Transição
energética justa: por que o mundo precisa dela
Nos
últimos anos, a necessidade de repensar a forma como produzimos e consumimos
energia se tornou cada vez mais evidente. Isso porque as consequências das
mudanças climáticas afetam comunidades inteiras, principalmente as mais
vulneráveis. Nesse cenário, surge um conceito fundamental para equilibrar
desenvolvimento e sustentabilidade: a transição energética justa.
Mas
afinal, o que é uma transição energética justa? Esse conceito está relacionado
à substituição das fontes de energia fósseis por alternativas limpas,
renováveis e sustentáveis. A transição energética é fundamental para o combate
às mudanças climáticas, cujos impactos são sentidos em todo o mundo.
Mais do
que uma troca de matriz energética, o objetivo é garantir que essa
transformação aconteça de forma equilibrada. Uma transição justa inclui a busca
por matrizes mais limpas e eficientes. Ela também prioriza aspectos
socioeconômicos, como a justiça social e o combate à pobreza energética.
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O que significa pobreza energética?
A
pobreza energética ainda é uma realidade para milhões de pessoas, que vivem em
situação de desamparo social e não têm acesso à eletricidade.
Segundo
a International Energy Agency (IEA), em 2022, cerca de 760 milhões de pessoas
ao redor do mundo não tinham acesso à energia elétrica. Desse total, quase 80%
vivem na África Subsaariana. O problema se agravou depois da pandemia de
Covid-19. Somou-se à pré-existente falta de políticas públicas e ao baixo
índice de metas, para atingir o acesso universal à eletricidade até 2030.
Já na
Ásia, o caminho percorrido é o oposto. Cerca de 1 bilhão de pessoas passaram a
ter acesso à eletricidade desde 2010. Em 2022, 97% dos habitantes contavam com
energia elétrica. Apesar do avanço, ainda existe 3% da população sem esse
direito básico, em pleno século XXI.
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Realidade brasileira - Desafios e oportunidades da transição energética no
Brasil
A
pobreza energética também atinge o Brasil. Dados do Censo 2022, realizado pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que nem toda a
população brasileira tem acesso garantido à energia elétrica. Apesar de 99,8%
dos domicílios estarem abastecidos, esse percentual de 0,2% que falta
representa mais de 181 mil moradias.
Para a
Organização das Nações Unidas (ONU), uma transição energética justa pode
resolver essa questão. Isso porque a transição envolve atingir as metas
propostas no Acordo de Paris, zerar as emissões líquidas de gases de efeito
estufa até 2050. Além disso pode, potencialmente, tirar milhões de pessoas da
pobreza.
Um
relatório, publicado pela ONU em 2024, chamou a atenção para a extração de
minerais críticos. Esses recursos são essenciais para uma transição energética
justa. Esse tipo de mineração deve triplicar até 2030 e quadruplicar até 2040,
segundo a ONU. Porém, essa questão envolve uma série de questões sociais e
ambientais. Por outro lado, se for feito de maneira adequada, o processo pode
promover também o desenvolvimento social e econômico nos países emergentes.
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O que são os minerais de transição energética?
Os
minerais de transição energética, como são chamados, são os minérios extraídos
da Terra, fundamentais para se obter energia renovável. Esses minerais podem
ser aplicados na construção, produção, distribuição e no armazenamento de
energia limpa. Isso inclui a produção de carros elétricos, baterias para
armazenar energia, painéis solares, componentes eólicos, entre outros produtos.
De
acordo com a publicação, esses minerais englobam, principalmente, cobre,
cobalto, níquel, lítio, grafite, alumínio, silício, cádmio, telúrio, selênio,
cromo, zinco, além dos elementos de terras raras.
Ainda
assim, a mineração é apontada como um dos desafios a ser transposto, para que
haja, de fato, uma transição energética justa. Isso porque se trata uma
atividade controversa. Sua associação às questões de degradação ambiental,
invasão de terras e conflitos com povos originários e comunidades tradicionais,
além de condições de trabalho ultrajantes, são conhecidas e bem documentadas.
Nesse
sentido, a ONU propõe sete princípios básicos. O objetivo é garantir que exista
uma gestão sustentável em todo o ciclo que envolve a extração, produção e
transporte dos minérios.
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Princípios para uma transição energética justa
A
gestão da cadeia de valor dos minerais deve ser realizada tanto pelo setor
público quanto privado, além da sociedade civil, como aponta a ONU. Os
princípios delineados no relatório sustentam que:
• Os direitos humanos devem estar no
centro de todas as cadeias de valor mineral;
• A integridade do planeta, seu meio
ambiente e biodiversidade devem ser salvaguardados;
• Justiça e equidade devem sustentar as
cadeias de valor mineral;
• O desenvolvimento deve ser promovido por
meio da partilha de benefícios, da agregação de valor e da diversificação
econômica;
• Investimentos, finanças e comércio devem
ser responsáveis e justos;
• Transparência, responsabilização e
medidas anticorrupção são necessárias para garantir uma boa governança;
• A cooperação multilateral e
internacional deve sustentar a ação global e promover a paz e a segurança.
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Revolução das energias renováveis
Em 2024
o então Secretário-Geral da ONU, António Guterres, disse que “um mundo
alimentado por energias renováveis é um mundo faminto por minerais críticos”.
Apesar das preocupações existentes na atividade mineradora, Guterres afirma que
essa é uma oportunidade significativa para os países em desenvolvimento. São
eles os principais produtores desses minerais. Isso porque, se bem
administrada, a prática pode se tornar uma fonte importante de empregos e renda
e uma forma de alavancar a economia.
Guterres
é enfático ao dizer que a gestão deve ocorrer de forma adequada, para que o
desenvolvimento ocorra de forma sustentável e justa. Ainda, a corrida pela
substituição dos modelos de energia ultrapassados “não pode atropelar os
pobres. A revolução das energias renováveis está acontecendo – mas devemos
guiá-la em direção à justiça”.
O
relatório da ONU também alerta para as múltiplas crises geradas pelas mudanças
climáticas. Fatores que estão interligados, como os eventos extremos do clima,
a perda da biodiversidade e o aumento da pobreza, tendem a piorar enquanto
durar a dependência humana pelos combustíveis fósseis.
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Um chamado à ação por justiça e sustentabilidade
A
humanidade caminha lentamente em direção às soluções, ao mesmo tempo que é
empurrada para pontos de inflexão planetários. O tempo para limitar o aumento
da temperatura média global em 1,5ºC, acima dos níveis pré-industriais, é
curto. Por isso, acelerar uma transição energética justa é uma ação urgente e
decisiva. Afinal, para que haja justiça, deve haver mudança.
Essa
mudança não se resume à troca de combustíveis fósseis ou tecnologias. Ela
representa a construção de um modelo de desenvolvimento mais equilibrado,
inclusivo e verdadeiramente sustentável. Para que uma transição justa aconteça
de fato, é preciso unir esforços entre governos, setor privado e sociedade.
Esses atores devem se engajar em políticas e práticas que priorizem tanto o
respeito ao meio ambiente quanto o bem-estar das comunidades e ecossistemas.
Fonte:
eCycle

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