Corrupção,
bala e medo: o algoritmo eleitoral da direita para 2026
O
Brasil está entrando no ano eleitoral mais perigoso desde 2018. Sob a
superfície, cresce uma operação psicológica articulada por elites internas e
atores externos que transformam “corrupção” e “segurança pública” em armas
cognitivas para produzir medo, ressentimento e caos moral. Este artigo revela,
camada por camada, como essa engenharia de manipulação funciona — e como o
campo democrático pode neutralizar a ofensiva que tentará reescrever o destino
do país em 2026.
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A arquitetura da guerra psicológica para 2026
A
disputa de 2026 já começou — e não nos tribunais eleitorais, nem nos partidos,
mas no campo mais decisivo da política contemporânea: a mente coletiva. O
Brasil está sendo submetido a uma operação psicológica que reorganiza a
percepção pública por meio de dois gatilhos emocionais universais: medo e nojo
moral. Eles não são escolhidos por acaso; são as emoções mais rápidas,
automáticas e politicamente manipuláveis que o cérebro humano produz. Quando
ativadas de forma contínua, tornam-se capazes de deslocar a opinião pública
antes mesmo que ela perceba que mudou de posição. A guerra híbrida moderna não
precisa criar fatos — precisa criar sensações. E a sensação que está sendo
construída é a de que o Brasil está fora de controle em todas as frentes.
Episódios isolados são apresentados como sintomas de colapso; escândalos pontuais
são tratados como sinais de degeneração total; crises localizadas são narradas
como evidência de que o Estado perdeu a capacidade de governar. O efeito não é
imediato, mas cumulativo: cada pequeno impulso reforça o clima de que nada
funciona, de que tudo está errado, de que o país se tornou ingovernável. Essa
arquitetura opera como um sistema. A mídia corporativa seleciona e amplifica
eventos extremos, construindo o pano de fundo emocional. As Big Techs
intensificam esse pano de fundo, empurrando para o topo conteúdos que geram
choque, pânico e indignação — não porque sejam verdadeiros, mas porque são
lucrativos. Segmentos das elites brasileiras utilizam o ambiente emocional para
bloquear reformas, desgastar o governo e avançar agendas que só prosperam em
clima de desordem. E think tanks estrangeiros, consultorias e órgãos do Norte
Global traduzem essa sensação interna em diagnósticos alarmistas que retornam
para o país como prova de que o Brasil “não controla mais a si mesmo”.
Tudo
isso compõe a engrenagem que definirá 2026. A operação não quer convencer
intelectualmente — quer condicionar emocionalmente. Ela reorganiza a maneira
como o cidadão percebe o cotidiano, substituindo raciocínio por impulso,
contexto por impressão, política pública por instinto. Quando medo e nojo são
ativados de forma combinada, o eleitor deixa de avaliar propostas e passa a
buscar figuras que simbolizem força e punição. Nesse ambiente, qualquer solução
democrática parece lenta demais; qualquer nuance parece covardia; qualquer
reflexão parece indecisão.
A
arquitetura da guerra psicológica prepara o terreno emocional antes da campanha
começar. É um golpe preventivo, não contra um governo, mas contra a capacidade
da população de pensar politicamente. Quando a eleição chegar, a operação já
terá feito metade do trabalho: deixado a sociedade cansada, irritada, insegura
e inclinada a aceitar projetos autoritários como se fossem resposta racional ao
caos. É esse campo que estamos pisando agora. Reconhecer essa engenharia é o
primeiro passo para neutralizá-la.
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Segurança pública como motor de medo e submissão
A
segurança pública é hoje o eixo emocional mais explorado na guerra psicológica
que prepara o terreno para 2026. Nada reorganiza o comportamento político tão
rapidamente quanto o medo — especialmente o medo da violência física. É uma
emoção ancestral, automática, que contrai o pensamento, acelera decisões e
empurra o cidadão para soluções imediatistas. A extrema-direita sabe disso e
transformou a segurança no alicerce fundamental de sua operação: não discute
violência, fabrica a sensação de caos. O mecanismo é simples e devastador. A
mídia corporativa seleciona episódios extremos de violência e lhes dá cobertura
contínua, desconectada de qualquer contexto histórico ou territorial. As
plataformas digitais amplificam vídeos que chocam, porque choque gera cliques;
e cliques geram dinheiro. A repetição desses estímulos, dia após dia, produz a
impressão de que “ninguém está seguro em lugar nenhum”, mesmo quando a
realidade é muito mais complexa que o pânico produzido. A sensação supera o
fato — e é a sensação que move o comportamento político. Quando o medo se torna
clima, a população deixa de pensar em segurança como política pública e passa a
vê-la como guerra permanente. O Estado, independentemente de seus acertos,
passa a ser percebido como fraco. O governo, mesmo quando investe, é visto como
omisso. A polícia, mesmo quando atua, é vista como impotente. Esse ambiente de
pânico contínuo altera a interpretação do cotidiano: um crime brutal deixa de
ser exceção e passa a ser “prova” de um colapso nacional. A mente procura
padrões onde não existem — e o padrão que encontra é o do caos. Esse clima
emocional cria o eleitor ideal para o autoritarismo. O cidadão que tem medo não
quer debate, quer proteção. Não quer política, quer força. Não quer
institucionalidade, quer alguém que “faça o que for preciso”. A democracia, com
seus tempos, pesos e contrapesos, passa a parecer lenta demais para um país “à
beira do abismo”. E é exatamente nesse ponto que a extrema-direita se apresenta
como solução: a mão firme, o discurso punitivo, a promessa de ordem
instantânea, a fantasia do líder que combate o mal sem hesitação.
A
operação psicológica depende desse ambiente porque o medo é um instrumento de
submissão. Ele paralisa a reflexão, simplifica o mundo, desativa a crítica.
Quando o medo domina, qualquer narrativa que ofereça catarse punitiva parece
razoável, e qualquer crítica democrática parece luxuosa demais. A população
passa a aceitar violações de direitos, abusos institucionais, violência
policial e medidas excepcionais como se fossem necessárias para sobreviver. A
exceção deixa de ser ameaça e passa a ser conforto. Por isso, a segurança
pública não é apenas um tema entre outros — é o coração emocional da estratégia
para 2026. A extrema-direita tentará manter o país em estado permanente de
pânico, porque sabe que é nesse estado que o eleitor se torna maleável. Não se
trata de debater violência, mas de dominar o sentimento de insegurança. Quem
controla o medo controla o voto. E quem controla o voto controla o destino do
país.
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Corrupção como dispositivo de nojo moral e destruição institucional
Se o
medo produz submissão, a corrupção produz repulsa — e nenhuma emoção é tão
eficaz para destruir a confiança nas instituições quanto o nojo moral. A
operação psicológica que prepara 2026 explora isso com precisão: transforma
investigações legítimas em símbolos de degeneração total, converte
responsabilização em “prova de falência sistêmica” e reconstrói qualquer
episódio de apuração como evidência de que “ninguém presta”. Essa distorção é
essencial para o projeto autoritário, porque quando a população rejeita a
política como um todo, ela se torna vulnerável a líderes que prometem expurgar
a “podridão”. O mecanismo é profundo. A narrativa da corrupção não opera no
terreno dos fatos — opera no terreno das sensações. O cidadão não avalia dados,
contextos ou estruturas; ele reage ao asco. Escândalos isolados são
apresentados como sintomas de uma doença moral generalizada. A mídia dramatiza,
a rede amplifica, colunistas moralistas ecoam, e a extrema-direita organiza
esse material bruto numa gramática simples: “o sistema é apodrecido”, portanto
“só um outsider pode limpá-lo”. Essa lógica, repetida diariamente, destrói a
ideia de política como ferramenta coletiva e a substitui pela fantasia do
“justiceiro”.
A
operação se torna ainda mais poderosa porque a população não distingue
corrupção praticada de corrupção investigada. Cada operação policial vira arma
política contra quem permite a investigação, não contra quem a cometeu. É uma
inversão completa da racionalidade democrática: quanto mais o Estado funciona,
mais ele parece falhar. A extrema-direita explora essa distorção porque ela
gera um ciclo perfeito: quanto mais investigação, mais indignação; quanto mais
indignação, mais repulsa; quanto mais repulsa, mais espaço para o autoritarismo
moral. Quando a repulsa domina, a democracia perde terreno. O cidadão passa a
enxergar instituições como cúmplices, políticos como corruptos potenciais e
qualquer forma de mediação democrática como suspeita. Nesse estado emocional,
medidas arbitrárias ganham legitimidade, vazamentos viram método, boatos ganham
credibilidade e soluções radicais passam a parecer lógicas. A política deixa de
ser debate e passa a ser expurgo.
A
extrema-direita construiu seu poder exatamente nessa chave: nojo do sistema,
idolatria do “líder limpo”, busca por purificação moral. Ela não precisa
demonstrar integridade — precisa apenas parecer moralmente agressiva. O
moralismo punitivista cria um ambiente em que a razão é substituída pela fúria.
E é nesse ambiente que a democracia fica mais vulnerável: quando a população
acredita que a política é irreparável, ela se torna predisposta a aceitar
rupturas. A corrupção, portanto, não é apenas um tema — é uma ferramenta de
corrosão institucional. É a engrenagem que transforma descontentamento em
ressentimento, ressentimento em ódio, e ódio em autorização para o
autoritarismo. A extrema-direita compreendeu profundamente o poder dessa
emoção. Para 2026, ela sabe que a batalha central não será sobre fatos, mas
sobre a construção contínua da sensação de que “nada presta” — e que só um
golpe moral é capaz de salvar o país.
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O ecossistema de manipulação: mídia, Big Techs, elites e think tanks
estrangeiros
A
operação psicológica que prepara o terreno para 2026 não funciona isoladamente.
Ela depende de um ecossistema robusto, onde cada ator cumpre uma função
específica na construção e amplificação do clima emocional que sustenta o
avanço da extrema-direita. Esse ecossistema não precisa de coordenação
explícita — ele opera por convergência de interesses, cada qual puxando a corda
na direção que lhe favorece, mas produzindo o mesmo resultado: um país
emocionalmente quebrado, politicamente desorientado e cognitivamente
vulnerável. A mídia corporativa cumpre o papel de enquadramento. Ela não
inventa fatos; seleciona, repete e dramatiza. Cria, diariamente, a sensação de
uma crise interminável. O país acorda e dorme sob manchetes que reforçam
violência, escândalos e rupturas. Essa estética do colapso funciona como pano
de fundo emocional: quando a narrativa é sempre o desastre, o cidadão
internaliza a ideia de que não há solução possível dentro da normalidade
democrática. O objetivo não é informar — é saturar. As Big Techs atuam como
amplificadoras automáticas. Seu modelo de negócios privilegia conteúdo
chocante, agressivo e moralmente inflamável. Algoritmos não têm ideologia — têm
interesse: viralizar aquilo que causa afeto extremo. E medo, raiva, indignação
e pânico são emoções perfeitas para isso. Assim, vídeos de violência, rumores
de corrupção e discursos autoritários são empurrados para o topo, criando
bolhas de percepção em que o Brasil parece desmoronar todos os dias, mesmo
quando os dados apontam outra direção.
As
elites econômicas e políticas, por sua vez, operam como beneficiárias diretas
da instabilidade. A percepção de desordem dificulta regulação, paralisa
reformas, bloqueia políticas redistributivas e enfraquece o Estado. Em um país
emocionalmente fragilizado, fica mais fácil impor agendas privatistas,
flexibilizações de direitos e retrocessos estruturais. A instabilidade não é
obstáculo — é método. No plano internacional, think tanks, consultorias e
fundações sediadas no Norte Global funcionam como validadores geopolíticos da
narrativa de que o Brasil está desgovernado. Produzem relatórios alarmistas,
rankings enviesados e análises superficiais que não descrevem o país —
descrevem o interesse estratégico de seus financiadores. Esses documentos
circulam na imprensa estrangeira, influenciam mercados, embasam discursos
oficiais e retornam ao Brasil como “avaliações externas”, criando um ciclo de
legitimidade artificial que reforça a sensação interna de crise. O que torna
esse ecossistema tão poderoso é a sua sincronia não declarada. Mídia dramatiza.
Plataformas viralizam. Elites internas se aproveitam. Think tanks estrangeiros
oferecem justificativa técnica. E a extrema-direita organiza o caos emocional
em narrativa política. Cada vetor amplia o outro. A soma dessas forças cria uma
realidade paralela, mais convincente que os fatos, mais visceral que os dados,
mais memorável que qualquer explicação racional.
Esse
ecossistema não apenas descreve o Brasil — ele esculpe a percepção do Brasil.
E quem
controla a percepção controla o terreno da disputa de 2026.
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A engrenagem geopolítica: a narrativa do narcoterrorismo e a tutela hemisférica
dos EUA
A
operação psicológica que prepara o Brasil para 2026 não é apenas interna — ela
se articula com um movimento geopolítico mais amplo, no qual os Estados Unidos
buscam enquadrar o país como foco de instabilidade hemisférica. A narrativa do
“narcoterrorismo”, que ganhou força nos últimos anos, não é um diagnóstico
técnico: é um instrumento político. Ela atualiza a velha doutrina de tutela
sobre a América Latina, agora revestida de linguagem jurídica e retórica de
“cooperação em segurança”. O objetivo permanece o mesmo: limitar a autonomia
dos países que não se alinham automaticamente ao eixo de poder norte-americano.
Essa narrativa só se torna crível porque dialoga com o clima emocional
produzido internamente. A mídia e as redes brasileiras, ao amplificarem
diariamente a sensação de violência descontrolada, fornecem matéria-prima
perfeita para think tanks, agências e departamentos de Estado nos EUA
apresentarem o Brasil como território instável e incapaz de gerir seus próprios
desafios. A construção emocional doméstica se transforma, no exterior, em
justificativa geopolítica. E a justificativa geopolítica retorna ao país como
pressão simbólica — fechando o ciclo.
A
narrativa do narcoterrorismo tem função estratégica clara: criar as condições
para que Washington amplie sua influência sobre políticas de segurança,
inteligência e defesa da região. Ela permite que os EUA acionem mecanismos
jurídicos internos — Executive Orders, dispositivos do Patriot Act, ações do
Departamento de Estado — para impor sanções, “monitoramentos” e iniciativas de
contenção sob o pretexto de combater ameaças transnacionais. O Brasil, com seu
tamanho e seu peso diplomático, é alvo central dessa lógica: qualquer movimento
que reforce sua soberania energética, tecnológica ou ambiental tende a ser
enquadrado como risco à ordem hemisférica. Além dos EUA, um circuito de think
tanks, fundações e consultorias estrangeiras atua como validadores técnicos
dessa ficção. Relatórios alarmistas, análises superficiais e rankings
enviesados apresentam o Brasil como “epicentro criminal”, “território vulnerável”
ou “ameaça transnacional”. Essas publicações não refletem realidade — refletem
interesse. E são sistematicamente reproduzidas por veículos internacionais que
tratam a política brasileira com lentes sensacionalistas, reforçando a
percepção global de que o país é incapaz de se autogovernar.
O ponto
central é que a engrenagem geopolítica só funciona porque encontra, no caos
emocional interno, o terreno perfeito para prosperar. Quando o Brasil é levado
a acreditar que está em colapso, o mundo passa a tratá-lo como tal. E quando o
mundo o trata como colapsado, setores internos se sentem autorizados a defender
soluções autoritárias, intervenções externas e tutelas “técnicas”. A percepção
externa e a interna se retroalimentam — e ambas servem ao mesmo fim:
enfraquecer a soberania nacional. Por isso, a disputa de 2026 não é apenas
nacional — é hemisférica. Não diz respeito apenas ao futuro político imediato,
mas ao lugar que o Brasil ocupará no mundo. Ou o país reforça sua autonomia
informacional, cognitiva e diplomática, ou continuará sendo alvo de narrativas
que o reduzem a uma caricatura instável, pronta para ser administrada por
interesses alheios. A operação psicológica interna abre a porta; a geopolítica
entra.
O
Brasil só se defende quando entende que o ataque é duplo: emocional por dentro,
estratégico por fora. E ambos caminham para o mesmo objetivo: tutelar o país,
não fortalecê-lo.
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O bolsonarismo como plataforma doméstica da guerra híbrida
O
bolsonarismo não é um movimento político tradicional — é uma infraestrutura
emocional criada para operar exatamente nesse ambiente de medo, repulsa e caos
permanente. Ele funciona como a peça doméstica da guerra híbrida: um
dispositivo interno que transforma insegurança cotidiana em narrativa política,
ressentimento social em identidade de grupo e frustração individual em lealdade
a um líder. Não é um projeto de país; é um projeto de manipulação afetiva
contínua. E é por isso que permanece poderoso mesmo fora do governo. Sua força
não está em propostas ou diagnósticos, mas na capacidade de organizar o
emocional coletivo em torno de uma gramática simples: o Brasil está tomado por
inimigos internos, a política é intrinsecamente corrupta, a democracia é fraca,
e só um líder forte pode restaurar a ordem. Essa narrativa corresponde
perfeitamente aos gatilhos explorados pela operação psicológica — medo e nojo —
e transforma ambos em identidade. Não importa se o discurso é incoerente ou se
contradiz fatos; o bolsonarismo não opera no plano racional, mas no simbólico.
A
estrutura comunicacional que sustenta esse movimento é descentralizada, mas
altamente coerente. Milhares de microatores — influenciadores, policiais,
pastores midiáticos, criadores de conteúdo, páginas conspiratórias, perfis
automatizados — replicam diariamente a mesma gramática emocional. Cada um fala
para seu nicho, mas todos reforçam a sensação de colapso. Essa constância cria
um ambiente de alerta permanente, onde qualquer acontecimento negativo confirma
a narrativa preexistente. A realidade deixa de ser interpretada — passa a ser
recortada para caber no enredo bolsonarista.
Do
ponto de vista geopolítico, o bolsonarismo cumpre uma função ainda mais
profunda: ele é útil aos interesses que desejam um Brasil frágil e tutelável.
Ao atacar instituições, deslegitimar a imprensa, corroer a confiança pública,
sabotar políticas de Estado e destruir capacidade administrativa, o movimento
rebaixa o país ao papel de laboratório geopolítico: instável, emocionalmente
inflamável, incapaz de sustentar projetos de longo prazo. É exatamente esse
tipo de país que mais facilmente aceita tutelas externas — seja no campo da
segurança, da economia ou da tecnologia. O mais grave é que o bolsonarismo não
precisa comandar o Estado para cumprir essa função. Seu poder está em governar
o clima emocional. Se conseguir manter a população irritada, ameaçada, cansada
e desconfiada, já terá cumprido seu papel estratégico. A operação psicológica
depende dessa instabilidade crônica — e o bolsonarismo é o vetor perfeito para
produzi-la, porque transforma caos em identidade política e ressentimento em
método de mobilização.
Para
2026, isso significa uma coisa: o bolsonarismo será mobilizado não apenas como
candidatura, mas como máquina de saturação emocional. Ele atuará para tornar o
país ingovernável no plano simbólico, para que a sociedade chegue à eleição com
a percepção de que a democracia falhou e que apenas um salto autoritário
poderia “restaurar a ordem”. Ele é, por design, a plataforma doméstica sobre a
qual toda a guerra híbrida se apoia. Neutralizar a operação não é apenas
derrotar um candidato — é desmontar essa máquina emocional. E isso exige
compreender que o bolsonarismo não se alimenta de política, mas de percepção. Não
luta pelo Estado: luta pelo afeto coletivo que define o Estado como fracasso.
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Como o campo democrático deve reagir: comunicação estratégica, proteção
cognitiva e defesa da soberania
A
resposta do campo democrático à operação psicológica que se estrutura para 2026
não pode ser tímida, fragmentada ou meramente técnica. É preciso compreender
que a disputa não está no plano racional, mas no plano emocional e perceptivo.
A extrema-direita opera no terreno dos afetos — medo, repulsa, ressentimento —
e só será neutralizada por uma estratégia que reorganize o ambiente cognitivo
da sociedade. Não se trata de responder a ataques, mas de reconstruir o clima
emocional do país. O primeiro passo é abandonar a comunicação defensiva. Ao
rebater a narrativa da extrema-direita dentro da moldura criada por ela, o
campo democrático confirma o enredo do adversário. A comunicação precisa sair
do reativo e entrar no propositivo: mostrar o país real, a normalidade que
existe, a presença do Estado na vida cotidiana, as políticas que funcionam, os
avanços silenciosos. O Brasil precisa ser lembrado de que não vive em colapso —
e essa lembrança só é possível quando o governo ocupa o centro da narrativa,
não sua periferia. O segundo passo é disputar a segurança pública como tema de
soberania democrática, não de guerra moral. Mostrar que segurança não é terreno
da violência, mas da inteligência, da coordenação federativa e da presença do
Estado. A população precisa sentir que há direção, organização e estratégia — e
isso só ocorre quando a comunicação traduz políticas complexas em experiências
compreensíveis. O medo só perde força quando o Estado se mostra visível,
presente e competente. O terceiro passo é reconectar a corrupção ao
funcionamento saudável das instituições. Investigações sérias não são sinal de
falência — são prova de maturidade estatal. O campo democrático precisa
explicitar essa lógica de forma didática e contínua, quebrando a associação
emocional automática entre apuração e degeneração. A extrema-direita depende
dessa distorção; desmontá-la é essencial para recuperar confiança pública. O
quarto passo é fortalecer uma narrativa de projeto de país. A extrema-direita
vence quando a população acredita que não existe futuro. Democratas precisam
devolver ao povo a capacidade de imaginar o amanhã. Traduzir políticas sociais,
educacionais, ambientais, tecnológicas e industriais não apenas como programas,
mas como caminho de futuro. A imaginação política é um bem estratégico — e
precisa ser reativada. O quinto passo é construir alfabetização cognitiva.
Explicar como funcionam operações psicológicas, como o medo é manipulado, como
algoritmos amplificam emoções, como think tanks estrangeiros produzem
diagnósticos enviesados, como a percepção pode ser distorcida. Quando o povo
entende o mecanismo, ele se protege do mecanismo. Neutralizar a operação exige
iluminar sua engenharia. O sexto passo é fortalecer lideranças que transmitam
firmeza, serenidade e direção — não arrogância nem tecnocracia. O eleitor sob
ataque emocional não busca dados; busca referências humanas. É necessário
comunicar estabilidade, autoridade ética e responsabilidade. A extrema-direita
oferece força bruta; a democracia precisa oferecer força civilizatória: aquela
que organiza, acalma, planeja e protege. O último passo é integrar a disputa
política com a disputa geopolítica. Mostrar que o ataque emocional ao Brasil
não é isolado; é parte de um movimento maior que busca rebaixar o país a
posição de tutelado. Conectar segurança pública a soberania, desenvolvimento a
autonomia, democracia a proteção nacional. Quando o povo entende que defender a
democracia é defender o Brasil, o discurso autoritário perde o solo onde pisa.
2026
será decidido no campo emocional. E só vencerá quem entender que a batalha
central não é apenas por votos — é pela mente coletiva, pela autoconfiança
nacional e pelo direito do Brasil de existir como projeto próprio.
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Conclusão — Ver a operação é derrotar metade dela
O
Brasil chega a 2026 diante de uma disputa que ultrapassa partidos, campanhas e
programas: o que está em jogo é a nossa autonomia cognitiva. A extrema-direita,
articulada com interesses internos e externos, sabe que só volta ao poder se
conseguir moldar o ambiente emocional do país — e por isso opera com
intensidade nos dois gatilhos mais poderosos do comportamento humano: medo e
nojo moral. Quando essas emoções dominam o imaginário coletivo, a democracia
perde velocidade e o autoritarismo ganha apelo. A guerra psicológica que se
desenrola não é teórica; é concreta, diária, disciplinada. Ela reescreve a
percepção de segurança, distorce o sentido de corrupção, produz saturação
emocional, amplifica a sensação de caos e, ao mesmo tempo, oferece o salvador
autoritário como solução. É uma engenharia completa, que só funciona porque
encontra terreno fértil em desigualdades históricas, frustrações sociais e na
ausência prolongada do Estado na vida cotidiana. Mas essa operação só prospera
enquanto permanece invisível.
Quando
o país compreende o mecanismo — quando reconhece que o caos é fabricado, que o
pânico é induzido, que a repulsa é organizada — metade da força da operação se
desfaz. A outra metade se desfaz quando o campo democrático ocupa o espaço da
narrativa, disputa emoções, comunica presença e devolve ao povo o sentimento de
que o Brasil é possível.
A
eleição de 2026 será o teste mais importante da nossa maturidade democrática.
Não vencerá quem tiver o melhor plano — vencerá quem compreender que a batalha
real é pela mente coletiva. E essa disputa não se trava com medo, mas com
direção; não com ruído, mas com clareza; não com ressentimento, mas com
confiança; não com submissão, mas com soberania. O Brasil não está condenado ao
caos — está sendo conduzido ao caos. E justamente por isso pode ser conduzido
de volta à lucidez. Ver a operação é resistir. Resistir é defender o país. E
defender o país é, acima de tudo, garantir que o Brasil continue sendo o autor
da própria história — e não o objeto das narrativas que desejam controlá-lo.
Fonte:
Por Reinaldo Aragon, no Jornal GGN

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