sexta-feira, 1 de maio de 2026

A série de ataques que fez Reino Unido classificar antissemitismo como 'emergência de segurança nacional'

O revisor independente do governo britânico para a legislação sobre terrorismo e ameaças do Estado, Jonathan Hall, afirmou que os ataques contra pessoas judias no Reino Unido se tornaram "a maior emergência de segurança nacional" desde 2017, em meio a uma série recente de incidentes — incluindo um esfaqueamento em Golders Green, no norte de Londres na última quarta-feira (29/4).

"Há britânicos em Londres, em particular, em Manchester, mas provavelmente em todo o país, que agora estão pensando que não podem viver uma vida normal. E não se trata de um único ataque, são múltiplos ataques", disse Hall à BBC.

No crime mais recente dois homens judeus foram esfaqueados em Golders Green em um incidente classificado como terrorismo pela Metropolitan Police. As vítimas, identificadas localmente como Shilome Rand, de 34 anos, e Moshe Shine, de 76, foram atendidas no local e estão em condição estável no hospital.

Um homem de 45 anos, cidadão britânico nascido na Somália, foi imobilizado com um taser antes de ser preso sob suspeita de tentativa de homicídio. Ele permanece sob custódia.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, classificou o episódio como um "ataque antissemita" "absolutamente revoltante" e afirmou: "Ataques contra a nossa comunidade judaica são ataques contra a Grã-Bretanha."

O caso ocorre em um contexto de pressão crescente sobre o governo para enfrentar o antissemitismo no país. O ataque em Golders Green é o mais recente de uma série de episódios recentes:

  • 27 de abril: Um suposto ataque incendiário foi realizado contra um muro memorial em Golders Green. O muro continha homenagens a manifestantes mortos pelo regime iraniano durante protestos antigoverno no início deste ano, além de uma seção dedicada às vítimas do ataque do Hamas a Israel em 2023.
  • 18 de abril: Uma garrafa contendo um tipo de acelerante foi lançada pela janela da Kenton United Synagogue, no noroeste de Londres.
  • 17 de abril: Itens suspeitos, posteriormente considerados não perigosos, foram encontrados perto da embaixada de Israel em Londres. Um vídeo publicado anteriormente nas redes sociais afirmava que a embaixada seria atacada por drones.
  • 15 de abril: Um tijolo e duas garrafas que se acredita conterem gasolina foram lançados contra a Finchley Reform Synagogue, no norte de Londres.
  • 23 de março: Quatro ambulâncias pertencentes a uma instituição de caridade judaica foram incendiadas no estacionamento de uma sinagoga em Golders Green.
  • 2 de outubro de 2025: Duas pessoas judias foram mortas e outras três ficaram em estado grave após um ataque com carro e facas do lado de fora de uma sinagoga em Manchester. Um dos homens foi morto por um disparo efetuado pela polícia.

O rabino-chefe do Reino Unido, Ephraim Mirvis, afirmou que o episódio "prova que, se você é visivelmente judeu, não está seguro e muito mais precisa ser feito".

Ele pediu "ações concretas" para enfrentar as "causas profundas" do antissemitismo. Já o Board of Deputies of British Jews declarou que o problema deve ser "enfrentado, punido e dissuadido com toda a força do Estado".

Após o ataque, o gabinete do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que palavras "não são suficientes para enfrentar esse flagelo" de ataques em Londres.

<><> O ataque em Golders Green

A Polícia Metropolitana informou que seus agentes responderam às 11h16 no horário local — 7h16 em Brasília — de quarta-feira após receberem relatos de que pessoas haviam sido esfaqueadas.

Segundo a corporação, o suspeito também tentou esfaquear os policiais que atenderam à ocorrência, mas ninguém ficou ferido.

Um vídeo compartilhado nas redes sociais parece mostrar o momento da prisão. Dois agentes se aproximam do homem antes de um deles usar um taser, fazendo com que ele caia no chão.

O homem então parece segurar um objeto cortante contra o próprio peito com as duas mãos, enquanto os policiais e um transeunte tentam retirar o objeto. Durante a luta, os agentes podem ser vistos chutando o homem na cabeça várias vezes.

A Polícia Metropolitana divulgou imagens do incidente captadas pelas câmeras corporais dos agentes, nas quais é possível ouvi-los repetindo ordens para que o suspeito "se deite no chão" antes de ser atingido pelo taser e, em seguida, que "solte a faca".

"O suspeito se recusou a mostrar as mãos, foi violento e continuou representando uma ameaça clara", afirmou a corporação, acrescentando que ele "continuou tentando atacar e esfaquear" os policiais enquanto era contido.

O comissário da Polícia Metropolitana, Mark Rowley, elogiou a coragem dos agentes, dizendo: "Eles não eram policiais armados e temiam que ele estivesse carregando um dispositivo explosivo."

Ele acrescentou, em declaração no local na tarde de quarta-feira, que o suspeito tinha histórico de violência grave e problemas de saúde mental.

A Polícia Metropolitana informou posteriormente que agentes realizavam buscas em um endereço no sudeste de Londres. Detetives acreditam que o mesmo suspeito esteve envolvido em um incidente anterior na região.

A polícia foi acionada às 08h50 no horário local — 4h50 em Brasília — de terça-feira após relatos de que o suspeito esteve envolvido em uma altercação com o ocupante de um imóvel.

O morador sofreu "ferimentos leves", e os policiais que atenderam à ocorrência não conseguiram localizar o suspeito, que já havia deixado o local.

Uma testemunha, Daniela, fazia compras em Golders Green na manhã de quarta-feira quando ouviu pessoas gritando: "Ele está com uma faca, corram."

A mulher, de 29 anos, disse à BBC que se abrigou em uma livraria próxima e viu o suspeito passar correndo em direção a uma via importante da região.

"Naquele momento, não havia ninguém na rua — todos tinham corrido", afirmou. "Éramos um grupo de mães com carrinhos de bebê. O dono da loja trancou a porta. Ficamos sem palavras."

Imagens de câmeras de segurança parecem mostrar um homem avançando contra uma pessoa que estava próxima a um ponto de ônibus. Em outro vídeo, um homem com roupas semelhantes é visto correndo por uma rua antes de perseguir um pedestre.

O primeiro-ministro, Keir Starmer, agradeceu ao Shomrim — grupo de segurança judaico cujos voluntários inicialmente detiveram o suspeito —, assim como ao serviço de ambulâncias voluntário Hatzola e à polícia, por "agirem rapidamente".

O Shomrim afirmou que mobilizou voluntários após receber um chamado sobre um homem correndo pela Golders Green Road "armado com uma faca e tentando esfaquear membros judeus do público".

Ben Grossnass, coordenador da organização, disse à BBC que seus voluntários "foram os primeiros a chegar ao local".

O chefe do comando de contraterrorismo, o comissário assistente Laurence Taylor, declarou formalmente o ataque como um incidente terrorista.

O comissário da Polícia Metropolitana, Mark Rowley, disse que seus "primeiros pensamentos" estavam com as vítimas, que foram atacadas "enquanto realizavam suas atividades diárias, algo que deveriam poder fazer de forma livre e segura".

Enquanto o chefe da polícia falava, ele foi vaiado por pessoas no local, que gritaram "vergonha" e "vocês falharam", além de pedirem sua renúncia. A deputada local, Sarah Sackman, também foi alvo de protestos.

Sackman, que é ministra da Justiça, disse compreender a raiva dos manifestantes e afirmou que combater o antissemitismo é "uma luta que precisa ser enfrentada por toda a sociedade".

Em entrevista à BBC, ela afirmou que o ataque demonstra que "as ameaças às pessoas judias neste país são muito reais", mas acrescentou: "não podemos garantir que todos estarão seguros".

A ministra, que também é judia, disse: "Quando levo meus filhos à sinagoga na minha região, me pego segurando a mão deles um pouco mais forte. Sei que não estou sozinha nisso."

Em uma declaração na rede X, o escritório do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que palavras "não são suficientes para enfrentar esse flagelo" de ataques em Londres.

Nos últimos meses, houve uma série de incidentes contra comunidades judaicas, incluindo um ataque incendiário a ambulâncias comunitárias e ocorrências em duas sinagogas de Londres.

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, disse estar "irritado", "chocado" e "indignado" com o fato de que pessoas judias estejam "vivendo suas vidas com medo".

O rei Charles 3º ficou "naturalmente profundamente preocupado" com o ataque de quarta-feira, afirmou um porta-voz do Palácio de Buckingham.

"Seus pensamentos e orações estão com os dois indivíduos feridos, e ele expressa sua sincera gratidão àqueles que correram para ajudá-los de forma tão altruísta", acrescentou.

Questionado sobre se o governo está fazendo o suficiente para manter os judeus britânicos seguros, Starmer disse que quer "avaliar medidas de segurança reforçadas" e aumentar o financiamento já existente para proteger comunidades judaicas.

Ele acrescentou que também são necessárias medidas "para lidar com atores estatais mal-intencionados". Vários ataques antissemitas anteriores foram ligados a regimes hostis.

Os comentários do primeiro-ministro ocorreram após ele presidir uma reunião de emergência sobre o ataque.

A líder do Partido Conservador, Kemi Badenoch, afirmou que há agora "uma epidemia de violência contra pessoas judias", que se tornou "uma emergência nacional".

O líder do Reform UK, Nigel Farage, disse que o ataque foi "abominável, chocante, mas infelizmente agora totalmente previsível", acrescentando: "É temporada aberta contra pessoas judias neste país."

O líder dos Liberal Democratas, Ed Davey, afirmou que o incidente foi "horrível" e pediu que o governo "enfrente o antissemitismo onde quer que ele apareça".

Zack Polanski, líder do Partido Verde, descreveu o ataque como "horrendo" e disse estar "pensando nas vítimas, em suas famílias e em todos que, mais uma vez, serão abalados por esse ataque".

¨      O nível de ameaça terrorista no Reino Unido foi elevado para "grave" após o ataque em Golders Green

O Centro Conjunto de Análise do Terrorismo elevou o nível de ameaça terrorista no Reino Unido para "grave" após os ataques com faca em Golders Green, o que significa que um ataque terrorista é considerado "altamente provável".

A ministra do Interior, Shabana Mahmood , descreveu o ataque de quarta-feira como um ato vil de terrorismo. "Hoje, o nível de alerta nacional subiu para 'grave', o que significa que um ataque terrorista é considerado altamente provável", afirmou.

“Sei que isso será motivo de preocupação para muitos, especialmente em nossa comunidade judaica, que já sofreu tanto.”

A avaliação que elevou o nível de ameaça para grave indica que um ataque é altamente provável nos próximos seis meses. O nível anterior, "substancial", significava que um ataque era considerado provável.

Grave é o segundo nível mais alto em uma escala de cinco níveis de ameaça terrorista.

O Ministério do Interior declarou: “O aumento da ameaça surge na sequência do ataque a faca de ontem em Golders Green, no norte de Londres , mas não é resultado exclusivo desse ataque. O nível de ameaça terrorista no Reino Unido tem vindo a aumentar há algum tempo, impulsionado por um crescimento da ameaça terrorista islâmica e de extrema-direita em geral, proveniente de indivíduos e pequenos grupos sediados no Reino Unido.

“Embora o nível de ameaça nacional do Reino Unido, definido independentemente pelo JTAC, reflita a ameaça terrorista no Reino Unido, ele ocorre em um contexto de aumento das ameaças físicas ligadas ao Estado, o que está incentivando atos de violência, inclusive contra a comunidade judaica.”

Mahmood acrescentou: “O governo anunciou hoje um aumento significativo no investimento para proteger nossas comunidades judaicas, com financiamento recorde para policiamento e segurança em sinagogas, escolas e centros comunitários. E faremos tudo ao nosso alcance para livrar a sociedade do mal do antissemitismo.”

“Com o aumento do nível de ameaça, peço a todos que fiquem vigilantes no seu dia a dia e que relatem quaisquer preocupações que tenham à polícia.

“E posso garantir a todos que nossos serviços de segurança de classe mundial e a polícia estão trabalhando, dia e noite, para manter nosso país seguro.”

¨      Qual é a diferença entre antissemitismo e antissionismo

Desde os ataques do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023 e a consequente guerra em Gaza, discussões têm ocorrido nas redes sociais para entender a diferença entre antissemitismo e antissionismo.

<><> O que significam esses termos?

  • Antissemitismo significa preconceito contra o povo judeu e existe há séculos.
  • Antissionismo pode ser definido de forma geral como oposição à existência do Estado de Israel.

<><> O que é antissemitismo?

O povo judeu enfrenta preconceito, hostilidade e perseguição há séculos.

Durante a Segunda Guerra Mundial, seis milhões de judeus foram assassinados pelos nazistas ou seus cúmplices no que é conhecido como Holocausto.

O antissemitismo moderno pode assumir muitas formas, incluindo, mas não se limitando a, teorias da conspiração sobre o controle judaico do sistema financeiro global e da mídia, ataques a sinagogas, abuso verbal ou discurso de ódio e memes abusivos nas redes sociais.

Às vezes, pessoas com pontos de vista diferentes sobre Israel discordam sobre se certos comentários ou opiniões são antissemitas ou não.

<><> O que é sionismo?

O sionismo começou como um movimento político na Europa no final do século 19. Ele buscava desenvolver a nacionalidade judaica na terra conhecida como Palestina — também conhecida pelos judeus como a antiga Terra de Israel.

A ONU recomendou a divisão da Palestina em Estados judeu e árabe, e em 1948 o Estado de Israel foi declarado.

Entretanto, muitos árabes que viviam na Palestina e nas áreas vizinhas se opuseram à criação de Israel, vendo isso como uma negação dos direitos árabes.

Hoje em dia aqueles que se identificam como parte do movimento sionista acreditam na proteção e no desenvolvimento de Israel como nação judaica.

Existem variações do sionismo — por exemplo, alguns sionistas acreditam que Israel tem direito a algumas áreas de terra além de seu território.

Outros sionistas discordam.

Muitos judeus apoiam ou simpatizam com os princípios fundamentais do sionismo, ou seja, que um Estado judeu deve existir no que hoje é Israel.

Uma minoria se opõe ao sionismo, por razões religiosas ou políticas.

Pessoas não judias também podem ser sionistas.

O antisionismo pode ser definido de forma geral como oposição à existência do Estado de Israel.

Há críticos sionistas das políticas do governo israelense, como a ocupação da Cisjordânia, a rota da barreira de separação (que Israel está construindo dentro e ao redor da Cisjordânia e que diz ser para segurança contra invasores palestinos, embora os apoiadores palestinos a vejam como um dispositivo para tomar terras) e a construção de assentamentos.

Quando as pessoas criticam Israel de forma agressiva pode ser difícil saber se a crítica é motivada ou não por antissemitismo.

Isso levou a acusações de que o antissionismo — ou seja, a rejeição do Estado judeu — seria meramente uma forma moderna de antissemitismo.

A Aliança Internacional para a Memória do Holocausto diz que algumas alegações e acusações contra Israel constituem antissemitismo.

Aqueles que rejeitam essa ideia dizem que esse argumento é usado como uma ferramenta pelos apoiadores de Israel para silenciar críticas razoáveis a Israel, retratando essas críticas como racistas.

Alguns dizem que o termo "sionista" pode ser usado como um ataque velado ao povo judeu.

Já outros dizem que o governo israelense e seus apoiadores estão confundindo antissionismo com antissemitismo de forma deliberada para evitar críticas às suas ações.

 

Fonte: BBC News Mundo/The Guardian

 

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