A
CORTINA RASGADA: O que acontece quando ouvimos as vítimas
Mesmo
décadas antes da fundação do Estado de Israel, em 1948 – e até antes das duas
guerras mundiais –, o sionismo, isto é, a ideia de que deveria existir um
Estado étnico exclusivamente para o povo judeu, já havia sido formulado por
pensadores como Theodor Herzl e Ze’ev Jabotinsky.
Com
essa ideologia em mãos, grupos terroristas europeus de extrema direita
invadiram a Palestina, passando a abusar, deslocar, torturar, estuprar e
massacrar palestinos para tomar posse de suas terras e recursos. Esses grupos
alegavam que seu objetivo – e direito divino – era estabelecer o Estado étnico
judeu sionista. Na realidade, porém, esse projeto serviu para oferecer às
potências ocidentais uma base militarista e imperialista na Ásia Ocidental e no
Norte da África.
Esses
grupos contavam com amplo apoio e financiamento das superpotências ocidentais,
que assim “matavam dois coelhos com uma cajadada só”: livravam-se dos “judeus
incômodos” enviando-os para outra terra – já que o sionismo, ironicamente, é
uma ideologia antissemita – e, ao mesmo tempo, estabeleciam uma fortaleza
militar estratégica para ampliar a exploração do Oriente Médio.
A
Grã-Bretanha, os Estados Unidos e os sionistas trabalharam juntos, ao longo de
anos, para desestabilizar a região e promover um genocídio lento, até
conquistarem terras e recursos suficientes para estabelecer o Estado de Israel.
Os líderes terroristas sionistas passaram então a compor o governo e as forças
armadas israelenses – as IDF (Forças de Defesa de Israel), chamadas pelos
resistentes de “IOF” (Força de Ocupação Israelense), já que não defendem nada,
mas sim ocupam ilegalmente a Palestina.
Desde
então, o terrorismo de Estado de Israel segue incontestado. O país jamais
reconheceu sua história de violência, ocupação e roubo de terras; em vez disso,
sustenta a narrativa de que aquela terra seria seu direito de nascença.
Paralelamente, promove a ideia de um suposto “sionismo liberal” – segundo o
qual, se os palestinos simplesmente deixassem de resistir e aceitassem a
ocupação, todos poderiam viver em “paz”.
Ao
longo da história, inúmeras tentativas pacíficas dos palestinos de protestar
contra o terrorismo de Estado de Israel foram recebidas com violência e com o
assassinato de manifestantes. Diante disso, os palestinos formaram grupos de
resistência armada para se defender.
Nelson
Mandela escreveu certa vez:
“A
lição que tirei da campanha para pôr fim ao apartheid na África do Sul foi que,
no fim, não tínhamos alternativa senão a resistência armada e violenta.
Repetidamente, utilizamos todas as armas não violentas em nosso arsenal –
discursos, delegações, ameaças, marchas, greves, boicotes, prisão voluntária –,
tudo em vão, pois tudo o que fizemos foi recebido com mão de ferro. Um lutador
pela liberdade aprende, da forma mais dura, que é o opressor quem define a
natureza da luta, e o oprimido muitas vezes não tem outro recurso senão
empregar métodos que refletem os do opressor. Em determinado momento, só se
pode combater fogo com fogo.”
Desde 7
de outubro, os meios de comunicação israelenses e ocidentais têm promovido
incansavelmente a narrativa de que os “selvagens árabes/muçulmanos” seriam os
verdadeiros “terroristas”, enquanto varrem para debaixo do tapete sua própria
história de ações violentas, imperialistas e colonialistas – inclusive contra
manifestações pacíficas. Convenientemente, omitem uma parte essencial da
definição de terrorismo: ele não se limita a provocar medo ou terror, mas
constitui uma relação de poder – na maior parte das vezes, a de um governo que
impõe sua vontade aos civis por meio da violência e da opressão.
O
objetivo declarado do governo israelense, ao longo de sua história, tem sido a
limpeza étnica, a colonização e a apropriação de terras na Ásia Ocidental e no
Norte da África, com o propósito de criar uma “Grande Israel”. Isso implica,
por definição, o uso sistemático do terror contra as populações indígenas que
habitam esses territórios – e, portanto, caracteriza-se como terrorismo.
Os
povos indígenas que resistem a seus opressores não estão cometendo
“terrorismo”, mesmo quando recorrem à resistência armada; estão, sim,
defendendo-se dele. A violência dos oprimidos contra os opressores nunca é
equivalente à violência dos opressores – e, de fato, é legalmente reconhecida
como forma legítima de resistência.
Assim,
as superpotências israelenses e ocidentais distorceram intencionalmente a
definição de “terrorismo” para justificar sua ocupação ilegal da região e
convencê-lo de que são, na verdade, os “mocinhos” da história.
Mas a
verdade é bastante simples: Gaza há muito tempo é descrita por especialistas em
direitos humanos como um “campo de concentração a céu aberto”. Mesmo antes de 7
de outubro, Israel controlava rigorosamente a quantidade de água, alimentos,
eletricidade, medicamentos e outros recursos permitidos em Gaza em cada
momento. Israel decide quem pode – ou não – entrar e sair da região. Gaza está
literalmente cercada por muros, e postos de controle israelenses se espalham
por todo o território, impedindo arbitrariamente a circulação entre cidades.
Não há
aeroporto. Não há exército palestino. Embora existam partidos políticos, Israel
é a única entidade com poder real e controle sobre a área porque se trata de
uma ocupação, de um regime de apartheid.
Israel
é um Estado étnico, terrorista e de apartheid. Ponto final. Não é tão
complicado assim.
Impérios
como Israel e os Estados Unidos buscam manter o monopólio da violência. Segundo
a própria lógica que impõem, têm o “direito” de matar, estuprar, torturar,
bombardear e destruir como bem entenderem, mas Deus nos livre que aqueles a
quem oprimem ousem revidar. Na sua narrativa, os guerrilheiros que tentam
proteger suas famílias e suas terras são os verdadeiros vilões.
É o
mesmo discurso que os colonos usaram contra os povos indígenas da Ilha da
Tartaruga (atual América do Norte), chamando-os de “primitivos”; o mesmo que os
ingleses repetiram sobre os irlandeses “incivilizados” durante a colonização da
Irlanda; o mesmo que a Europa proferiu – e ainda profere – sobre a África
“selvagem”, desde os tempos do tráfico de escravos.
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O mesmo roteiro, repetido à exaustão
A
acusação de “terrorismo”, como tantas outras feitas pelos opressores, é uma
projeção. São os invasores e os colonizadores que, por definição, praticam o
terror, mas cooptaram o termo para criminalizar e silenciar os movimentos de
libertação.
Israel
e seus aliados – as superpotências ocidentais – já tomaram essa decisão por
todos nós, queiramos ou não: para eles, as vidas palestinas valem menos do que
as vidas israelenses.
Você,
consciente ou inconscientemente, acaba reforçando essa lógica quando repete o
argumento aparentemente neutro da Hasbara de que “ambos os lados são culpados”
mesmo que apenas um lado venha cometendo genocídio há quase um século.
Aqueles
que detêm o poder intencionalmente ocultam a história completa de Israel e do
movimento sionista, para que, em vez de reconhecer a injustiça, você enxergue
apenas a versão contada pelo opressor.
É óbvio
que um agressor não permitirá que você conheça o ponto de vista de suas
vítimas. Eles sabem que, no instante em que você ouvir os palestinos, não será
mais possível ignorar a realidade. Essa cortina, uma vez erguida, não se abre
apenas por um instante, ela se desfaz para sempre, é arrancada e rasgada em
pedaços.
Rachel
Corrie era uma jovem americana de 23 anos que, em 2003, viajou com outros
ativistas à Palestina para protestar pacificamente contra a apropriação de
terras e a limpeza étnica promovidas por Israel. Durante uma manifestação, ela
se colocou diante de uma escavadeira israelense que tentava demolir uma casa
palestina, empunhando um megafone e vestindo um colete de segurança laranja.
Mesmo assim, os soldados avançaram com a máquina, atropelando-a e quebrando sua
coluna – matando-a instantaneamente.
Os
soldados alegaram depois que “não a viram”, e ninguém jamais foi
responsabilizado. Em um ato de crueldade e desumanização, israelenses chegaram
a tirar fotos zombando de sua morte e a fazer “panquecas Rachel Corrie”, em
alusão ao seu corpo esmagado.
Esta
citação é de uma mensagem que Rachel Corrie escreveu para sua família pouco
antes de ser assassinada:
“Se
algum de nós tivesse sua vida e bem-estar completamente sufocados, vivesse com
crianças em um lugar cada vez menor, onde sabíamos, por experiência anterior,
que soldados, tanques e tratores poderiam vir atrás de nós a qualquer momento e
destruir todas as estufas que cultivávamos há tanto tempo, e fizesse isso
enquanto alguns de nós fossem espancados e mantidos em cativeiro com outras 149
pessoas por várias horas – você acha que poderíamos tentar usar meios um tanto
violentos para proteger os fragmentos que restassem? Penso nisso especialmente
quando vejo pomares, estufas e árvores frutíferas destruídos – anos de cuidados
e cultivo. Penso em você e em quanto tempo leva para fazer as coisas crescerem
e que trabalho de amor é esse. Eu realmente acho que, em uma situação
semelhante, a maioria das pessoas se defenderia da melhor maneira possível.
Acho que o tio Craig faria isso. Acho que provavelmente a vovó faria isso. Acho
que eu faria isso.”
Rachel
Corrie também descreveu as ações de Israel como “genocídio”, muito antes de 7
de outubro de 2023. Seus e-mails, ensaios e poemas podem ser lidos em Let Me
Stand Alone, uma coletânea póstuma de seus diários e escritos publicada por
seus pais.
Quando
palavras como “terrorismo” são lançadas pela mídia convencional, é seu direito
– e seu dever – pesquisar o conflito por conta própria, além dos limites da
mídia ocidental; avaliar a dinâmica de poder para identificar quem é o
verdadeiro opressor e posicionar-se ao lado da justiça.
É
perfeitamente legítimo dizer: “Ainda não sei o suficiente sobre esse assunto
para formar uma opinião, mas vou me empenhar em aprender.” O essencial é não
permitir que a propaganda pense por você. Não deixe que os propagandistas
definam como deve ser a revolução.
Fonte:
Por Rima Awada Zahra, no Le Monde

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