Raio-x
dos militares na Venezuela indica cansaço com chavismo, mas manutenção da ordem
Em
2025, dois meses após María Alejandra Díaz Marín deixar a Venezuela e chegar
exilada à Colômbia, ela buscou proteção junto ao Alto Comissariado das Nações
Unidas para os Refugiados, a Acnur. Nesse dia, a advogada e doutoranda em
Segurança da Nação, viu ao seu redor três militares venezuelanos desertores. Um
se aproximou e disse: “Doutora, veja, eu sou do primeiro anel e aquele que está
sentado ali também”. A Guarda de Honra é o corpo especial responsável pela
segurança presidencial. O jovem disse a Díaz Marín que a deserção é assustadora
porque eles são presos se pedirem baixa — o pedido de desligamento.
Ela
observou que esses jovens não chegavam aos 22 anos, que saíram da Venezuela sem
atendimento médico evidente, com seus filhos pequenos e sapatos rasgados,
caminhando até a Colômbia. Com surpresa, lembrou que naquele dia “havia uma
quantidade significativa de entrevistas para desertores”. “Não, doutora, eu não
aguento essa perseguição. Ligaram para minha esposa nos acusando de traidores”,
confessou o jovem militar, visivelmente emocionado, enquanto aguardavam a
entrevista na Acnur, em uma cidade colombiana.
Além
disso, o militar desabafou dizendo que estava “mal alimentado, mal vestido, não
nos dão nem armamento, porque inclusive têm medo de que possamos fazer algo.
Nos desarmaram, doutora”, recordou Díaz Marín, que relata que as forças armadas
foram precarizadas, e que a desconfiança do regime de Nicolás Maduro em relação
aos militares o levou a entregar sua vida cegamente aos cubanos que o
protegiam.
A
história dos três jovens militares desertores não é uma exceção, antes o
contrário. É um fato que militares têm deixado as forças venezuelanas, apesar
da perseguição do regime de Maduro, que governou o país até o seu sequestro
pelos Estados Unidos em janeiro deste ano. Com o fim do governo de Maduro e
início da presidência de Delcy Rodríguez, a questão se tornou ainda mais
proeminente: as Forças Armadas se manteriam fiéis à nova presidente em
exercício?
A
Agência Pública conversou com especialistas venezuelanos, que acreditam que,
por ora, o governo mantém a unidade de comando dentro das forças militares.
Esse fator teria sido determinante para a decisão de Donald Trump ao permitir
que Rodríguez se mantivesse no poder.
Contudo,
a repressão do regime dificulta e muito medir essa fidelidade — até mesmo que
esse assunto seja conversado com jornalistas.
A
Pública consultou a opinião do deputado governista Francisco Arias Cárdenas,
que respondeu: “Vou te dar [a opinião] em breve” e despediu-se cordialmente.
Esse militar foi companheiro de armas de Hugo Chávez e, no ano passado, foi
promovido a general por Nicolás Maduro.
Embora
alguns especialistas consultados afirmem que é muito difícil, neste momento,
visualizar o mapa de opiniões dentro das forças militares devido ao silêncio
imposto pelo terror, ao mesmo tempo identificam uma corrente colaboracionista e
outra que presume que a intervenção militar de 3 de janeiro foi um teatro de
uma entrega pactuada.
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Bases das Forças Armadas estão cansadas da crise econômica
Em 2019
foi o último ano em que o Ministério da Defesa da Venezuela divulgou a
quantidade de membros da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), com números
entre 95 mil e 150 mil combatentes ativos. O Instituto Internacional de Estudos
Estratégicos (IISS, na sigla em inglês) assegurou em 2025 que a Venezuela teria
123 mil soldados ativos, dos quais 63 mil pertenceriam ao Exército Bolivariano.
“Não há uma estimativa precisa porque eles inflaram os números”, disse a
constitucionalista María Alejandra Díaz Marín quando consultada.
Barráez
é categórica na entrevista à Pública: “Havia um número antes e outro depois do
3 de janeiro”, e enfatizou que a deserção é evidente, especialmente nos
componentes da Guarda Nacional Bolivariana e do Exército, “onde as deserções
ocorreram aos milhares”, afirma.
Os
especialistas ouvidos pela Pública concordam que a cúpula militar se mantém
leal ao governo por interesses financeiros, mas sabem que as bases das forças
militares sofrem, como qualquer cidadão, com a crise econômica.
Por
outro lado, Díaz Marín considera que é muito difícil que as forças militares
topassem uma subordinação à opositora María Corina Machado, depois de ela ter
pedido a invasão do país – episódio em que pelo menos 100 pessoas foram
assassinadas entre civis e soldados de baixa patente, segundo relatos oficiais.
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Os militares defendem a República de uma anarquia
O
ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, disse em 23 de janeiro diante do
monumento de El Callao: “Temos sido perseverantes na preservação da paz” e
elogiou a constância das forças militares “para defender a República das
mesquinharias, dos egoísmos, das ambições, dos divisionismos”.
Essa
declaração é fundamental para compreender a atual doutrina militar e o papel do
ministro Padrino López diante dos Estados Unidos. Esse papel de contenção busca
“evitar uma rebelião e que não surja um novo militar como Chávez”, que
interfira no objetivo de reindustrializar os Estados Unidos, opina Díaz Marín.
No
momento da entrevista com Sebastiana Barráez, o embaixador russo na Venezuela,
Sergey Mélik-Bagdasárov, havia declarado que a falha de 3 de janeiro foi
negligência criminosa e falou em traição. Por isso, Barráez considera que tanto
Padrino López quanto o comandante estratégico operacional Domingo Hernández
Lárez perderam o apoio da Rússia. “Isso é devastador e por isso eles vão deixar
os cargos”, disse. Poucos dias depois, o embaixador russo na ONU, Vasili
Nebenzia, apontou diretamente o alto comando militar venezuelano por entregar
Maduro.
Uma
fonte de alto nível e de difícil acesso aceitou falar rapidamente com a
Pública, sob condição de anonimato. Pediu para não ser gravada para garantir a
confidencialidade, já que no país, por muito menos, há centenas de civis e
militares desaparecidos, sequestrados e torturados.
Após
uma extensa análise geopolítica, explicou que Trump precisa de parte da
população venezuelana para seu objetivo imperialista e, ao mesmo tempo, precisa
da ordem interna das forças militares e do Exército. Acrescentou que
“bombardear Nicolás Maduro, Diosdado Cabello e Delcy Rodríguez teria resultado
em uma anarquia, que não é viável para extrair petróleo”. Sua projeção como
pessoa acadêmica e especialista é que haverá uma transição, depois eleições e,
em seguida, uma constituinte.
Além
disso, essa fonte acredita que em sete meses, segundo os prazos
constitucionais, pode ser desmontada a estrutura atual do governo, e que em 10
de janeiro de 2027, um novo presidente pode tomar posse. De outra forma, não
será possível renovar os poderes públicos, algo que considera indispensável
para Corina Machado.
“Trump
não ocupa a Venezuela com tropas porque a estrutura social chavista existe e
não vai permitir que ele se desgaste”, defende a fonte, que compartilhou com a
reportagem documentos pessoais e a Gazeta Oficial sobre a mudança de comando do
sistema defensivo territorial várias horas antes de circularem entre
correspondentes internacionais credenciados na Venezuela.
“Não é
um tema político. Nas forças militares há muita gente cansada. O décimo
terceiro salário para um militar ativo com estudos de pós-graduação foi de 60
dólares [cerca de R$ 314]”.
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O cenário do Iraque na Venezuela
“Eu não
acredito que a Venezuela pudesse ter terminado como o Iraque ou a Líbia, somos
um país muito diferente”, diz Ronna Rísquez, jornalista especializada em crime
organizado e direitos humanos, sobre a possibilidade de que as Forças Armadas
se dividissem e criassem uma guerra civil. Em seu estilo habitual, equilibrado
e prudente, Rísquez considerou que “não há armas na população civil nem entre
os opositores”; as armas estão nas mãos do ministro da Defesa, Padrino López, e
do ministro do Interior, Diosdado Cabello.
Com
outros argumentos, Díaz Marín considera que a ala tecnocrática dos Estados
Unidos contemplou a possibilidade de que militares ativos junto a grupos
armados atuassem como no Iraque e, a partir de um objetivo pragmático,
avaliaram a doutrina cívico-militar-policial e os discursos de Cabello.
“Acho
que aqui podem estar se fortalecendo uma nova forma de coletivos”, disse Ronna
Rísquez. Os coletivos são grupos paramilitares de civis armados sem
identificação, com múltiplas denúncias de violações de direitos humanos e
perseguição à dissidência política. Desde o envio de navios para o Caribe e o
bombardeio da Venezuela, os coletivos armados exercem funções de segurança
pública, estão em grande número nas cidades e agem com total impunidade contra
a população civil. Basta ver as caravanas de coletivos e policiais que escoltam
Diosdado Cabello.
Segundo
Rísquez, o que ocorreu em 3 de janeiro com as forças militares e o Exército
venezuelano deixou em evidência que “esse poder militar não é tão forte”. Além
disso, disse ter conhecimento de que o número de homens das forças armadas “é
totalmente insuficiente”.
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O poder econômico “ínfimo” da FANB
Segundo
a fonte que falou em sigilo com a Pública, “o poder está no Executivo; as
empresas que a Força Armada Nacional Bolivariana da Venezuela possui são algo
ínfimo”.
A
Pública falou com o jornalista Roberto Deniz, diretor do portal Armando.info,
que vê de uma forma distinta o poder dos militares. “Se você vê dessa forma,
dirá: sim, hoje em dia o Executivo, os Rodríguez, têm poder demais”, o que não
significa que todas as outras facções que têm poder vão perdê-lo, deixar de
existir ou serão anuladas.
A
constitucionalista Díaz Marín também pondera sobre o poder dos militares, e
afirmou que as que empresas são dirigidas por membros das Forças Armadas
dependem única e exclusivamente deles e que “a Controladoria-Geral da República
não as audita. Não é qualquer coisa. São um poder”, defende.
A
jornalista Ronna Rísquez mencionou diversas denúncias públicas sobre o Arco
Mineiro do Orinoco, onde coexiste a mega banda Tren de Aragua com funcionários
corruptos, e confirmou o segredo aberto sobre funcionários “envolvidos na
mineração ilegal”, embora não esteja claro se isso funciona como uma política
das Forças Armadas ou se se trata apenas de algumas maçãs podres.
Para
Roberto Deniz, o regime venezuelano é uma cleptocracia, na qual os militares
“evidentemente têm muito poder econômico”, e questiona a transparência do
orçamento do Ministério da Defesa. Na série “Terceirização militar”,
demonstraram que uma quantidade significativa de militares ativos também era
contratista do Estado. “É ilegal, é contrário às leis”, disse para esta
investigação.
Deniz
contou que um dos poucos grandes contratistas a quem a estatal Petróleos de
Venezuela pagava em dia e concedia muitos contratos é um militar ligado a
Diosdado Cabello, que possui uma empresa muito grande. Por isso, considera
irrealista pensar que essas estruturas de corrupção vão renunciar a esse poder
da noite para o dia.
Ao
contrário, para Roberto Deniz, é previsível que Delcy Rodríguez equilibre todas
essas forças, assim como Maduro fez ao saber que não contava com a
popularidade, o dinheiro e a confiança interna e externa que Hugo Chávez
possuía.
No
final desta investigação, em 3 de fevereiro, o ministro da Defesa Vladimir
Padrino López respondeu que a FANB não foi desleal: «Eu, que vi em primeira mão
os pilotos prontos, vestidos para entrar em combate, é claro, com a supremacia
aérea que havia, mais de 150 aeronaves no nosso espaço aéreo, era inviável
tirar um avião. É enviar pilotos para a morte e para o suicídio”.
Em 5 de
fevereiro, foi aprovado em primeira discussão na Assembleia Nacional o Projeto
de Lei de Anistia para a Convivencia Democrática. A ONG Surgentes DDHH, cuja
codiretora Martha Lía Grajales é prisioneira política com medidas cautelares,
denunciou que trabalhadores, camponeses e militares presos por motivos
políticos estão sendo excluídos do projeto de lei, muitos deles acusados de
crimes de conspiração e traição à pátria: “Merecem menção especial os militares
acusados de cometer crimes militares. Seja real ou não sua participação nesses
fatos, desde que não tenham causado mortes, eles também devem ser incluídos na
anistia”.
Fonte:
Por Danna Urdaneta, em Agência Pública

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