Por
que curso de Medicina para assentados e quilombolas virou alvo de ataques e
fake news
Política
pública consolidada, com quase três décadas de existência, o Programa Nacional
de Educação na Reforma Agrária (Pronera) virou o mais recente alvo de
desinformação e ataques da extrema direita. A criação da primeira turma de
medicina do país pelo Pronera, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no
Centro Acadêmico do Agreste, em Caruaru, desencadeou uma onda de críticas que
misturam notícias falsas e revolta de conselhos e associações médicas. O caso
foi parar na Justiça.
Em
vídeos viralizados, políticos como o vereador do Recife Thiago Medina (PL-PE)
distorceram os fatos: “Quer fazer medicina na UFPE? Agora ficou muito fácil.
Mas só se você for do MST (…). Eles cansaram de roubar a terra e querem roubar
a vaga na universidade agora”.
A
narrativa falsa de um curso “exclusivo para o MST” e sem processo seletivo
ignora que a iniciativa é voltada a diversas populações do campo, como
assentados, quilombolas e acampados, e que a seleção, conduzida pela
universidade, inclui prova e análise de histórico escolar.
Medina
denunciou a UFPE numa ação popular na 9ª Vara da Justiça Federal para tentar
derrubar a medida. O curso de medicina pelo Pronera não é o primeiro a sofrer
ataques. Formações como Engenharia, Direito e Medicina Veterinária também já
foram alvo em outras universidades.
A
reação não se limitou às redes sociais nem a parlamentares. Entidades como o
Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) e o Sindicato dos Médicos
de Pernambuco (Simepe) também se manifestaram publicamente, alegando que a
seleção específica “afronta os princípios da isonomia e do acesso universal”.
Os
ataques expõem não apenas o histórico brasileiro de resistência a ações
afirmativas, mas também a dificuldade de parte da sociedade aceitar a
democratização de um curso historicamente elitizado.
Política
de Estado sob ataque
Criado
em 1998, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o Pronera é uma
política de Estado, não dos governos petistas. Realizado pelo Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em parceria com instituições
de ensino, governos estaduais e municipais, movimentos sociais e sindicais, a
iniciativa surgiu com a proposta de democratizar o acesso à educação pública de
qualidade.
É fruto
da mobilização por educação no campo e consequência direta das ações de
violência, como os massacres de Corumbiara e de Eldorado dos Carajás.
Em
quase três décadas, o programa já formou quase 200 mil estudantes em 545 cursos
em todos os estados brasileiros, da alfabetização à pós-graduação. O curso de
Medicina na UFPE terá 80 vagas exclusivas, sendo 40 de ampla concorrência e
outras 40 destinadas a quem pode ser atendido por modalidades de ações
afirmativas (cotas).
Estão
aptos a se candidatar assentados da reforma agrária e integrantes de famílias
beneficiárias do crédito fundiário; educandos egressos de cursos de
especialização promovidos pelo Incra; educadores que exerçam atividades
voltadas às famílias beneficiárias; acampados cadastrados pelo instituto; e
quilombolas.
Apesar
das ameaças, a universidade manteve seu posicionamento. O reitor da UFPE,
Alfredo Gomes, destacou a legitimidade da ação e seu compromisso social. “Uma
iniciativa amparada pela lei, legítima, justa e transparente (…). A
Universidade Federal de Pernambuco é gigante. Não vai se intimidar nem desviar
da sua missão de levar formação de qualidade a todos”.
Ele
lembra que a dificuldade de atendimento médico no interior é um problema
conhecido e que o curso visa formar profissionais voltados para a realidade do
Agreste e do Sertão.
Segundo
a coordenadora-geral de Educação, Arte e Cultura do Campo do Incra, Clarice dos
Santos, o curso inédito é resultado da parceria articulada pelo Pronera,
envolvendo o Incra, movimentos e organizações populares do campo e a UFPE,
assim como ministérios, especialmente o da Saúde.
“Celebramos
a abertura desta turma pelo compromisso revelado por todas essas instituições
na formação de médicos e médicas camponeses, em uma iniciativa que ajuda a
fortalecer o SUS no atendimento à saúde nas áreas rurais, ainda um grande
desafio no nosso país”, considera a gestora.
O Incra
defende que “a Educação do Campo é um direito e se realiza por diferentes
territórios e práticas sociais que incorporam a diversidade do meio rural.
Garante a ampliação das possibilidades de criação e recriação de condições de
existência da agricultura familiar.”
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O que incomoda tanto?
Para a
deputada estadual Rosa Amorim (PT-PE), do MST, a reação tem um alvo evidente: a
origem social dos futuros médicos. “O fato dos camponeses e povos camponeses,
tradicionais, poderem fazer medicina (…) tem incomodado tanto. Um curso que
tradicionalmente sempre foi para os filhos da elite, agora vai dar a
oportunidade para que a mão que sempre segurou a enxada possa cuidar do povo”,
afirma.
Para
ela, a iniciativa “remexeu as estruturas e mostrou complacismo de quem não quer
que pobre tenha um diploma na mão”.
A
perspectiva é compartilhada por especialistas em saúde pública. Para Cláudia
Travassos, diretora do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e
pesquisadora da Fiocruz, a iniciativa é uma conquista que vai além do acesso à
universidade.
“O
curso de Medicina para assentados e quilombolas é uma conquista histórica. Ele
reconhece que a formação de profissionais de saúde precisa dialogar com as
realidades sociais e territoriais do país, não apenas com os grandes centros
urbanos”, avalia. O objetivo, segundo o Cebes, é formar médicos com vínculo
comunitário, mais comprometidos com o SUS e com a redução das desigualdades.
A
principal crítica das entidades médicas é a suposta quebra de isonomia por um
vestibular próprio, sem o Enem. No entanto, processos seletivos específicos
para públicos determinados não são novidade. A própria UFPE, assim como a
Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar),
já realizam vestibulares diferenciados para indígenas e quilombolas. A UFPE,
por exemplo, oferece o curso de licenciatura intercultural indígena exclusivo.
As
associações que agora se preocupam com a isonomia, aponta o Cebes, silenciam
sobre a barreira econômica do curso de Medicina, com mensalidades que
ultrapassam R$ 10 mil nas faculdades privadas.
Fontes
ouvidas pela Marco Zero acreditam que, embora possa ocorrer judicializações, a
jurisprudência favorável a outras turmas do Pronera garantirá a continuidade do
curso. O que talvez possa ocorrer é um possível atraso no início do processo
seletivo e das aulas. A publicação do resultado final está prevista para até o
dia 16 de outubro e o início das aulas, no dia 20 do mesmo mês.
• O camponês e a medicina. Por Augusto
Cezar
Vivemos
em um momento histórico de transição, marcado por uma lentidão para a resolução
das nossas desigualdades e povoado de contradições. O Brasil segue devendo
reparações fundamentais ao seu povo, especialmente àqueles que vivem nas
margens desse projeto nacional: populações do campo, da floresta e das águas.
A falta
de políticas públicas estruturantes — como a reforma agrária, urbana e
tributária justa — perpetua desigualdades históricas que se tornam mais
visíveis quando analisamos a realidade da saúde e da formação médica no país.
Diferente
das promessas vazias que escorrem do alto, o Pronera (Programa Nacional de
Educação na Reforma Agrária) é um exemplo de política pública transformadora.
Ao promover acesso à educação desde a escolarização até as pós-graduações para
camponeses e camponesas, esse programa atua diretamente na ruptura do ciclo de
exclusão que impede milhões de brasileiros de terem acesso à educação. Até
2025, foram beneficiados 192.764 alunos em todos os níveis de educação.
Nesse
sentido, a medicina é um dos campos mais emblemáticos dessa desigualdade. A
Demografia Médica do Brasil 2025 apresenta quem são a maioria dos “jalecos
brancos”. Brancos e de classe alta: 68,6% dos alunos de Medicina são brancos e
66% vieram do ensino médio privado. Apenas 34% são egressos da escola pública,
muito abaixo da média nacional de 65,7% dos estudantes quando comparados a
todas as graduações.
Mais
grave ainda é a concentração das vagas em instituições privadas: 77,7% das
matrículas em Medicina estão em faculdades particulares, que em geral praticam
uma política de inclusão pífia ou inexistente.
Apesar
dos avanços das cotas raciais e sociais em instituições públicas, o acesso
continua restrito e pouco representativo da diversidade brasileira. Dos 266 mil
estudantes de medicina em 2023, apenas 9% entraram por programas de reserva de
vagas.
A
consequência dessa lógica elitista se reflete na distribuição geográfica dos
médicos. O Índice de Distribuição de Médicos Capital/Interior (IDCI) mostra que
as capitais concentram 366% mais médicos por habitante do que o interior. No
Nordeste, o índice chega a 732% de diferença. Isso em um país onde dois terços
da população vive em municípios com menos de 500 mil habitantes — ou seja, o
Brasil profundo permanece desassistido.
A
realidade é conhecida por quem vive longe dos grandes centros: conseguir um
médico disponível em áreas rurais e ribeirinhas continua sendo um desafio
cotidiano. As políticas de provimento — como o Programa Mais Médicos —
avançaram, mas são medidas paliativas se não forem acompanhadas por mudanças
estruturais de fixação desses profissionais a longo prazo.
A
universidade tem papel central nessa transformação. Para ser um espaço de
excelência científica, é necessário refletir e responder ao contexto social
brasileiro. A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) vem reconhecendo essa
urgência ao adotar políticas afirmativas para o acesso ao curso superior há
alguns anos, como a licenciatura intercultural indígena.
O
Pronera, ao tocar na formação médica, desencadeou um conjunto de reações que
misturam o pior do atraso brasileiro, a mesquindade, o individualismo, o
racismo e o ódio aos pobres.
Ao
realizar oferta supranumerária para o curso de Medicina no campus do agreste
pernambucano, pioneiro na interiorização do curso de medicina, para pessoas
oriundas do campo a reação foi somente amplificada na versão daqueles que já
tem médico para seu cuidado, alimentados pela fábula da meritocracia e da
individualização de pequenas conquistas que não reestruturaram a realidade
médica nacional e que não respeitam a cor e não pisam nos locais de onde esses
estudantes são oriundos.
A
própria postura de associações de médicos, inclusive de outros estados
assinando notas contrárias ao exercício legal de uma política pública que
propõe contribuir na reparação histórica ou a contrariedade às cotas nas vagas
de residência médica, só nos permite compreender que essa política mexe com
algumas estruturas e causam incômodos.
Movimentos
que não observamos aos desafios do exercício profissional como a precarização
das relações de trabalho ou desfinanciamento da saúde pública.
Por
falar de ciência, no que se refere a estratégias estruturantes para resolver o
problema da escassez de médicos no interior, essa é uma das medidas alinhadas
às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e às políticas do SUS,
especialmente à Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo,
Floresta e Águas (PNSIPCF).
Universalizar
com equidade a formação médica no nosso país, criando dispositivos de acesso
que considerem não só a renda, mas também o território de origem dos
estudantes. Afinal, formar médicos oriundos desses territórios é uma das formas
mais eficazes de garantir que o cuidado em saúde chegue aonde ele é mais
necessário.
Contrapor
as posições contrárias às políticas afirmativas é parte desse processo. Os que
resistem à democratização da medicina não fazem isso em nome da qualidade, mas,
sim, da manutenção de privilégios. Não se trata de baixar o rigor — trata-se de
temperá-lo com ciência socialmente referenciada. E isso exige coragem
institucional e ousadia popular.
Destaque
tem sido a acolhida da UFPE, sua comunidade acadêmica de docentes, discentes,
técnicos bem como a solidariedade no cenário nacional. O Brasil precisa, com
urgência, aumentar a formação de médicos que tenham a vivência dessas
localidades, a vida como ela é. Médicos/as que saibam o valor de uma unidade
básica no sertão, de um posto fluvial na Amazônia, de uma visita domiciliar em
uma comunidade quilombola, que dêem valor às exaustivas viagens à capital em
busca de uma especialidade focal.
Médicos/as
que falem a língua do povo — não só no sentido simbólico, mas no literal
também. Nossa melhor aposta para resolver esse problema dessas comunidades vem
delas mesmas, formando seus filhos e filhas para o cuidado médico com ciência e
consciência.
Fonte:
Marco Zero Conteúdo

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