feira
(30) que a base do
governo vai recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) após
o Congresso
derrubar o veto do presidente Lula (PT) ao projeto de lei que
reduz as penas dos condenados por atos golpistas, entre eles o ex-presidente
Jair Bolsonaro (PL).
Além de
reduzir penas, o projeto de lei também encurta o tempo que condenados devem
passar na prisão em regime fechado.
Com a
derrubada do veto, a lei será promulgada e passará a valer. Se houver
questionamento ao STF, os ministros terão que decidir se ela está de acordo com
a Constituição. Se não estiver, será anulada.
O
jurista Gustavo Sampaio, professor de Direito Constitucional da Universidade
Federal Fluminense (UFF), entende que não há razões aparentes para declarar a
lei inconstitucional. Ele afirma que a derrubada do veto segue o rito legítimo.
"É
o Congresso que tem autoridade constitucional para editar a lei e, na medida em
que isso foi feito dentro do rito competente, não há nenhuma aparente razão de
inconstitucionalidade que possa macular o texto da nova lei, se ela vier a ser
promulgada, e a gerar, portanto, qualquer chance de declaração de
inconstitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal", diz.
"A
lei não parece inconstitucional e, portanto, ao Congresso é resguardado o poder
de derrubar um veto imposto pelo presidente."
O
professor Gustavo Binenbojm, da Faculdade de Direito da Universidade Estadual
do Rio de Janeiro (Uerj), vai no mesmo sentido e afirma que cabe ao parlamento
discutir a dosimetria das penas.
"A
descrição da dosimetria das penas é matéria para o legislador ordinário. Não há
nada que diga que o legislador não possa aumentar ou diminuir as penas”,
afirma.
Para
Binenbojm, se houver discussão no plenário do Supremo, a maioria concordará que
a dosimetria foi uma solução intermediária e "compromissória" entre
declarar anistia e "não fazer nada".
O
chamado PL da dosimetria foi aprovado pelo Congresso no fim do ano
passado. Em janeiro,
Lula vetou integralmente o texto por entender que ele viola a
Constituição e estimula crimes contra a democracia.
Entre
os argumentos apresentados, o governo afirmou que a lei poderia
"representar a impunidade baseada em interesses casuísticos" e
afrontar "princípios constitucionais da proporcionalidade, da isonomia e
da impessoalidade".
Para
Gustavo Sampaio, eventualmente o STF poderia avaliar esse argumento em uma
discussão sobre a legitimidade da lei. "O Supremo pode dizer que, no lugar
de cumprir o papel de um legislador para todos, o Congresso produziu uma lei
específica para um grupo específico que ele queria beneficiar", afirma.
O
jurista pondera, no entanto, que diante do desgaste entre os Três Poderes, o
tribunal irá calcular os efeitos políticos de suspender o projeto de lei.
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O que acontece agora
A
redução das penas não é automática. A defesa dos condenados ou o Ministério
Público terá que entrar com pedido no Supremo, que será o responsável por
recalcular as punições.
"Cada
condenado terá que apresentar um pedido ao juiz da execução, que irá analisar
caso a caso se essa lei aprovada passar a incidir", diz o advogado
criminalista Felipe Carrijo.
No caso
dos condenados pelo Supremo, esse juiz é Alexandre de Moraes, relator dos
processos relacionados aos atos antidemocráticos.
Binenbojm
lembra que existe o princípio da lei mais benéfica, que determina que uma lei
penal nova, se mais favorável ao réu, deve alcançar fatos anteriores, mesmo
após o trânsito em julgado.
O
gabinete de Moraes informou na quarta-feira (29) que 190 pessoas estão presas
pelos atos antidemocráticos e pela tentativa de golpe. Ao todo, 1.402 réus
foram responsabilizados criminalmente. Considerando todos os casos, pelo menos
280 podem se beneficiar da nova lei, entre eles Bolsonaro, que cumpre pena de
27 anos e 3 meses e está em prisão domiciliar por questões de saúde.
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O que muda com o projeto da dosimetria
Quando
condenou Bolsonaro e o "núcleo crucial" da trama golpista, a Primeira
Turma do STF — formada por cinco ministros — entendeu que as penas pelos crimes
de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito devem ser
somadas. Essa interpretação também prevaleceu nas condenações dos réus pelos
ataques de 8 de janeiro de 2023, decididas em plenário, em que todos os
ministros votam.
O PL da
dosimetria, por outro lado, considera que, se esses dois crimes forem cometidos
no mesmo contexto, as penas não serão somadas. Vale a pena do crime mais grave
com acréscimo de um sexto até a metade. Abolição violenta tem pena mínima de 4
anos de prisão e máxima de 8. Já o crime de golpe prevê detenção de 4 a 12
anos.
Estabelece
também a redução de pena para crimes em contexto de multidão, desde que o
condenado não tenha financiado os atos nem exercido papel de liderança.
O
advogado criminalista Felipe Carrijo afirma que, se for provocado, o Supremo
pode discutir a constitucionalidade da lei. "A questão das penas foi muito
debatida durante todo o processo. O STF sempre teve uma posição firme, e deve
manter a coerência."
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Manobra de Alcolumbre
Antes
da votação dos vetos no Congresso, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre
(União-AP), excluiu da análise um trecho do PL que ia contra a Lei Antifacção.
O
trecho facilitaria a progressão para o regime semiaberto de condenados por
feminicídio e outros crimes hediondos. Assim, integrantes de facções criminosas
também seriam beneficiados.
Como o
veto de Lula foi integral, o comum seria que o Congresso votasse o texto também
integralmente, sem excluir nada. A manobra não é usual.
Alcolumbre
anunciou a “prejudicialidade” do trecho que trata da progressão de regime.
Argumentou que o PL Antifacção foi discutido depois da dosimetria e, por isso,
seriam mantidas as regras posteriores.
Na
avaliação de governistas, somente o fato de um veto integral de Lula ter sido
fatiado pelo parlamento já é um argumento para questionamentos na Justiça.
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Saiba o que pode acontecer com Bolsonaro
Com a
derrubada do veto do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) nesta quinta-feira (30), o Congresso
Nacional concluiu a análise do projeto
conhecido como PL da Dosimetria.
O
projeto reduz penas de condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023,
incluindo o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL), que, atualmente, está em prisão domiciliar e
pode migrar de regime em um prazo menor (entenda mais abaixo).
O texto
será encaminhado para promulgação pelo presidente Lula em até 48 horas. Caso
isso não ocorra, a tarefa caberá ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre
(União Brasil-AP).
Após a
promulgação, o texto passa a valer como lei, com vigência imediata após a publicação
oficial.
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Situação de Bolsonaro
Bolsonaro
está há pouco mais de um mês em prisão domiciliar por questões de saúde, mas,
em tese, segue em regime fechado, pois foi condenado a 27 anos e três
meses de prisão por tentativa de golpe.
Segundo
a Vara de Execuções Penais do Distrito Federal, ele só poderia passar do
regime fechado para o semiaberto dentro de sete anos, em 2033.
Com a
nova regra, especialistas estimam que o ex-presidente terá chance de
migrar de regime num prazo que varia entre dois e quatro anos.
Isso
porque o texto impede a soma de dois crimes:
- abolição
violenta do Estado Democrático de Direito, com pena de 4 a 8
anos de prisão;
- golpe de Estado,
com pena de 4 a 12 anos.
Pela
medida, vale a pena do crime mais grave — golpe de Estado — acrescida de um
sexto até a metade.
O
projeto também prevê redução da pena de um a dois terços quando os crimes
ocorrerem em contexto de multidão, desde que o réu não tenha financiado os atos
nem exercido papel de liderança.
Caberá
ao Supremo Tribunal Federal (STF)
recalcular as punições de cada um dos réus.
Para
isso, a corte precisará ser provocada, por exemplo, pela defesa de algum dos
condenados, pelo Ministério Público ou por um ministro relator de um dos casos
da tentativa de golpe. Portanto, a redução de
pena não será automática.
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Relação entre governo e Congresso
A
derrubada do veto no Congresso ocorre após o Senado rejeitar nesta quarta-feira
(29) o nome do advogado-geral da União Jorge Messias, indicado por Lula para
ser ministro do STF.
Essa é
a primeira vez desde 1894 que os senadores rejeitam uma indicação do presidente
da República ao Supremo.
A
escolha de Lula por Messias em novembro de 2025 deflagrou uma crise com
Alcolumbre, que buscava emplacar o colega e aliado de primeira hora Rodrigo
Pacheco (PSB-MG).
O
movimento do amapaense pela rejeição fez o governo adiar o envio da mensagem
formalizando a indicação, o que só ocorreu no início do mês.
Após a
indicação em novembro do ano passado, Alcolumbre chegou a anunciar que a
sabatina ocorreria em duas semanas, para evitar que Messias visitasse os
senadores e não conseguisse os votos.
Em
abril deste ano, após o anúncio do calendário para a sabatina, Alcolumbre se
recusou a receber Messias em uma audiência oficial.
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Seis partidos na Câmara e cinco no Senado votaram 100% a
favor da redução da pena dos condenados pelo 8 de janeiro
Seis
partidos na Câmara e cinco no Senado votaram
integralmente pela derrubada do
veto do presidente Lula (PT) ao PL da Dosimetria, que reduz as penas
de Jair Bolsonaro (PL) e de outros condenados pelos atos golpistas de 8 de
janeiro de 2023.
A
votação aconteceu na tarde desta quinta-feira (30), em sessão conjunta da
Câmara e do Senado. Para que fosse derrubado o veto, eram necessários ao menos
257 votos de deputados e 41 de senadores.
Na
Câmara, 318 deputados votaram NÃO ao veto de Lula (e a favor da
redução das penas) e 144 deputados votaram SIM ao veto (e contra a redução das
penas).
Na
Câmara, os seis partidos que foram 100% favoráveis à redução das penas são PL,
<><> PSDB, Novo, PRD, Cidadania e Missão.
Pelos
critérios do levantamento, o Solidariedade e o União Brasil não entram nessa
conta porque registraram uma abstenção cada.
Por
outro lado, todos os deputados de PT, PSOL, PCdoB, PV e Rede votaram
para manter o veto de Lula e evitar a redução das penas de Bolsonaro e aliados.
No
Senado, foram 49 votos NÃO ao veto e 24 SIM. Votaram 100% a favor de derrubar o
veto e reduzir as penas os senadores de PL, PSDB, Novo, União Brasil e
Avante.
Republicanos
e Podemos registraram uma ausência cada um. Considerando os parlamentares
desses partidos que estavam presentes, todos votaram contra o governo.
Todos
os senadores do PT e do PDT votaram a favor de manter o veto e contra reduzir
as penas.
Fonte:
g1

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