Notas
sobre A Metamorfose
No mês
de outubro, A Metamorfose, de Franz Kafka, completou 110 anos de publicação.
Poucas obras atravessaram o século com tamanha atualidade. O que Franz Kafka
escreveu em 1915 permanece como um espelho incômodo do presente, um retrato das
formas pelas quais a vida social transforma corpos em encargos e o humano em
peso.
O livro
narra a história de Gregor Samsa, que certa manhã acorda metamorfoseado em um
inseto. Sua primeira preocupação, no entanto, é não perder o trem para o
trabalho. Enquanto tenta compreender o que lhe aconteceu, é pressionado pela
família e pelo chefe, até que, ao se revelar, causa espanto e repulsa. A partir
daí toda a dinâmica de sua vida se altera.
Gregor
não pode mais trabalhar, sua família passa a vê-lo como um ser repugnante, e
sua irmã assume os cuidados com ele. Mas Gregor era também o provedor da casa,
e sua incapacidade de trabalhar obriga todos a buscar novos meios de
sobrevivência. A metamorfose, portanto, não transforma apenas Gregor, mas todo
o seu entorno. Aos poucos, por meio de silêncios, choro e cansaço, o peso da
nova vida se torna insuportável, até que, enfim, é dito em voz alta, ferindo a
todos.
“Quando
certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua
cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.
Há
frases na literatura que se tornam diagnósticos de uma época, e a de Kafka é
uma delas. A Metamorfose é, à primeira vista, a história de um homem isolado;
em profundidade, é o retrato de uma estrutura social que transforma vidas em
encargos e corpos em fardos. Gregor Samsa era o trabalhador ideal,
disciplinado, obediente e devoto à família. Quando deixa de produzir, perde
também o amor e o reconhecimento.
A
monstruosidade não está em Gregor, mas na reação dos que o cercam. Como observa
Axel Honneth, a condição de sujeito moderno depende do reconhecimento social;
sem ele, “a identidade se fragmenta”. A recusa da família em reconhecê-lo como
humano é também uma negação social, o colapso da reciprocidade que sustenta a
vida coletiva.
Em
termos marxianos, Gregor encarna o trabalhador alienado em sua expressão mais
literal: sua forma humana se dissolve, mas a culpa pelo não trabalho persiste.
O corpo deformado torna-se símbolo da alienação total, da perda da humanidade
como preço da produtividade. A metamorfose torna visível o que o capitalismo
realiza de modo invisível – desfigura o sujeito enquanto o obriga a continuar
servindo.
“Ele
não está bem, senhor, pode acreditar. Se estivesse, ele alguma vez ia perder um
trem? O rapaz só pensa no trabalho. […] Há oito dias que está em casa e não
houve uma única noite que não ficasse em casa”.
Gregor
não vê alternativa senão expor-se diante da família e do gerente, que reagem
com repulsa imediata. Sob a ótica de Richard Sennett, esse momento traduz a
corrosão do caráter: diante do sofrimento, todo o reconhecimento por sua
dedicação anterior ao trabalho e à família é anulado. Para Richard Sennett, a
flexibilidade exigida pelo capitalismo destrói os vínculos morais e afetivos
que antes sustentavam a vida social. Quando Gregor deixa de servir à lógica do
desempenho, perde seu valor – e com ele, também os laços familiares e
profissionais que o definiam. São vínculos frágeis, cuja permanência depende da
utilidade do indivíduo no sistema.
Zygmunt
Bauman descreve a modernidade líquida como o tempo da renovação constante, em
que a individualização se sobrepõe ao coletivo. Essa fluidez, que transforma o
novo em exigência permanente, gera relações vulneráveis e inseguras. A rápida
mudança na dinâmica da família Samsa, somada à indiferença do trabalho diante
da condição de Gregor, expressa esse fenômeno: os vínculos se desfazem à medida
que o sujeito deixa de ser funcional. Quando a utilidade se dissolve, a
humanidade também se esvazia.
Sob a
perspectiva de Pierre Bourdieu, o que se observa é a violência simbólica –
forma de dominação que se impõe por meio de normas e valores naturalizados,
reproduzida pela família de Gregor, por seu gerente e pelos hóspedes. Ao se
depararem com o diferente, o estranho, eles o excluem e o repudiam. Essa
exclusão é também uma violência: ao negar Gregor, reproduzem a lógica social e
estatal de discriminação.
A
naturalização desses comportamentos pode ser compreendida pela noção de
banalidade do mal, de Hannah Arendt, que descreve a reprodução automática de
violências por sujeitos incapazes de refletir sobre seus atos. Nesse sentido, a
violência contra Gregor reflete a indiferença cotidiana que impede o
reconhecimento do outro como parte do mesmo mundo.
A
família de Gregor representa a sociedade cansada de cuidar. O esgotamento que
toma conta deles antecipa o que Byung-Chul Han chamaria de “sociedade do
cansaço”: um mundo em que o excesso de desempenho transforma o cuidado em peso
e o outro em obstáculo. A metamorfose de Gregor Samsa é a parábola moderna da
sociedade do desempenho: onde a dignidade depende da utilidade e o cansaço do
cuidado vira barbárie. O amor, nesse contexto, é rechaçado pela produtividade.
Sob a
lógica da autoexploração, o sujeito não é mais coagido por forças externas, mas
por si mesmo. Ele internaliza a obrigação de ser eficiente, útil e incansável.
Gregor, ao sentir culpa por não poder mais trabalhar, e sua família, ao vê-lo
como um fardo, expressam essa transformação. Todos se tornam vítimas do mesmo
sistema que converte o fracasso em vergonha e o descanso em culpa.
Esse
cansaço ultrapassa o plano físico e alcança o existencial. O cansaço da família
Samsa não é apenas o de corpos sobrecarregados, mas o de vidas que perderam o
sentido diante da lógica da produtividade. O outro, aquele que demanda tempo,
escuta e cuidado, torna-se intolerável, pois recorda os sujeitos de sua própria
exaustão. Gregor, tornado inútil aos olhos da família, simboliza a condição
contemporânea de quem, ao deixar de produzir, perde também o direito de ser
visto, ouvido e amado.
O
sofrimento de Gregor não reflete apenas a época em que a obra foi escrita, mas
também a nossa. Extensas jornadas de trabalho, estranhamento e exclusão do
diferente continuam a marcar o século XXI. Tais dinâmicas são frequentemente
denunciadas, mas perdem força diante da ordem social vigente, que naturaliza a
produtividade como valor supremo.
Reler A
Metamorfose hoje é reler a própria sociabilidade sob o capitalismo.
Adolescência, doença mental, velhice – todas são formas de metamorfose social,
momentos em que o sujeito deixa de corresponder ao ideal de autonomia e
eficiência. A resposta institucional e afetiva é quase sempre a mesma:
isolamento, impaciência e abandono.
Franz
Kafka não oferece saída – e talvez por isso sua denúncia seja tão precisa. Sua
literatura revela o ponto em que a barbárie deixa de ser ruptura e se torna
rotina. Quando o cuidado cansa e a empatia se torna luxo, o inumano já venceu.
E
talvez seja por isso que, 110 anos depois, A Metamorfose continue necessária:
porque seguimos cercados por metamorfoses invisíveis – de corpos exaustos,
afetos descartados e vidas que só valem enquanto produzem.
Fonte:
Por Maryanna Binder, em A Terra é Redonda

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