Valerio
Arcary: Dez notas sobre o BRICS
O que
são os Brics? O Brics surgiu da iniciativa da China, Rússia, Índia e Brasil
que, originalmente, o compuseram em 2009 na reunião de Ekaterinburgo, aos
quais se uniu a África do Sul em 2011. Mas a sigla, curiosamente,
não. A ironia da história é que a primeira referência à sigla Brics foi de um
operador financeiro do Banco Goldman Sachs em 2001. Uma análise realista deve
concluir que os Brics são, por enquanto, um híbrido de bloco político, rede
diplomática e acordo comercial que surge na sequência da crise econômica
internacional de 2007/08. Não é um acordo de livre comércio, embora se procure
redução de barreiras e elevação da cooperação em diferentes níveis. É isso o
que temos, nem mais, nem menos. Mas cumpre um papel progressivo diante da
brutal ofensiva norte-americana pela defesa da supremacia de Washington no
mundo, em especial contra a China. Cumpre um papel progressivo defensivo para o
Brasil por três razões principais: (a) porque à frente da maior potência
mundial está um governo de extrema-direita com um programa
nacional-imperialista que ameaça a recolonização da América Latina; (b) porque
as relações econômicas com os Brics diminuíram a dependência histórica do
Brasil diante dos investimentos e demanda dos mercados dos EUA, da Europa e do
Japão; (c) porque só a sinalização de uma desdolarização gradual já é uma
iniciativa que enfraquece o poder dos EUA. São um acordo comercial que se
fundamenta no volume e proporção das transações e investimentos que desdobraram
na fundação do Banco de Xangai. A China é de longe o maior parceiro comercial
tanto do Brasil, como da Rússia e, em menor medida, da Índia.
A
investida internacional tarifária irrestrita do governo Trump, no primeiro
semestre de 2025, não deve ser subestimada. Ficou claríssima a disposição de
Washington de subverter as relações comerciais, até com os países da Tríade,
forçando União Europeia, Reino Unido e Japão a aceitarem custos mais elevados
de acesso ao mercado interno dos EUA. Esta avalanche protecionista veio
associada às ameaças políticas contra a independência do Canadá, de anexação da
Groenlândia, de apropriação do Canal do Panamá, de invasão das fronteiras do
México, portanto, de um domínio imperialista hemisférico sobre todo o
continente americano. Mas seria imperdoável, em especial, diminuir a gravidade
das sanções comerciais contra o Brasil. Sem a compensação de novos mercados as exportações
brasileiras teriam desabado, o saldo da balança comercial teria invertido, e o
déficit na balança de pagamentos teria disparado, provocando uma abrupta
desvalorização do real e uma onda inflacionária que desestabilizaria o governo
Lula, deixando a disputa das eleições de 2026 muito mais perigosa. Mais grave
foi que o ataque tarifário dos EUA contra o Brasil foi justificado pelo
processo judicial do núcleo crucial golpista liderado por Bolsonaro. Trata-se
de uma ofensiva política indivisível do cerco contra o governo Maduro na
Venezuela, e sinaliza que o pior ainda está por vir. O papel tático defensivo
dos Brics foi, nesse contexto, importante, apesar das imensas desigualdades
internas, em especial entre China/Rússia de um lado, e Brasil/África do Sul por
outro. Tanto mais que há uma crise de longa duração no Mercosul, agravada após
a eleição de Milei em Buenos Aires. As exportações brasileiras para o bloco
caíram mais de 29% entre 2011 e 2024, e permanece um impasse sobre a Tarifa
Externa Comum. O Mercosul é um Acordo de Livre Comércio entre Brasil,
Argentina, Uruguai e Paraguai, criado em 1991, alguns anos depois do ciclo de
ditaduras militares no Cone Sul. A adesão da Bolívia é iminente e Chile,
Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname são Estados associados. A
integração aduaneira latino-americana, inclusive na perspectiva de uma moeda
comum, deveria ser a aposta estratégica central da esquerda brasileira.
Nas
suas origens mais remotas ocorreu uma negociação muito positiva entre a Índia e
Brasil, associados à África do Sul, pela quebra de patentes de fármacos
indispensáveis para o tratamento de Aids, à margem da Organização Mundial do
Comércio. Os Brics surgem em 2009, mas evoluíram com a fundação do Novo Banco
de Desenvolvimento de Xangai para financiamento de obras de infraestrutura, sem
as condicionalidades dos critérios do FMI que exigem ajustes fiscais
neoliberais. Desde então, negociações não conclusivas exploram a possibilidade
de comércio entre os parceiros com suas divisas nacionais, contornando o uso do
dólar norte-americano, uma experimentação de sistema de pagamentos
internacionais paralelo ao Swift, e um acordo de reservas para situações
emergenciais. Estas iniciativas são progressivas porque desafiam a imensa
superioridade financeira da Tríade, em especial, dos EUA, e favorecem o
crescimento econômico dos países da periferia em condições menos desfavoráveis.
Apesar de não existir uma “institucionalidade” do Bloco, os Brics já são um
polo político, porque expressa países que concentram mais de 40% da população
mundial, e algo em torno de 37% do PIB. por paridade de poder de compra.
Quatro
mudanças qualitativas no mercado mundial, nos últimos vinte anos, aceleraram
transformações que provocaram um relativo debilitamento da Tríade, e explicam o
contexto de oportunidade da formação dos Brics: (a) a estagnação econômica na
Tríade pós-2008, agravada pelo impacto da pandemia; (b) o crescimento econômico
acelerado na Ásia, em especial da China, com façanhas de obras de
infraestrutura e inovação científica, que elevou a demanda por commodities; (c)
uma inversão, ainda que parcial, nas condições das relações de troca na
periferia, com a valorização de commodities no início do século XXI, que
favoreceu, entre outros, Rússia e Brasil; (d) o agravamento da crise ambiental
e o início, mesmo que titubeante, de uma transição energética. Mas, embora
indiquem uma tendência, nenhuma destas transformações foi, por enquanto,
estrutural ou irreversível. Está ocorrendo uma acelerada corrida de
investimentos em novas tecnologias – nanotecnologias de microprocessadores,
biotecnologias e inteligência artificial – que irão produzir reestruturações
produtivas. Simultaneamente, estamos diante de uma nova corrida armamentista
mundial.
Os
Brics surgiram, em grande medida, de uma tática exploratória sem definição de
projeto estratégico. Uma analogia histórica possível seria com o Movimento dos
Não Alinhados da Conferência de Bandung na Indonésia em 1955, no auge da
primeira etapa da Guerra Fria entre os EUA e a URSS. Mas as diferenças não são
menos importantes. Em Bandung não surgiu um campo anti-imperialista, mas uma
articulação que buscava neutralidade entre Washington e Moscou. Os Brics são
menos: uma aliança econômica e financeira. A expansão recente dos Brics com a
incorporação de mais seis países aos cinco iniciais – Egito, Arábia Saudita,
Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia – aumentou mais a
heterogeneidade política interna. A exclusão da Venezuela, o principal alvo da
ofensiva dos EUA na América Latina, bloqueada pelo Brasil, foi um grave revés.
Não deve nos surpreender que a corrente neofascista defenda um alinhamento
incondicional com os EUA, e a ruptura com os Brics. A esquerda deve defender a
permanência do Brasil.
Há
variadas interpretações exageradas sobre os Brics. A mais ingênua, mas não
menos idealizada, herdeira nostálgica de fantasias campistas do papel da URSS
no passado, é que os Brics seriam uma articulação de governos de esquerda ou
socialistas. Não são, nem remotamente. Rússia e Índia são governadas por
partidos de extrema-direita. Putin consolidou um regime político autoritário
bonapartista que, embora tenha popularidade interna, não respeita as mais
elementares liberdades democráticas. Modi domina com uma ideologia nacional
hinduísta. A mais sectária, herdeira de posições antidefensistas da URSS no
passado, considera que os Brics seriam uma iniciativa chinesa de afirmação de
um imperialismo em ascensão, e defende a necessidade de independência do Brasil
diante tanto de Washington, quanto de Pequim. Dessa caracterização errada
resultaria a defesa de ruptura do Brasil com os Brics. Mas é unilateral porque
a China não tem interesse em tencionar as relações com Washington, e tem
respondido de forma firme, porém cuidadosa, aos rompantes de Trump. Por último,
herdeiros tardios de ilusões “terceiro-mundistas” abraçam a posição de que os
Brics seriam o instrumento de uma idealizada Frente do Sul Global. Se
compreendemos Sul Global como sinônimo da histórica periferia de países que
foram colônias dos países centrais imperialistas, ou seja, América Latina,
África, sobretudo, subsaariana e Sudeste Asiático, não é assim. A Rússia não é
um país da periferia do capitalismo, mas um Estado imperialista, uma potência
militar excluída pela Tríade. A Índia é um Estado com escudo nuclear e, apesar
de ter sido atingida duramente por sanções tarifárias de Trump, mantém relações
estreitas com Washington. A China é a segunda potência econômica mundial e,
apesar de excluída do G-7, tem interesse em manter acesso aos maiores mercados
internacionais.
Entre
as interpretações equivocadas, talvez a mais difundida seja a que defende os
Brics como um bloco anti-imperialista. Trata-se de um excesso. Os Brics são uma
rede independente, mas não uma alavanca de apoio às lutas contra Washington.
Não são por três razões: (a) a China aposta em uma estratégia defensiva de
ganhar tempo e acumular forças, uma coexistência pacífica a qualquer preço,
porque precisa manter acesso aos mercados europeu, norte-americano e japonês
para escoar sua capacidade produtiva fundamentada em exportações, e não tem
interesse em desafiar a Tríade; (b) a Índia tem disputa de hegemonia regional,
e até conflito de fronteiras com a China, e mantém relações estratégicas com os
EUA e o Reino Unido, desde o desenvolvimento de sua indústria nuclear via
Israel, em função da rivalidade com o Paquistão; (c) o Brasil defende uma
estratégia diplomática de ambiguidade estratégica pela influência dos EUA na
América Latina. Não deveria nos surpreender que os Brics não tenham ido além de
declarações diplomáticas diante do genocídio de Israel na Faixa de Gaza,
impotentes diante do imperativo de ruptura de relações diplomáticas.
Enganam-se,
também, aqueles que consideram que já existe algum tipo de multipolaridade no
mundo. A supremacia dos EUA tem sido debilitada, mas não ruiu. Mantém-se uma
ordem imperialista dirigida pelos EUA, apoiada, na União europeia e Japão,
ainda que em crise interna. As transições de papel hegemônico no sistema
internacional de Estados são processos históricos complexos que são
condicionados por muitos fatores. Nunca aconteceu passagem de poder para um
novo Estado sem vitória na guerra. Londres só conquistou supremacia no século
XIX depois da derrota de Napoleão em Waterloo. Os EUA já eram a maior economia
capitalista no início do século XX, mas foi só depois da Segunda Guerra Mundial
que sua supremacia se afirmou. Nunca é monocausal, apesar da importância da
força econômica. O lugar de cada país no mundo só pode ser compreendido
considerando seu papel no mercado mundial, mas em outro grau de abstração, seu
lugar no sistema de Estados, e eles não coincidem, necessariamente. O sistema
internacional de Estados é muito mais rígido que as variações de peso relativo
dos países no mercado mundial. Apesar de um grau maior de desordem, o sistema
mantém um centro, e não mais do que um, a Tríade, com os EUA no papel de
potência hegemônica, pela esmagadora superioridade militar, e pela força de
gravitação de seu sistema financeiro ancorado no dólar como principal moeda de
entesouramento. Quando considerados estes e outros fatores a hegemonia
norte-americana permanece. Os Brics não desafiam esta posição porque são somente
uma trincheira defensiva, ou uma aliança diplomática necessária diante de uma
relação de forças adversa, como demonstrado diante da guerra de genocídio de
Israel contra os palestinos, e na recente guerra dos EUA e Tel Aviv contra o
Irã.
A
avaliação da relação de forças entre Estados é só uma variável para entender o
mundo. Marxistas consideram, também, e principalmente a luta de classes. A
relação social de forças entre capital e trabalho, as duas forças sociais mais
poderosas no mundo contemporâneo, permanece desfavorável para os trabalhadores
e as massas populares. Estamos em uma etapa histórica ainda condicionada pelas
derrotas da restauração capitalista e do fim da URSS. No último meio século não
triunfou nenhuma revolução socialista. Revoluções políticas democráticas
aconteceram, derrubando regimes pela mobilização popular. Explosões de fúria
popular incontível com greves gerais, ocupação de prédios públicos, libertação
de presos políticos, manifestações de milhões nas ruas produziram cisões nos
aparelhos repressivos, dividiram algumas vezes até as Forças Armadas e
derrubaram governos odiosos na América Latina, na África e na Ásia. Mas não
ameaçaram a ordem capitalista. Foi assim no Sahel, no Sri Lanka, em Bangla Desh
e, recentemente, no Nepal. Mas não ameaçaram a ordem capitalista. Ao contrário,
não são as ideias anticapitalistas que aumentaram influência, mas um programa
desesperado de extrema-direita ultracapitalista. As organizações
revolucionárias de diferentes tradições resistem em condições muito difíceis. O
neofascismo chegou ao poder nos EUA e aumentou em muito sua força na Europa.
Vivemos um contexto de redução de direitos, não de expansão de conquistas.
Ainda que os níveis de miséria tenham sido reduzidos, a desigualdade social
permanece intacta na maioria dos países. Não fosse o bastante, a ameaça
colocada pelo aquecimento global coloca o desafio de uma transição energética
em crise porque o Tratado de Paris caducou. Esse quadro explica porque a
presença do Brasil nos Brics obedece a um cálculo defensivo irredutível.
As
assimetrias entre os países do Brics são preocupantes, e têm importância
estratégica incontornável, porque o Brasil é um dos elos mais fracos. Não é um
acordo entre iguais. Nação, Estado e país são conceitos indivisíveis, mas não
são sinônimos. Uma nação é um povo que amadureceu o bastante para ter uma visão
de si mesmo como uma comunidade com um destino compartilhado em um espaço
definido. Um Estado, desconsiderando a variedade de regimes políticos, mais
democráticos ou mais autoritários, é um aparelho político-militar que exerce o
poder porque tem o monopólio do uso da força, e sua natureza é definida pelo
grupo social que o controla. Um país resulta da síntese entre uma ou mais
nações sob a autoridade de um Estado, portanto, uma sociedade que se explica
pelas relações de classe que prevalecem, e pelo seu lugar no mundo. O mundo é
complicado: há nações sem Estado, como palestinos e curdos, e Estados sem
nação, como o Monaco, um híbrido de Las Vegas e paraíso fiscal, Andorra, uma
zona franca nos Pirenéus ou o Vaticano, sede da Igreja Católica. Um país pode
ser capitalista, mas sem que o Estado seja burguês, como parece ser a
excepcionalidade chinesa. Rússia, Índia e China são países nos quais vivem
diferentes nações, e são Estados independentes, já o Brasil, não. O que se deve
concluir destas premissas é que os interesses do Brasil são distintos dos
outros Estados. China, Rússia e Índia ocupam um lugar, qualitativamente,
distinto e superior ao do Brasil. Quais são os critérios para entender o lugar
de cada Estado no sistema internacional? As quatro variáveis chaves são a
história, a economia, a política e as relações internacionais: (a) a inserção
histórica na etapa anterior, ou seja, a posição de cada Estado em um sistema
extremamente hierarquizado e rígido é vital, e o Brasil, embora tenha
conquistado uma independência formal há mais de duzentos anos, permaneceu
semicolônia inglesa até os anos trinta do século XX, depois foi uma semicolônia
privilegiada dos EUA, e, se hoje está em uma localização semiperiférica, ainda
é um país dependente, enquanto a China protagonizou uma da maiores revoluções
sociais da história, a Rússia é uma das duas maiores potências
militares do planeta, e a Índia, ainda um país em que a maioria da população é
pobre, tem um grau de independência pelo arsenal nuclear; (b) a dimensão de sua
economia, ou seja, os estoques de capital acumulado, a capacidade de manter
soberania monetária, os recursos naturais – como o território, as reservas de
terras, os recursos minerais, a autossuficiência energética, alimentar, etc. –
e humanos – entre estes, sua força demográfica e o estágio cultural da nação –
assim como a dinâmica de desenvolvimento da indústria, ou seja, sua posição na
divisão internacional do trabalho e no mercado mundial o que explicita a
inferioridade em toda a linha do Brasil; (c) a capacidade de cada Estado em
manter a sua independência e o controle de suas áreas de influência, ou seja,
sua força militar de dissuasão, que depende não só do domínio da técnica
militar ou da qualidade das suas Forças Armadas, mas do maior ou menor grau de
coesão social da sociedade, portanto, da capacidade política do Estado de
convencer a maioria do povo, se for incontornável, da necessidade da guerra,
outros fatores que confirmam a debilidade qualitativa do Brasil; (d) as
alianças de longa duração dos Estados uns com os outros, que se concretizam em
Tratados e Acordos de colaboração, e a relação de forças que resultam dos
blocos formais e informais de que fazem parte, ou seja, sua rede de coalizão.
Rússia e China fecharam acordo de colaboração estratégica, e Pequim acabou de
realizar uma reunião da Organização de Cooperação de Xangai, com a presença da
Índia, fortalecendo sua iniciativa para a Ásia. Na América Latina a OEA é
dirigida pelos EUA, e a CELAC (Comunidade de
Estados Latino-Americanos e Caribenhos), a Comunidade Andina de Nações (CAN) e
a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) são Fóruns sem
densidade, o Mercosul está em crise e a ALBA em suspenso, senão enterrada.
Fonte:
Opera Mundi

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