Brasil
vive epidemia de violência de gênero
Entre a
população LGBTQIA+, o número de agressões físicas e psicológicas subiu quase
40% em um ano. Nessa comunidade, mulheres trans foram 66,3% das vítimas
transgênero.
Em
todas as situações, a maior parte das hostilidades parte de homens, segundo o
estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro
de Segurança Pública (FBSP) que se utiliza de informações do Sistema de
Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde.
Em
2022, no total das agressões contra mulheres, oito em cada dez aconteceram em
ambiente familiar. Em números, de 144,2 mil ocorrências registradas, 116,8 mil
foram episódios de violência que ocorreram nos próprios lares, 81% do total. Os
homens foram os agressores em 86,6% das situações.
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Redução de um lado, epidemia de outro
Nos
dois anos levantados pelo Atlas, houve 3.806 homicídios de mulheres e a taxa
nacional ficou na ordem de 3,5 por 100 mil habitantes. Desde 2020, a taxa de
homicídios de mulheres está em declínio, após atingir um pico de 4,7 em 2017.
Por
outro lado, o Atlas aponta a existência de uma “epidemia” de violência sexual
contra meninas no país. As principais vítimas, de 10 a 14 anos, representaram
49,6% dos casos em 2022. A faixa etária de 0 a 9 anos teve 30,4% dos casos.
A
partir dos 15 anos, revela o Atlas, a violência física contra mulheres torna-se
mais comum. A estatística aponta 35,1% dos casos entre os 15 e 19 anos, 49%
entre 20 e 24 anos e 40% entre 25 e 59 anos.
Com
base nesses indicadores, a diretora-executiva do Fórum de Segurança Pública,
Samira Bueno, destaca que as brasileiras estão expostas à violência ao longo de
suas vidas.
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Violência e transfobia
As
agressões físicas e psicológicas contra a população LGBTQIA+ no Brasil
aumentaram entre 2021 e 2022 em especial entre jovens e negros. Mais uma vez, a
maioria dos agressores (70,9%) é composta pelos homens.
Em
2022, de acordo com o levantamento, 8.028 pessoas LGBTQIA+ foram registradas
como vítimas de violência. O aumento foi de 39,4% em relação a 2021 e
contabilizou uma média de 22 casos por dia.
Homossexuais
constituem 72,5% das vítimas e a maioria se localizou na faixa etária de 15 a
34 anos, 63,7%.
As
mulheres foram vitimadas em 67,1% dos casos, quase o dobro do número de homens,
32,7%.
As
pessoas bissexuais representaram 27,4% das agredidas, mas, entre elas, foram os
mais jovens que sofreram algum tipo de violência. Um percentual de 65,2%,
concentrada na faixa etária de 15 a 29 anos.
No
total, o perfil racial das vítimas é majoritariamente de pessoas negras
(55,6%), seguidos por brancos (39,2%), amarelos (1,1%) e indígenas (0,7%).
Na
comunidade LGBTQIA+, as pessoas identificadas com o gênero feminino foram as
principais vítimas. Mulheres trans representaram 66,3% dos alvos.
• Gentis, divertidos, comprometidos: os
abusadores são homens "normais"
Eles
podem ser gentis, bons colegas de trabalho, amorosos, engraçados, comprometidos
com esta ou aquela causa, votar em um partido ou outro; podem ser juízes,
operários da construção civil, jornalistas, médicos ou entregadores: os
agressores do sexo masculino são homens "normais" com todos os tipos
de qualidades, profissões e ideologias. Ao contrário da ideia ainda difundida
de que existe um perfil mais ou menos específico de um homem que comete
violência masculina, ou que um acesso de raiva ou doença mental esteja por trás
de um assassinato, as evidências mostram exatamente o oposto.
“Não
existe um perfil de agressor, nem jamais existirá: são homens normais. Gentis,
afetuosos... continuamos a transmitir a normalidade que define essa pessoa como
se fosse algo incompatível com a violência de gênero, quando é o oposto,
totalmente compatível com a violência de gênero”, resume o perito forense
Miguel Lorente, que foi Delegado do Governo para a Violência de Gênero e
dedicou parte da sua carreira ao estudo de agressores masculinos e à análise de
homicídios.
Anos
atrás, quando começou sua pesquisa sobre o assunto, ela lembra que era comum a
mídia e até mesmo os tribunais lhe perguntarem se um homem “se encaixava” no
perfil de um agressor. “Até que me cansei disso e um dia disse: sim, o perfil
existe e tem três características: homem, masculino, do sexo masculino”,
destaca. Porque por trás da violência de gênero não há um perfil de
personalidade específico ou um nível sociocultural, afirma Olga Barroso,
psicóloga especializada em violência masculina, mas sim a internalização,
consciente ou inconsciente, de um padrão de pensamento, uma estrutura
emocional: uma que pressupõe que a posição da mulher nas relações afetivas é
subordinada à do homem.
O caso
mais recente que exemplifica como continuamos a não compreender a violência de
gênero e quem a perpetra é o de Alpedrete: seu prefeito, Juan Fernández
Rodríguez, afirmou que o homem que esfaqueou a esposa 50 vezes “a amava” e
havia “sucumbido à pressão” de suas circunstâncias pessoais. “Não vejo
violência de gênero”, concluiu o prefeito, alegando que não havia “ódio”
envolvido no assassinato.
Olga
Barroso, autora de Love Doesn't Abuse (Shackelton, 2024), destaca que um
agressor é um homem que tipicamente demonstra violência apenas contra mulheres,
"então o que a maioria das pessoas vê é um bom homem... um bom homem no
contexto em que o veem". "Isso não significa que ele não esteja
abusando de uma mulher. Essa é a ideia que precisamos desconstruir: com você ou
naquele contexto, aquele homem pode estar se comportando bem, mas isso não
significa que ele não esteja abusando de uma mulher."
A causa
da violência de gênero não é doença, nem o abuso de álcool ou outras
substâncias. “A causa é se relacionar com a parceira de uma forma que busca a
submissão dela; é isso que leva um homem a estar disposto a usar a violência
para conseguir isso. Muitos homens podem acreditar que não estão sendo
violentos, mas estão: insultos, agressões físicas ou até mesmo assassinatos são
o que vemos, mas o abuso não se resume a isso; é acreditar que, em um
relacionamento, a mulher gira em torno dele e estar disposto a usar a agressão
para colocá-la nessa posição”, explica Barroso.
Uma
distorção no foco. A masculinidade se constrói sobre essa ideia de dominação.
“Não é preciso ter a intenção de dominar para acabar dominando; basta ter
assumido essa posição social. A cultura te coloca lá, e você precisa se
esforçar para sair dessa posição”, aponta Barroso. O uso de substâncias ou a
presença de transtornos psicológicos podem influenciar “a forma como a
violência é exercida, mas não o ato em si”, acrescenta Miguel Lorente. Em
outras palavras, substâncias ou doenças podem fazer com que o agressor se
desiniba e pratique a violência com mais frequência ou intensidade, mas não são
elas que levam o homem a decidir cometê-la.
“Não
existe outro tipo de violência com tantos homicídios por ano, então como é
possível que não gere conscientização direta? Porque temos um problema de
distorção quando se trata de abordar a violência de gênero, porque um
estereótipo entra em jogo: o de que é um problema de certos homens, alguns
monstros, loucos ou bêbados, um problema marcado pelo contexto desses homens e
não pela sua vontade de cometê-lo”, argumenta o perito forense, que insiste que
o objetivo dessa violência é o controle, a dominação e a imposição. A presença
dessas ideias, continua ele, significa que, em muitas ocasiões, essa violência
só é identificada quando se encaixa em um estereótipo muito específico.
Sandra
Burgos, advogada especializada em violência de gênero, insiste que essas noções
preconcebidas sobre quem pode ser um agressor e como são as vítimas influenciam
sua capacidade de buscar ajuda e ter acesso à justiça. “Acontece que a vítima
não se identifica como tal porque a violência é normalizada, e ela se culpa
pelo que acontece. E o mesmo vale para o agressor: aconteceu comigo
recentemente em um caso com um médico bem-sucedido, um réu que defenderia
qualquer pessoa. As pessoas dizem: 'É impossível'. Se eu represento um réu com
má aparência, tatuagens, que usa drogas... isso o predispõe a uma condenação.
Se você representa um médico ou um engenheiro, um homem que fala bem, a menos
que você tenha provas médicas muito convincentes de lesões, você sabe que tem
poucas chances.”
Burgos
enfatiza que já se deparou com todos os tipos de homens acusados, “de todas as
classes sociais, origens e históricos”, e insiste que o problema subjacente é
um patriarcado generalizado que incute nos homens a ideia de controle e
submissão.
Nenhum
abusador abusa o tempo todo. Outra ideia errada comum sobre homens que praticam
violência de gênero é que eles são permanentemente agressivos. Olga Barroso
explica: “Um agressor nem sempre usa violência; o padrão é uma mistura de
muitos comportamentos positivos, agradáveis e apropriados, intercalados com
outros momentos em que a agressão ocorre, seja qual for a sua natureza. A
agressão não tem a intenção de machucar, mas sim de colocar a vítima em uma
determinada posição, então eles só a usam em momentos específicos. Se não
precisam, por exemplo, porque a mulher já está nessa posição, eles não usam.
Por outro lado, eles também se comportam dessa maneira para manter a vítima. É
preciso ser positiva e gentil, se comportar bem, para sustentar a violência, e
também porque esse homem às vezes está feliz, confortável ou quer afeto.”
Essa
mistura de comportamentos faz com que as mulheres que sofrem com isso
desenvolvam “dissonância cognitiva”, como define Miguel Lorente.
Contrariando
o estereótipo do agressor como um homem perpetuamente violento, Miguel Lorente
insiste no oposto: “Nem sempre abusam ou agridem. O objetivo deles é o
controle, e recorrem à violência quando precisam mantê-lo ou recuperá-lo”. O
especialista também acredita que há uma normalização da violência de baixa
intensidade, o que leva a que certos comportamentos sejam socialmente ignorados
e não identificados como intoleráveis, enquanto as mulheres sentem vergonha ou
culpa por vivenciá-los e, ainda mais, por denunciá-los.
Ela
explica que alguns homens “desencadeiam” seu comportamento com mais facilidade
em certos ambientes se sentem que podem agir impunemente ou acreditam que não
serão denunciados, enquanto outros “se protegem mais” ao se envolverem em
atividades sexuais e as evitam se houver testemunhas. Essa proteção, aos olhos
da maioria, torna quase impossível que aquele homem “normal” com quem elas
compartilharam bons momentos também seja um abusador.
Partir
do pressuposto de que um homem com quem estabelecemos algum tipo de vínculo –
de amizade, companheirismo, ativismo ou laços familiares – seja um abusador
pode ser complicado, pois desafia a nossa própria imagem, aponta Barroso, que,
no entanto, incentiva a reconhecermos que isso pode acontecer: “Não nos coloca
em uma posição desfavorável, não devemos nos sentir mal, mas precisamos
reconhecer que isso pode acontecer, caso contrário, deixamos as vítimas
sozinhas diante do seu ambiente.”
Fonte:
Extra Classe/El Salto

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